Literatura

À meu amigo, Raskólnikov

Do fim do mundo
De quando o tempo ainda não destruiu o ser.

À meu amigo, Raskólnikov¹ [ver nota ao fim da carta]
(Parte I )

Prezado senhor,

Não sei se nosso tempo ainda permite a contação de histórias, isto é, o ato de contar histórias. Mas, meu amigo, sei o quão perigoso é não conta-las. Havia muito tempo que esta carta deveria ter sido escrita. Mas, quem somos nós para saber do tempo das coisas. Ou melhor, do tempo dos eventos. De todo modo, meu caro, não é exatamente um relato que pretendo aqui fazer. A existência é muito pesada para aguentar sozinho seu fado. Não, não estou aqui para dividir o seu fado. Entendo que há cargas que podem ser compartilhadas, pois somos pessoas e temos amigos, famílias, etc. Contudo, falar disso com você seria perda de tempo. Eu quero aqui falar dessa carga intransferível, meu amigo. Essa que, o máximo que podemos fazer é questioná-la, narrar nossa história para amenizar e dar uma beleza maior a esse peso injustificável. Clandestinamente percorro caminhos em direção à eternidade. Mas, você bem sabe o que é ser um abismo em si mesmo, meu caro. Em breve posso tornar-me poeira. Só faremos sentido quando este tempo findar. Que esta carta, então, mantenha a história, e conserve nosso tempo.
Meu caro Rodka – tomo aqui a liberdade de chama-lo tal como era você chamado pelos seus bravos -, esta carta não é um desafio intelectual, tampouco uma narrativa grandiosa sobre uma realidade enfeitada. Escrevo-lhe sim porque, além do fato de eu já externar isso sobre o que eu tenho a lhe dizer, penso que tudo o que está dito aqui é o mesmo que você pensa sobre o mundo.

Picasso - refeição do homem cego

Picasso – refeição do homem cego

 

Não sei muito bem como começar as coisas. Acho que, de certo modo, há uma impotência tão grande para certos seres que qualquer ato de compreensão é uma ousadia contra a divina criação. Teríamos nós o poder de criarmos algo excluindo o arrependimento quase que visceral à ação? Já não me sinto perdido. Escrevo-lhe com uma idade mais avançada da qual tinha você quando aceitou ser preso. Não falarei muito mais sobre esse assunto, apenas penso que sua decisão foi muito além de um mero arrependimento moral, ou mesmo por represálias sociais – num sentido muito amplo, veja bem. Não quero aqui, também, arriscar linhas erradas sobre sua pessoa. Digo isso por pensar ser insustentável para você conseguir cuidar de si próprio e daqueles aos quais se importavam com você. Insustentável porque tudo é insustentável quando a única coisa que temos é a liberdade existencial, de nosso ser.

A fome e o frio não devem se aliar com a liberdade. Ao menos, não é justo que assim seja. Liberdade é a condição para que consigamos cuidar de nós próprios, e a partir disso, cuidar daqueles a quem cultivamos algum apreço. Sei que, apesar de você não admitir, a limitação e o trabalho da prisão fizeram sua vida menos terrível do que aquela antiga vida de jovem pobre compassivo e asperamente inteligente. Gostaria, antes de qualquer coisa, lhe agradecer por ter feito o que fez, meu caro Rodka. É verdade, disse que não falaria mais desse assunto. Todavia, vamos fazer assim, deixarei apenas como pano de fundo. Melhor dizendo, não é possível dizer que os acontecimentos da vida são apenas questões externas à própria existência, pois a despeito dessas questões e eventos serem determinados pela nossa condição enquanto seres humanos, elas determinam nosso acontecer enquanto seres históricos e temporais. Perdão por falar demais sobre essas questões não tão importantes, mas se há alguém que pode entender o valor quase que intrínseco dos pressupostos, é você, caro Rodka.

Ademais, não julgarei suas reações imediatas e posteriores ações ao assassinato. Somente por você ter feito o que fez é que hoje podemos pensar que há uma linha tênue que não se deve ultrapassar, para que ainda continuemos minimamente humanos. Aliás, não apenas isso… pois você continuou humano, mesmo antes do arrependimento – talvez mais antes do que depois. Quero apenas deixar explícita minha compreensão vaga do momento em que você foi acometido pela cólera do abismo. A pobreza, Rodka, a pobreza é o mal do mundo. Não, não… a vontade, o querer… o querer a pobreza material é o mal do mundo. A pobreza enquanto condição existencial é a situação mais reveladora da existência. Desnudar-se e sermos apenas o que somos, nadas ocorrentes na história. Seres que se multiplicam, criando coisas e justificando essas coisas, apenas para fugir do nada. A pobreza é o caminho para a verdade. Mas, note bem, não sou franciscano, nem sou purista, nem ortodoxo, nem conservador, enfim, não sei o que sou. A hipocrisia também é um preço a se pagar pela sobrevivência. Apenas noto que a condição de fuga, dessa estranheza pela perpétua falta de um lar, tanto material quanto existencial, é o nosso chão, nosso fundamento enquanto bípedes que almejam a divindade. Mas, ainda olho… visar o abismo em meio ao nada.

