Tempo

Ventos, ponteiros, Astolfo e Galiarda

Ventos, ponteiros, Astolfo e Galiarda

O mundo assemelha-se a um jogo de tabuleiro em que as peças movimentam-se com relativa autonomia e sem relação com o todo.

A-Jacek-Yerka-surrealist-fantasy-painting-of-the-guardian-of-time-and-his-henchmen-clocksDentre incontáveis invernos, aquele que ocupa a posição atual sempre parece o mais cruel. Astolfo sabia disso, mas não conseguia despir-se dessa sensação. O desespero era insistente, mas não o suficiente para acatar todo o seu clamor. A solidão impera, agora mais forte, agora já ultrapassando o silêncio. Como romper com o impessoal, com as práticas que se faz porque se precisa fazer para se suportar na vida? Isso tudo parece artimanha de uma solidão imperiosa, pois nos acostumamos a todas às situações e, a pra cada uma delas, conseguimos fazer um discurso que a justifique para que ela seja do jeito que é, tal como fazemos com nossas próprias vidas.

Aquela velha sensação de não estar vinculado e e estar desconexo com as situações em que se vive, a não ser por eventuais ou seguidas bebedeiras, parecia mais velada, mais forte. Parecia que pra cada criatura com quem travava alguma relação era preciso justificar bem a razão de isso ser assim. Mesmo quando era absurda e sem qualquer propósito. Afinal, não era a relação com alguém que estava pensando em justificar, mas sim o que de fato é uma relação. Isso não parece ser um problema para o pensamento mediano e mais imediato. Astolfo, além de não ser assim, ainda era uma pessoa demasiadamente complicada. Como todas as outras, mas tirava daí sua força criativa. Deste modo, o sentimento de estranheza no mundo era uma constante. Toda relação humana, penso eu que ele pensava assim, era dependente de uma relação consigo mesmo e, principalmente, dependente apenas de nossa relação com o tempo. Assim, se tratava mais de estar ou não vinculado a algo, inclusive mesmo à própria vida. Isso não era exatamente algo simples, como se apenas por uma opção trivial e por algum capricho se pudesse vincular-se ou desvincular-se de algo. Penso eu que a situação diz respeito mais ao fato de que as coisas humanas dependem mais daquilo que fazemos delas e não que haja algo por si só independente de nós. Para Astolfo, a desvinculação como uma evidência da finitude humana já ganhara inclusive força filosófica. Penso eu que ele pensava assim, mesmo que não formulasse tão eloquentemente quanto eu penso estar fazendo neste momento.
O que seria de um mundo sem os seus criadores ansiosos… o mundo, esse que fazemos parte e que formamos, que esbarra no tédio perante a impotência ontológica. Gostaria de visitar aquele antigo silêncio, em que a resignação aparentemente autêntica perante o mundo impedia-me de viver.

Astolfo procurava antigas cartas escritas e nunca enviadas, pois tencionava a encontrar algum resquício de sentimento que o permitisse identificar-se novamente como sendo alguém e não apenas parte figurativa de possibilidades irrealizadas. Buscava impressões de mundo, daquelas que quando se está na juventude costuma-se compreendê-las como o estar surpreso perante o desvelamento do mundo. Quando se envelhece, porém, tudo é consumido no tédio. Ou na angústia. Felizes os que não sabem da liberdade.

Fios pretos quase cinzas balançavam, uns se emparedavam, outros se separavam, outros, mais introvertidos, apenas se resignavam e juntavam-se a outros no movimento do vento, em que fingiam, na cabeça, serem cabelos. Um sol fotográfico, manifestado apenas como indício nas nuvens avermelhadas que lentamente se dissipavam com o vento quase frio, coroava aquele fim tarde. Momentos de rara beleza natural.

