Sombra

Primavera lunar

Lembro-me de lições e adequações,
Dessas lições que só o verão pode ensinar ao inverno,
E que só depois da dura solidão do conjunto das estações,
Pode-se saber da liberdade como o manter-se na incompletude de qualquer destino.

Eu preciso de mais, mas nada do que tenho importa.
Despidos de crenças, somos todos iguais, perante a morte.
Então, todo afirmar-se é sobrepor-se à força da alteridade inerte.
A individualidade compartilhada é uma hierarquia de hipocrisias sem volta.

A poesia nos ensina ir ao mar, não a amar.
Depois de ir ao mar, não há como tirar o sal do próprio ar.
Inapto ao ar, ao mar, ao amar.

O mundo torna-se adulto, planos fracionados e redirecionados sob a luz do sol.
Mas ao menos a lua ainda segue seu ciclo, nos permitindo,
Ser um espelho de sua sombra, de sua sobra, de seu amor não correspondido ao sol.

André Luiz Ramalho da Silveira

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Pintura de alguém

Você pinta as sombras
Com as vagas sobras
De todas as suas fracassadas obras
Pois não há como sumir apenas fechando as pálpebras.

O vento bate, mas não parece haver algo
Para apará-lo.
Não existe mundo, não mais, só um reles estrago.
Subsiste apenas a memória, com o dever de escravizá-lo.

Não existe sobra sem sombra.
Mas sobra a sombra dessa relação, como refém
D’um sonho em que se discerne algum ninguém dessa penumbra.

Suas sombras pintadas florescem como ideias
E as paredes como prisões que acalentam a miséria dos que não dormem
Como os que existem em pares que seguem o jogo das facetas marcadas e estragadas.

André Luiz Ramalho da Silveira

Vertigem do Sol II

Olhos deprimidos se escondem no efeito do sol,
Sem mesmo se dar conta, a sombra se culpa
Por ter de pertencer como sobra no rol
Da beleza que é a presença iluminada pela lupa.

Cunha-se na perfeição a postergação da jactância
Ansiada pelos homens de ação que se banham
Ao sol, aos brados do cientificismo semelhante à excrescência
Invertendo discursos e renovando assim a flâmula solar que se acanham.

Mesmo assim, a sombra ama o sol
E o sol, em sua altivez, só é sol porque a sombra o sustenta
Somente quem suporta a sombra, consegue suportar o sol.

E aqueles olhos deprimidos sabem que
A verdadeira dificuldade está em simplesmente ser
E ter de suportar a si mesmo como algo que poderia não ser.

A vertigem do Sol I

O brilho ressoa na amplitude
Da negação silenciosa.
Em todo o brado de vicissitude,
Só ecoa a possibilidade vertiginosa.

A queda apenas revela a superfície
Como uma realidade perspectiva.
Não há mais como crer na estultice
De se ser um espelho em retrospectiva.

Não há mais como seguir o mundo
De Sujeitos e substantivos
De egos que substituem deuses por cérebros sem mundo.

Não se explica nem mesmo
A aderência da ausência
Em ignóbeis homens que se julgam ser sem precedência.

A sombra dos dias

Se os dias fossem sós, como assim muitos os representam em suas concepções
A quietude estóica seria um fim alcançado por simples sabedoria.
E a mudança não seria ilusão transcendental, mas erupções
Na inércia a que se prostram os infelizes glutões da aporia.

O movimento da mudança obedece a um princípio peculiar,
Pois ele apenas revela o contexto não manifesto de algo para esse algo mesmo,
De modo que o resíduo entre um dia e outro nos eleva à comoção de morar
Em nossos espaços vazios como sendo esses o único traço de constância de nosso esmo.

Se os dias fossem sós eles já seriam como eu, o que me tranqüilizaria
Na medida em que não haveria angústia temporal e o abismo seria teórico.
Mas os dias são juntos e grandes… o que os permite ser eternos em sua letargia.

E as pessoas pensam que mudam para assim satisfazer seus desejos lascivos
Numa ideação puritana. E ainda pensam que mudança é o mesmo que causalidade.
Ninguém muda e a desonestidade consigo mesmo é o trunfo dos esquivos.