Caravaggio - Narcis

Caravaggio – Narciso

Entendo sua vontade de pular no abismo, sem antes abraçá-lo. A justiça também ocorre por meio da injustiça. A despeito do merecimento ou não merecimento, é complicado nos darmos o direito de decidir sobre a vida de outras pessoas, de tirar outras vidas. Não penso também que você tenha feito isso somente por causa de ou em um estado de desespero. Certamente havia também uma espécie de ato singularizado – ainda que não explícito para você mesmo -, um ato que representaria uma justiça encarnada contra todo o mal do mundo, naquele momento.

Não compreendo – na verdade é óbvio que compreendo, mas digo assim por vício da língua – como as pessoas encaram a própria solidão. Como o encontro consigo mesmo pode ser encarado como algo tão estúpido e artificial? Tudo bem que se fosse um encontro natural também não nos adiantaria. Mas continua sendo estupidez. Não sei se há mesmo escolhas possíveis quando se tem essa vida que temos. Tudo parece ser fruto de uma vontade, uma força irracional. Se tivermos compreensão e coragem para assumi-la, não haverá escolhas. O possível foge da necessidade. No entanto, essa existência gratuita e sem propósito. Diga-me, caro Rodka, qual o porquê de tudo isso? O mesmo ocorre com a morte… Encaram a morte como o próprio fim, mas não encaram a solidão como sendo a si mesmos. Não que eu faça muito diferente, mas isso não é exatamente uma questão de crença. Claro, falo de crença em um sentido de convicção, talvez. Não gosto de convictos, a verdade objetiva é frágil demais pra que se tenha tanto zelo por ela. Não defendo aqui a ausência de sentido pelo absurdo da existência. Mas, é um fato que, ao menos pra nós, nascidos praticamente sem história, tendo como legado o abismo niilista, tendo que assumir a si mesmos como quem assume o mundo, numa roleta russa com a fortuna – talvez por isso sua situação não tenha sido ainda pior, tendo em vista sua “russidade” -, ao menos pra nós nada disso é justificável, tampouco agradável.

Ademais, com o passar desses anos tortos o mundo virou para mim uma espécie de ficção parcial, meu caro Rodka. Sinto-me como se toda sinceridade que tivesse em meu ser se esgotasse nessa relação. Explico-me melhor. Como se, não, não… Na relação comigo mesmo, é como se fosse gasta toda sinceridade de que disponho. Nessa relação e na minha relação com o mundo da arte ou com essa filosofia. Não é que eu minta para os outros, caro Rodka. Mas, o resto do mundo se esvai nesse jogo, uma espécie de abismo que nos absorve e nos condena à completa falta de liberdade. Se a história do tempo for, quer dizer, se a história pertencer mesmo ao tempo, isso não deve ser eterno. Mas, cá entre nós, seria essa história mesmo assim? Tenho medo da eternidade, meu caro. Mas, assim como sobrevivi à morte, sobreviverei à vida.
Para finalizar, por agora… Sei que você não me responderá estas cartas, Rodka, mas, faço questão de enviá-las. Já faz algum tempo que não saio de meu subsolo. Confesso certo alívio ao externar essas palavras para alguém que me compreenderá. Assim que eu puder, enviarei a próxima.

 

Com todo reconhecimento e simpatia,
Alguém ainda sem nome.

