Liberdade

A passagem

A passagem

Procurando dar sentido para o que sou,
Descobri que como sou é o que dá sentido
Para o que faço, e o que faço é o que sou.
Letra: a liberdade do convalescido.

Nas agruras do nascer, desfiz-me do que pensava ser,
Numa sórdida autodestruição existencial,
E apenas encontrei criação, num sórdido niilismo abissal.
Abismo que não falo, que não sinto, num apelo ao não-ser.

No diluir das palavras ditas,
Já não sei se em algum tempo passado
Fui mesmo quem penso ter sido.

Ser um si é isso?
Ser-perdido-vazio-oblíquo-no-tempo-sem-raízes-na-nostalgia?
Volto a mim, angustiado, complacente, hipócrita… e na permanência, porque é preciso continuar com a elegia.

André Luiz Ramalho da Silveira

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No estribilho da balbúrdia

No estribilho da balbúrdia

Corte a linha, ande em círculos.
O sorriso das lâmpadas amarelas
Dão a medida daquele egoismozinho estampado nas lapelas,
Tão saudável a boa moral de nossos falos.

Sento-me numa dessas esquinas postas em bancos
Martirizados pelas pessoas que não deixam
As sombras taparem o sol com seus flancos.
Mas a verdade é que no espetáculo, todos a ele se queixam.

Minha linda, a liberdade é algo muito bonito
Quando a gente pensa nela como uma coisa
Pra ser usada sobre outra pessoa ou sobre outra coisa.

Mas essa boçalidadezinha chamada ser humano
Tão esplendorosamente altiva dentro de toda essa pequenez,
Quer mais é esquecer da própria miséria e comprar o sol no próximo ano.

André Luiz Ramalho da Silveira

Da brevidade: alegoria do solo

Das janelas emolduradas,
Amarguradas confissões da alma
Desdobram-se como portões das liberdades fracionadas,
Um sonho por dia morre no mar da calma.

Ornamentam a abertura
Mas não entendem mais a sutura,
De que é cozida a bravura
Cuja feição cravejou-lhes a feiura.

Da árvore plantada
Ninguém por ela velou.
A árvore caída por ninguém zelou.

Ostentar a liberdade
É o furto juvenil do fogo da vitalidade.
Mas nós cansados estamos todos, os sem idade.

André Luiz Ramalho da Silveira

Manifesto contra a ditadura da felicidade III

Irás desvencilhar-te de toda imundícia
Que do embuste nutre todo o bem estar.
Não se trata de felicidade, essa indomável sordícia,
Mas sim da injustificável manutenção do próprio ensimesmar.

Testo minha alma, estabeleço as condições,
Degusto o fracasso, queimo meu espírito no logro das tradições.
Perdi a vida, pedaço a pedaço, desculpa a desculpa.
Alimento o corpo com os motivos da alma, já fraca, sem polpa.

Algum prazer haverá no destinado sono.
Eternidade é a mácula impregnada no egoísmo
Imbricado em cada esforço por uma salvação justificada no auto-engano.

E tudo o que desejas é gostar daquilo que tem e pode ter.
Concebe-te como livre para escolher a carência,
Mas é pela carência que foge tua liberdade. O mundo brada tua aurora autêntica, pífia existência.

André Luiz Ramalho da Silveira

Manifesto contra a ditadura da felicidade II

Sem repensar o passado, não há futuro que se desdobre livre da mácula do fanatismo.
Sem ver o reflexo da razão e escutar os ecos abstratos da tortura e mortificação,
Não há a possibilidade de transcender o abjeto moralismo,
Que permeia a estúpida crença na felicidade desnuda de qualquer pressuposição.

Tal como expôs Andrei Tarkovski, o grande poeta cinematográfico,
A flexibilidade e a fraqueza são qualidades da vivacidade do ser,
Ao passo que a dureza e a força são atributos da morte, conjugadas com a supremacia da ontologia do “físico”.
Liberdade e verdade estão além da ditadura implacável do “você pode ser”.

“Anestesie-me, instituição pútrida.
Roubem meu espírito e firam minha liberdade.
Conservo em mim todos os defeitos ignorados por qualquer santidade.

A solidão nos dá a mão para moldar o tempo na repulsa dessa vida sofrida.
Mas não se enganem neófitos juvenis e anarquistas, não é apenas com o próprio sangue que se faz a liberdade.
A beleza da infelicidade está na autonomia única de ser alheio a qualquer tipo de santidade”.

André Luiz Ramalho da Silveira

Manifesto contra a ditadura da felicidade I

O desencanto é o abrigo dos esquecidos e sustenta um céu que simboliza
A presença quase invisível entre os pares da quase nula diferença.
Trago a vida, ao tragar um sonho, num trago para brindar os entristecidos.
Quando a solidão é contada, já não é mais escravidão… assim serve-se a crença.

Bicam a alma aos poucos, para que possamos olhar os pedaços.
Os ventos acordam e a lua acalenta… e a hecatombe não se desdobra
Nos fatos. Nada acontece. “É loucura!”, diz a cabeça turva sem ver os próprios estilhaços.
E caminham em seus ciclos doentios negando o que querem. O resíduo atribui sentido a sobra.

Não há porque se importar com algo além da própria felicidade.
Não há porque existir sem essa liberdade dos atos.
Para todo erro, haverá um remédio. Um brinde a clínica da superficialidade!

Sob esse céu, as pessoas pensam com a bílis estragada, com a publicidade
Da qual se nutre o ressentimento. Não há liberdade dentro disso.
A verdade surge no colapso dessas orações ao amor ofendido da mediocridade.

André Luiz Ramalho da Silveira

Nada além, ou quase

De olhos cerrados, a violência frui do solipsismo da nova era de liberdade.
Morte ao lado, vida a cima, um sonho de salvação já sem Deus.
Mais do que escolhas, na ação subjaz a vinculação fugaz, que nos dá identidade.
E o alheamento já bane o instituído deus.

No final, nada nos sobra… a sombra de uma pretensa pureza se dissipa
A cada novo amargo despertar… e os olhos continuam cerrados, oprimidos pelo ar,
A pobreza e vontade de aprisionamento cristalizaram-se já na autonomia da culpa,
Já não me importo mais… continuarei chamando meus muros de lar.

Não há como sustentar-se na liberdade.
Na nostalgia recrio os paralogismos da insanidade.
E para quem goza de felicidade, digo que também eles sofrem do mal da mortalidade.

Apenas problemas têm soluções, essa condição nossa é para além disso.
Se for possível viver livremente como uma concepção, que se viva.
Se já não mudei, é porque não mudarei. A permanência no tempo é só mais uma forma de esquiva.

André Luiz Ramalho da Silveira