Prosa

O homem sem história

O homem sem história

Egon Schiele - Self Portrait 1912

Egon Schiele – Self Portrait 1912

No que diz respeito à existência, era costume de minha parte pensar acontecimento e vida como uma correlação essencial, de tal modo que, se não houvesse acontecimento, não haveria vida. Como não me houveram acontecimentos, tinha plena convicção de que não morreria, até este momento. Não pretendo imitar a grandiosidade entediante de Machado de Assis, no seu clássico livro [Memórias Póstumas de Brás Cubas] em que a personagem principal começa a narrativa do mesmo modo que estou fazendo. Tampouco pretendo escrever um livro, e já peço de antemão as devidas desculpas pelo preâmbulo não muito elegante. Gostaria, por fim, não de narrar minha morte, tampouco minha vida, sem acontecimentos. Gostaria, sim, de escrever sobre o interlúdio. Peço desculpas pelas expressões não tão usuais, mas, é o modo que encontro para falar de “vivências” não tão comuns. Gostaria de falar sobre um existir que desacontece, isto é, esse âmbito da vida que nos faz duvidar dela mesma, de nossa existência, do sentido em geral.
Passarei a palavra, então, ao narrador.
Olhava para o chão, entristecido. Apenas por um momento. Logo se recobrava de sua típica alegria. Ainda estava sujo, com terra nas mãos e um pouco dentro dos calçados, que eram da mesma cor daquela terra seca. Foi parar ali por obra da necessidade. Resmungava para si mesmo, enquanto apertava insanamente contra o peito a mão direita enlaçada num crucifixo de metal: “nada há no mundo além da necessidade…”.
Em uma metrópole como São Paulo há muita vida, muitos acontecimentos, muito artifício maquinal dando suporte às relações impessoais que controlam a existência invisível de todos. Em todas as cidades há isso. Mas, nas maiores metrópoles, isso ocorre de uma forma completamente caótica, ou bela, como dizem alguns. Flores e violência, amor e preconceito e todas essas coisas que acontecem com as pessoas. Jarbas Arbelindo, o protagonista dessa narrativa, tinha uma vida semelhante à de qualquer outro cidadão, com as peculiaridades que fizeram ele o protagonista da narrativa e não outro personagem.
Morava na metrópole há aproximadamente dez anos. Queixava-se sempre da mesma situação, isto é, da falta de acontecimentos em sua vida. Embora tenha viajado clandestinamente da África ao Brasil, de ter sido fotógrafo amador na bizarra experiência cultural feita pelas grandes potências no Haiti, e de nos últimos anos trabalhar em um sebo bem conceituado da capital cosmopolita bandeirante, autoproclamados como os mais brasileiros entre todos os brasileiros, ainda lhe era um hábito bradar bêbado que Deus o tinha feito para não viver. Apesar do drama, falava sempre rindo.

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Acreditava que tudo que fazia era por necessidade. Toda sua vida havia sido um contínuo de eventos determinados, que o expulsava de si mesmo enquanto agente que realiza escolhas. Era muito cristão, também. Sabia que, no fundo, era sua fé que o guiava, apesar de saber que nunca morreria. Apesar de crer que sabia que nunca morreria, de conceber sua existência como uma eternidade permanente, imutável, isso não lhe garantia qualquer segurança para decisões práticas. Ao bem da verdade, fazia alguns anos que tomava a realidade como uma espécie de ficção, da qual bastaria entrar no jogo e interpretar as regras, ainda que essas regras mesmas não sejam feitas nem pelo jogo nem pela realidade. Deste modo, ao invés de deprimir-se morbidamente pela falta de liberdade prática, apenas seguia a metafísica, como o absoluto andando a cavalo – para usarmos uma metáfora hegeliana.
A memória, é preciso ter isso em mente, não é exatamente um trunfo para um homem sem história. Acontece que, para uma compreensão comum da realidade, os pensamentos e a memória dos acontecimentos podem relatar exatamente a realidade desses acontecimentos, como se funcionassem como impressões fotográficas de algo que está aí por si mesmo. Contudo, nesse sentido comum, verdades não passam de interpretações e preconceitos que articulam esses mesmos fatos. É preciso ter isso em mente. Ora, é preciso ter isso em mente porque a vida de Jarbas era, para ele mesmo, uma ficção. Uma ficção e que ele acreditava fielmente, mas, uma ficção. Em outros termos, uma vida como qualquer outra.

Jarbas gostava de arriscar a vida, para testar a sorte. Mas, testava-a sempre com muita cautela, afinal pensava não ser prudente sobreviver à vida estando em partes. Estava atrás de acontecimentos, mas sempre tomando medidas para que eles não acontecessem. Desse modo, conseguia sempre o feito de ser um antagonista consciente nas próprias ações. Fazia o mesmo quando se tratava de questões sentimentais, com a diferença que a proteção contra os acontecimentos rivalizava belicamente com a vontade de participar dos acontecimentos. Jarbas vivia como uma experiência de si mesmo. Mas, é preciso que se diga, tinha muita sorte e Deus a seu lado.

Escher

Escher

Como a existência é abençoada! – pensava Jarbas. Certa vez, Jarbas começou um namoro porque, ao atravessar uma rua muito movimentada, correu fora da faixa de pedestres e, vendo que os carros pararam e ficaram no aguardo de sua travessia, fingiu ser um robô e repetiu o percurso umas duas vezes, até ser atropelado. Quando levantou, percebeu que não havia se machucado gravemente e, sempre de olho em seu estado de graça divina, apenas sorriu e agradeceu o motorista, que ali já não estava. Começou o namoro porque algumas moças viram o acontecido e riam muito, até o atropelamento. Depois, como que socialmente justificado para sentir prazer por sentirem pena dele, fez disso um charme e acabou em relação com Alardina Trambolho. Logo terminaram, afinal um relacionamento precisa ter um bom começo para que dure.

Antes de se encontrar no momento relatado ao início, Jarbas saiu de seu trabalho, com um velho livro contra o peito, e em alguns passos já se ofuscava na multidão de sem-nomes. Parou em algum bar para tomar uma cerveja, de preferência em algum lugar limpo e higienizado – o que, segundo Arbelindo, era uma árdua tarefa. Após isso pensou que era hora de voltar para seu lar. “À caminho do calvário”, pensava rindo-se sem crer muito no que fazia.

Pelo caminho comum, pegaria o metrô na estação Praça da Árvore e iria até São Bento. Ao invés disso, preferiu caminhar uma parte do trajeto. Garoava. Pensou que não se molharia, porque a água rala lhe cobria a face engraçadamente carrancuda e iria vivar vapor, como toda questão de física. Derretendo assim, levemente ébrio com cerveja aguada, embrenhou-se na garoa já espessa em um começo de noite primaveril. Ou seria outono? Talvez verão, mas, não importa. Após sentir as têmporas esquentarem, sofreu um empurrão decorrente de uma quase briga que ocorreu ao seu lado. Não se machucou, mas, acabou caindo em uma poça rasa de lama, enlamaçando-se. Se era razoável a seriedade que seu corpo passava, agora com a cara e roupas sujas, tinha um ar estranho e talvez assustador. Pegou o metrô e desceu na estação que mais lhe aproximava de seu lar.

