Solidão

Astolfo e seus recortes impublicáveis

 

Astolfo e seus recortes impublicáveis

 

Após superar a metafísica através de um diálogo perturbador com o ressentimento, Astolfo ficou recluso e mais ensimesmado do que de costume. Buscou força na rotina, como fazem aqueles que querem se recuperar de uma situação traumática. Afinal, mesmo superando a metafísica e aparentemente se saindo vitorioso, na existência não se trata de vencer ou perder, pois pode ser um pouco de cada aspecto. Sobretudo tratando-se da própria sombra, pois enquanto se existir, sempre se existirá nesse abismo em preto e branco.

Vasily Polenov

Vasily Polenov

Com uma rotina razoavelmente regrada, era possível manter a memória fixa, os sonhos um tanto calmos, e a vontade quieta. São processos tipicamente ascéticos, ou burocráticos – que são processos ascéticos sem o caráter moral. Contudo, um extraordinário acontecimento implodiu toda sua rotina. Astolfo encontrou alguns documentos que relatavam a relação entre um desconhecido com Rodion Românovitch Raskólnikov, personagem que escapou da obra ficcional russa de Dostoievski e que se encontra perdido atualmente em alguma parte do mundo. Mas, não apenas… Astolfo cria fortemente saber do paradeiro de Raskólnikov, de modo que, ao ser abordado pela selvagem polícia, teve que prometer não falar mais no assunto, temendo por sua própria segurança. Os documentos encontrados por Astolfo foram para a Biblioteca Sazonal da Guarda do Ser, em uma cidade próxima a que reside nosso herói. Essa experiência implodiu a estabilidade de Astolfo. Contudo, o deixou com algum objetivo novo na sua intrigante vida. Os sete fragmentos que se seguem – é curioso notar que não sabemos se Astolfo falava de si mesmo ou de outra pessoa, ou mesmo se isso foi algum surto paranoico – foram extraídos de pedaços de um livro que Astolfo rascunhara após esse incidente, de modo que toda sua existência adormecida irrompeu.

 

Recortes de Reflexões sobre o diário de uma não-vida, de Astolfo Cisma dos Santos.

1 –       Precisou enganar-se a si próprio para então ver sua vida como de fato era. Tinha bons olhos, e registrara seus instantes como uma máquina fotográfica. Contudo, possuía alguma generosidade ainda não corroída e atenuava parcialmente o cinza dessas imagens com o movimento e musicalidade propícia, de modo que a fixidez fosse apenas aparente. Com essa impressão precisa e, vá lá, categorizante da realidade a vida se tornava uma totalidade com momentos divididos em épocas cuidadosamente distinguidas pelas vivências e contextos. Essa mesma disposição a imprimir a realidade de forma ondular, ainda que em retratos, admitia como consequência quase que invariável uma identidade pessoal muito rígida. Isso não é exatamente um problema, caso sejam tomados contextos ideais – como nas famosas experiências em que tão somente a resistência do ar deve ser desconsiderada -, mas, como contextos projetados idealmente são, como diz o nome, meramente ideais, a pessoa corre o risco de ser um pedaço descontextualizado no insano sistema burocrático.

2 –       Parecia viver dentro de uma cela, em que se dividia entre o comando do verbo e o comando do cetro. Às vezes, a ação se concatenava, isto é, se organizava e a execução era harmônica, de modo que o tempo e o espaço fluíam e arrepiavam os pelos da cela. Não se tratava de racionalizar os desejos, ou a vida de modo geral. Quer dizer, fazia isso, mas suspeitava haver algo a condicionar essa racionalização. Claro, pensava consigo mesmo, toda compreensão é perfilada… recorta-se um pedaço da realidade, remonta-se ao todo ou contexto a que pertence esse pedaço, e se constata que essa é a perspectiva de que se parte… e há tantos contextos possíveis quanto há compreensões possíveis… e a realidade é essa ocorrência nula de fatos.

