Sonho

Micro-enciclopédia de um soneto só

Micro-enciclopédia de um soneto só

Verborragia: a sangria do verbo.
Pensar decomposto, fissura do agir.
Palavra dita é significado traído,
Contraído do pensar fechado que não sabe rir.

Eloquência pedante, sangria em alheios ouvidos.
Beleza: o esquecimento da razão.
Solidão: comunhão de si mesmo como possibilidade de ser a si mesmo.
Finitude: ser uma permanente possibilidade no abismo da falta de fundamento.

Agoras e alegorias, ágoras e alegrias:
Balbúrdias e mundo, vida, verso e fundo.
Não, não há um fora, apenas razão imunda, profunda.

Memória: percepção interpretada de si mesmo.
Sonho: elucubração do esquecimento na sobrevivência cotidiana do existir.
Morte: ver a si mesmo na frente do abismo e decidir: ou-ou.

André Luiz Ramalho da Silveira

Qual redenção, qual vida.

Chorei a vida, quando perguntei a natureza se
Poderia ela redimir a história
Em nós que se
Impõe verticalmente em nossa memória.

Na morte nossa de cada dia, voltaremos ao solo indecifrável
Da Natureza? Se a natureza essa nos escapa em plenitude,
E a História essa irrompe em nós como uma irrefreável
Ruptura histórica, agora na quase imperceptível platitude

Do cinismo político globalizado.
Não, é preciso crer no amanhã.
Com sorte, a ruptura ocorre, e amanhã

Não haverá mais nós, quiçá memória,
Tísica norma moral criadora da absurdamente impermeável indiferença.
Com sorte, nada haverá: nem história, nem memória.

Diários de uma guerra normal

Astolfo e a superação da metafísica (ou sobre como irritar os leitores)

Astolfo e a superação da metafísica (ou sobre como irritar os leitores)

Libélula

Na rodoviária de uma cidade parcialmente escondida entre outras cidades também parcialmente escondidas por outras cidades – cidades tão invisíveis quanto seus habitantes -, em alguma dessas tardes em que o sol esquece a hora de partir, estava Astolfo Cisma dos Santos. Claro, havia outras pessoas. Sempre há. Também havia libélulas, vivendo como se vivem as libélulas, despertando a fantasia e os mitos que, por vezes, suspendem as pessoas da realidade. Também havia o calor. Contudo, ainda que ele fosse excessivo, a sensação de não pertencimento ao mundo – sentimento acentuado pelo local transitório em que estava -, não se eliminava com o suor.

(Essa impressão de ser jogado em meio a um vazio completo, que vem de sobressalto e faz todos os projetos ruírem, não se assemelha com o desespero concernente a alguma tragédia. Não está em questão se essa impressão é ou não agradável, pois essa impressão de mundo não é apenas um atributo psicológico. Se de fato for algo que diga respeito à relação de todo ser humano com o mundo, de uma identidade própria e de como se dá o reconhecimento na alteridade, essa cisão com o mundo só é possível de ser interpretada psicologicamente porque ela tem sua origem na constituição mais própria do ser humano. Explico-me melhor. Essa cisão revelada pela angústia mostra que o ser humano é um nada jogado em um mundo que ele não dá conta, e que é preciso assumir promissórias das quais ele não foi o responsável por criar. Por vezes, esse estranhamento tira a pessoa de órbita e todo o significado de seu mundo entra em colapso. O mais incrível não é exatamente que isso seja assim, mas, o extraordinário é justamente como sempre o ser humano consegue, ainda que quebrado no tempo, recomeçar a partir do nada a reconstruir sua identidade. Isso ocorre em todos os âmbitos da existência. Não porque a realidade é exatamente dessa forma, ou possível de ser descrita assim, tampouco porque seja uma ilusão. Em verdade, o mundo que compartilhamos é uma nuvem mantida impessoalmente e que, na maioria das vezes, é deixada de ser interpretada pela maioria de nós. Mas, ainda somos homens de bem. Tudo retorna ao seu lugar).