Chegou à estação São Bento após um tempo curto. Não quis se limpar durante todo esse trajeto, não acreditava muito na sujeira. Apenas queria terminar o calvário. Apesar de calculada apatia, Jarbas inclinava-se cada vez mais a querer conhecer o que as pessoas chamam de fé. Contudo, Jarbas apenas conseguia se aproximar desse âmbito da existência de um modo calculado, não conseguia parar de fazer projeções. Cria tanto na realidade, que toda verdade, por ele entendida como verdade irredutível e empírica, baseava-se na observação. Dessa forma, ele acreditava que não morreria, que não se molharia, enfim, que o mundo acontecia a partir dele. Em uma cidade como São Paulo, crenças metafísicas são comuns, pois é assim que se sustenta o mito da intersubjetividade nas grandes metrópoles.

Goya

Goya

Após caminhar durante dez minutos mais ou menos, Jarbas avistou uma grande Igreja Católica, que ficava na rua de sua casa. Atravessou a rua, com o barro já secando em sua cara, ainda que garoasse. Eram 18h. Saíam da Igreja alguns fiéis: beatas, mulheres submissas, cidadãos de bem, muitos sofredores, dois filósofos, alguns bêbados, algumas crianças obrigadas pelos pais, alguns pais obrigados pelas crianças que estavam entrando na puberdade, alguns velhos que iam aplacar o tédio, e alguns playboys que precisam se confessar regularmente, a fim de manter a conta em dia. Jarbas abraçava o seu velho livro prefiro: Eneida, de Virgílio. Andava tropegamente desviando dessas pessoas. Estava um tanto atordoado. Até que, em um momento de descuido, uma dessas crianças que obrigaram os pais a irem à Igreja empurrou Jarbas e, este achando que não cairia porque só cai quem voa, caiu de cara em seu livro Aeneis ao tropeçar em si mesmo. Jarbas levantou, pegou seu livro que parcialmente se rasgou, arrumou sua roupa suja, tirou o barro do olho, riu para as pessoas a sua volta, e deu um chute nos peitos do quase adolescente que o derrubou. Ao fazer isso, perdeu o equilíbrio e quase caiu novamente.

Seu corpo torceu-se para a direita, segurando o livro com o braço do mesmo lado, e caiu de joelhos. No mesmo movimento, quando foi levantar-se, foi golpeado por um cidadão de bem, e por um playboy com a consciência tranquila. Os bêbados faziam apostas, as mulheres submissas imitavam o que seus esposos cidadãos de bem graciosamente machistas faziam, que era justamente apontar para Jarbas e dizer que o marginal devia apanhar. Os sofredores se apiedavam em seu solipsismo, enquanto os filósofos xingavam os playboys, que também batiam nos filósofos. As crianças ficaram protegidas do agressor que apanhava, e as beatas batiam em Jarbas com seus guarda-chuvas.
A polícia ameaçou a chegar e o público dispersou. Nesse meio tempo, Jarbas foi ajudado por algum anônimo que, no rápido momento aproveitou pra surrupiar algum dinheiro da carteira de Jarbas como pagamento. Ele foi arrastado e largado em um canto parcialmente camuflado, perto de sua casa, em um terreno razoavelmente vazio.

Acordou no outro dia com sol no rosto, sem ninguém a sua volta, ensimesmado e sobre si mesmo, duro da água que secou sobre seu corpo, e da terra a estalar sob seus olhos. Acordou, apertando firme seu crucifixo, pois sabia da importância de Deus caso um dia decidisse por morrer. Sentia que esse era o momento do encontro de sua falta de história com um fim não registrado. Sabia que apenas Virgílio lhe seria testemunha, que após Troia nada mais fazia sentido. Que, após o nascimento do ocidente, tudo jazia para o mesmo lugar, talvez para o nada, ou para alguma divindade. Mas, para pessoas que são sem história, que parcialmente vivem na ficção, esses caminhos sempre serão caminhos alheios. Revirou-se, ainda deitado, para ficar de frente para o sol. Como que em uma revelação mística, teve certeza de sua existência naquele momento… sorriu pra si mesmo, e falou: “nada há no mundo além da necessidade…”.

Piazza del Popolo

Piazza del Popolo

André Luiz Ramalho da Silveira

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À meu amigo, Raskólnikov

Do fim do mundo
De quando o tempo ainda não destruiu o ser.

À meu amigo, Raskólnikov¹ [ver nota ao fim da carta]
(Parte I )

Prezado senhor,

Não sei se nosso tempo ainda permite a contação de histórias, isto é, o ato de contar histórias. Mas, meu amigo, sei o quão perigoso é não conta-las. Havia muito tempo que esta carta deveria ter sido escrita. Mas, quem somos nós para saber do tempo das coisas. Ou melhor, do tempo dos eventos. De todo modo, meu caro, não é exatamente um relato que pretendo aqui fazer. A existência é muito pesada para aguentar sozinho seu fado. Não, não estou aqui para dividir o seu fado. Entendo que há cargas que podem ser compartilhadas, pois somos pessoas e temos amigos, famílias, etc. Contudo, falar disso com você seria perda de tempo. Eu quero aqui falar dessa carga intransferível, meu amigo. Essa que, o máximo que podemos fazer é questioná-la, narrar nossa história para amenizar e dar uma beleza maior a esse peso injustificável. Clandestinamente percorro caminhos em direção à eternidade. Mas, você bem sabe o que é ser um abismo em si mesmo, meu caro. Em breve posso tornar-me poeira. Só faremos sentido quando este tempo findar. Que esta carta, então, mantenha a história, e conserve nosso tempo.
Meu caro Rodka – tomo aqui a liberdade de chama-lo tal como era você chamado pelos seus bravos -, esta carta não é um desafio intelectual, tampouco uma narrativa grandiosa sobre uma realidade enfeitada. Escrevo-lhe sim porque, além do fato de eu já externar isso sobre o que eu tenho a lhe dizer, penso que tudo o que está dito aqui é o mesmo que você pensa sobre o mundo.

Picasso - refeição do homem cego

Picasso – refeição do homem cego

 

Não sei muito bem como começar as coisas. Acho que, de certo modo, há uma impotência tão grande para certos seres que qualquer ato de compreensão é uma ousadia contra a divina criação. Teríamos nós o poder de criarmos algo excluindo o arrependimento quase que visceral à ação? Já não me sinto perdido. Escrevo-lhe com uma idade mais avançada da qual tinha você quando aceitou ser preso. Não falarei muito mais sobre esse assunto, apenas penso que sua decisão foi muito além de um mero arrependimento moral, ou mesmo por represálias sociais – num sentido muito amplo, veja bem. Não quero aqui, também, arriscar linhas erradas sobre sua pessoa. Digo isso por pensar ser insustentável para você conseguir cuidar de si próprio e daqueles aos quais se importavam com você. Insustentável porque tudo é insustentável quando a única coisa que temos é a liberdade existencial, de nosso ser.

A fome e o frio não devem se aliar com a liberdade. Ao menos, não é justo que assim seja. Liberdade é a condição para que consigamos cuidar de nós próprios, e a partir disso, cuidar daqueles a quem cultivamos algum apreço. Sei que, apesar de você não admitir, a limitação e o trabalho da prisão fizeram sua vida menos terrível do que aquela antiga vida de jovem pobre compassivo e asperamente inteligente. Gostaria, antes de qualquer coisa, lhe agradecer por ter feito o que fez, meu caro Rodka. É verdade, disse que não falaria mais desse assunto. Todavia, vamos fazer assim, deixarei apenas como pano de fundo. Melhor dizendo, não é possível dizer que os acontecimentos da vida são apenas questões externas à própria existência, pois a despeito dessas questões e eventos serem determinados pela nossa condição enquanto seres humanos, elas determinam nosso acontecer enquanto seres históricos e temporais. Perdão por falar demais sobre essas questões não tão importantes, mas se há alguém que pode entender o valor quase que intrínseco dos pressupostos, é você, caro Rodka.