3 –       A solidão é amarga apenas nos primeiros anos. Ao longo dessa vida, o hábito reduz os danos do abismo e nos acostumamos a fragilidade da existência. Da impotência perante o todo à incapacidade de controlar esse incontrolável solo de afecções, parece ter como conclusão única a imobilidade de todo existir. Apenas seguir como bestas, na luta por sexo e poder. Ou cair na hipocrisia naturalista, como se fosse a natureza fosse uma redenção menos religiosa do que a crença em qualquer mísera divindade. Ou também podemos aceitar o imobilismo e nos comportarmos como cretinos grotões que estufam a barriga como bestas burocráticas humanas e espalitam os dentes com seus escravos. Ou como cretinos estúpidos que aceitamos e defendemos isso, mas, trabalhamos para esses mesmos grotões. Mas, tudo isso importa? Quer dizer, essas são as escolhas? E a beleza? E há beleza? Não sei… a liberdade não pode ser apenas negativa, isto é, apenas determinada como “não ser determinado por” algo… Pode a liberdade ser definida apenas como independência? Estou preso há tanto tempo que já não sei se estou certo sobre o funcionamento lógico do mundo.

Pablo Picasso - Portrait of ambroise vollard-1910

Pablo Picasso – Portrait of ambroise vollard-1910

4 –       Pensava que estava preso, só não sabia se fora ou se dentro. De todo modo, a fuga da situação, por mais que fosse determinada pela atual situação, sempre era uma alternativa. Não era possível aguentar tanta burrice e má vontade. Em todos os lugares. Em si mesmo. Não é que encontrava paz nas viagens físicas e existenciais, mas, sim… encontrava um mínimo de prazer e tranquilidade ao constatar que essas viagens lhe faziam bem. Após sintetizar suas imagens e estrutura-las musicalmente, conseguia aguentar mais um pouco de si mesmo num mundo qualquer. A solidão, assim, perdia o seu sentido, porque englobava o mundo como um todo. Mas, um todo sempre perfilado, sempre visto em perspectivas, de modo que essa solidão era sempre transpassada e ferida por uma não-solidão. Perguntava-se qual seria o sentido de ter essa vida? Bom, pensava sempre que era melhor permanecer do que não permanecer, afinal, no permanecer se pode sonhar.

5 – Como não explodir em ódio no mundo humano? Como não desistir de tudo em meio a tanto ódio estúpido nesse mundo humano? Há outros mundos? Como não adquirir uma úlcera da vida? Por que tudo é tão insuportável, nos momentos suportáveis? Por que esse subsolo é tão acolhedor? Será síndrome de Estocolmo? Será culpa de alguém, ou encontrar uma razão única é algo pertencente apenas aos tiranos? Será preciso encontrar uma razão para o agir? Ou o agir deve ser a razão explicativa do pensamento? Por que tão abandonados por Deus? Porque tão abandonados por si mesmos? Por que inventamos a nós mesmos? Porque queremos.

Elicia Edijanto

6 – É preciso experimentar a si mesmo. Enquanto não tomarmos uma boa dose de veneno do mundo, nossos olhos arderão sempre pela falta de hábito. A beleza é a única cura para o fanatismo, pois atinge diretamente à vontade. De nada adianta uma inteligência envenenada. O âmbito da razão é o das questões e o da dúvida, e é nesse abismo que tenho força, pois a verdade é parte disso, a verdade é pluralidade, luz e dúvida. O costume da certeza plena é o cetro dos idiotas.

 

7 – Tento ser o mais hipócrita possível. Sim, constatar meus preconceitos até exauri-los. Exaurir a si mesmo, como uma purificação hermenêutica. Saturar as opiniões, posições e preconceitos, depurá-los, para assim me desconstruir, para me sentir humano. Não busco cura alguma, tampouco vício algum. Apenas quero fotografar e manter em minha memória tudo o que sou, o que acabo de ser e o que posso ser. Não ser idiota e burro já é algo digno.