Van Gogh - Jardim de Inverno (desenho a lápis e pena, 1884).

Astolfo não iria embarcar em quaisquer daqueles ônibus, nem em qualquer outro veículo. Voltaria pra casa do mesmo modo em que chegou naquele local, levado pelos próprios pés. “Os caminhos são mais importantes do que nossa vontade” – dizia. Estava de chinelos, bermuda e camiseta. Usava também um chapéu – a contragosto, vale dizer, mas, na guerra contra o calor, usa-se as armas disponíveis. Havia atravessado parte da cidade, nessa sua caminhada. Ele andava rápido e olhava pra frente, como se precisasse vencer um inimigo. Passava quadras a fio, contava os próprios passos, e se confundia entre ações e pensamentos. Apenas algo de fixo em seus pensamentos: livrar-se do veneno.

Essa visceral e destrutiva sensação de que as possibilidades não vividas podem estar sendo vividas por outras pessoas. Essa estranha sensação de que outras pessoas podem viver na sombra de nossas vidas, com as pessoas que deixamos em algum ponto no passado. Nesse rastro que deixamos pra trás e que, em algum momento passado, por algum motivo, deixamos de encarar. Além disso, não apenas o abismo de não poder se projetar para o passado, e a consequente agonia disso, mas, a sensação de ser corroído por querer o que não pode ser (no sentido forte da palavra). Em estalos de razão, em meio à quase insanidade, pensava – a paixão pelo ressentimento: o fundamento da civilização –.

Não há muitos meios para se livrar disso. Contudo, pensava, um deles certamente é a exaustão de si mesmo. Destruir tudo, até que o sentimento cujo ressentimento é devedor seja aniquilado. E assim fazia. Caminhava, quando tinha pernas. Trepava, quando tinha companheira. Corria, quando tinha fôlego. Bebia, quando tinha dinheiro. Morria, quando existia demais. Nesse dia, apenas caminhava.

Astolfo, o gladiador. É preciso sofrer pela verdade, disseram os vários poetas, filósofos, religiosos e toda uma corja de pensadores. Há de se notar, caros leitores, por conseguinte, que a vida para muitas pessoas é sofrimento, mas, também, e por isso mesmo, é a verdade. “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”, dizia aquele poeta que dizia ser nada. Apenas acho que ele ignorou que o peso da pena é demasiado, algumas vezes.

Paremos com a enrolação. Isso já é metafísica. Mas, falando em metafísica, qual seria metafísica que assolava o nosso desiquilibrado herói? Se me permitem prosseguir o relato – se não me permitem, apenas parem a leitura –, em breve chegaremos a algum lugar.

Caminhava reticente, ainda que implacável. O inimigo era forte, um monstro, vale dizer. Era preciso criar condições adequadas para fazer com que esse mal aparecesse. Astolfo não era exatamente um atleta, de modo que não era preciso caminhar distâncias imensas pra fazer o corpo falar. Ao final de alguma distância, mais especificamente quando chegou à rodoviária, sentiu que com o suor havia saído um pouco de sua irritação e, assim, pode confrontar melhor a metafísica. Mas, não é uma batalha intelectual, apenas. Esta sombra que domina a civilização desde seu início é o que nos torna humanos. Mas, mais do que essa própria sombra constituir-se como uma das características fundamentais de nossa condição humana, o embate contra ela própria é o que o põe o ser humano à prova.

Claro que ele sentia-se assim, afinal é algo que todas as pessoas podem sentir, basta um pouco de tórrida solidão. Mas, não se enganem. Não se trata de vencer a moral de escravo, do chamado ressentimento nietzschiano. Claro, trata-se, em parte, de ter força suficiente para sustentar os próprios valores. Contudo, para nosso herói a situação não era exatamente como julgava o filósofo alemão, como veremos.

Sentou-se em uma mureta de meia altura, que em parte era abraçada pela sombra das árvores e, em parte, pelo concreto. Pediu um cigarro a alguém que passava. Fumou o cigarro. Após isso, compreendeu ser o momento de enfrentar seu inimigo. Enfrentar a si mesmo. Começava, assim, o diálogo interno:

– Ressentimento… você de volta a assombrar meus dias!?