Ao lado, um negro que vestia uma calça cor de tabaco envelhecido, camisa clara e a cara arruinada pelas agruras, olhava fixamente para uma garrafa plástica pela metade, que tinha dentro o que parecia ser uma cachaça aquecida do sol. Na sua frente, um cachorro com aparência de ter nascido meio solto no mundo e de porte médio, que o olhava sem entender muito, mas, parecia faceiro. Ao lado, um homem em seus trinta anos, corpulento com cara de pensionista, cara meio rosada meio marrom, uma boca cheia de dentes que vociferava intempéries odiosas, escorado em seu carro, que olhava o cusco, a garrafa e o negro. Enquanto tomava sua cerveja quase quente. Queria jogar no negro. Ou no cachorro. Pra não errar, fingiu errar uma lixeira, e jogou entre os dois. A garrafa ricocheteou e, de revesgueio, quicou e acertou Astolfo triscando sua perna, que estava mais atrás da cena. O homem branco corpulento ousou de longe uns gestos estranhos, como se pedisse desculpa, mas sem querer pedir desculpas. Antes de terminar as mímicas, Astolfo já havia quebrado um vidro do carro com uma garrafada. Astolfo correu quadras. O homem tropeçou e não prosseguiu. Aprendeu uma lição: praticar melhor o tiro ao alvo.
Parado como quase estava, num movimento preguiçoso de negação de movimento, Astolfo inclinou-se para o lado ao reconhecer Galiarda, sua antiga paixão. O deslocamento existencial dessa judia francesa, que se expandia libidinosamente a criar formas, confortava de imediato a sensação permanente e, por vezes, brutal, do estranhamento de Astolfo perante o mundo. Viram-se numa bela praça. Galiarda queria encontrar-se, mas não encontrava, Astolfo não queria encontrar, mas encontrava. O que é isso? Pensava no jeito sagaz e nos fartos seios de Galiarda e nos seus gemidos, que pensava no jeito profético e sem talento burocrático de Astolfo. Pensava brutalidade do mundo, que não deixa como permanente nada que possa ser bom. O que é isso? Como pode a impotência atingir tamanha profundidade? Pensava nos quadris de Galiarda, que pensava nas mãos sábias de Astolfo, que depois se entediava e ficava apático porque depois do prazer tudo se acaba. Para onde vai à verdade indômita de um mundo que é absurdo? Pensaram isso por mais ou menos os dez passos que os separavam, até que se encontraram e se cumprimentaram.
Galiarda vestia as cores do fim da tarde, com uma elegância que sequestrava a atenção dos céticos. Astolfo, mais niilista e menos cético, desconfiava das cores. Mas, como um autêntico guerreiro contra o desorgulho – como ele de vez em quando zombava de si mesmo – atirava-se de corpo todo nesse sequestro.

 

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Bouguereau – The Nymphaeum – 1878

– Como está, meu caro?
– De passada… O dia está bonito, pensei em respirar algo que não seja os cômodos de casa… Esse meu relógio pesa, pelas horas desordenadas. E você, minha bela Galiarda, que a vida nos diz nesse momento?
– Eu estou bem sim. Aproveitei essas pequenas férias fora de época para não encontrar ninguém desinteressante na minha rota de fuga do mundo maquinal… e aproveitar para escrever sobre as cores e os desencontros. E você, quais os afazeres que tem lhe tirado o sono?
– Estou bem também. Já não sei bem tanto dessas coisas.. Tenho estado mais tranquilo, o que não sei se é bom. E essa resignação sua, também é a minha. Mas, vamos deixar pras narrativas darem conta desse abismo que parece imperar sobre nós… vamos dar uma volta?
– Claro! Mas, depois. Preciso encontrar uma pessoa estável, antes de flertarmos com nossas sombras… brincadeira. No entanto, acho que eu gostaria de querer isso.. isso de querer ter uma pessoa estável. Afinal, acho que é o nosso desejo, não? Não sei… Penso que pessoas estáveis servem como âncoras que ajudam pessoas como nós a nos guiarmos..
– É! Pessoas são balizas para que possamos sobreviver.. às vezes, é preciso se orientar pelo mundo… talvez o mundo não seja apenas um abismo… ou melhor, esse abismo às vezes nos olha de volta e, se não tivermos com a gente um bom lugar pra se segurar, ou ao menos se não soubermos do que são feitos os ponteiros do relógio, apenas seríamos consumidos por aquilo que pensamos rejeitar..
– Pode ser, mas não precisamos rejeitar o mundo, meu caro… a felicidade não é tão nefasta assim. A profundidade nem sempre é correta… às vezes, ela só é mais suja.
– É… não tenho comigo muitas convicções, Galiarda… e hoje menos que ontem, e etc. Mas, é fato que eu desconfie cada vez mais da minha profundidade, e da profundidade do abismo. O superficial, esse paraíso de sensações que ajuda a esconder a lembrança de ser alguém, não parece tão nefasto assim…
– Não apenas isso, Astolfo… o superficial não é superficial. Ou diria que toda a parte da sua vida que não esteve dominada pela reflexão seria trivial e descartável? É nisso que está a vida, Astolfo! Nas fendas do plastificado que reina a liberdade! Não apenas nisso, não me entenda mal… mas o mundo é bem mais do que o nosso julgamento faz dele.
– Não sei, mas, concordo… Mas, não sei. O superficial apenas me dá alguma força para seguir, pois não consigo nunca encontrar alguma razão universal que justifique qualquer coisa… nem nunca acharei. Acho que não estou fazendo a pergunta correta… Meus vícios já não me ajudam. Tentarei prestar mais atenção no vento, que se manifesta nas folhas, e alivia esse calor infernal.
A busca pela felicidade começa pela escolha de uma música, passando pelo encontro da cor de um bom vento e, por fim, com o exaurir de alguma parte de si que já não é mais parte.

Minotauromachy - Picasso

Minotauromachy – Picasso

André Luiz Ramalho da Silveira

A passagem

A passagem

Procurando dar sentido para o que sou,
Descobri que como sou é o que dá sentido
Para o que faço, e o que faço é o que sou.
Letra: a liberdade do convalescido.

Nas agruras do nascer, desfiz-me do que pensava ser,
Numa sórdida autodestruição existencial,
E apenas encontrei criação, num sórdido niilismo abissal.
Abismo que não falo, que não sinto, num apelo ao não-ser.