 

 

André Luiz Ramalho da Silveira

 

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Fugacidade

Fugacidade

Fugacidade, essa confortável e prazerosa força,
Engrandecendo-se à medida que o sentido se esvai,
Fez dobrar minha vontade à mera resiliência.
E a um punhado de sanidade foi reduzida minha identidade.

Na memória, conservo esse resíduo de um eu,
Se meu ou se teu já não sei, já nem suponho.
Dos instantes, novos instantes surgem. Mas, não são instantes.
São pedaços sem qualquer importância.

Aplacar o tédio com pudor, com perversão, com felicidade, com nada.
Eis os nossos tempos. Eis o que do tempo nada é.
O tempo… ao menos isso sentimos, o fundamento que nos corrói.

A vida é uma vitrine em que os espectadores somos nós,
Para confirmarmos se ainda somos nós quem ali somos.
Fugacidade, essa confortável e prazerosa força que nos reduz a nós mesmos.

André Luiz Ramalho da Silveira

O coveiro do Jardim dos Sonhos

O coveiro do Jardim dos Sonhos

Em uma cidade nem muito pequena, nem muito grande, no interior de uma federação nem muito grande, nem muito pequena, na região sul do Brasil, vivia um senhor chamado Alessandro Sermani. Nasceu, permaneceu e, possivelmente, morreu. De certo modo, viveu uma vida como qualquer outra pessoa, de qualquer outra cidade. Então, por que contar uma história comum, sem qualquer importância? Não farei malabarismos teóricos para justificar a escolha, caros leitores. Atento apenas ao fato que uma vida por si só não possui qualquer sentido senão àquele projetado e interpretado nessa mesma vida. Por vezes, esse sentido só é compreendido na posteridade por outras pessoas. Há quem exista apenas para a posteridade, ainda que disso não tenha consciência.

Sandman

Sandman

Começarei a história pelo começo. Aos seis anos de idade, Alessandro teve seu primeiro contato com a morte. Ao menos, o primeiro que teve grande significado. Seu cachorro Osório morrera envenenado, prestes a completar a primeira década de vida. Na ocasião, seus pais queriam desfazer-se do corpo do cão em algum local deserto, ou algo nesse sentido. Contudo, Alessandro insistiu que Osório fosse enterrado no pátio de sua residência. Depois do cachorro, foram dois gatos e um pássaro, até os dezessete anos. Alessandro enterrava seus animais não apenas com a obsessão justificada pelo luto de manter junto a si alguém que morreu, mas, sobretudo, com o zelo de quem quer preservar uma história. Fazia isso de tal modo que, desde a morte do seu cachorro, adquiriu o hábito de criar convites de enterro de conhecidos e distribuir nos postes de luz de seu bairro. Com o passar dos anos, descobriu que as funerárias locais faziam o mesmo.

Certa feita, um dia estava a passar em frente a um velório. Nunca havia entrado em um velório de gente. Decidiu entrar. Ele completava recém seus quinze anos, e faziam uns 39°C. O local era frio como o morto, para alegria dos vivos. Já dentro do local, apercebeu-se que algo ali lhe agradava. Não era bem um interesse particularmente egoísta, mas uma curiosidade misturada com algum grau de responsabilidade por contar a história daquele que já não mais existia. A partir daí, compareceu a diversos velórios. Preferencialmente de desconhecidos. Nada parecia mais verdadeiro do que a morte e a subsequente história que se conta após isso. Não se sabe se esse estranho gosto deixava Alessandro sombrio, mas o fato é que quanto mais compreendia a existência, mais a solidão aumentava.