 

 

1 – Esta carta pode ser entendida como um fragmento que, somada a outras cartas, constitui ou pode constituir um importante documento de caráter literário e histórico. Estes documentos tratam da relação entre esse desconhecido com Rodion Românovitch Raskólnikov, personagem que escapou da obra ficcional russa de Dostoievski e que se encontra perdido atualmente em várias partes do mundo. Ao que se sabe, estes documentos foram encontrados por Astolfo Cisma dos Santos, residente em uma pequena cidade no estado do Rio Grande do Sul, Brasil. Astolfo, segundo consta em seu depoimento, após a entrega dos documentos às autoridades locais – que pensavam se tratar de documentos codificados que continham informações sobre o tráfico de drogas para os internos da ala psiquiátrica do Hospital da pequena cidade – jurou conhecer o paradeiro de Raskólnikov. Contudo, após algumas horas de incômodos, teria sido liberado com a condição de não falar mais no assunto. Os presentes arquivos encontram-se na Biblioteca Sazonal da Guarda do Ser, em uma cidade próxima a que reside o Sr. Astolfo, e foram traduzidas por um seleto grupo de uma universidade que possui contatos com a tal biblioteca.
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André Luiz Ramalho da Silveira

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A quase morte de Astolfo

A quase morte de Astolfo

Seguiu tateando o mundo, na ambição humana de procurar um sentido através do corpo, às vezes nem tão próprio assim. A cada fluido trocado, transa jogada, colisão sofrida, ou morte anunciada, postergava-se qualquer inútil certeza. Mas, já não sabia se a vida que lhe narravam era a mesma que ele pensava viver. Já perdera a noção do que é emoção. O resultado já não importava. Nem o que se chama de processo era vivenciado. Era tudo tão racionalizado, que racionalizara até mais uma de suas quase mortes.

Esquivando-se pelas sombras das poucas árvores que havia na rua, andava quase trôpego de tão ensimesmado. Voltou ao mundo quando se deu por conta de estar cativado pela estranha lua. Estranha lhe era, pois se estranhara pelo fato de há tanto tempo não prestar o devido respeito a esse orbe brilhante.

Ademais, era uma noite quente, em que nem os gatos corriam atrás dos ratos. Mas, Astolfo procurava por qualquer mulher, desde que lhe fosse uma completa desconhecida. Ao chegar à segunda bodega que a noite havia lhe destinado, Astolfo sentiu uma embriagada coragem, típica a que os homens de ação acreditam ter, com a diferença de que, na situação em questão, a embriaguez não era o que se pode chamar de lírica.

Com a consciência já devidamente anestesiada, Astolfo poderia agir sem a culpa lhe pesar mortalmente às têmporas. O que significaria, obviamente, ignorar um pouco as suas ilusões estúpidas. Após encontrar um dos pequenos amores da sua vida, acompanhada, Astolfo se sentiu quase que em gratidão pelo universo. Independente de quem fosse esse sujeito, ele seria transformado em um vilão e depreciado de qualquer forma, pela situação a que se encontrava. Mas a questão não era essa. Por pior que fosse, Astolfo sentiu uma estranha liberdade, pois trocaria um transtorno afetivo pela possiblidade de uma boa transa com uma desconhecida qualquer. As vinculações afetivas podem, por vezes, não passar de uma carência estúpida. Assim racionalizava o herói.

De certo modo, foi o que ocorreu. Num golpe de sorte, logo após foi socorrido e já se encontrava perdido em meio ao corpo da desconhecida. Ela não lhe falou nada, nem sobre seu namorado machista paspalhão, nem sobre as suas amigas estonteantemente libertárias, com todas as virtudes morais de um Nobel da paz, nem falou sobre si mesma… Poderia mentir sobre qualquer coisa, e assim o fez. Assim ele o fez também. Ninguém disse nada. Ou melhor, transaram como poucas vezes nada vida e falaram sobre tudo, mas sem fazer referência alguma sobre qualquer um dos dois. Apenas experimentaram o apogeu mais objetivo da liberdade: a fuga da norma.

Como dois adolescentes, assim que passou a emoção, resolveram voltar ao mundo que pensavam ter fugido. Quanto à mulher, nada se sabe, além de especulação. Quanto a Astolfo, bem… ele já é devidamente frustrado por saber que não há lugar mais seguro no mundo do que em si mesmo.

A razão é uma ingrata. Ela ilumina os doentes e miseráveis, ela torna as pessoas doentes e miseráveis. Uma dádiva que nos possibilita constatar a nossa contingência e o fato de que não há nada além do chão. A finitude, às vezes disfarçada de imortalidade, não pode ser comprada. Mas, não. Isto não é sobre o imoderado narrador, é sobre Astolfo.

