Memória

Astolfo e seus recortes impublicáveis

 

Astolfo e seus recortes impublicáveis

 

Após superar a metafísica através de um diálogo perturbador com o ressentimento, Astolfo ficou recluso e mais ensimesmado do que de costume. Buscou força na rotina, como fazem aqueles que querem se recuperar de uma situação traumática. Afinal, mesmo superando a metafísica e aparentemente se saindo vitorioso, na existência não se trata de vencer ou perder, pois pode ser um pouco de cada aspecto. Sobretudo tratando-se da própria sombra, pois enquanto se existir, sempre se existirá nesse abismo em preto e branco.

Vasily Polenov

Vasily Polenov

Com uma rotina razoavelmente regrada, era possível manter a memória fixa, os sonhos um tanto calmos, e a vontade quieta. São processos tipicamente ascéticos, ou burocráticos – que são processos ascéticos sem o caráter moral. Contudo, um extraordinário acontecimento implodiu toda sua rotina. Astolfo encontrou alguns documentos que relatavam a relação entre um desconhecido com Rodion Românovitch Raskólnikov, personagem que escapou da obra ficcional russa de Dostoievski e que se encontra perdido atualmente em alguma parte do mundo. Mas, não apenas… Astolfo cria fortemente saber do paradeiro de Raskólnikov, de modo que, ao ser abordado pela selvagem polícia, teve que prometer não falar mais no assunto, temendo por sua própria segurança. Os documentos encontrados por Astolfo foram para a Biblioteca Sazonal da Guarda do Ser, em uma cidade próxima a que reside nosso herói. Essa experiência implodiu a estabilidade de Astolfo. Contudo, o deixou com algum objetivo novo na sua intrigante vida. Os sete fragmentos que se seguem – é curioso notar que não sabemos se Astolfo falava de si mesmo ou de outra pessoa, ou mesmo se isso foi algum surto paranoico – foram extraídos de pedaços de um livro que Astolfo rascunhara após esse incidente, de modo que toda sua existência adormecida irrompeu.

 

Recortes de Reflexões sobre o diário de uma não-vida, de Astolfo Cisma dos Santos.

1 –       Precisou enganar-se a si próprio para então ver sua vida como de fato era. Tinha bons olhos, e registrara seus instantes como uma máquina fotográfica. Contudo, possuía alguma generosidade ainda não corroída e atenuava parcialmente o cinza dessas imagens com o movimento e musicalidade propícia, de modo que a fixidez fosse apenas aparente. Com essa impressão precisa e, vá lá, categorizante da realidade a vida se tornava uma totalidade com momentos divididos em épocas cuidadosamente distinguidas pelas vivências e contextos. Essa mesma disposição a imprimir a realidade de forma ondular, ainda que em retratos, admitia como consequência quase que invariável uma identidade pessoal muito rígida. Isso não é exatamente um problema, caso sejam tomados contextos ideais – como nas famosas experiências em que tão somente a resistência do ar deve ser desconsiderada -, mas, como contextos projetados idealmente são, como diz o nome, meramente ideais, a pessoa corre o risco de ser um pedaço descontextualizado no insano sistema burocrático.

2 –       Parecia viver dentro de uma cela, em que se dividia entre o comando do verbo e o comando do cetro. Às vezes, a ação se concatenava, isto é, se organizava e a execução era harmônica, de modo que o tempo e o espaço fluíam e arrepiavam os pelos da cela. Não se tratava de racionalizar os desejos, ou a vida de modo geral. Quer dizer, fazia isso, mas suspeitava haver algo a condicionar essa racionalização. Claro, pensava consigo mesmo, toda compreensão é perfilada… recorta-se um pedaço da realidade, remonta-se ao todo ou contexto a que pertence esse pedaço, e se constata que essa é a perspectiva de que se parte… e há tantos contextos possíveis quanto há compreensões possíveis… e a realidade é essa ocorrência nula de fatos.

3 –       A solidão é amarga apenas nos primeiros anos. Ao longo dessa vida, o hábito reduz os danos do abismo e nos acostumamos a fragilidade da existência. Da impotência perante o todo à incapacidade de controlar esse incontrolável solo de afecções, parece ter como conclusão única a imobilidade de todo existir. Apenas seguir como bestas, na luta por sexo e poder. Ou cair na hipocrisia naturalista, como se fosse a natureza fosse uma redenção menos religiosa do que a crença em qualquer mísera divindade. Ou também podemos aceitar o imobilismo e nos comportarmos como cretinos grotões que estufam a barriga como bestas burocráticas humanas e espalitam os dentes com seus escravos. Ou como cretinos estúpidos que aceitamos e defendemos isso, mas, trabalhamos para esses mesmos grotões. Mas, tudo isso importa? Quer dizer, essas são as escolhas? E a beleza? E há beleza? Não sei… a liberdade não pode ser apenas negativa, isto é, apenas determinada como “não ser determinado por” algo… Pode a liberdade ser definida apenas como independência? Estou preso há tanto tempo que já não sei se estou certo sobre o funcionamento lógico do mundo.