Ademais, não julgarei suas reações imediatas e posteriores ações ao assassinato. Somente por você ter feito o que fez é que hoje podemos pensar que há uma linha tênue que não se deve ultrapassar, para que ainda continuemos minimamente humanos. Aliás, não apenas isso… pois você continuou humano, mesmo antes do arrependimento – talvez mais antes do que depois. Quero apenas deixar explícita minha compreensão vaga do momento em que você foi acometido pela cólera do abismo. A pobreza, Rodka, a pobreza é o mal do mundo. Não, não… a vontade, o querer… o querer a pobreza material é o mal do mundo. A pobreza enquanto condição existencial é a situação mais reveladora da existência. Desnudar-se e sermos apenas o que somos, nadas ocorrentes na história. Seres que se multiplicam, criando coisas e justificando essas coisas, apenas para fugir do nada. A pobreza é o caminho para a verdade. Mas, note bem, não sou franciscano, nem sou purista, nem ortodoxo, nem conservador, enfim, não sei o que sou. A hipocrisia também é um preço a se pagar pela sobrevivência. Apenas noto que a condição de fuga, dessa estranheza pela perpétua falta de um lar, tanto material quanto existencial, é o nosso chão, nosso fundamento enquanto bípedes que almejam a divindade. Mas, ainda olho… visar o abismo em meio ao nada.

Caravaggio - Narcis

Caravaggio – Narciso

Entendo sua vontade de pular no abismo, sem antes abraçá-lo. A justiça também ocorre por meio da injustiça. A despeito do merecimento ou não merecimento, é complicado nos darmos o direito de decidir sobre a vida de outras pessoas, de tirar outras vidas. Não penso também que você tenha feito isso somente por causa de ou em um estado de desespero. Certamente havia também uma espécie de ato singularizado – ainda que não explícito para você mesmo -, um ato que representaria uma justiça encarnada contra todo o mal do mundo, naquele momento.

Não compreendo – na verdade é óbvio que compreendo, mas digo assim por vício da língua – como as pessoas encaram a própria solidão. Como o encontro consigo mesmo pode ser encarado como algo tão estúpido e artificial? Tudo bem que se fosse um encontro natural também não nos adiantaria. Mas continua sendo estupidez. Não sei se há mesmo escolhas possíveis quando se tem essa vida que temos. Tudo parece ser fruto de uma vontade, uma força irracional. Se tivermos compreensão e coragem para assumi-la, não haverá escolhas. O possível foge da necessidade. No entanto, essa existência gratuita e sem propósito. Diga-me, caro Rodka, qual o porquê de tudo isso? O mesmo ocorre com a morte… Encaram a morte como o próprio fim, mas não encaram a solidão como sendo a si mesmos. Não que eu faça muito diferente, mas isso não é exatamente uma questão de crença. Claro, falo de crença em um sentido de convicção, talvez. Não gosto de convictos, a verdade objetiva é frágil demais pra que se tenha tanto zelo por ela. Não defendo aqui a ausência de sentido pelo absurdo da existência. Mas, é um fato que, ao menos pra nós, nascidos praticamente sem história, tendo como legado o abismo niilista, tendo que assumir a si mesmos como quem assume o mundo, numa roleta russa com a fortuna – talvez por isso sua situação não tenha sido ainda pior, tendo em vista sua “russidade” -, ao menos pra nós nada disso é justificável, tampouco agradável.

Ademais, com o passar desses anos tortos o mundo virou para mim uma espécie de ficção parcial, meu caro Rodka. Sinto-me como se toda sinceridade que tivesse em meu ser se esgotasse nessa relação. Explico-me melhor. Como se, não, não… Na relação comigo mesmo, é como se fosse gasta toda sinceridade de que disponho. Nessa relação e na minha relação com o mundo da arte ou com essa filosofia. Não é que eu minta para os outros, caro Rodka. Mas, o resto do mundo se esvai nesse jogo, uma espécie de abismo que nos absorve e nos condena à completa falta de liberdade. Se a história do tempo for, quer dizer, se a história pertencer mesmo ao tempo, isso não deve ser eterno. Mas, cá entre nós, seria essa história mesmo assim? Tenho medo da eternidade, meu caro. Mas, assim como sobrevivi à morte, sobreviverei à vida.
Para finalizar, por agora… Sei que você não me responderá estas cartas, Rodka, mas, faço questão de enviá-las. Já faz algum tempo que não saio de meu subsolo. Confesso certo alívio ao externar essas palavras para alguém que me compreenderá. Assim que eu puder, enviarei a próxima.

 

Com todo reconhecimento e simpatia,
Alguém ainda sem nome.

 

 

1 – Esta carta pode ser entendida como um fragmento que, somada a outras cartas, constitui ou pode constituir um importante documento de caráter literário e histórico. Estes documentos tratam da relação entre esse desconhecido com Rodion Românovitch Raskólnikov, personagem que escapou da obra ficcional russa de Dostoievski e que se encontra perdido atualmente em várias partes do mundo. Ao que se sabe, estes documentos foram encontrados por Astolfo Cisma dos Santos, residente em uma pequena cidade no estado do Rio Grande do Sul, Brasil. Astolfo, segundo consta em seu depoimento, após a entrega dos documentos às autoridades locais – que pensavam se tratar de documentos codificados que continham informações sobre o tráfico de drogas para os internos da ala psiquiátrica do Hospital da pequena cidade – jurou conhecer o paradeiro de Raskólnikov. Contudo, após algumas horas de incômodos, teria sido liberado com a condição de não falar mais no assunto. Os presentes arquivos encontram-se na Biblioteca Sazonal da Guarda do Ser, em uma cidade próxima a que reside o Sr. Astolfo, e foram traduzidas por um seleto grupo de uma universidade que possui contatos com a tal biblioteca.
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André Luiz Ramalho da Silveira

Astolfo e a superação da metafísica (ou sobre como irritar os leitores)

Astolfo e a superação da metafísica (ou sobre como irritar os leitores)

Libélula

Na rodoviária de uma cidade parcialmente escondida entre outras cidades também parcialmente escondidas por outras cidades – cidades tão invisíveis quanto seus habitantes -, em alguma dessas tardes em que o sol esquece a hora de partir, estava Astolfo Cisma dos Santos. Claro, havia outras pessoas. Sempre há. Também havia libélulas, vivendo como se vivem as libélulas, despertando a fantasia e os mitos que, por vezes, suspendem as pessoas da realidade. Também havia o calor. Contudo, ainda que ele fosse excessivo, a sensação de não pertencimento ao mundo – sentimento acentuado pelo local transitório em que estava -, não se eliminava com o suor.

(Essa impressão de ser jogado em meio a um vazio completo, que vem de sobressalto e faz todos os projetos ruírem, não se assemelha com o desespero concernente a alguma tragédia. Não está em questão se essa impressão é ou não agradável, pois essa impressão de mundo não é apenas um atributo psicológico. Se de fato for algo que diga respeito à relação de todo ser humano com o mundo, de uma identidade própria e de como se dá o reconhecimento na alteridade, essa cisão com o mundo só é possível de ser interpretada psicologicamente porque ela tem sua origem na constituição mais própria do ser humano. Explico-me melhor. Essa cisão revelada pela angústia mostra que o ser humano é um nada jogado em um mundo que ele não dá conta, e que é preciso assumir promissórias das quais ele não foi o responsável por criar. Por vezes, esse estranhamento tira a pessoa de órbita e todo o significado de seu mundo entra em colapso. O mais incrível não é exatamente que isso seja assim, mas, o extraordinário é justamente como sempre o ser humano consegue, ainda que quebrado no tempo, recomeçar a partir do nada a reconstruir sua identidade. Isso ocorre em todos os âmbitos da existência. Não porque a realidade é exatamente dessa forma, ou possível de ser descrita assim, tampouco porque seja uma ilusão. Em verdade, o mundo que compartilhamos é uma nuvem mantida impessoalmente e que, na maioria das vezes, é deixada de ser interpretada pela maioria de nós. Mas, ainda somos homens de bem. Tudo retorna ao seu lugar).

