Miséria

A quase morte de Astolfo

A quase morte de Astolfo

Seguiu tateando o mundo, na ambição humana de procurar um sentido através do corpo, às vezes nem tão próprio assim. A cada fluido trocado, transa jogada, colisão sofrida, ou morte anunciada, postergava-se qualquer inútil certeza. Mas, já não sabia se a vida que lhe narravam era a mesma que ele pensava viver. Já perdera a noção do que é emoção. O resultado já não importava. Nem o que se chama de processo era vivenciado. Era tudo tão racionalizado, que racionalizara até mais uma de suas quase mortes.

Esquivando-se pelas sombras das poucas árvores que havia na rua, andava quase trôpego de tão ensimesmado. Voltou ao mundo quando se deu por conta de estar cativado pela estranha lua. Estranha lhe era, pois se estranhara pelo fato de há tanto tempo não prestar o devido respeito a esse orbe brilhante.

Ademais, era uma noite quente, em que nem os gatos corriam atrás dos ratos. Mas, Astolfo procurava por qualquer mulher, desde que lhe fosse uma completa desconhecida. Ao chegar à segunda bodega que a noite havia lhe destinado, Astolfo sentiu uma embriagada coragem, típica a que os homens de ação acreditam ter, com a diferença de que, na situação em questão, a embriaguez não era o que se pode chamar de lírica.

Com a consciência já devidamente anestesiada, Astolfo poderia agir sem a culpa lhe pesar mortalmente às têmporas. O que significaria, obviamente, ignorar um pouco as suas ilusões estúpidas. Após encontrar um dos pequenos amores da sua vida, acompanhada, Astolfo se sentiu quase que em gratidão pelo universo. Independente de quem fosse esse sujeito, ele seria transformado em um vilão e depreciado de qualquer forma, pela situação a que se encontrava. Mas a questão não era essa. Por pior que fosse, Astolfo sentiu uma estranha liberdade, pois trocaria um transtorno afetivo pela possiblidade de uma boa transa com uma desconhecida qualquer. As vinculações afetivas podem, por vezes, não passar de uma carência estúpida. Assim racionalizava o herói.

De certo modo, foi o que ocorreu. Num golpe de sorte, logo após foi socorrido e já se encontrava perdido em meio ao corpo da desconhecida. Ela não lhe falou nada, nem sobre seu namorado machista paspalhão, nem sobre as suas amigas estonteantemente libertárias, com todas as virtudes morais de um Nobel da paz, nem falou sobre si mesma… Poderia mentir sobre qualquer coisa, e assim o fez. Assim ele o fez também. Ninguém disse nada. Ou melhor, transaram como poucas vezes nada vida e falaram sobre tudo, mas sem fazer referência alguma sobre qualquer um dos dois. Apenas experimentaram o apogeu mais objetivo da liberdade: a fuga da norma.

Como dois adolescentes, assim que passou a emoção, resolveram voltar ao mundo que pensavam ter fugido. Quanto à mulher, nada se sabe, além de especulação. Quanto a Astolfo, bem… ele já é devidamente frustrado por saber que não há lugar mais seguro no mundo do que em si mesmo.

A razão é uma ingrata. Ela ilumina os doentes e miseráveis, ela torna as pessoas doentes e miseráveis. Uma dádiva que nos possibilita constatar a nossa contingência e o fato de que não há nada além do chão. A finitude, às vezes disfarçada de imortalidade, não pode ser comprada. Mas, não. Isto não é sobre o imoderado narrador, é sobre Astolfo.

Seguia ele descrente, e sem pretensões para além de sua autopreservação. Sentia-se bem e imaginava-se como se fosse uma onda sonora, reverberando pelos corações dos jovens ingênuos, fazendo-os tombar de amor. Como música a embalar as mais belas ações humanas, prescrevia a forma com que qualquer relação humana poderia ser devedora. Pulsar os vícios e a força vital de qualquer um. Realmente ele fazia isso. Contudo, Astolfo pensava o amor como a maior expressão de egoísmo da civilização. Para o nosso protagonista, as pessoas querem sentir emoções, querem sexo, querem sobreviver, querem querer, querem existir como parasitas na paciência alheia. Astolfo sabia muito bem disso. Sabia que a falta de sentido do mundo é apenas uma constatação para que os miseráveis consigam alguma mínima paz. Que a história não tem clemência por ninguém. Que as ações só tem sentido porque elaboramos uma ilusão e, a partir disso, compreendemos nosso mundo. Assim reverberava ele, sugava o mundo alheio e o consumia. Astolfo sabia disso tudo, porque ele era isso tudo, como toda a gente, um hipócrita. Até mesmo já havia negociado com Deus. Cada um no seu negócio. A nulificação não é de todo ruim, pensava, desde que toda fuga tenha sucesso.

