Ilusão

Finitude e boa ventura

Finitude e boa ventura

Deixar a si mesmo… Despossuir o mundo do ser…
Deixar de ser… Na valentia de ser o próprio abismo…
A si mesmo… O vazio perdurará, na triunfante música do não-ser…
Deixar ser… Aquilo que só o tempo molda, ao esmo…

Na conformação… A forja das substâncias é a ilusão da eterna lisura.
No conforto da boa ventura… Em que a identidade é a justa dissimulação.
Regem um mundo nos atos da postura… Para a verdade enclausurarem na ação.
Reclamam dos ventos da negação… Mas os gritos ainda são pelos privilégios da escritura.

Caminhe na corda, amigo. O descolamento de si é o fundamento da
Se abandone no tempo. Democracia… O deslocamento do presente é a liberdade posta em firmamento.
A verdade é o tempo nos deixando ser… No completo inacabamento.

Inimigos da vida. Não nós, guerreiros silenciosos das cicatrizes esquecidas.
Necrolátricos vestidos de querubins. Líderes ferinos e falsários de mentes incandescidas.
Essa é a tentação primeira da existência, desde que o tempo nos fez gente.

André Luiz Ramalho da Silveira

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O mausoléu

Se ao menos o céu
Estivesse ao nosso alcance,
Servir-nos-ia as nuvens como mausoléu.
Mas da verdade alçada no flechar, alcançável nos é apenas uma nuance.

Não se supera a algazarra triunfante com outros berros mais,
Alarme, alarido, perfídia desmedida.
Diferença de grau é sempre diferença de grau. É preciso mais.
Suspender o resíduo do mundo e encontrar a própria medida.

O descontentamento acompanha todas as incursões.
Depois do colapso da identidade, não é possível ser o mesmo.
À parte disso, a existência continua longe, no alheio terreno das ilusões.

Arrebentar o céu e não ter forças para suportar a falta de ar,
De nada adianta. Mas sempre há um idiota para doar
Algum arfar.

André Luiz Ramalho da Silveira

Escopo da abjeção

E o mundo me cala. Não, eu calo o mundo.
Ora, mas faço eu o mundo me calar, como o mais autêntico fracasso que embala
A solidão que nunca é atingida, porque nela apenas se é, um fundo sem fundo.
E as lágrimas apenas saem pela necessidade que é perseguir a contingência que nos entala.

Harmonia é o imaginário eu que melhor advém à liberdade prospectiva…
Chamada sobrevivência. Mas do mundo já me distancio, alheio á tudo que me guia.
Liberdade não vai além da autonomia visceral de se saber como uma farsa paliativa,
Na construção teórica com o único objetivo de lidar com a morte como um negócio que expia.

Já não mais poesia há nessa farsa de ser, nessa lealdade ao jazer em modos.
Secam-se os lagos a cada inspiração desnecessária que à vida fazem.
E não importa o que se faça, nada irá destruir esse muro, tijolos de felicidade, sopros de engodos.

A consciência é essa doença que nos torna humanos,
Excludentes de um Deus, mas condenados a lembrar da ficção de um tempo
Sem liberdade. Não há escolha que sobreviva a angústia dos sem-anos.