Pablo Picasso - Portrait of ambroise vollard-1910

Pablo Picasso – Portrait of ambroise vollard-1910

4 –       Pensava que estava preso, só não sabia se fora ou se dentro. De todo modo, a fuga da situação, por mais que fosse determinada pela atual situação, sempre era uma alternativa. Não era possível aguentar tanta burrice e má vontade. Em todos os lugares. Em si mesmo. Não é que encontrava paz nas viagens físicas e existenciais, mas, sim… encontrava um mínimo de prazer e tranquilidade ao constatar que essas viagens lhe faziam bem. Após sintetizar suas imagens e estrutura-las musicalmente, conseguia aguentar mais um pouco de si mesmo num mundo qualquer. A solidão, assim, perdia o seu sentido, porque englobava o mundo como um todo. Mas, um todo sempre perfilado, sempre visto em perspectivas, de modo que essa solidão era sempre transpassada e ferida por uma não-solidão. Perguntava-se qual seria o sentido de ter essa vida? Bom, pensava sempre que era melhor permanecer do que não permanecer, afinal, no permanecer se pode sonhar.

5 – Como não explodir em ódio no mundo humano? Como não desistir de tudo em meio a tanto ódio estúpido nesse mundo humano? Há outros mundos? Como não adquirir uma úlcera da vida? Por que tudo é tão insuportável, nos momentos suportáveis? Por que esse subsolo é tão acolhedor? Será síndrome de Estocolmo? Será culpa de alguém, ou encontrar uma razão única é algo pertencente apenas aos tiranos? Será preciso encontrar uma razão para o agir? Ou o agir deve ser a razão explicativa do pensamento? Por que tão abandonados por Deus? Porque tão abandonados por si mesmos? Por que inventamos a nós mesmos? Porque queremos.

Elicia Edijanto

6 – É preciso experimentar a si mesmo. Enquanto não tomarmos uma boa dose de veneno do mundo, nossos olhos arderão sempre pela falta de hábito. A beleza é a única cura para o fanatismo, pois atinge diretamente à vontade. De nada adianta uma inteligência envenenada. O âmbito da razão é o das questões e o da dúvida, e é nesse abismo que tenho força, pois a verdade é parte disso, a verdade é pluralidade, luz e dúvida. O costume da certeza plena é o cetro dos idiotas.

 

7 – Tento ser o mais hipócrita possível. Sim, constatar meus preconceitos até exauri-los. Exaurir a si mesmo, como uma purificação hermenêutica. Saturar as opiniões, posições e preconceitos, depurá-los, para assim me desconstruir, para me sentir humano. Não busco cura alguma, tampouco vício algum. Apenas quero fotografar e manter em minha memória tudo o que sou, o que acabo de ser e o que posso ser. Não ser idiota e burro já é algo digno.

 

 

André Luiz Ramalho da Silveira

 

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Fugacidade

Fugacidade

Fugacidade, essa confortável e prazerosa força,
Engrandecendo-se à medida que o sentido se esvai,
Fez dobrar minha vontade à mera resiliência.
E a um punhado de sanidade foi reduzida minha identidade.

Na memória, conservo esse resíduo de um eu,
Se meu ou se teu já não sei, já nem suponho.
Dos instantes, novos instantes surgem. Mas, não são instantes.
São pedaços sem qualquer importância.

Aplacar o tédio com pudor, com perversão, com felicidade, com nada.
Eis os nossos tempos. Eis o que do tempo nada é.
O tempo… ao menos isso sentimos, o fundamento que nos corrói.

A vida é uma vitrine em que os espectadores somos nós,
Para confirmarmos se ainda somos nós quem ali somos.
Fugacidade, essa confortável e prazerosa força que nos reduz a nós mesmos.

André Luiz Ramalho da Silveira

As ruas – de pedaço a pedaço

As ruas – De pedaço a pedaço

Das ruas, histórias brotam… E, quem nelas se dispersa,
Em meio a teias narrativas que se engalfinham por entre sonhos e perdições,
Tem a linha da existência urdida em enlutáveis fugas de indizíveis solidões.
Já as memórias, recuperadas a cada brisa, atrelam-se aos silenciosos versos de quem se singulariza.

Quisera eu compor-me como componho o carme de minhas desilusões
Mas dos traços vilanescos dessas ruas sectárias
Resta-me espalhar-me numa harmonia com o mundo, meu mundo, sem conclusões.
Apenas constato a violência desta finitude insidiosa e nela forjo poesias quadradas.