No diluir das palavras ditas,
Já não sei se em algum tempo passado
Fui mesmo quem penso ter sido.

Ser um si é isso?
Ser-perdido-vazio-oblíquo-no-tempo-sem-raízes-na-nostalgia?
Volto a mim, angustiado, complacente, hipócrita… e na permanência, porque é preciso continuar com a elegia.

André Luiz Ramalho da Silveira

A escada

A escada

A cada palavra dita,
Um turbilhão de contradições
Vem-me numa ressaca maldita.
E, nela, cumpro minhas inações.

Descolei-me do andar e,
Do andar, me atirei.
Atiraram-me ao andar e,
No andar, sem chegar a qualquer lugar fiquei.

Parado, fui encontrar o nada
E dei de cara com o tédio
Ao impedir que o tempo me jogue uma escada.

De volta ao tempo, fudido e sem dinheiro,
Encontrei párias que amavam a vida e a conheciam pelo cheiro.
Derrubei a escada e abracei novamente as contradições de meu ser arredio.

André Luiz Ramalho da Silveira

Finitude e boa ventura

Finitude e boa ventura

Deixar a si mesmo… Despossuir o mundo do ser…
Deixar de ser… Na valentia de ser o próprio abismo…
A si mesmo… O vazio perdurará, na triunfante música do não-ser…
Deixar ser… Aquilo que só o tempo molda, ao esmo…

Na conformação… A forja das substâncias é a ilusão da eterna lisura.
No conforto da boa ventura… Em que a identidade é a justa dissimulação.
Regem um mundo nos atos da postura… Para a verdade enclausurarem na ação.
Reclamam dos ventos da negação… Mas os gritos ainda são pelos privilégios da escritura.

Caminhe na corda, amigo. O descolamento de si é o fundamento da
Se abandone no tempo. Democracia… O deslocamento do presente é a liberdade posta em firmamento.
A verdade é o tempo nos deixando ser… No completo inacabamento.

Inimigos da vida. Não nós, guerreiros silenciosos das cicatrizes esquecidas.
Necrolátricos vestidos de querubins. Líderes ferinos e falsários de mentes incandescidas.
Essa é a tentação primeira da existência, desde que o tempo nos fez gente.

André Luiz Ramalho da Silveira

Mário Quintana – A Rua dos Cata-ventos XXII

Mário Quintana – A Rua dos Cata-ventos

XXII

Vontade de escrever quatorze versos…
Pobre do Poeta!… É só pra disfarçar…
Andam por tudo signos diversos
Impossíveis da gente decifrar.

Quem sabe lá que estranhos universos
Que navios começaram a afundar…
Olha! Os meus dedos, no nevoeiro imersos,
Diluíram-se… Escusado navegador!

Barca perdida que não sabe o porto,
Carregada de cântaros vazios…
Oh! dá-me tua mão, Amigo Morto!

Quê procuravas, solitário e triste?
Vamos andando entre os nevoeiros frios…
Vamos andando… Nada mais existe!…

As ruas – de pedaço a pedaço

As ruas – De pedaço a pedaço

Das ruas, histórias brotam… E, quem nelas se dispersa,
Em meio a teias narrativas que se engalfinham por entre sonhos e perdições,
Tem a linha da existência urdida em enlutáveis fugas de indizíveis solidões.
Já as memórias, recuperadas a cada brisa, atrelam-se aos silenciosos versos de quem se singulariza.

Quisera eu compor-me como componho o carme de minhas desilusões
Mas dos traços vilanescos dessas ruas sectárias
Resta-me espalhar-me numa harmonia com o mundo, meu mundo, sem conclusões.
Apenas constato a violência desta finitude insidiosa e nela forjo poesias quadradas.

As sombras dessas ruas esquálidas
Apenas nos condenam às sobras
De memórias intumescidas.

Amigo, melhor é viver sem certeza e orgulho
Do que, de todas as verdades dessas tristes ruas do espírito,
Não nos sobrar nem mesmo um reles entulho.

André Luiz Ramalho da Silveira

Sonho III: A solitude de Sonhar

A solitude de sonhar

Como seria apenas uma estada essa solidão?
As crianças da noite de hoje já não bebem o sangue,
Apenas acham que sabem da realidade como podridão.
Essa solidão não é simplesmente essa, ainda que com o profundo senso exangue.

As realidades misturam-se em sonhar, mas sempre o obedecem ao mesmo nível de ser.
Nunca deixam de serem pessoas, decadentes e infames crias do acontecer.
Dedicam-se aos hormônios e cultivam crenças que se esquecem de reler.
Mas jamais percebem a contingência do sonho e o sonhar como necessidade de ser.

Não percebem simplesmente que o desacontecer é o que permite o fazer,
Onde o amar é simplesmente uma palavra posta a nível existencial,
Em uma nuvem que chove quando se permite a sua natureza torrencial.

Orgulham-se da autenticidade solitária, sendo tão dependentes quanto um caranguejo.
De sua casca, ainda que na crença da proteção pela realidade do alheio despejo.
A solitude de sonhar é incompreensível aos que limitam-se ao execrado fazer.