– Não, caro Astolfo. Você é quem assombra os meus. Deixe-me continuar com a banalidade enfática e nutrir-me de seus sentimentos de desacontecimentos, que eu continuarei a lhe proporcionar a conexão com o resto do mundo.

– Mas, do que se trata, afinal? Já te venci outras vezes, te exauri como esse suor que me nubla o rosto… Por que esse abismo que nunca cessa? – replicou Astolfo.

– Esse abismo é você, Astolfo. É você e todos. Agora, quem lhe pergunta sou eu, vale a pena sofrer assim pela verdade? – perguntou o ressentimento.

– Não confunda as coisas. Já não é a primeira vez que nos enfrentamos, meu amigo. Sei que não basta fazer uma distinção conceitual para me livrar de ti. E que, enquanto eu existir, existirá o abismo e, por todo o lado, estará você.

– Vejo que você aprendeu algumas lições, nobre gladiador. Os lugares estão nas suas coisas. Mas, você não me respondeu. Vale a pena sofrer pela verdade? Por que não és hipócrita como toda a gente deste mundo?

Astolfo, que falava arqueado e ofegante, ao ouvir isso gargalhou sozinho. – Você era melhor, ressentimento. Ao menos mais esperto. Eu sei o que é ser hipócrita, porque, assim como de você, a hipocrisia é outra das incríveis qualidades humanas que é impossível de se purgar. Aliás, me ocorreu agora, a hipocrisia não teria sido originada quando você, ressentimento, foi olhado por alguém no espelho do mundo pela primeira vez? Enfim… não se trata apenas de verdade. Não quero saber da verdade. E se fosse o caso de sofrer pela verdade, eu não precisaria saber antes dessa verdade, para depois sofrer? – falava rindo.

– Tens razão, gladiador. A hipocrisia é uma de minhas consequências mais adoráveis. A mentira e a verdade, duas das ilusões ocidentais que mais me excita. Toda essa quase infinita fonte de tortura a minha inteira disposição. Você sabe disso. A questão é, que diferença isso faz? Você é só mais um insano solitário. Pensa que poderia fazer uma revolução em favor dos oprimidos pelo ressentimento? Você crê demais na humanidade, meu jovem. – Arfava com tirania o Ressentimento.

– Sei que não é possível me livrar permanentemente de você. Até porque você é parte de mim, de tudo que sou e de tudo que sinto. Uma parte terrível, é verdade, mas ainda assim é parte de mim. Te exasperei várias vezes, e farei quantas for preciso. Meu desprezo aos ressentidos – tanto os que acham que não são ressentidos quanto os que pensam ser e, assim, sentem-se justificados em agir como cretinos românticos – é maior do que o que eu tenho por você. Jamais me tornarei um desses idiotas, na defesa hipócrita de qualquer ideia apenas para fugir de si mesmo, do próprio abismo… é tudo tirania. – Nesse momento, Astolfo gritava mentalmente e gesticulava como um louco, mas de um modo muito caricato. – E mais, não sofro pela verdade, nobre ressentimento. Causam-me úlcera a estupidez e a incoerência de cada sujeito existente nessa merda de mundo. Bando de cretinos que defendem o amor, como se isso pudesse nos salvar da danação de existir! – Gritava em cólera, o gladiador; estava de pé e gesticulava sozinho. Após isso, ficou em silêncio em torno de um minuto, respirando fundo e tentando e acalmar. Continuou, agora pensando mais baixo. – Claro, de fato o amor pode nos salvar da danação, para quem com isso é verdadeiramente agraciado. Mas, isso ocorre mesmo? É um tiro no escuro, meu amigo… Ódio é o que sinto por tudo isso, mas, também, odeio o fato sentir ódio. Tudo se anula. E sinto que só não o abracei ainda porque mantenho em mim um amor misterioso, que não consigo justificar e tampouco me desfazer. Não gosto disso, não gosto de esperança… isso só causa-me dor e tédio, como já dizia aquele alemão – Astolfo se referia ao filósofo alemão Arthur Schopenhauer -. Só consigo pensar que o caminho para o nada é a exasperação de toda posição. Nada vence o nada, meu amigo. Agora me deixe um pouco em paz, que já estou muito cansado. – Completava Astolfo, completamente exausto, estirado em um banco.