Alguns anos após comparecer ao primeiro velório terminou o ensino médio e foi procurar emprego. Nada lhe agradava, não via sentido algum em qualquer trabalho. Mas, precisava de dinheiro, pois sua família não era abastada. Conseguiu alguns trabalhos temporários, até mesmo entrou para o curso de arquitetura na universidade. Gostava das formas. Por falta de dinheiro e interesse em dedicar-se exclusivamente a algo, abandonou o curso e voltou para a casa de seus pais. Conseguiu um trabalho em uma empreiteira, de modo que, ao menos por um tempo, conseguiu manter-se financeiramente. Como era muito ansioso, chegava sempre cansado ao trabalho, pois tinha dificuldade para dormir no horário correto para um trabalhador. Estava prestes a desistir novamente do trabalho, quando aos vinte e cinco anos seu velho e doente pai morreu. Um ano após, sua mãe morreu. Ambos tinham em torno de setenta anos. Escreveu um pequeno livro sobre ambos, que fora sepultado às escondidas no mesmo cemitério.

Com algumas economias e sem qualquer perspectiva de vida, Alessandro só conseguia lamentar-se por não ter sido ele a morrer. Por conseguinte, por alguns meses e enquanto o dinheiro durou, apenas dormia. Era o mais perto da morte que parecia conseguir chegar. Fechava os olhos na esperança de não mais acordar. Mas, era inútil. Se conservar esperanças era sempre ruim, nesse caso lhe era pior ainda. De todo modo, lhe parecia ser a hora de conseguir um novo trabalho. Constatava haver ao menos alguma resiliência no resto de seu ser. Um dia, em meio a essa época de desolação, foi visitar os túmulos de seus pais. Os dois túmulos eram contíguos, separados por cerca de um metro de distância e um esboço de canteiro que insinuava uma ligação entre os túmulos.

Ao chegar ao local, aflorou-se uma impressão que, conjugado a um pensamento que nos últimos dias já vinha se desenvolvendo, trouxe um pouco de calma. Essa impressão permitiu a Alessandro perceber como naquele local tudo existia de um modo intenso. Não em um sentido que apraz aos sentidos. O que aconteceu era que nesse lugar a verdade saltava aos olhos, e fazia qualquer um encontrar-se a si mesmo. As velhas lápides esburacadas pelo vento, as gramíneas que insistiam em nascer naquele local deserto, a necessidade que a humanidade possui de manter lugares para o não ser. Os insetos criando colônias nos cadáveres centenários, os mitos que precediam qualquer história sobre qualquer um dos que ali jaziam. Assim é a existência, penava a pensar Alessandro. O que para a maioria das pessoas era terrível, para Alessandro era tanto uma maneira de conseguir um trabalho quanto de compreender melhor sua vida. Por conseguinte, percebeu que, ao menos provisoriamente, poderia trabalhar naquele local.

Algumas semanas após essa visita, Alessandro começou a trabalhar como coveiro no principal cemitério da cidade. Era necessária uma dedicação quase que integral para o novo trabalho. Contudo, tinha uma liberdade muito grande com relação aos horários. Após alguns meses como coveiro iniciante, passou a residir no cemitério, em cujo interior havia, além dos túmulos, uma pequena construção para quem viesse a ser o coveiro. O atual coveiro estava por se aposentar, de modo que, em menos de um ano, Alessandro já era o coveiro oficial do cemitério Jardim dos Sonhos.

Dave Mckean - King staffs

Dave Mckean – King staffs

Alessandro tinha o hábito de ler e escrever, nas horas em que não estava ocupado diretamente com a morte. Gostava também de saber quem eram as pessoas que lhe eram destinadas. Assim fazia diariamente. Ao longo dos anos foi moldando a arquitetura do cemitério de acordo com a história e os sonhos das pessoas que ali residiam. Preferia pensar que as pessoas entravam ali para sonhar, para fazer justiça ao nome do local. Como sempre se sentiu incapaz de sonhar, instigava-se pelas histórias e projetos de vida das outras pessoas. Isso o tornou um bom contador de histórias, com uma memória muito viva. Dessa forma, sentia-se responsável por proteger o bem maior dessas pessoas, suas histórias, mantê-las vivas de algum modo.

Quando começou a envelhecer, passou a encarar a morte de um modo mais pragmático. Como não possuía muitos amigos e, tampouco, amores, flertava sempre consigo mesmo na terna solidão daquele jardim. Na falta de alguém para cuidar da sua própria história, iniciou os preparativos para um dia ser lembrado, caso alguém o descobrisse.