Van Gogh - Jardim de Inverno (desenho a lápis e pena, 1884).

Astolfo não iria embarcar em quaisquer daqueles ônibus, nem em qualquer outro veículo. Voltaria pra casa do mesmo modo em que chegou naquele local, levado pelos próprios pés. “Os caminhos são mais importantes do que nossa vontade” – dizia. Estava de chinelos, bermuda e camiseta. Usava também um chapéu – a contragosto, vale dizer, mas, na guerra contra o calor, usa-se as armas disponíveis. Havia atravessado parte da cidade, nessa sua caminhada. Ele andava rápido e olhava pra frente, como se precisasse vencer um inimigo. Passava quadras a fio, contava os próprios passos, e se confundia entre ações e pensamentos. Apenas algo de fixo em seus pensamentos: livrar-se do veneno.

Essa visceral e destrutiva sensação de que as possibilidades não vividas podem estar sendo vividas por outras pessoas. Essa estranha sensação de que outras pessoas podem viver na sombra de nossas vidas, com as pessoas que deixamos em algum ponto no passado. Nesse rastro que deixamos pra trás e que, em algum momento passado, por algum motivo, deixamos de encarar. Além disso, não apenas o abismo de não poder se projetar para o passado, e a consequente agonia disso, mas, a sensação de ser corroído por querer o que não pode ser (no sentido forte da palavra). Em estalos de razão, em meio à quase insanidade, pensava – a paixão pelo ressentimento: o fundamento da civilização –.

Não há muitos meios para se livrar disso. Contudo, pensava, um deles certamente é a exaustão de si mesmo. Destruir tudo, até que o sentimento cujo ressentimento é devedor seja aniquilado. E assim fazia. Caminhava, quando tinha pernas. Trepava, quando tinha companheira. Corria, quando tinha fôlego. Bebia, quando tinha dinheiro. Morria, quando existia demais. Nesse dia, apenas caminhava.

Astolfo, o gladiador. É preciso sofrer pela verdade, disseram os vários poetas, filósofos, religiosos e toda uma corja de pensadores. Há de se notar, caros leitores, por conseguinte, que a vida para muitas pessoas é sofrimento, mas, também, e por isso mesmo, é a verdade. “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”, dizia aquele poeta que dizia ser nada. Apenas acho que ele ignorou que o peso da pena é demasiado, algumas vezes.

Paremos com a enrolação. Isso já é metafísica. Mas, falando em metafísica, qual seria metafísica que assolava o nosso desiquilibrado herói? Se me permitem prosseguir o relato – se não me permitem, apenas parem a leitura –, em breve chegaremos a algum lugar.

Caminhava reticente, ainda que implacável. O inimigo era forte, um monstro, vale dizer. Era preciso criar condições adequadas para fazer com que esse mal aparecesse. Astolfo não era exatamente um atleta, de modo que não era preciso caminhar distâncias imensas pra fazer o corpo falar. Ao final de alguma distância, mais especificamente quando chegou à rodoviária, sentiu que com o suor havia saído um pouco de sua irritação e, assim, pode confrontar melhor a metafísica. Mas, não é uma batalha intelectual, apenas. Esta sombra que domina a civilização desde seu início é o que nos torna humanos. Mas, mais do que essa própria sombra constituir-se como uma das características fundamentais de nossa condição humana, o embate contra ela própria é o que o põe o ser humano à prova.

Claro que ele sentia-se assim, afinal é algo que todas as pessoas podem sentir, basta um pouco de tórrida solidão. Mas, não se enganem. Não se trata de vencer a moral de escravo, do chamado ressentimento nietzschiano. Claro, trata-se, em parte, de ter força suficiente para sustentar os próprios valores. Contudo, para nosso herói a situação não era exatamente como julgava o filósofo alemão, como veremos.

Sentou-se em uma mureta de meia altura, que em parte era abraçada pela sombra das árvores e, em parte, pelo concreto. Pediu um cigarro a alguém que passava. Fumou o cigarro. Após isso, compreendeu ser o momento de enfrentar seu inimigo. Enfrentar a si mesmo. Começava, assim, o diálogo interno:

– Ressentimento… você de volta a assombrar meus dias!?

– Não, caro Astolfo. Você é quem assombra os meus. Deixe-me continuar com a banalidade enfática e nutrir-me de seus sentimentos de desacontecimentos, que eu continuarei a lhe proporcionar a conexão com o resto do mundo.

– Mas, do que se trata, afinal? Já te venci outras vezes, te exauri como esse suor que me nubla o rosto… Por que esse abismo que nunca cessa? – replicou Astolfo.

– Esse abismo é você, Astolfo. É você e todos. Agora, quem lhe pergunta sou eu, vale a pena sofrer assim pela verdade? – perguntou o ressentimento.

– Não confunda as coisas. Já não é a primeira vez que nos enfrentamos, meu amigo. Sei que não basta fazer uma distinção conceitual para me livrar de ti. E que, enquanto eu existir, existirá o abismo e, por todo o lado, estará você.

– Vejo que você aprendeu algumas lições, nobre gladiador. Os lugares estão nas suas coisas. Mas, você não me respondeu. Vale a pena sofrer pela verdade? Por que não és hipócrita como toda a gente deste mundo?

Astolfo, que falava arqueado e ofegante, ao ouvir isso gargalhou sozinho. – Você era melhor, ressentimento. Ao menos mais esperto. Eu sei o que é ser hipócrita, porque, assim como de você, a hipocrisia é outra das incríveis qualidades humanas que é impossível de se purgar. Aliás, me ocorreu agora, a hipocrisia não teria sido originada quando você, ressentimento, foi olhado por alguém no espelho do mundo pela primeira vez? Enfim… não se trata apenas de verdade. Não quero saber da verdade. E se fosse o caso de sofrer pela verdade, eu não precisaria saber antes dessa verdade, para depois sofrer? – falava rindo.

– Tens razão, gladiador. A hipocrisia é uma de minhas consequências mais adoráveis. A mentira e a verdade, duas das ilusões ocidentais que mais me excita. Toda essa quase infinita fonte de tortura a minha inteira disposição. Você sabe disso. A questão é, que diferença isso faz? Você é só mais um insano solitário. Pensa que poderia fazer uma revolução em favor dos oprimidos pelo ressentimento? Você crê demais na humanidade, meu jovem. – Arfava com tirania o Ressentimento.

