Tédio

Fugacidade

Fugacidade

Fugacidade, essa confortável e prazerosa força,
Engrandecendo-se à medida que o sentido se esvai,
Fez dobrar minha vontade à mera resiliência.
E a um punhado de sanidade foi reduzida minha identidade.

Na memória, conservo esse resíduo de um eu,
Se meu ou se teu já não sei, já nem suponho.
Dos instantes, novos instantes surgem. Mas, não são instantes.
São pedaços sem qualquer importância.

Aplacar o tédio com pudor, com perversão, com felicidade, com nada.
Eis os nossos tempos. Eis o que do tempo nada é.
O tempo… ao menos isso sentimos, o fundamento que nos corrói.

A vida é uma vitrine em que os espectadores somos nós,
Para confirmarmos se ainda somos nós quem ali somos.
Fugacidade, essa confortável e prazerosa força que nos reduz a nós mesmos.

André Luiz Ramalho da Silveira

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A escada

A escada

A cada palavra dita,
Um turbilhão de contradições
Vem-me numa ressaca maldita.
E, nela, cumpro minhas inações.

Descolei-me do andar e,
Do andar, me atirei.
Atiraram-me ao andar e,
No andar, sem chegar a qualquer lugar fiquei.

Parado, fui encontrar o nada
E dei de cara com o tédio
Ao impedir que o tempo me jogue uma escada.

De volta ao tempo, fudido e sem dinheiro,
Encontrei párias que amavam a vida e a conheciam pelo cheiro.
Derrubei a escada e abracei novamente as contradições de meu ser arredio.

André Luiz Ramalho da Silveira

O resíduo de Rembrandt – II

Naquele ensimesmar-se que despe o poeta da própria poesia,
Configurando-se o resíduo de um si mesmo no sentimento de apostasia,
Não mais disseminado por pronomes e substantivos de qualquer alérgica alegoria,
Resta apenas o mudo sentimento de mundo, que acolhe o estrangeiro em sua afasia.

Quando se é estrangeiro a si mesmo, na cisão de um projeto abissal,
O outro aparece como a salvação nunca alcançável em meio a esse torpe nevoeiro.
Mas a fuga é somente a região espaço temporal em que é realizada a busca para o irreal,
Quando se alcança a fuga em sentido pleno, já se está novamente à mercê de algum coveiro.

A identidade sofre o mesmo processo da fuga de si mesmo, pois nada mais é do que isso.
E o reconhecimento é a elevação de si até a imagem fugaz de alguma idéia de realidade,
Não posso esperar ser reconhecido para além do processo limitado da fuga de identidade.

Desisto de tudo só para poder escolher-me uma vez mais; meu apreço ao outro
Resulta como o mais profundo egoísmo; nessa alteridade do espelho quebrado
Meu reflexo mostra-se como isso e apenas isso; uma inaptidão a qualquer brado.

No deserto da decadência

Toda fala, ecoada por risível silêncio, encerra-se em cripta rala;
Por fim se esconde aquela remissão ao social, garantia de qualquer valor moral…
E quando se é acalentado pelo desespero, que agora já se cala,
Tem-se como postura o afirmar do próprio ego, na falta da possibilidade de um solo real.

Mas o real solo social é um predicado além da nulidade do deserto individual.
E quando no aclamado hábito do diário fazer-se advém a perturbada lembrança,
Ou a tranqüila angústia, a doce decadência revela-se como condição mortal,
Cujo tédio é apenas o sentir-se sendo nessa indiferença.

E a volúpia que na artéria pulsa, abnega-se perante a profunda ausência.
Ou ressente-se perante a imagem da carência.
Ou fataliza-se pelo próprio transparente ego em decadência.

E queimam-se promessas de plebeus que se querem reis…
Dos cansados e fracos na vileza com que juram amor…
E se fere a solidão, onde no escuso suicídio floresce-se com nova dor.

O gerúndio da contingência

Quão bela é essa contingência, que me dizes estar eu embrulhado como rouxinol em seu cantar.
Belo também é a forma como são criados os problemas, uns à necessidade, outros à contingência.
Mas quando se vive à maneira de gramatical pessoa primeira, é fácil julgar.
E quando a simples existência já fica para trás, em terceira pessoa resume-se uma negligência.

Estagnando qualquer estupidez, qualquer vileza, qualquer resquício de cordialidade.
Mas não há de querer a simples vida aquele que se mostra como um gerúndio abnegado.
E ainda anda onde nunca andou a rosa constipada da magnanimidade.
E sua arte é apenas o fel escorrido da fraqueza dos nervos de um conceito assexuado.

E quando, no esforço para acompanhar a própria cordialidade, vê-se no espelho,
Quebrado por não mais agüentar o próprio reflexo, num mundo deveras literatelho,
Apenas sente como refração uma perdida alteridade, num futuro regado a malho.

Talvez seja muito bom o belo, para que tantas escórias brindem parvoíces.
Mas não há de se esquecer que o reflexo não pode ser ético, como querem marusses em glacês.
Mas não há de se lembrar aquele que é apenas abstrato, desprezando as próprias veneradas tolices.