Nas horas vagas, além de fazer suas anotações fazia também escavações. Para proteger a história de todos e a de si mesmo enquanto o protetor do Jardim dos Sonhos, aos poucos fazia uma cova imensa. Para que coubesse além de si mesmo e de sua própria história, elaborava no seu imaginário uma cova que conservasse todas as histórias e os sonhos daqueles que ali estavam. De fato, todos os dias moldava a terra que, aos tropeços, ganhava forma.

A cova – que mais parecia um santuário esculpido no subterrâneo de sua casa no interior do Jardim dos Sonhos –, ganhou uma forma bruta quando Alessandro estava prestes a completar cinquenta e quatro anos. A partir daí, apenas lapidava os detalhes de sua criação. Juntou todos seus livros e anotações sobre as pessoas que ali moravam e organizou-os dentro da cova. Ela era circular, de modo que no centro havia algo que parecia um quarto, com uma pequena dispensa à esquerda, e nas paredes que faziam o entorno circular estavam depositados as memórias e livros. Após mobiliar o recinto, junto com o vazio proveniente de um projeto pessoal realizado, sentiu, por outro lado, uma paz razoavelmente significativa. Num dos lugares da construção ele havia instalado no improviso algo que se assemelhava a uma claraboia. Por ela, olhou a noite estrelada e clara, acendeu um charuto e repousou naquela noite, como poucas vezes fizera em sua vida.

É difícil saber, caros leitores, se Alessandro ainda vive. Ainda assim, há muitas histórias sobre o paradeiro de sua pessoa. Há quem diga que ele nunca morreu, ou que ele não seja nada além de uma lenda. De todo modo – e talvez mesmo inspirado pelo coveiro Alessandro -, estou apenas contando uma versão de sua história. Dizem que esse é o melhor cemitério da região. O jardim dos Sonhos.

André Luiz Ramalho da Silveira

Rilke, Cartas a um jovem poeta (oitava carta)

O livro ‘Cartas a um jovem poeta’ é constituído por 10 cartas trocadas entre o jovem poeta Franz Kappus e Rainer Maria Rilke.
Rilke certamente foi um dos maiores poetas dos últimos séculos.
Sem mais delongas, segue abaixo a transcrição da 8° carta.

Borgeby Gard, Flàdie, Suécia,
12 de agosto de 1904

Quero conversar de novo com o senhor por um momento, meu caro Kappus, embora não possa dizer quase nada que o ajude, quase nada de útil. O senhor teve muitas e grandes tristezas que passaram. E diz que mesmo esta passagem foi difícil e perturbadora. Mas, por favor, avalie se essas grandes tristezas não atravessaram o seu íntimo, se muita coisa no senhor não se transformou, se algum lugar, algum ponto do seu ser não se modificou enquanto o senhor estava triste. Só são ruins e perigosas as tristezas que carregamos em meio às pessoas para dominá-las; como doenças que são tratadas de modo superficial e leviano, elas apenas recuam e, após uma pequena pausa, irrompem ainda mais terríveis. Essas tristezas se
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acumulam no íntimo e constituem a vida, constituem uma vida não vivida, desdenhada, perdida, de que se pode morrer. Se nos fosse possível ver além do alcance do nosso saber, e ainda um pouco além da obra preparatória do nosso pressentimento, talvez suportássemos as nossas tristezas com mais confiança do que nossas alegrias. Pois elas são os instantes em que algo de novo penetrou em nós, algo desconhecido; nossos sentimentos se calam em um acanhamento tímido, tudo em nós recua, surge uma quietude, e o novo, que ninguém conhece, é encontrado bem ali no meio, em silêncio.
Acredito que quase todas as nossas tristezas são momentos de tensão, que sentimos como uma paralisia porque não ouvimos ecoar a vida dos nossos sentimentos que se tornaram estranhos para nós. Isso porque estamos sozinhos com o estranho que entrou em nossa casa, porque tudo o que era confiável e habitual nos foi retirado por um instante, porque estamos no meio de uma transição, em um ponto no qual não podemos permanecer. É por isso que a tristeza também passa: o novo em nós, o acréscimo, entrou em nosso coração, alcançou seu recanto mais íntimo e mesmo ali ele já não está mais – está no sangue. E não