Libélula gigante - fóssil

Para não perder o hábito, Astolfo rascunhou esse diálogo em algumas linhas. Fez também para lembrar-se de como se enfrenta esse inimigo impiedoso. Não é sempre que se ganha. Ou melhor, não é sempre que se perde. Ficou mais uma hora naquele local, parado e em estado de êxtase, observando as libélulas formarem aquela imagem surreal, que mais parecia um portal para algum mundo diferente. Um mundo de fantasia, que somente os seres humanos conseguem visualizar. Não por alguma elevação espiritual, mas sim porque somente os seres humanos são cindidos. No fim das contas, apenas permanecem as ideias e as libélulas.

André Luiz Ramalho da Silveira

O coveiro do Jardim dos Sonhos

O coveiro do Jardim dos Sonhos

Em uma cidade nem muito pequena, nem muito grande, no interior de uma federação nem muito grande, nem muito pequena, na região sul do Brasil, vivia um senhor chamado Alessandro Sermani. Nasceu, permaneceu e, possivelmente, morreu. De certo modo, viveu uma vida como qualquer outra pessoa, de qualquer outra cidade. Então, por que contar uma história comum, sem qualquer importância? Não farei malabarismos teóricos para justificar a escolha, caros leitores. Atento apenas ao fato que uma vida por si só não possui qualquer sentido senão àquele projetado e interpretado nessa mesma vida. Por vezes, esse sentido só é compreendido na posteridade por outras pessoas. Há quem exista apenas para a posteridade, ainda que disso não tenha consciência.

Sandman

Sandman

Começarei a história pelo começo. Aos seis anos de idade, Alessandro teve seu primeiro contato com a morte. Ao menos, o primeiro que teve grande significado. Seu cachorro Osório morrera envenenado, prestes a completar a primeira década de vida. Na ocasião, seus pais queriam desfazer-se do corpo do cão em algum local deserto, ou algo nesse sentido. Contudo, Alessandro insistiu que Osório fosse enterrado no pátio de sua residência. Depois do cachorro, foram dois gatos e um pássaro, até os dezessete anos. Alessandro enterrava seus animais não apenas com a obsessão justificada pelo luto de manter junto a si alguém que morreu, mas, sobretudo, com o zelo de quem quer preservar uma história. Fazia isso de tal modo que, desde a morte do seu cachorro, adquiriu o hábito de criar convites de enterro de conhecidos e distribuir nos postes de luz de seu bairro. Com o passar dos anos, descobriu que as funerárias locais faziam o mesmo.

Certa feita, um dia estava a passar em frente a um velório. Nunca havia entrado em um velório de gente. Decidiu entrar. Ele completava recém seus quinze anos, e faziam uns 39°C. O local era frio como o morto, para alegria dos vivos. Já dentro do local, apercebeu-se que algo ali lhe agradava. Não era bem um interesse particularmente egoísta, mas uma curiosidade misturada com algum grau de responsabilidade por contar a história daquele que já não mais existia. A partir daí, compareceu a diversos velórios. Preferencialmente de desconhecidos. Nada parecia mais verdadeiro do que a morte e a subsequente história que se conta após isso. Não se sabe se esse estranho gosto deixava Alessandro sombrio, mas o fato é que quanto mais compreendia a existência, mais a solidão aumentava.

