Vida

Fugacidade

Fugacidade

Fugacidade, essa confortável e prazerosa força,
Engrandecendo-se à medida que o sentido se esvai,
Fez dobrar minha vontade à mera resiliência.
E a um punhado de sanidade foi reduzida minha identidade.

Na memória, conservo esse resíduo de um eu,
Se meu ou se teu já não sei, já nem suponho.
Dos instantes, novos instantes surgem. Mas, não são instantes.
São pedaços sem qualquer importância.

Aplacar o tédio com pudor, com perversão, com felicidade, com nada.
Eis os nossos tempos. Eis o que do tempo nada é.
O tempo… ao menos isso sentimos, o fundamento que nos corrói.

A vida é uma vitrine em que os espectadores somos nós,
Para confirmarmos se ainda somos nós quem ali somos.
Fugacidade, essa confortável e prazerosa força que nos reduz a nós mesmos.

André Luiz Ramalho da Silveira

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Mário Quintana – Cocktail Party

Mário Quintana – Cocktail Party

Não tenho vergonha de dizer que estou triste,
Não dessa tristeza ignominiosa dos que, em vez
de se matarem, fazem poemas:
Estou triste porque vocês são burros e feios
E não morrem nunca…
Minha alma assenta-se no cordão da calçada
E chora,
Olhando as poças barrentas que a chuva deixou.
Eu sigo adiante. Misturo-me a vocês. Acho vocês
uns amores.
Na minha cara há um vasto sorriso pintado a
vermelhão.
E trocamos brindes,
Acreditamos em tudo o que vem nos jornais.
Somos democratas e escravocratas.
Nossas almas? Sei lá!
Mas como são belos os filmes coloridos!
(Ainda mais os de assuntos bíblicos…)
Desce o crepúsculo
E, quando a primeira estrelinha ia refletir-se
em todas as poças d’água,
Acenderam-se de súbito os postes de iluminação!

Do livro – Apontamentos de História Sobrenatural

Manifesto contra a ditadura da felicidade II

Sem repensar o passado, não há futuro que se desdobre livre da mácula do fanatismo.
Sem ver o reflexo da razão e escutar os ecos abstratos da tortura e mortificação,
Não há a possibilidade de transcender o abjeto moralismo,
Que permeia a estúpida crença na felicidade desnuda de qualquer pressuposição.

Tal como expôs Andrei Tarkovski, o grande poeta cinematográfico,
A flexibilidade e a fraqueza são qualidades da vivacidade do ser,
Ao passo que a dureza e a força são atributos da morte, conjugadas com a supremacia da ontologia do “físico”.
Liberdade e verdade estão além da ditadura implacável do “você pode ser”.

“Anestesie-me, instituição pútrida.
Roubem meu espírito e firam minha liberdade.
Conservo em mim todos os defeitos ignorados por qualquer santidade.

A solidão nos dá a mão para moldar o tempo na repulsa dessa vida sofrida.
Mas não se enganem neófitos juvenis e anarquistas, não é apenas com o próprio sangue que se faz a liberdade.
A beleza da infelicidade está na autonomia única de ser alheio a qualquer tipo de santidade”.

André Luiz Ramalho da Silveira

Para cada colapso, um mesmo tango II

Colapsos que nada mudam a matéria estabelecida pelas crenças.
E nada importa, a ninguém… o egoísmo pregresso regressa
Como figuração de um altruísmo externo, mero subterfúgio das sobrevivências.
Erradicar o mal da vontade é já vontade de ser o bem, apenas uma sinceridade inconfessa.

E tudo nos torna mais vazios… e erguemos altares para nós mesmos, e esquecemos de
Visitar nossa própria tumba, uma falta de respeito com nossa própria morte.
E segregamos nossos conceitos, separando os escombros de
Que nos alimentamos, para manter a sanidade longe da sorte.

De que adianta mudar e morrer se isso não for compartilhado,
E de que adianta o contrário disso… colapsos que não desabam
A existência, não são colapsos… apenas a pura má vontade de ser escravizado.

Não depende de podermos ou não voar, pois isso é só questão de vontade.
Intenção e conseqüência, consciência e responsabilidade… vão além de qualquer tomada de posição.
E é preciso estar pronto para morrer, assim como para mudar… pois no fim, talvez tudo não passe de vilanidade.

André Luiz Ramalho da Silveira

Dos ventos expatriados

Dos ventos expatriados.

Nunca esquecerei aqueles dias, aqueles que nos faziam das ondas apenas o sal sentir.
Onde a moral era uma idéia que nos forçava a determinar alguma parte de nós mesmos.
Não esquecerei aquele sorriso que fora engarrafado, a ser lembrado num porvir.
Não esquecerei nada disso, mas talvez a lembrança mostre-se como espasmos.

Ainda assim, caminharei até quando não houver ventos,
Até onde a morte se mostrar como vida e, essa, como morte.
Caminharei na aurora embriagada, até o fim dos encantos.
E quando não agüentar mais, apenas irei rir da moral rogada à sorte.

E por aqueles dias me seguro, fazendo meu lar à construção da nostalgia.
E meu erro apenas será um voluntário levante contra o destino.
Por meu erro, tomo-me como um fruto expatriado daquele futuro que se coagia.

E a vida que engarrafei sempre volta em um novo barco,
Por mais escura a água que seja, as ondas ainda revolvem-se sem ventos,
E quando me rebater por um sonho, lembrar-me-ei que sempre sou eu meu próprio foco.