Poesia

Da filosofia

Da filosofia

Na boca, o repouso silencioso do gosto de ferrugem,
Daquela falta de álcool, daquele excesso de clareza.
O que seria a liberdade, senão a resposta aos gritos que urgem
De um mundo adoecido pela certeza?

Banida, a filosofia se encontra.
Morar na filosofia é morar no abismo,
Morar na filosofia é perecer no que se mostra,
Morar na filosofia é não morar em si mesmo.

A cada passo, calmo e sereno, o escalador une-se em carne, ato e montanha.
Mas, não, sou de baixo, não subo senão em espírito.
Sou da devastação, do abismo da existência, no máximo cavo, ávido, aflito e estrito.

Não por convicção, mas por constatação.
O campo do ser é o mesmo do nada.
Na boca, ainda o gosto de ferrugem de uma existência em permanente execução.

André Luiz Ramalho da Silveira

Micro-enciclopédia de um soneto só

Micro-enciclopédia de um soneto só

Verborragia: a sangria do verbo.
Pensar decomposto, fissura do agir.
Palavra dita é significado traído,
Contraído do pensar fechado que não sabe rir.

Eloquência pedante, sangria em alheios ouvidos.
Beleza: o esquecimento da razão.
Solidão: comunhão de si mesmo como possibilidade de ser a si mesmo.
Finitude: ser uma permanente possibilidade no abismo da falta de fundamento.

Agoras e alegorias, ágoras e alegrias:
Balbúrdias e mundo, vida, verso e fundo.
Não, não há um fora, apenas razão imunda, profunda.

Memória: percepção interpretada de si mesmo.
Sonho: elucubração do esquecimento na sobrevivência cotidiana do existir.
Morte: ver a si mesmo na frente do abismo e decidir: ou-ou.

André Luiz Ramalho da Silveira

Qual redenção, qual vida.

Chorei a vida, quando perguntei a natureza se
Poderia ela redimir a história
Em nós que se
Impõe verticalmente em nossa memória.

Na morte nossa de cada dia, voltaremos ao solo indecifrável
Da Natureza? Se a natureza essa nos escapa em plenitude,
E a História essa irrompe em nós como uma irrefreável
Ruptura histórica, agora na quase imperceptível platitude

Do cinismo político globalizado.
Não, é preciso crer no amanhã.
Com sorte, a ruptura ocorre, e amanhã

Não haverá mais nós, quiçá memória,
Tísica norma moral criadora da absurdamente impermeável indiferença.
Com sorte, nada haverá: nem história, nem memória.

Diários de uma guerra normal

A passagem

A passagem

Procurando dar sentido para o que sou,
Descobri que como sou é o que dá sentido
Para o que faço, e o que faço é o que sou.
Letra: a liberdade do convalescido.

Nas agruras do nascer, desfiz-me do que pensava ser,
Numa sórdida autodestruição existencial,
E apenas encontrei criação, num sórdido niilismo abissal.
Abismo que não falo, que não sinto, num apelo ao não-ser.

No diluir das palavras ditas,
Já não sei se em algum tempo passado
Fui mesmo quem penso ter sido.

Ser um si é isso?
Ser-perdido-vazio-oblíquo-no-tempo-sem-raízes-na-nostalgia?
Volto a mim, angustiado, complacente, hipócrita… e na permanência, porque é preciso continuar com a elegia.

André Luiz Ramalho da Silveira

Fugacidade

Fugacidade

Fugacidade, essa confortável e prazerosa força,
Engrandecendo-se à medida que o sentido se esvai,
Fez dobrar minha vontade à mera resiliência.
E a um punhado de sanidade foi reduzida minha identidade.

Na memória, conservo esse resíduo de um eu,
Se meu ou se teu já não sei, já nem suponho.
Dos instantes, novos instantes surgem. Mas, não são instantes.
São pedaços sem qualquer importância.

Aplacar o tédio com pudor, com perversão, com felicidade, com nada.
Eis os nossos tempos. Eis o que do tempo nada é.
O tempo… ao menos isso sentimos, o fundamento que nos corrói.

A vida é uma vitrine em que os espectadores somos nós,
Para confirmarmos se ainda somos nós quem ali somos.
Fugacidade, essa confortável e prazerosa força que nos reduz a nós mesmos.

André Luiz Ramalho da Silveira

A escada

A escada

A cada palavra dita,
Um turbilhão de contradições
Vem-me numa ressaca maldita.
E, nela, cumpro minhas inações.

Descolei-me do andar e,
Do andar, me atirei.
Atiraram-me ao andar e,
No andar, sem chegar a qualquer lugar fiquei.

Parado, fui encontrar o nada
E dei de cara com o tédio
Ao impedir que o tempo me jogue uma escada.

De volta ao tempo, fudido e sem dinheiro,
Encontrei párias que amavam a vida e a conheciam pelo cheiro.
Derrubei a escada e abracei novamente as contradições de meu ser arredio.

André Luiz Ramalho da Silveira

Quintana – A Rua dos cataventos XIX

Quintana – A Rua dos cataventos XIX

Minha morte nasceu quando eu nasci
Despertou, balbuciou, cresceu comigo…
E dançamos de roda ao luar amigo
Na pequenina rua em que vivi.

Já não tem mais aquêle jeito antigo
De rir e que, ai de mim, também perdi!
Mas inda agora a estou sentido aqui,
Grave e boa, a escutar o que lhe digo:

Tu que és a minha Prometida,
Nem sei quando serão as nossas bodas,
Se hoje mesmo… ou no fim de longa vida…

E as horas lá se vão, loucas ou tristes…
Mas é tão bom, em meio às horas tôdas,
Pensar em ti… saber que tu existes!