– Sei que não é possível me livrar permanentemente de você. Até porque você é parte de mim, de tudo que sou e de tudo que sinto. Uma parte terrível, é verdade, mas ainda assim é parte de mim. Te exasperei várias vezes, e farei quantas for preciso. Meu desprezo aos ressentidos – tanto os que acham que não são ressentidos quanto os que pensam ser e, assim, sentem-se justificados em agir como cretinos românticos – é maior do que o que eu tenho por você. Jamais me tornarei um desses idiotas, na defesa hipócrita de qualquer ideia apenas para fugir de si mesmo, do próprio abismo… é tudo tirania. – Nesse momento, Astolfo gritava mentalmente e gesticulava como um louco, mas de um modo muito caricato. – E mais, não sofro pela verdade, nobre ressentimento. Causam-me úlcera a estupidez e a incoerência de cada sujeito existente nessa merda de mundo. Bando de cretinos que defendem o amor, como se isso pudesse nos salvar da danação de existir! – Gritava em cólera, o gladiador; estava de pé e gesticulava sozinho. Após isso, ficou em silêncio em torno de um minuto, respirando fundo e tentando e acalmar. Continuou, agora pensando mais baixo. – Claro, de fato o amor pode nos salvar da danação, para quem com isso é verdadeiramente agraciado. Mas, isso ocorre mesmo? É um tiro no escuro, meu amigo… Ódio é o que sinto por tudo isso, mas, também, odeio o fato sentir ódio. Tudo se anula. E sinto que só não o abracei ainda porque mantenho em mim um amor misterioso, que não consigo justificar e tampouco me desfazer. Não gosto disso, não gosto de esperança… isso só causa-me dor e tédio, como já dizia aquele alemão – Astolfo se referia ao filósofo alemão Arthur Schopenhauer -. Só consigo pensar que o caminho para o nada é a exasperação de toda posição. Nada vence o nada, meu amigo. Agora me deixe um pouco em paz, que já estou muito cansado. – Completava Astolfo, completamente exausto, estirado em um banco.

Libélula gigante - fóssil

Para não perder o hábito, Astolfo rascunhou esse diálogo em algumas linhas. Fez também para lembrar-se de como se enfrenta esse inimigo impiedoso. Não é sempre que se ganha. Ou melhor, não é sempre que se perde. Ficou mais uma hora naquele local, parado e em estado de êxtase, observando as libélulas formarem aquela imagem surreal, que mais parecia um portal para algum mundo diferente. Um mundo de fantasia, que somente os seres humanos conseguem visualizar. Não por alguma elevação espiritual, mas sim porque somente os seres humanos são cindidos. No fim das contas, apenas permanecem as ideias e as libélulas.

André Luiz Ramalho da Silveira

O coveiro do Jardim dos Sonhos

O coveiro do Jardim dos Sonhos

Em uma cidade nem muito pequena, nem muito grande, no interior de uma federação nem muito grande, nem muito pequena, na região sul do Brasil, vivia um senhor chamado Alessandro Sermani. Nasceu, permaneceu e, possivelmente, morreu. De certo modo, viveu uma vida como qualquer outra pessoa, de qualquer outra cidade. Então, por que contar uma história comum, sem qualquer importância? Não farei malabarismos teóricos para justificar a escolha, caros leitores. Atento apenas ao fato que uma vida por si só não possui qualquer sentido senão àquele projetado e interpretado nessa mesma vida. Por vezes, esse sentido só é compreendido na posteridade por outras pessoas. Há quem exista apenas para a posteridade, ainda que disso não tenha consciência.

Sandman

Sandman

Começarei a história pelo começo. Aos seis anos de idade, Alessandro teve seu primeiro contato com a morte. Ao menos, o primeiro que teve grande significado. Seu cachorro Osório morrera envenenado, prestes a completar a primeira década de vida. Na ocasião, seus pais queriam desfazer-se do corpo do cão em algum local deserto, ou algo nesse sentido. Contudo, Alessandro insistiu que Osório fosse enterrado no pátio de sua residência. Depois do cachorro, foram dois gatos e um pássaro, até os dezessete anos. Alessandro enterrava seus animais não apenas com a obsessão justificada pelo luto de manter junto a si alguém que morreu, mas, sobretudo, com o zelo de quem quer preservar uma história. Fazia isso de tal modo que, desde a morte do seu cachorro, adquiriu o hábito de criar convites de enterro de conhecidos e distribuir nos postes de luz de seu bairro. Com o passar dos anos, descobriu que as funerárias locais faziam o mesmo.

Certa feita, um dia estava a passar em frente a um velório. Nunca havia entrado em um velório de gente. Decidiu entrar. Ele completava recém seus quinze anos, e faziam uns 39°C. O local era frio como o morto, para alegria dos vivos. Já dentro do local, apercebeu-se que algo ali lhe agradava. Não era bem um interesse particularmente egoísta, mas uma curiosidade misturada com algum grau de responsabilidade por contar a história daquele que já não mais existia. A partir daí, compareceu a diversos velórios. Preferencialmente de desconhecidos. Nada parecia mais verdadeiro do que a morte e a subsequente história que se conta após isso. Não se sabe se esse estranho gosto deixava Alessandro sombrio, mas o fato é que quanto mais compreendia a existência, mais a solidão aumentava.

Alguns anos após comparecer ao primeiro velório terminou o ensino médio e foi procurar emprego. Nada lhe agradava, não via sentido algum em qualquer trabalho. Mas, precisava de dinheiro, pois sua família não era abastada. Conseguiu alguns trabalhos temporários, até mesmo entrou para o curso de arquitetura na universidade. Gostava das formas. Por falta de dinheiro e interesse em dedicar-se exclusivamente a algo, abandonou o curso e voltou para a casa de seus pais. Conseguiu um trabalho em uma empreiteira, de modo que, ao menos por um tempo, conseguiu manter-se financeiramente. Como era muito ansioso, chegava sempre cansado ao trabalho, pois tinha dificuldade para dormir no horário correto para um trabalhador. Estava prestes a desistir novamente do trabalho, quando aos vinte e cinco anos seu velho e doente pai morreu. Um ano após, sua mãe morreu. Ambos tinham em torno de setenta anos. Escreveu um pequeno livro sobre ambos, que fora sepultado às escondidas no mesmo cemitério.

Com algumas economias e sem qualquer perspectiva de vida, Alessandro só conseguia lamentar-se por não ter sido ele a morrer. Por conseguinte, por alguns meses e enquanto o dinheiro durou, apenas dormia. Era o mais perto da morte que parecia conseguir chegar. Fechava os olhos na esperança de não mais acordar. Mas, era inútil. Se conservar esperanças era sempre ruim, nesse caso lhe era pior ainda. De todo modo, lhe parecia ser a hora de conseguir um novo trabalho. Constatava haver ao menos alguma resiliência no resto de seu ser. Um dia, em meio a essa época de desolação, foi visitar os túmulos de seus pais. Os dois túmulos eram contíguos, separados por cerca de um metro de distância e um esboço de canteiro que insinuava uma ligação entre os túmulos.

Ao chegar ao local, aflorou-se uma impressão que, conjugado a um pensamento que nos últimos dias já vinha se desenvolvendo, trouxe um pouco de calma. Essa impressão permitiu a Alessandro perceber como naquele local tudo existia de um modo intenso. Não em um sentido que apraz aos sentidos. O que aconteceu era que nesse lugar a verdade saltava aos olhos, e fazia qualquer um encontrar-se a si mesmo. As velhas lápides esburacadas pelo vento, as gramíneas que insistiam em nascer naquele local deserto, a necessidade que a humanidade possui de manter lugares para o não ser. Os insetos criando colônias nos cadáveres centenários, os mitos que precediam qualquer história sobre qualquer um dos que ali jaziam. Assim é a existência, penava a pensar Alessandro. O que para a maioria das pessoas era terrível, para Alessandro era tanto uma maneira de conseguir um trabalho quanto de compreender melhor sua vida. Por conseguinte, percebeu que, ao menos provisoriamente, poderia trabalhar naquele local.