As sombras dessas ruas esquálidas
Apenas nos condenam às sobras
De memórias intumescidas.

Amigo, melhor é viver sem certeza e orgulho
Do que, de todas as verdades dessas tristes ruas do espírito,
Não nos sobrar nem mesmo um reles entulho.

André Luiz Ramalho da Silveira

Respire

Com a lanterna, à procura das pegadas que nos trouxeram até onde estamos…
No retrospecto dos passos com a esperança de um reconhecimento fugaz.
Sem a lembrança da face dos amores, resta-nos apenas aquilo que pressentimos…
Com a memória engasgada do próprio destino inatingivelmente sagaz.

Mas não há ponto de origem pelo qual pudéssemos apreender o que nos determina…
Tampouco um ponto de chegada, cujo confisco nos tornaria donos da estrada.
Existimos como um meio termo nunca apreensível por completo, uma fragilidade que mina
Toda substância que seja além de alguma possível socialização cristalizada.

E articulamos nosso cotidiano de modo a abafar qualquer pergunta
Sobre o que nos motiva a continuar… não há resposta.
Há existência, simples e vazia. Há esquecimento, desde que mundo é mundo.

Irmão, fazemos o que temos de fazer. Sem ficção não há como suportar.
Autômatos não ouvem, não pensam com a memória, não se importam com o próprio ar.
Mas, isso sempre foi assim. Está tudo certo. Uma hora, há de o ar faltar.

André Luiz Ramalho da Silveira

Sem título

Se a minha realidade convergisse com a possibilidade que é a existência,
Eu não já não teria nem mesmo o discernimento pra me incluir,
No espaço da vida que me escapa a cada momento; mas ela me escapa em cadência,
Vejo-a indo aos poucos, sou apenas um eco da sangria que se põe num eterno restituir.

Se meus versos chegassem aos seus ouvidos, se essas letras me tirassem a inércia,
Se caso você pudesse aceitar as proposições de meus preconceitos, se, além disso, esse
Não fosse só mais um fim, como qualquer outro começo, se, além disso, esse
Começo não me representasse à neutralidade de qualquer incumbência…

Se meus gritos fossem ouvidos ao menos por mim,
Se ao menos eu não fosse clandestino, na existência que me tem como estrangeiro,
Se alguma mudança pudesse me tomar de modo a que eu fosse levado minimamente por mim…

Eu teria uma vida além da memória; minha memória projetiva; implosiva.
Onde um coração queima num futuro, amargura-se num passado, neutraliza-se num presente.
Já perdi o controle, agora posso ser apenas uma possibilidade evasiva.

De Vênus à morte da nostalgia

A realidade que deveras tenho, é a eterna lembrança de algum sonho;
Não cessa em transmutar-se, nem em perder-se.
O que deveras conservo em realidade, é a eterna e quase pungente saudade.
De algo que não foi, que talvez nem seja, mas que ainda conservo ao cenho.

Todos os segredos são compreendidos como estruturas simbólicas da nostalgia.
A queda não é apenas um escolher,
Mas o visar o essencial que está já sempre aí, derretendo-se com a nevralgia,
Em mais uma sinestesia que elimina o solipsismo, ainda que continue indiferente o viver.

A raposa corre atrás de sua sombra, num combate com o próprio sonho.
Mas os gatos estão à espreita, seguindo a divisão.
Siga o caminho, àquele que você já sabe, não há volta para o moinho.

O amor é apenas é um novelo, que ainda conserva o enredo entre os montes ouriçados.
Os montes que guardam o motivo, a ser decifrado como segredo e punido com a hóstia.
Conseqüência do ser moral, mas não o fundamento da nostalgia dos desiquilibrados.

A oração dos dias brancos

Nesses dias brancos em que as paredes arrastam-se em nós,
Parece que alcançaremos a salvação pela definitiva desistência,
Nesses dias brandos em que a indiferença deixa insignificante todos os nós,
Não faz sentido nem rogar maldição pela impotência.

E ainda levantas bandeira em nome desse sofrimento,
Porque ao acreditar que é justificada essa dor, poderás esperar salvação,
Mas esse abrigo que tanto procuras apenas é um lugar criado por seu lamento,
Onde tudo se encerra em ressentimento, num tormento que ainda não chega a ser implosão.

Nesses dias em que sua face me olha, por lembranças reflexas em cada canto,
Encontro-me com meu fim quase antes de minha reflexão…
Mesmo quando os dias andam em pares, onde a esperança repousa em um canto.

E ainda achas que ter esperança é esperar salvação… na construção de um bunker.
Talvez eu não compreenda seu estilo de vida, onde o amor é ganho num jogo de pôquer.
Só sei que a memória é a maior inimiga da esperança, onde a reflexão ora pelo ser.