Alguns anos após comparecer ao primeiro velório terminou o ensino médio e foi procurar emprego. Nada lhe agradava, não via sentido algum em qualquer trabalho. Mas, precisava de dinheiro, pois sua família não era abastada. Conseguiu alguns trabalhos temporários, até mesmo entrou para o curso de arquitetura na universidade. Gostava das formas. Por falta de dinheiro e interesse em dedicar-se exclusivamente a algo, abandonou o curso e voltou para a casa de seus pais. Conseguiu um trabalho em uma empreiteira, de modo que, ao menos por um tempo, conseguiu manter-se financeiramente. Como era muito ansioso, chegava sempre cansado ao trabalho, pois tinha dificuldade para dormir no horário correto para um trabalhador. Estava prestes a desistir novamente do trabalho, quando aos vinte e cinco anos seu velho e doente pai morreu. Um ano após, sua mãe morreu. Ambos tinham em torno de setenta anos. Escreveu um pequeno livro sobre ambos, que fora sepultado às escondidas no mesmo cemitério.

Com algumas economias e sem qualquer perspectiva de vida, Alessandro só conseguia lamentar-se por não ter sido ele a morrer. Por conseguinte, por alguns meses e enquanto o dinheiro durou, apenas dormia. Era o mais perto da morte que parecia conseguir chegar. Fechava os olhos na esperança de não mais acordar. Mas, era inútil. Se conservar esperanças era sempre ruim, nesse caso lhe era pior ainda. De todo modo, lhe parecia ser a hora de conseguir um novo trabalho. Constatava haver ao menos alguma resiliência no resto de seu ser. Um dia, em meio a essa época de desolação, foi visitar os túmulos de seus pais. Os dois túmulos eram contíguos, separados por cerca de um metro de distância e um esboço de canteiro que insinuava uma ligação entre os túmulos.

Ao chegar ao local, aflorou-se uma impressão que, conjugado a um pensamento que nos últimos dias já vinha se desenvolvendo, trouxe um pouco de calma. Essa impressão permitiu a Alessandro perceber como naquele local tudo existia de um modo intenso. Não em um sentido que apraz aos sentidos. O que aconteceu era que nesse lugar a verdade saltava aos olhos, e fazia qualquer um encontrar-se a si mesmo. As velhas lápides esburacadas pelo vento, as gramíneas que insistiam em nascer naquele local deserto, a necessidade que a humanidade possui de manter lugares para o não ser. Os insetos criando colônias nos cadáveres centenários, os mitos que precediam qualquer história sobre qualquer um dos que ali jaziam. Assim é a existência, penava a pensar Alessandro. O que para a maioria das pessoas era terrível, para Alessandro era tanto uma maneira de conseguir um trabalho quanto de compreender melhor sua vida. Por conseguinte, percebeu que, ao menos provisoriamente, poderia trabalhar naquele local.

Algumas semanas após essa visita, Alessandro começou a trabalhar como coveiro no principal cemitério da cidade. Era necessária uma dedicação quase que integral para o novo trabalho. Contudo, tinha uma liberdade muito grande com relação aos horários. Após alguns meses como coveiro iniciante, passou a residir no cemitério, em cujo interior havia, além dos túmulos, uma pequena construção para quem viesse a ser o coveiro. O atual coveiro estava por se aposentar, de modo que, em menos de um ano, Alessandro já era o coveiro oficial do cemitério Jardim dos Sonhos.

Dave Mckean - King staffs

Dave Mckean – King staffs

Alessandro tinha o hábito de ler e escrever, nas horas em que não estava ocupado diretamente com a morte. Gostava também de saber quem eram as pessoas que lhe eram destinadas. Assim fazia diariamente. Ao longo dos anos foi moldando a arquitetura do cemitério de acordo com a história e os sonhos das pessoas que ali residiam. Preferia pensar que as pessoas entravam ali para sonhar, para fazer justiça ao nome do local. Como sempre se sentiu incapaz de sonhar, instigava-se pelas histórias e projetos de vida das outras pessoas. Isso o tornou um bom contador de histórias, com uma memória muito viva. Dessa forma, sentia-se responsável por proteger o bem maior dessas pessoas, suas histórias, mantê-las vivas de algum modo.