Mas, não quer mais, não é mais, ou não mais pensava ser um hipócrita. Decidiu – como aquelas decisões que constatamos de um só instante, por já termos decidido há muito tempo – se livrar da hipocrisia. Mas, não é algo que seja possível se desvencilhar. É dela que vem a liberdade. Ou seria o contrário? Fato é que, ao menos no que diz respeito à hipocrisia de ser, ele teria de dar cabo nisso. Melhor era continuar não sendo, pra agradar a pífia consciência, do que seguir nessa balela de ser. Contudo, sentia-se febril de cólera só de pensar em se assemelhar a qualquer torpe paladino da moral. Deste modo, não era mais possível saber da mediocridade do mundo e continuar nessa comunhão de bens. Que louvável, ele ainda era um ser moral.

Ao passar por uma ponte que atravessa a cidade, depois do acontecimento – um tanto atípico para sua ingrata vida, por assim dizer -, sentiu um formigamento no pé e náuseas. Não, o nosso protagonista não é um herói existencialista e não descobriu a verdade do mundo. O fato é que se sentiu mal fisicamente e debruçou-se na beira da ponte para melhor observar a água nada limpa que não refletia a lua. Talvez a generalização não seja algo tão confiável, pensou. Será que tudo não passava de uma bílis estragada? De um rancor calcificado? Desmaiou. Acordou alguns segundos depois, sem conseguir mover as pernas. As têmporas doíam. Estava perto de um hospital. Foi num rastejo malemolente até o pronto socorro. Disse o que houve e foi à emergência. O médico disse-lhe: “O senhor não mais pode fazer isso. É perigoso demais. Caso isso se repita, temo que o senhor não sobreviva.” Astolfo pegou o papel amassado, entregue pelo médico. Voltou e parou novamente na ponte. Decidiu continuar a beber em casa, era mais seguro. E seguiu amassando o papel rabiscado. Chegou a sua casa e foi ler as poucas linhas que tracejavam assimetricamente a folha amassada. Não se surpreendeu, mas não foi muito fácil aguentar. Estava escrito um conselho médico, cuja prescrição constituía-se de apenas um único princípio: não tente mudar.

André Luiz Ramalho da Silveira

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No estribilho da balbúrdia

No estribilho da balbúrdia

Corte a linha, ande em círculos.
O sorriso das lâmpadas amarelas
Dão a medida daquele egoismozinho estampado nas lapelas,
Tão saudável a boa moral de nossos falos.

Sento-me numa dessas esquinas postas em bancos
Martirizados pelas pessoas que não deixam
As sombras taparem o sol com seus flancos.
Mas a verdade é que no espetáculo, todos a ele se queixam.

Minha linda, a liberdade é algo muito bonito
Quando a gente pensa nela como uma coisa
Pra ser usada sobre outra pessoa ou sobre outra coisa.

Mas essa boçalidadezinha chamada ser humano
Tão esplendorosamente altiva dentro de toda essa pequenez,
Quer mais é esquecer da própria miséria e comprar o sol no próximo ano.

André Luiz Ramalho da Silveira

Uma fortaleza, um abismo

Eu quebraria tudo, romperia com o mundo, voltaria para minha fortaleza.
Mas seria apenas mais uma embriaguez…
Permanecer na cisão nem sempre significa ter clareza
Dos pressupostos que nos derrubam mais uma vez…

O sangue ferve e o coração explode toda verve doentia
De quem foi esculpido para observar
O mundo por si mesmo, de si mesmo, numa vida vadia sem serventia.
A solidão não é escolha, sonhar não é amar.

Mas amigo, como julgar o mundo se não por si mesmo?
Como não transpor a negatividade individual para o universal?
Como abdicar do próprio mundo a fim de sobreviver, sem absorver-se no próprio abismo?

Não há pranto que sature a finitude da condição humana.
Não há canto que, em momentos escusos, acalente o lombo fatigado.
Simples e ridículo. Só resta-nos a liberdade, como um consequente imbróglio que a existência afana.