Algumas semanas após essa visita, Alessandro começou a trabalhar como coveiro no principal cemitério da cidade. Era necessária uma dedicação quase que integral para o novo trabalho. Contudo, tinha uma liberdade muito grande com relação aos horários. Após alguns meses como coveiro iniciante, passou a residir no cemitério, em cujo interior havia, além dos túmulos, uma pequena construção para quem viesse a ser o coveiro. O atual coveiro estava por se aposentar, de modo que, em menos de um ano, Alessandro já era o coveiro oficial do cemitério Jardim dos Sonhos.

Dave Mckean - King staffs

Dave Mckean – King staffs

Alessandro tinha o hábito de ler e escrever, nas horas em que não estava ocupado diretamente com a morte. Gostava também de saber quem eram as pessoas que lhe eram destinadas. Assim fazia diariamente. Ao longo dos anos foi moldando a arquitetura do cemitério de acordo com a história e os sonhos das pessoas que ali residiam. Preferia pensar que as pessoas entravam ali para sonhar, para fazer justiça ao nome do local. Como sempre se sentiu incapaz de sonhar, instigava-se pelas histórias e projetos de vida das outras pessoas. Isso o tornou um bom contador de histórias, com uma memória muito viva. Dessa forma, sentia-se responsável por proteger o bem maior dessas pessoas, suas histórias, mantê-las vivas de algum modo.

Quando começou a envelhecer, passou a encarar a morte de um modo mais pragmático. Como não possuía muitos amigos e, tampouco, amores, flertava sempre consigo mesmo na terna solidão daquele jardim. Na falta de alguém para cuidar da sua própria história, iniciou os preparativos para um dia ser lembrado, caso alguém o descobrisse.

Nas horas vagas, além de fazer suas anotações fazia também escavações. Para proteger a história de todos e a de si mesmo enquanto o protetor do Jardim dos Sonhos, aos poucos fazia uma cova imensa. Para que coubesse além de si mesmo e de sua própria história, elaborava no seu imaginário uma cova que conservasse todas as histórias e os sonhos daqueles que ali estavam. De fato, todos os dias moldava a terra que, aos tropeços, ganhava forma.

A cova – que mais parecia um santuário esculpido no subterrâneo de sua casa no interior do Jardim dos Sonhos –, ganhou uma forma bruta quando Alessandro estava prestes a completar cinquenta e quatro anos. A partir daí, apenas lapidava os detalhes de sua criação. Juntou todos seus livros e anotações sobre as pessoas que ali moravam e organizou-os dentro da cova. Ela era circular, de modo que no centro havia algo que parecia um quarto, com uma pequena dispensa à esquerda, e nas paredes que faziam o entorno circular estavam depositados as memórias e livros. Após mobiliar o recinto, junto com o vazio proveniente de um projeto pessoal realizado, sentiu, por outro lado, uma paz razoavelmente significativa. Num dos lugares da construção ele havia instalado no improviso algo que se assemelhava a uma claraboia. Por ela, olhou a noite estrelada e clara, acendeu um charuto e repousou naquela noite, como poucas vezes fizera em sua vida.

É difícil saber, caros leitores, se Alessandro ainda vive. Ainda assim, há muitas histórias sobre o paradeiro de sua pessoa. Há quem diga que ele nunca morreu, ou que ele não seja nada além de uma lenda. De todo modo – e talvez mesmo inspirado pelo coveiro Alessandro -, estou apenas contando uma versão de sua história. Dizem que esse é o melhor cemitério da região. O jardim dos Sonhos.

André Luiz Ramalho da Silveira

Um sonho, uma realidade

Um sonho, uma realidade.

É preciso crer nas ilusões, antes que elas se transfigurem em realidade. Enganava-se que, mediante simples empenho próprio, isto é, por esforço de crença, poderia livrar-se dessa prisão que parecia não haver fronteiras. Não conseguia distinguir o resto do mundo de si mesmo. Neste momento, tornava-se como que um vetor entre o mundo dos despertos e a fantasia dos eruditos. Apenas seguia nesse aparente delírio. Não era apenas o cansaço extenuante que lhe obstruía o pensamento. O que o tinha levado a esse estado, e a esse lugar? Para existir, seria preciso ter desejo de realidade?

Essas questões começavam a surgir em meio ao burburinho de conversas aleatórias de pessoas inexistentes e do barulho de galhos de árvores que, por mais invisíveis que fossem, carimbavam nos ventos destemidos até mesmo as histórias mais lânguidas que pela terra já rastejaram. Começava a compreender que estava perdendo realidade, não obstante estar aos poucos ficando menos preso. Havia uma leveza nisso tudo, quer dizer, abandonar o fado do corpo pode despertar a impressão de alguma liberdade um tanto ilusória. Mas, junto a essa leveza, compreendia que com o passar do tempo tornava-se mais pesaroso o pensar. O desespero era, em verdade, o de não lembrar-se como lhe adviera tal situação aprisionadora.

Para encontrar algum fio de sentido, procurava, aos tapas, nas lembranças fugidias, algo que lhe situasse novamente ao mundo. Encontrou um remedo de rua, que lhe parecia familiar. Desavisadamente sentiu seu corpo corporificando novamente. Nessa rua em que fincava a imaginação, à busca de uma memória mais sólida, encontrou aquela esquina esfumaçada – que mais parecia um borrão expressionista do que propriamente algo que existisse por si – em que há não muito tempo perdeu o que pensava ser sua vida.

Contíguo à esquina levemente cinza e esfumaçada, e como que também formado pela mesma disforme dissociação de cores que pareciam materializar aquela realidade, estava uma pessoa com ares de elegância deletéria, mas ainda assim com um ar familiar. Num dos lados dessa esquina havia um banco, em que essa pessoa resolvera recostar-se. Vestia um longo casaco cinza, com botões pretos de expressões rústicas, um Keffiyeh verde escuro tracejado de preto – típico lenço árabe -, em que o deixara caído aos ombros e a cabeça descoberta, botas de couro pretas e um guarda-chuva florido. Às vezes, notavam-se algumas explosões de cores no cinza do casaco, e algum intumescimento nas flores do guarda-chuva, que pareciam querer beijar o chão. Contudo, essa pessoa escondia o rosto. Ou melhor, seu rosto era a expressão de cada canto desse lugar, cantos cuja mudança era permanente, ainda que de modo harmônico. Apesar de acinzentado, o cenário parecia saído da imaginação de Van Gogh.

Quando sem perceber e num súbito prostrou-se diante dessa figura, deu-se por conta de que certamente essa pessoa lhe era familiar, ainda que sem reconhecê-la. O casaco ofereceu ajuda e as flores do guarda-chuva serviram de apoio para que se chegasse até o banco. Olharam-se. Começava a duvidar de si mesmo, a duvidar seriamente se era mesmo alguém, dotado de “pessoalidade”, se não passava de uma imagem impressa num mundo atônito e maquinal. Adjacente a esta dúvida, lhe surgia como contra prova essa realidade abstrata que se concretizava como um orvalho se congelando num inverno. Olharam-se. A pessoa a sua frente parecia um velho, mas também parecia uma mulher, e quando começou a falar, tinha uma voz que lembrava a de uma criança. Onde estava, pensava… seria isso um sonho? Por que não desperta? Se despertar, será possível viver da mesma forma, depois de passar por isso? Olharam-se…

– Quem sou eu, ou, o que faço aqui? Organizava a pergunta com ares de presciência, ainda que gaguejasse e falasse rápido e aos tropeços.

– Pergunta difícil, jovem; vamos caminhar e eu lhe explicarei melhor. Replicou a pessoa misteriosa.