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percebemos o que houve. Seria fácil nos fazer acreditar que nada aconteceu, no entanto nos transformamos, como uma casa se transforma quando chega um hóspede. Não somos capazes de dizer quem chegou, talvez nunca cheguemos a saber, mas vários sinais indicam que o futuro entra em nós dessa maneira, para se transformar em nós muito antes de acontecer. Por isso é tão importante estar sozinho e atento quando se está triste: porque o instante aparentemente parado, sem nenhum acontecimento, no qual o nosso futuro entra em nós, está bem mais próximo da vida do que aquele outro ponto, ruidoso e acidental, em que ele acontece como que vindo de fora. Quanto mais tranqüilos, pacientes e receptivos formos quando estamos tristes, tanto mais profundo e mais firme o modo como o novo entra em nós, tanto mais fazemos por merecê-lo, tanto mais ele se torna o nosso destino. Assim, quando em um dia distante o novo “acontecer” (ou seja: sair de nós e aparecer para os outros),estaremos intimamente familiarizados com ele e nos sentiremos próximos. É necessário que isso ocorra. É necessário – e dessa maneira se dá aos poucos a nossa evolução – que não experimentemos nada de estranho, mas apenas aquilo que nos pertence

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há muito tempo. Já foi preciso modificar tantos conceitos relativos ao movimento, e também se aprenderá gradativamente que vem de dentro dos homens aquilo a que damos o nome de destino, não se trata de algo que entra neles partindo de fora. Muitos destinos não foram absorvidos pelos homens, não foram transformados enquanto viviam neles, só por isso eles não foram identificados como algo que era proveniente dos próprios homens. O acontecimento aparecia como algo tão estranho, que eles, em seu espanto confuso, julgavam que ele tinha surgido neles exatamente naquele instante, pois juravam nunca ter encontrado nada semelhante em si mesmos. Assim como, por muito tempo, os homens se enganaram a respeito do movimento do sol, eles ainda se enganam quanto ao movimento do porvir. O futuro permanece firme, caro senhor Kappus, mas nós nos movemos no espaço infinito.
Como isso não seria difícil para nós?
Voltando ao assunto da solidão, fica cada vez mais claro que no fundo ela não é nada que se possa escolher ou abandonar. Somos solitários. É possível iludir-se a esse respeito e agir como se não fôssemos. É tudo. Muito melhor, porém, é perceber que somos solitários, e partir exatamente

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daí. Com certeza acontecerá de sentirmos vertigens, pois todos os pontos em que nossos olhos costumavam descansar nos são tirados, não há mais nada próximo, e toda distância é uma distância infinita. Quem fosse retirado de seu quarto, quase sem preparação ou transição, e posto nas alturas de uma grande montanha, necessariamente sentiria algo semelhante: uma insegurança sem igual, um abandono ao inominável quase o aniquilariam. Ele pensaria estar caindo ou sendo arrastado pelos ares ou destroçado em mil pedaços. Seu cérebro precisaria inventar uma mentira enorme para captar e esclarecer a situação de seus sentidos. É assim que se modificam, para quem se torna solitário, todas as distâncias, todas as medidas; dessas modificações, há muitas que ocorrem repentinamente. Como para aquele homem no pico da montanha, surgem então imaginações inabituais e sensações estranhas, que parecem ultrapassar a medida do que se pode suportar. No entanto é necessário que vivamos também isso. Precisamos aceitar a nossa existência em todo o seu alcance; tudo, mesmo o inaudito, tem de ser possível nela. No fundo é esta a única coragem que se exige de nós: sermos corajosos diante do que é mais estranho, mais maravilhoso e mais