André Luiz Ramalho da Silveira

Reconhecimento em revés

Quando os dias se quebram,
Quando não é mais possível compartilhar o fado,
Quando da vivacidade diletante da existência apenas ecoam
Os passos falsos da eternidade vazia de cada amor, ceifado.

Advém com a assombrosa agudeza espiritual a incapacidade
De qualquer crença… E para saber que se vive, é preciso sentir-se como vivo.
Quando o mais material é a fumaça entre os dedos, a fragilidade
É a única força de constatação que valida esse arquivo.

E querem reconhecimento, mas pelo que são.
Mas se vemos por perfis, como interpessoalmente haverá algo como
Reconhecimento para além do que permite a vontade de quem quer ser reconhecido?
Se o querer ser reconhecido é mais forte do que a satisfação de ser reconhecido,
Escuso-me a deleitar na limitada paz da solidão, e por qualquer desaprumo,
Degrado-me ao civismo do bom cristão.

E devemos superar tudo, vencer, sonhar, viver.
E transar com dinheiro e vomitar valores reproduzidos.
E vender a alma a um diabo que teria vergonha de nos conhecer.

Não é decadência, pois nunca houve tempo em que as pessoas não foram pessoas.
A miséria humana não é uma doença no tempo, um prego histórico.
É isto, a existência. Uma desconexão de miseráveis numa sobrevaloração de um ego nada metafórico.

André Luiz Ramalho da Silveira

Pintura de alguém

Você pinta as sombras
Com as vagas sobras
De todas as suas fracassadas obras
Pois não há como sumir apenas fechando as pálpebras.

O vento bate, mas não parece haver algo
Para apará-lo.
Não existe mundo, não mais, só um reles estrago.
Subsiste apenas a memória, com o dever de escravizá-lo.

Não existe sobra sem sombra.
Mas sobra a sombra dessa relação, como refém
D’um sonho em que se discerne algum ninguém dessa penumbra.

Suas sombras pintadas florescem como ideias
E as paredes como prisões que acalentam a miséria dos que não dormem
Como os que existem em pares que seguem o jogo das facetas marcadas e estragadas.

André Luiz Ramalho da Silveira

Mirantes da Alma

Um velho louco, sem montanha, desce ao brotar das gramas, num perdoar
Que não reverbera como alívio inócuo, de prospectos retumbantes,
Mas sustenta-se, como ataraxia, como em um ‘de agora em diante’, garoar.
Nesse retumbar angustiado, ressoa-se um si mesmo cindido dos significantes.

Por vezes, a gratuidade dos eventos nos faz ser, da vida, apenas coadjuvantes.
E a permanência da sanidade, mostra-se, através do gris a insanidade,
Que é existir como possibilidade, um vácuo eterno, que se dissolve em instantes.
E a loucura do mirante não desce, com o velho. O silêncio cuida da verdade.

“Perdôo-vos, humanidade maldita… mas para vós sentistes a culpa do próprio ser.
Nego-vos, humanos medonhos, assim como se vos negam a si mesmos…
E, sobretudo, vós que sentis a superioridade, por vos submeter ao verbo, como a

Identificação disso com a verdade, vós, que em vossa ignóbil conduta julgais
A autenticidade pelo saber esclarecido, mas que no coração jaz Pandora devorando a alma por mesquinhez… vos digo-lhes, por vez última:…” e os mirantes resignam-se como rugas em espirais.

André Luiz Ramalho da Silveira

Vertigem do Sol II

Olhos deprimidos se escondem no efeito do sol,
Sem mesmo se dar conta, a sombra se culpa
Por ter de pertencer como sobra no rol
Da beleza que é a presença iluminada pela lupa.

Cunha-se na perfeição a postergação da jactância
Ansiada pelos homens de ação que se banham
Ao sol, aos brados do cientificismo semelhante à excrescência
Invertendo discursos e renovando assim a flâmula solar que se acanham.

Mesmo assim, a sombra ama o sol
E o sol, em sua altivez, só é sol porque a sombra o sustenta
Somente quem suporta a sombra, consegue suportar o sol.

E aqueles olhos deprimidos sabem que
A verdadeira dificuldade está em simplesmente ser
E ter de suportar a si mesmo como algo que poderia não ser.