Levantaram-se e seguiram ao largo de um jardim outonal. As ruas eram muito semelhantes entre si, de modo que ao caminhar por umas cinco quadras, mal pareciam ter saído do lugar em que estavam. Despertou um vento frio, sendo necessário puxar algum capuz e cobrir a cabeça. Seguiram até uma grande praça, em que ao centro havia uma espécie de basílica. Havia muitas pessoas na praça, apesar do vento razoavelmente frio. Estava noite, aparentemente, mas havia claridade suficiente pra que se distinguissem as coisas que são possíveis de se distinguir.

– Vamos nos sentar. – Disse a figura de casaco e guarda-chuva. – Veja essas pessoas a caminhar, como se tivessem algum propósito em suas vidas. Você pensa que elas estão presas nesse mundo? Ou melhor, você pensa que elas sabem que estão presas? A compreensão não depende apenas de nossa disposição a compreender. É preciso algum sacrifício para colapsar a ignominiosa dominação da falta de reflexão. Este mundo apenas configura-se como uma distopia para quem já entra nele cindido. Ou talvez não. Mas, não há volta, quando se chega a este ponto. – Prosseguiu a figura, falando hermética e pausadamente e acentuando cada palavra.

– Mas, eu morri, ou isto é apenas um sonho? Veja, eu não sinto meu corpo. Parece apenas um delírio, no entanto, sinto como se toda a realidade de fato fosse assim. Aliás, quem é você? Faz parte desse meu delírio ou do delírio de outra pessoa, ou existe mesmo? Ou nenhuma coisa nem outra? – replicava.

– Muitas perguntas você faz, como se você não soubesse as respostas. O que você procura é algo que garanta um mínimo de sentido para a existência, um sentido que não possa se desfazer a cada pouco. Mas, isso não é possível. Toda a realidade, essa que você pensa viver, essa que está fora deste mundo, toda ela assenta-se sobre esse mundo tal como você agora vê. O erro e a fragilidade é o que dá suporte a toda objetividade. Não é que a realidade seja uma ilusão. Creio que ilusão não seja um conceito útil para compreender a complexidade que aqui se impõe. Aqui, todos apenas somos. Apenas ser, nada mais. Sem realidade transcendente, de modo que não haja apoio além de nós mesmos, nós, seres cindidos e incompletos. Mas, a fim de lhe responder, você me perguntou quem ou o que sou eu. Pois lhe respondo, sou muitas coisas. Sou seu nêmesis, sou parte de você, sou parte do mundo, sou parte de outras pessoas. Sou deus, delírio e sonho. Sou qualquer coisa. Mas, mais importante que isso, é como você compreenderá tudo isso, isto é, o que eu significarei para você. Seu mundo é mais do que eu e você, mas ele não é sem nós. – Respondeu-lhe, quase em transe, a pessoa misteriosa, enquanto podava as flores do seu chapéu.

Imóvel, ele fitava o estranho buscando compreendê-lo. Sim, talvez ele já imaginasse alguma resposta nesse sentido. Mas, apercebeu-se que precisava dessa confirmação pra poder voltar de onde viera. Precisava extenuar-se até perder a noção do próprio corpo e da própria consciência, pra conseguir se livrar do apego a substancialidade. Beirava desmaiar. Respirou fundo, agradeceu a conversa, levantou e espreguiçou-se. Não sabia onde estava, nem se lembrava de como foi ali parar. Mas, misteriosamente sabia como voltar, ainda que houvesse esquecido também o lugar de onde viera. Caminhou dois passos, tirou o capuz e respirou todo o vento que havia nesse pedaço de mundo. De imediato, acordou caído da cama, no quarto do albergue em que morava. Levantou-se, pensou e decidiu: nunca mais dormirei. Sentou-se novamente e, após constatar novamente a vida que leva, tornou a dormir.

André Luiz Ramalho da Silveira

Astolfo e a diligência

Astolfo e a diligência

“Diligência, meu amigo… diligência é o que precisamos. A sanidade é traiçoeira. Essa é a sabedoria que aprendemos com os velhos, com as crianças, com os bêbados e com os filósofos. Eu, quando são, sou no máximo um velho… mas quando bêbado, me aproximo dos filósofos… não, longe de mim querer ser filósofo… mas, só é possível transcender quando se mata a objetividade… a poesia, o dionisíaco… Aliás, a sabedoria que me refiro é a diligência, não a sanidade. Esta, só com alguma dose de covardia e… outra dose de coragem, pra querer que ela seja um remédio pra falta de sentido do mundo. No mais, diligência pro fígado não matar a memória! Um homem sem memória, meu amigo… um homem sem memória não passa de um elefante sem tromba… e sem memória!”

Dizia um velho bêbado e, talvez, filósofo, na entrada de um bar. Dizia sozinho e repetia essas frases, à espreita de alguém que lhe desse ouvidos. Astolfo, ansioso como sempre, debatia consigo mesmo questões que dizem respeito somente a si mesmo. Questões que talvez nem mesmo existissem. Talvez tenha sido essa a sincronia entre os dois, que simultaneamente miraram-se, como dois espelhos convexos que refletem apenas o exterior. Ensimesmados, viram-se um no outro. Enquanto pouco a pouco o fogo percorria o cigarro amassado, pausadamente o velho ia lhe dissertando, ainda que nesta altura já não houvesse mais cigarro e, talvez, nem mesmo ar para tragá-lo. Astolfo ficou levemente surpreso com as palavras do velho, por também estar com semelhantes pensamentos no momento. De todo modo, preferiu honrar seu espírito não aventureiro e agradeceu ao velho pelas palavras, deu-lhe um cigarro e seguiu o caminho para sua fortaleza. Não sabia se era a melhor escolha, mas há tempos que a racionalidade lhe superava a vontade.

Poderia arrepender-se depois, como sempre fazia, mas era melhor não correr o risco de decepcionar-se. Além disso, também não queria correr o risco de estar em algum lugar que o fizesse sentir-se coagido. No caso de Astolfo, sentir-se coagido era rotina, o que alternava era a intensidade com a qual essa sensação lhe acometia. Havia já algum tempo que lhe vinha à cabeça um pensamento anuviado, desses que rodeiam da nuca à testa, mas que raramente encontram-se na altura do olho. Como aqueles pensamentos em que diante de uma interrogação abrupta, porém passageira, se franze o cenho desapercebidamente. O tal pensamento era de se ele possuía algum tipo de fobia social, algo patológico mesmo. Claro, talvez a maioria das pessoas já tenha pensado algo assim. Mas saber tal de constatação não lhe desanuviava. Indo aos idos, isto é, aos fatos, antes que a nós nos venham eles, o embrutecido Astolfo andava se esgueirando pelas ruas, e sempre a pensar que qualquer outro ser humano pudesse lhe ser uma ameaça em potencial. Quem o encontra pelas ruas talvez não saiba do que aqui escrevo. Mas, é preciso querer olhar para além dos fatos, obviamente. De todo modo, o caso é que Astolfo permanentemente andava em clima de guerra consigo mesmo, não obstante conseguia disfarçar muito bem. Talvez se comportava assim como estratégia de combate, isto é, imaginem se alguém o compreendesse de verdade!? Acho que seria o fim do guerreiro transcendental.