Quando começou a envelhecer, passou a encarar a morte de um modo mais pragmático. Como não possuía muitos amigos e, tampouco, amores, flertava sempre consigo mesmo na terna solidão daquele jardim. Na falta de alguém para cuidar da sua própria história, iniciou os preparativos para um dia ser lembrado, caso alguém o descobrisse.

Nas horas vagas, além de fazer suas anotações fazia também escavações. Para proteger a história de todos e a de si mesmo enquanto o protetor do Jardim dos Sonhos, aos poucos fazia uma cova imensa. Para que coubesse além de si mesmo e de sua própria história, elaborava no seu imaginário uma cova que conservasse todas as histórias e os sonhos daqueles que ali estavam. De fato, todos os dias moldava a terra que, aos tropeços, ganhava forma.

A cova – que mais parecia um santuário esculpido no subterrâneo de sua casa no interior do Jardim dos Sonhos –, ganhou uma forma bruta quando Alessandro estava prestes a completar cinquenta e quatro anos. A partir daí, apenas lapidava os detalhes de sua criação. Juntou todos seus livros e anotações sobre as pessoas que ali moravam e organizou-os dentro da cova. Ela era circular, de modo que no centro havia algo que parecia um quarto, com uma pequena dispensa à esquerda, e nas paredes que faziam o entorno circular estavam depositados as memórias e livros. Após mobiliar o recinto, junto com o vazio proveniente de um projeto pessoal realizado, sentiu, por outro lado, uma paz razoavelmente significativa. Num dos lugares da construção ele havia instalado no improviso algo que se assemelhava a uma claraboia. Por ela, olhou a noite estrelada e clara, acendeu um charuto e repousou naquela noite, como poucas vezes fizera em sua vida.

É difícil saber, caros leitores, se Alessandro ainda vive. Ainda assim, há muitas histórias sobre o paradeiro de sua pessoa. Há quem diga que ele nunca morreu, ou que ele não seja nada além de uma lenda. De todo modo – e talvez mesmo inspirado pelo coveiro Alessandro -, estou apenas contando uma versão de sua história. Dizem que esse é o melhor cemitério da região. O jardim dos Sonhos.

André Luiz Ramalho da Silveira

Um sonho, uma realidade

Um sonho, uma realidade.

É preciso crer nas ilusões, antes que elas se transfigurem em realidade. Enganava-se que, mediante simples empenho próprio, isto é, por esforço de crença, poderia livrar-se dessa prisão que parecia não haver fronteiras. Não conseguia distinguir o resto do mundo de si mesmo. Neste momento, tornava-se como que um vetor entre o mundo dos despertos e a fantasia dos eruditos. Apenas seguia nesse aparente delírio. Não era apenas o cansaço extenuante que lhe obstruía o pensamento. O que o tinha levado a esse estado, e a esse lugar? Para existir, seria preciso ter desejo de realidade?

Essas questões começavam a surgir em meio ao burburinho de conversas aleatórias de pessoas inexistentes e do barulho de galhos de árvores que, por mais invisíveis que fossem, carimbavam nos ventos destemidos até mesmo as histórias mais lânguidas que pela terra já rastejaram. Começava a compreender que estava perdendo realidade, não obstante estar aos poucos ficando menos preso. Havia uma leveza nisso tudo, quer dizer, abandonar o fado do corpo pode despertar a impressão de alguma liberdade um tanto ilusória. Mas, junto a essa leveza, compreendia que com o passar do tempo tornava-se mais pesaroso o pensar. O desespero era, em verdade, o de não lembrar-se como lhe adviera tal situação aprisionadora.

Para encontrar algum fio de sentido, procurava, aos tapas, nas lembranças fugidias, algo que lhe situasse novamente ao mundo. Encontrou um remedo de rua, que lhe parecia familiar. Desavisadamente sentiu seu corpo corporificando novamente. Nessa rua em que fincava a imaginação, à busca de uma memória mais sólida, encontrou aquela esquina esfumaçada – que mais parecia um borrão expressionista do que propriamente algo que existisse por si – em que há não muito tempo perdeu o que pensava ser sua vida.

