Verbo

Micro-enciclopédia de um soneto só

Micro-enciclopédia de um soneto só

Verborragia: a sangria do verbo.
Pensar decomposto, fissura do agir.
Palavra dita é significado traído,
Contraído do pensar fechado que não sabe rir.

Eloquência pedante, sangria em alheios ouvidos.
Beleza: o esquecimento da razão.
Solidão: comunhão de si mesmo como possibilidade de ser a si mesmo.
Finitude: ser uma permanente possibilidade no abismo da falta de fundamento.

Agoras e alegorias, ágoras e alegrias:
Balbúrdias e mundo, vida, verso e fundo.
Não, não há um fora, apenas razão imunda, profunda.

Memória: percepção interpretada de si mesmo.
Sonho: elucubração do esquecimento na sobrevivência cotidiana do existir.
Morte: ver a si mesmo na frente do abismo e decidir: ou-ou.

André Luiz Ramalho da Silveira

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A elucubração de um não estar-aí

Cada dia é uma nova superação, cada dia é uma nova substituição;
Os dias perfazem-se como dissociação sobre dissociação;
A sujeira não sai e a salvação foi banida do horizonte metafísico da construção;
Por favor, devolvam meu silêncio… A danação é minha elucubração.

A minha passionalidade estrutura-se como desespero que não ultrapassa a inércia.
Cindido pela tragédia que sou na comédia que constato; por favor, volte.
A mancha não sai, o pecado me lança novamente ao pó, o amor abandona-me à inépcia.
E a minha implosão diária é a única cisão que me tira o vazio intermitente.

O flerte com o suicídio é configurado como potência pelo ódio ao verbo.
Não passa de possibilidade, não passa de amabilidade narcísica.
E a carência é só carência de si na percepção que se tem do outro pelo verbo.

E o irreversível não é o passado que não volta, mas sim o fato de que faríamos
Tudo da mesma forma como fizemos, sempre. Não há estoicismo nesse desespero.
E nisso tudo funda-se o tempo da morte do espírito, pela plasticidade explícita do amor ao desespero.