Presumo que ele pensava algo parecido, mas, ainda assim, quem conseguiria manter a sanidade sem cair nas desgraças da relação interpessoal!? Depois da conversa com o velho, ou do monólogo refletido, Astolfo foi para onde estava indo. Foi para sua casa e depois a um encontro amoroso, ou ao menos essa era sua esperança. Conheceu Galiarda – uma judia francesa de sobrenome húngaro (por isso impronunciável aqui) -, após encontra-la algumas vezes num mesmo local (às vezes num bar, outras vezes num café). Galiarda é uma escritora amadora e libertária profissional. Na faixa dos trinta anos, mulher de olhos negros, cabelos castanhos escuros longos, com um aspecto renascentista em suas curvas generosas. Dotada de um corpo bem agraciado pela natureza, podemos dizer. Além disso, havia um ar de intelectual decadente do leste europeu em sua face caucasiana. Por isso mesmo, tinha um charme bem impressionante, ainda que peculiar. Isso já era o suficiente para nosso querido matreiro.

Não sei se ela percebeu esses detalhes no estranho rapaz, mas certamente ela se encantou com sua sutil peculiaridade – sutil, pois, por mais que não pareça, Astolfo sabia se portar como toda gente reprimida e civilizada. Conheceu-a num desses momentos introspectivos, em que ele olhava ao redor do seu copo de cerveja suado pelo calor e via ideias e não pessoas. Claro, isso é uma interpretação que fazia de si mesmo num exercício de lembrar o que pensava em determinado momento. Aliás, tentar rememorar ideias e não fatos era um exercício que fazia com frequência. Apesar da peculiaridade, Astolfo reprimia bem seu ímpeto antissocial. Até porque, ao ir a um bar – ou happy hour, como dizem as pessoas que dizem beber, mas que não bebem -, sabia que de algum modo esperava encontrar alguma companhia. Aliás, é presumível que todas as pessoas que saem esperam encontrar alguma companhia, ainda que isso ocorra em diferentes intensidades. Seguindo a narrativa, num desses dias em que Astolfo estava um pouco mais aéreo do que o comum, Galiarda estava no local e o observou atentamente. Nesse primeiro encontro, ela vestia uma longa saia preta e uma blusa azul marinho em que realçava seus fartos seios, com o cabelo levemente preso e uma franja propositadamente bagunçada. Obviamente, ele a achou deveras interessante, porém, pensava ele, se ele mal era capaz de honrar um encontro previamente combinado, quem dera fosse capaz do feito homérico que é a tal chamada conquista. Na maioria das vezes não tinha a menor disposição para existir, quanto mais para fazer algo. Das forças que Astolfo era devoto, certamente a inércia e a gravidade faziam parte. O fato é que depois de algumas cervejas, os dois foram um ao outro e conversaram. Ela logo estava de saída, então combinaram algo para a próxima semana.

O dia em questão é esse em que ele falou com o velho e seguia ao tal encontro. Após sobreviver a si mesmo – e às suas ideias, advindas de um universo kafkaniano -, Astolfo, o inabalável, chegou ao tal lugar e lá estava Galiarda a lhe esperar. Depois de certo tempo de conversas aleatórias, entraram em alguma conversa muito chata sobre questões teóricas que, possivelmente, nenhum dos dois estava de pleno acordo sobre a veracidade do que diziam. Mas, talvez por força de uma lógica interna à própria conversação, nenhum dos dois poderia recuar. Ainda que a vontade de Astolfo fosse a de abocanhar os seios de Galiarda ali mesmo e, por isso mesmo, mal conseguia pensar. E ainda que a vontade de Galiarda fosse a mesma dele e, por isso mesmo, também mal conseguia pensar, era preciso continuar a disputa. Aliás, uma disputa em que tanto o vencedor quanto o perdedor seriam agraciados do mesmo modo, isto é, com o sexo – e talvez, meus caros leitores, essa seja a máxima expressão que a justiça distributiva pode angariar.

385px-Bouguereau,_William_-_Femme_au_Coquillage_-1885 (A mulher com a concha)

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Ele nunca conseguia prever o que poderia acontecer, como fazem os homens de ação. Então, na hipótese de nada fazer, escolhia sempre se animar pela embriaguez. Ela também fazia o mesmo, ainda que talvez não pelo mesmo motivo. Por conseguinte, não foi necessário muito empenho para não se auto-sabotar, pois Galiarda, com muita galhardia, também não quis perder muito tempo e, antes de qualquer sabotagem de ambos os lados, disse que poderiam estar trepando ao invés de falar sobre as falhas de caráter do ser humano. Bom, foi o que fizeram e tornaram a fazer algumas vezes mais no último mês. Talvez só cessassem de se ver quando o tesão acabasse. A partir disso poderiam se tornar amigos. Astolfo era bom nisso, pois era muito diligente. Mas tão diligente, que se perdia na diligência. Era um cristão. Pobre Astolfo.

Como seres livres, ao longo de um certo tempo ambos se afastaram livremente um do outro, ainda que mantivessem algum contato, na situação de conhecidos. Ele voltou para o universal. Na verdade apenas saía de lá de vez em quando. Galiarda tinha uma manha mais dinâmica com o mundo, conseguia conciliar sua vida de escritora amadora com sua gana libertária. Para Astolfo, o difícil da separação – se é que podemos nos referir a isso nesses termos – foi ver Galiarda com um novo parceiro. Não pelo fato de ela estar com outra pessoa, isso nem lhe incomodaria tanto, mas sim o fato de o novo companheiro de Galiarda ser um músico errante e morador de rua. Talvez ela tenha feito isso para romper com valores burgueses pré-estabelecidos, ou tenha mesmo gostado dele. No fim, parece que se gostaram mesmo. Ela era libertária, isso não lhe era um problema. O que era um problema para Astolfo era não saber exatamente porque esse novo amante peculiar de Galiarda tinha que vir logo após o quase romance com Astolfo.

Após ruminar algumas vezes sobre o assunto, Astolfo, por certa generosidade, conseguiu compreender que Galiarda realmente estava amando seu novo companheiro. E, com essa constatação, o que mais lhe doía era o fato de saber como o amor lhe era incompreensível. Não apenas incompreensível, mas ele realmente achava que, por ser irracional, não poderia não apenas ser algo razoavelmente bom, como não deveria nem mesmo ser possível. Astolfo, como um poço de ressentimento e egoísmo, apesar de não aceitar que o mundo fosse assim, conseguia ao menos compreender que o amor move as pessoas. E Galiarda, longe de ser insensata, não via o menor problema em seus atos. Aliás, se ela soubesse o que Astolfo pensava, talvez não tivesse se relacionado com ele. Mas isso é outra história.

Passados uns três meses desde que vira pela última vez o velho bêbado e o casal em questão, Astolfo pensou que era hora de dar uma resposta à altura. Rascunhou diversas vezes num pedaço de papel qualquer – na maioria das vezes um extrato de banco quase apagado – uma resposta para aquilo que tanto lhe indagava. Até que, finalmente, depois de alguma boa procura pela cidade, encontrou o tal velho e leu-lhe a resposta que sentiu ficar devendo naquela vez. A tal resposta foi mais ou menos assim:

“Às vezes, desconfio do acaso. Pergunto-me, sinceramente, qual o estatuto ontológico do acontecer. Pode parecer pedantismo, mas é muito incrível como algumas situações nos marcam tão fortemente em determinado contexto, que se elas ocorrem em outros momentos de nossa existência talvez mesmo fossem despercebidas. O acaso seria assim tão acaso, que simplesmente surge como um evento da natureza rompendo nossos projetos cotidianos? Ou, seria mais uma sombra sempre presente nesses nossos projetos, de tal modo que surjam justamente quando os compreendemos? Enfim… o que lhe faz envelhecer e saudar a memória, se se consegue compreender o quanto a razão é má para o peito, para o espírito? Se a diligência está para além disso, não deveria estar também para além do dionisíaco, velhote?”

André Luiz Ramalho da Silveira