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inexplicável entre tudo com que nos deparamos. O fato de os homens terem sido covardes nesse sentido causou danos infinitos à vida; as experiências que são chamadas de “fenômenos”, todo o suposto “mundo dos espíritos”, a morte, todas essas coisas tão familiares para nós foram tão excluídas da vida, por meio de uma atitude cotidiana defensiva, que os sentidos com os quais poderíamos apreendê-las se atrofiaram. Sem falar em Deus. Mas o medo do inexplicável não empobreceu apenas a existência individual, também as relações entre as pessoas foram limitadas por ele, como que transferidas do leito de um rio de infinitas possibilidades para um local ermo da margem, onde nada acontece. Pois não é apenas a indolência que faz as relações humanas se repetirem de modo tão monótono e sem renovação de caso a caso, é a timidez diante de qualquer experiência nova, imprevista, para a qual não nos consideramos amadurecidos. Mas apenas quem está pronto para tudo, quem não exclui nada, nem mesmo o mais enigmático, viverá a relação com uma outra pessoa como algo vivo e irá até o fundo de sua própria existência. Pois, se pensamos a existência do indivíduo como um cômodo de dimensões maiores ou menores, revela-se que a maioria de

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nós só chega a conhecer um canto de seu quarto, um local perto da janela, uma faixa na qual se anda para lá e para cá. Contudo, é muito mais humana do que essa segurança aquela incerteza, cheia de perigos, que leva os prisioneiros dos contos de Poe a tatearem as formas de seus cárceres aterrorizantes e a não serem alheios aos horrores indizíveis de sua permanência ali. E no entanto nós não somos prisioneiros. Não há armadilhas e emboscadas armadas em torno de nós, nada que nos devesse angustiar ou perturbar. Estamos lançados na vida como no elemento ao qual correspondemos melhor, além disso nos tornamos, por meio de uma adaptação de milhares de anos, tão semelhantes a essa vida que, por um mimetismo afortunado, se nos mantivermos quietos, quase não nos diferenciaremos daquilo que nos cerca. Não temos motivo algum para desconfiar de nosso mundo, pois ele não está contra nós. Caso possua terrores, são nossos terrores; caso surjam abismos, esses abismos pertencem a nós; caso existam perigos, então precisamos aprender a amá-los. Se orientarmos a nossa vida segundo aquele princípio que nos aconselha a nos aferrarmos sempre ao que é difícil, o que agora nos parece ser muito estranho se tornará o que há de mais familiar e

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confiável. Como poderíamos esquecer aqueles antigos mitos que se encontram nos primórdios de todos os povos, os mitos sobre os dragões que, no último momento, transformam-se em princesas; talvez todos os dragões de nossa vida sejam princesas, que só esperam nos ver um dia belos e corajosos. Talvez todo terror não passe, em última instância, do desamparo que requer nossa ajuda.

Assim, não é preciso se assustar, meu caro Kappus, quando uma tristeza se ergue à sua frente, tão grande como o senhor nunca viu; quando uma inquietação passa por sobre as suas mãos e perpassa todas as suas ações, como a luz e as sombras das nuvens. É preciso pensar que acontece algo com o senhor, que a vida não o esqueceu, que ela segura sua mão e não o deixará cair. Por que o senhor pretende excluir de sua vida qualquer inquietude, qualquer dor, qualquer melancolia, sem saber o que essas circunstâncias realizam? Por que perseguir a si mesmo com estas perguntas: de onde pode vir tudo isso e para onde vai? No entanto, o senhor sabe que está em meio a transições e não desejaria nada mais do que se transformar.
Se algum dos seus procedimentos for doentio, considere que a doença é um meio com o qual o organismo se liberta de corpos estranhos;