Seguia ele descrente, e sem pretensões para além de sua autopreservação. Sentia-se bem e imaginava-se como se fosse uma onda sonora, reverberando pelos corações dos jovens ingênuos, fazendo-os tombar de amor. Como música a embalar as mais belas ações humanas, prescrevia a forma com que qualquer relação humana poderia ser devedora. Pulsar os vícios e a força vital de qualquer um. Realmente ele fazia isso. Contudo, Astolfo pensava o amor como a maior expressão de egoísmo da civilização. Para o nosso protagonista, as pessoas querem sentir emoções, querem sexo, querem sobreviver, querem querer, querem existir como parasitas na paciência alheia. Astolfo sabia muito bem disso. Sabia que a falta de sentido do mundo é apenas uma constatação para que os miseráveis consigam alguma mínima paz. Que a história não tem clemência por ninguém. Que as ações só tem sentido porque elaboramos uma ilusão e, a partir disso, compreendemos nosso mundo. Assim reverberava ele, sugava o mundo alheio e o consumia. Astolfo sabia disso tudo, porque ele era isso tudo, como toda a gente, um hipócrita. Até mesmo já havia negociado com Deus. Cada um no seu negócio. A nulificação não é de todo ruim, pensava, desde que toda fuga tenha sucesso.

Mas, não quer mais, não é mais, ou não mais pensava ser um hipócrita. Decidiu – como aquelas decisões que constatamos de um só instante, por já termos decidido há muito tempo – se livrar da hipocrisia. Mas, não é algo que seja possível se desvencilhar. É dela que vem a liberdade. Ou seria o contrário? Fato é que, ao menos no que diz respeito à hipocrisia de ser, ele teria de dar cabo nisso. Melhor era continuar não sendo, pra agradar a pífia consciência, do que seguir nessa balela de ser. Contudo, sentia-se febril de cólera só de pensar em se assemelhar a qualquer torpe paladino da moral. Deste modo, não era mais possível saber da mediocridade do mundo e continuar nessa comunhão de bens. Que louvável, ele ainda era um ser moral.

Ao passar por uma ponte que atravessa a cidade, depois do acontecimento – um tanto atípico para sua ingrata vida, por assim dizer -, sentiu um formigamento no pé e náuseas. Não, o nosso protagonista não é um herói existencialista e não descobriu a verdade do mundo. O fato é que se sentiu mal fisicamente e debruçou-se na beira da ponte para melhor observar a água nada limpa que não refletia a lua. Talvez a generalização não seja algo tão confiável, pensou. Será que tudo não passava de uma bílis estragada? De um rancor calcificado? Desmaiou. Acordou alguns segundos depois, sem conseguir mover as pernas. As têmporas doíam. Estava perto de um hospital. Foi num rastejo malemolente até o pronto socorro. Disse o que houve e foi à emergência. O médico disse-lhe: “O senhor não mais pode fazer isso. É perigoso demais. Caso isso se repita, temo que o senhor não sobreviva.” Astolfo pegou o papel amassado, entregue pelo médico. Voltou e parou novamente na ponte. Decidiu continuar a beber em casa, era mais seguro. E seguiu amassando o papel rabiscado. Chegou a sua casa e foi ler as poucas linhas que tracejavam assimetricamente a folha amassada. Não se surpreendeu, mas não foi muito fácil aguentar. Estava escrito um conselho médico, cuja prescrição constituía-se de apenas um único princípio: não tente mudar.

André Luiz Ramalho da Silveira

Astolfo e o espelho

Astolfo e o espelho

Caminho pelas ruas como se não caminhasse. Imagino roteiros não feitos, mas instantes depois lembro ter feito todos os caminhos possíveis. Reflito minha vida e faço narrativas para aplacar o tédio. Em certos momentos, penso minha própria existência como se eu não mais existisse, na ilusão de abarcar a totalidade do meu tempo de vida e dar um sentido não niilista pra isso. Contradição, sim. Mas, quem se importa. Fato é que diversas vezes me pego pensando na posteridade, uma espécie de fé no futuro, num futuro em que eu já não estaria, mas que simbolicamente deixaria algo para a nobre humanidade. Isso tudo é tão instantâneo que, em outras tantas vezes, esse lapso de imaginação se interrompe pelo café que quase derrubo.
Existo como vírgulas nesse ato descontínuo de sobreviver. Assim mesmo, em verbo, não acredito muito nos substantivos.
É insuportável a existência. Mas, quando eu me vejo escrevendo essa frase, dou risada. Nem pessimista, nem niilista, nem qualquer ‘ista’ consigo ser com êxito. Aliás, se “ser” dependesse de algum esforço, já não seria nada. Mas também “ser nada” depende de esforços. Já me é demais justificar toda e qualquer ação. Não que eu faça ações, mas essa resistência a qualquer substância que chamam de realidade. É tanto valor dado a essa esquizofrenia mimética, que por vezes até eu mesmo caio no esquecimento de que fatos não são nada.
Mas, para não desviar do assunto – muito interessante, como podemos notar – dizia eu que o existir é um fado. É preciso muito amor para não se matar. Mas isso são apenas palavras sem significado expressivo. Parece engraçado, e é engraçado, e patético. A condição humana é isso. Uma tragédia, que só quem a compreende em seu sentido mais originário, necessite rir. Porque quem a compreende em seu sentido originário e não consegue rir, é porque não existe mais. Não é compreender a existência como um substantivo, categorizar e elaborar conclusões fechadas sobre o mistério da vida. Mas, é existir como incógnita sem fundamento e, muitas vezes, sem sentido. Sem essa percepção trágica da existência, da miséria existencial que todos somos, é mesmo impossível de se reconhecer o próximo como alguém.
E há quem fale de amor livre. Há quem fale das mazelas da vida e, por necessidade de justificar a própria hipocrisia, não consegue sobreviver sem gorfar salvacionismos. É um grande excesso de carência se deixar levar pelo autoengano. Mas é ignóbil não admitir isso pra si mesmo. Eu mesmo vivo admitindo minhas hipocrisias pra todo mundo. Até elas perderem o sentido. Afinal, não quero ninguém me condenando por ser o único autêntico entre as mulheres. Mas também não tenho tanta paciência assim, comigo. Sou é covarde, mas isso já é outra coisa. Pelo menos o amargo dessas décadas me vacinou contra idiotas. É o que digo na frente do espelho.