Contíguo à esquina levemente cinza e esfumaçada, e como que também formado pela mesma disforme dissociação de cores que pareciam materializar aquela realidade, estava uma pessoa com ares de elegância deletéria, mas ainda assim com um ar familiar. Num dos lados dessa esquina havia um banco, em que essa pessoa resolvera recostar-se. Vestia um longo casaco cinza, com botões pretos de expressões rústicas, um Keffiyeh verde escuro tracejado de preto – típico lenço árabe -, em que o deixara caído aos ombros e a cabeça descoberta, botas de couro pretas e um guarda-chuva florido. Às vezes, notavam-se algumas explosões de cores no cinza do casaco, e algum intumescimento nas flores do guarda-chuva, que pareciam querer beijar o chão. Contudo, essa pessoa escondia o rosto. Ou melhor, seu rosto era a expressão de cada canto desse lugar, cantos cuja mudança era permanente, ainda que de modo harmônico. Apesar de acinzentado, o cenário parecia saído da imaginação de Van Gogh.

Quando sem perceber e num súbito prostrou-se diante dessa figura, deu-se por conta de que certamente essa pessoa lhe era familiar, ainda que sem reconhecê-la. O casaco ofereceu ajuda e as flores do guarda-chuva serviram de apoio para que se chegasse até o banco. Olharam-se. Começava a duvidar de si mesmo, a duvidar seriamente se era mesmo alguém, dotado de “pessoalidade”, se não passava de uma imagem impressa num mundo atônito e maquinal. Adjacente a esta dúvida, lhe surgia como contra prova essa realidade abstrata que se concretizava como um orvalho se congelando num inverno. Olharam-se. A pessoa a sua frente parecia um velho, mas também parecia uma mulher, e quando começou a falar, tinha uma voz que lembrava a de uma criança. Onde estava, pensava… seria isso um sonho? Por que não desperta? Se despertar, será possível viver da mesma forma, depois de passar por isso? Olharam-se…

– Quem sou eu, ou, o que faço aqui? Organizava a pergunta com ares de presciência, ainda que gaguejasse e falasse rápido e aos tropeços.

– Pergunta difícil, jovem; vamos caminhar e eu lhe explicarei melhor. Replicou a pessoa misteriosa.

Levantaram-se e seguiram ao largo de um jardim outonal. As ruas eram muito semelhantes entre si, de modo que ao caminhar por umas cinco quadras, mal pareciam ter saído do lugar em que estavam. Despertou um vento frio, sendo necessário puxar algum capuz e cobrir a cabeça. Seguiram até uma grande praça, em que ao centro havia uma espécie de basílica. Havia muitas pessoas na praça, apesar do vento razoavelmente frio. Estava noite, aparentemente, mas havia claridade suficiente pra que se distinguissem as coisas que são possíveis de se distinguir.

– Vamos nos sentar. – Disse a figura de casaco e guarda-chuva. – Veja essas pessoas a caminhar, como se tivessem algum propósito em suas vidas. Você pensa que elas estão presas nesse mundo? Ou melhor, você pensa que elas sabem que estão presas? A compreensão não depende apenas de nossa disposição a compreender. É preciso algum sacrifício para colapsar a ignominiosa dominação da falta de reflexão. Este mundo apenas configura-se como uma distopia para quem já entra nele cindido. Ou talvez não. Mas, não há volta, quando se chega a este ponto. – Prosseguiu a figura, falando hermética e pausadamente e acentuando cada palavra.

– Mas, eu morri, ou isto é apenas um sonho? Veja, eu não sinto meu corpo. Parece apenas um delírio, no entanto, sinto como se toda a realidade de fato fosse assim. Aliás, quem é você? Faz parte desse meu delírio ou do delírio de outra pessoa, ou existe mesmo? Ou nenhuma coisa nem outra? – replicava.