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por isso é apenas preciso ajudá-lo a estar doente, a assumir e ter sua doença por completo, pois é esse o seu curso natural. Agora acontece tanta coisa em seu íntimo, meu caro Kappus. É preciso ter paciência como um doente e ter confiança como um convalescente, pois talvez o senhor seja ambas as coisas. Mais ainda: o senhor também é o médico que tem de tratar de si mesmo. Mas em toda doença há muitos dias em que o médico não pode fazer nada além de esperar. E é isso, mais do que qualquer outra coisa, que o senhor, por ser seu próprio médico, precisa fazer agora.
Não se observe demais. Não tire conclusões demasiado apressadas daquilo que lhe acontece; deixe simplesmente as coisas acontecerem. Senão facilmente chegará a considerar com censuras (morais) o seu passado, que naturalmente tem participação em tudo aquilo com que o senhor se depara agora. Mas, dos erros, desejos e nostalgias de seu tempo de menino, o que atua agora em sua pessoa não é o que o senhor tem na memória e reprova. As relações extraordinárias de uma infância solitária e desamparada são tão difíceis, tão complicadas, submetidas a tantas influências, e ao mesmo tempo tão desligadas de todas as circunstâncias reais da vida, que quando surge um

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vício não se deve dar a ele sem mais o nome de vício. Em geral, é preciso ter muito cuidado com os nomes; muitas vezes é o nome de um crime que destrói uma vida, e não a própria ação, pessoal e inominada, que talvez fosse uma necessidade muito determinada dessa vida e pudesse ser acolhida sem esforço por ela. O dispêndio de energia só lhe parece tão grande porque senhor superestima a vitória; não é ela a “grandiosa” realização que o senhor pretende ter conseguido, embora tenha razão com relação a seu modo de sentir; o grandioso é o fato de haver algo ali que o senhor pôde colocar no lugar daquele engano, algo de verdadeiro e real. Sem isso, mesmo a sua vitória teria sido apenas uma reação moral, sem um significado amplo, mas dessa maneira ela se tornou uma parcela da sua vida. Da sua vida, caro senhor Kappus, na qual penso fazendo tantos votos. Lembra-se de como essa vida aspirava desde a infância pelos “grandes”? Vejo como ela agora parte dos grandes para aspirar pelos maiores. É por isso que ela nunca deixa de ser difícil, mas também é por isso que nunca deixará de crescer.
Se ainda posso acrescentar algo, é o seguinte: não acredite que quem procura consolá-lo vive sem esforço, em meio às palavras simples e tran-

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qüilas que às vezes lhe fazem bem. A vida dele tem muita labuta e muita tristeza e permanece muito atrás dessas coisas. Se fosse de outra maneira, nunca teria encontrado aquelas palavras.

Seu,
Rainer Maria Rilke

RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta. Trad.: Pedro Süssekind. Porto Alegre: L&PM Pocket Plus, 2006, p. 72-82.

Multidão é a solidão do egoísmo

Multidão é a solidão do egoísmo

Apenas não parece fazer diferença.
Do mundo, não herdei crença nem dispensa.
Amor mundi jaz como fato nessa desgraça.
Não sou nada do que você pensa.

E confusos seguimos por espaços
Arquivados. Um vazio guardado
Para ser saboreado
Como ilusões adornadas em laços.

Eu que já de mim nunca soube,
Ando sem acasos para evitar
Escusos egoísmos d’um sopro vulgar.

As ruas clamam por uma verdade
Mas só exprimem
A solidão, que me acolhe com serenidade.

André Luiz Ramalho da Silveira

Mário Quintana – A Rua dos Cata-ventos XXII

Mário Quintana – A Rua dos Cata-ventos

XXII

Vontade de escrever quatorze versos…
Pobre do Poeta!… É só pra disfarçar…
Andam por tudo signos diversos
Impossíveis da gente decifrar.

Quem sabe lá que estranhos universos
Que navios começaram a afundar…
Olha! Os meus dedos, no nevoeiro imersos,
Diluíram-se… Escusado navegador!

Barca perdida que não sabe o porto,
Carregada de cântaros vazios…
Oh! dá-me tua mão, Amigo Morto!

Quê procuravas, solitário e triste?
Vamos andando entre os nevoeiros frios…
Vamos andando… Nada mais existe!…