André Luiz Ramalho da Silveira

Kafka, por Camus

Minha homenagem ao 130° aniversário de Franz Kafka, um dos maiores literatos de todos os tempos. Dificilmente alguém expressou tão bem a dimensão da subjetividade como comportando a relação entre metafísica e linguagem. O cotidiano mostra-se como um vazio lógico e absurdo, do qual resta ou a resignação ou o desespero. Ou os dois. Mas, deixo esta homenagem nas palavras de Albert Camus, um dos grandes mestres do existencialismo.

“Um símbolo, um fato, supõe dois planos, dois mundos de ideias, e de sensações, e um dicionário de correspondências entre um e outro. Este léxico é o mais difícil de estabelecer. Mas tomar consciência dos dois mundos presentes significa enveredar pelo caminho de suas relações secretas. Em Kafka esses dois mundos são o da vida cotidiana, por um lado, e a inquietude sobrenatural, por outro lado . Parece que assistimos aqui a uma interminável exploração da frase de Nietzsche: “Os grandes problemas estão na rua”.

Na condição humana, e isto é o lugar-comum de todas as literaturas, há uma absurdidade fundamental ao mesmo tempo em que uma implacável grandeza. Ambas coincidem, como é natural. Ambas se refletem, repitamos, no divórcio ridículo que separa as nossas intemperanças da alma e as alegrias perecedouras do corpo. O absurdo é que a alma desse corpo o ultrapasse tão desmedidamente. Para apresentar esse absurdo, será preciso dar-lhe vida num jogo de contrastes paralelos. Assim Kafka expressa a tragédia pelo cotidiano e o absurdo pelo lógico.

Um ator dá mais força a um personagem trágico quando evita exagerá-lo. Se for comedido, o horror que suscita será desmedido. A tragédia grega é rica em lições a esse respeito. Numa obra trágica, o destino sempre se apresenta melhor sob os rostos do lógico e do natural. O destino de Édipo é anunciado de antemão. Foi decidido no sobrenatural que ele cometerá assassinato e incesto. Todo o esforço do drama consiste em mostrar o sistema lógico que, de dedução em dedução, irá consumar a desgraça do herói. O mero anúncio desse destino inusitado não é uma coisa horrível, porque é inverossímil. Mas se demonstrarem sua necessidade no âmbito da vida cotidiana, sociedade, Estado, emoção familiar, então o horror se consagra. Nessa revolta que sacode o homem e o faz dizer: “Isto não é possível”, já está a certeza desesperada de que “isto” é possível.

[…]

Da mesma maneira, quando Kafka quer expressar o absurdo, lança mão da coerência. É conhecida a história do louco que estava pescando numa banheira; um médico que tinha suas ideias sobre os tratamentos psiquiátricos lhe perguntou “se estavam mordendo” e obteve uma resposta rigorosa: “Claro que não, imbecil, isso é uma banheira”. Esta história é do gênero barroco. Mas nela se percebe de maneira sensível como o efeito absurdo está ligado a um excesso de lógica. O mundo de Kafka é na verdade um universo indizível onde o homem se dá o luxo torturante de pescar numa banheira, mesmo sabendo que dali nada sairá”.

Referência: CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. São Paulo: Record, 2008, pg. 148-151.