– Muitas perguntas você faz, como se você não soubesse as respostas. O que você procura é algo que garanta um mínimo de sentido para a existência, um sentido que não possa se desfazer a cada pouco. Mas, isso não é possível. Toda a realidade, essa que você pensa viver, essa que está fora deste mundo, toda ela assenta-se sobre esse mundo tal como você agora vê. O erro e a fragilidade é o que dá suporte a toda objetividade. Não é que a realidade seja uma ilusão. Creio que ilusão não seja um conceito útil para compreender a complexidade que aqui se impõe. Aqui, todos apenas somos. Apenas ser, nada mais. Sem realidade transcendente, de modo que não haja apoio além de nós mesmos, nós, seres cindidos e incompletos. Mas, a fim de lhe responder, você me perguntou quem ou o que sou eu. Pois lhe respondo, sou muitas coisas. Sou seu nêmesis, sou parte de você, sou parte do mundo, sou parte de outras pessoas. Sou deus, delírio e sonho. Sou qualquer coisa. Mas, mais importante que isso, é como você compreenderá tudo isso, isto é, o que eu significarei para você. Seu mundo é mais do que eu e você, mas ele não é sem nós. – Respondeu-lhe, quase em transe, a pessoa misteriosa, enquanto podava as flores do seu chapéu.

Imóvel, ele fitava o estranho buscando compreendê-lo. Sim, talvez ele já imaginasse alguma resposta nesse sentido. Mas, apercebeu-se que precisava dessa confirmação pra poder voltar de onde viera. Precisava extenuar-se até perder a noção do próprio corpo e da própria consciência, pra conseguir se livrar do apego a substancialidade. Beirava desmaiar. Respirou fundo, agradeceu a conversa, levantou e espreguiçou-se. Não sabia onde estava, nem se lembrava de como foi ali parar. Mas, misteriosamente sabia como voltar, ainda que houvesse esquecido também o lugar de onde viera. Caminhou dois passos, tirou o capuz e respirou todo o vento que havia nesse pedaço de mundo. De imediato, acordou caído da cama, no quarto do albergue em que morava. Levantou-se, pensou e decidiu: nunca mais dormirei. Sentou-se novamente e, após constatar novamente a vida que leva, tornou a dormir.

André Luiz Ramalho da Silveira

Manifesto contra a ditadura da felicidade III

Irás desvencilhar-te de toda imundícia
Que do embuste nutre todo o bem estar.
Não se trata de felicidade, essa indomável sordícia,
Mas sim da injustificável manutenção do próprio ensimesmar.

Testo minha alma, estabeleço as condições,
Degusto o fracasso, queimo meu espírito no logro das tradições.
Perdi a vida, pedaço a pedaço, desculpa a desculpa.
Alimento o corpo com os motivos da alma, já fraca, sem polpa.

Algum prazer haverá no destinado sono.
Eternidade é a mácula impregnada no egoísmo
Imbricado em cada esforço por uma salvação justificada no auto-engano.

E tudo o que desejas é gostar daquilo que tem e pode ter.
Concebe-te como livre para escolher a carência,
Mas é pela carência que foge tua liberdade. O mundo brada tua aurora autêntica, pífia existência.

André Luiz Ramalho da Silveira

Vertigem em revés

De revés como quem anda em retrocesso nas camadas da abulia,
Escondo-me na fissura do espelho, que se consome, em letargia.
No fim apenas há um esconderijo vazio, cuja assepsia
Apenas revela o ressentimento e a neurose dessa permanente afasia…

A vertigem é o sentimento que nos coloca diante de nós mesmos…
Embrulhada por vaidade, ela nos faz querer ser vistos no meio de todos como falhamos.
E é preciso dizer que está tudo bem, manter o ar burocrático de que relações
São coisas que funcionam, e esquecer que tudo depende de vinculações.

E que nisso apenas há uma arbitrariedade quando o que se quer são explicações.
Mas para os corações não sequazes, a vida impõe a condição de Nero,
Em que se deve criar apenas para poder destruir as próprias determinações.

E mostra-se como fado terrível da existência o fato de que continuaremos
Seguindo os passos de Sísifo, em todo absurdo que permeia a cada nova esperança.
E quem sabe um dia nos queimaremos como Roma, ou ficaremos no caminho da pedra e descobriremos outro significado para mudança.