Filosofia

Da filosofia

Da filosofia

Na boca, o repouso silencioso do gosto de ferrugem,
Daquela falta de álcool, daquele excesso de clareza.
O que seria a liberdade, senão a resposta aos gritos que urgem
De um mundo adoecido pela certeza?

Banida, a filosofia se encontra.
Morar na filosofia é morar no abismo,
Morar na filosofia é perecer no que se mostra,
Morar na filosofia é não morar em si mesmo.

A cada passo, calmo e sereno, o escalador une-se em carne, ato e montanha.
Mas, não, sou de baixo, não subo senão em espírito.
Sou da devastação, do abismo da existência, no máximo cavo, ávido, aflito e estrito.

Não por convicção, mas por constatação.
O campo do ser é o mesmo do nada.
Na boca, ainda o gosto de ferrugem de uma existência em permanente execução.

André Luiz Ramalho da Silveira

Anúncios

Micro-enciclopédia de um soneto só

Micro-enciclopédia de um soneto só

Verborragia: a sangria do verbo.
Pensar decomposto, fissura do agir.
Palavra dita é significado traído,
Contraído do pensar fechado que não sabe rir.

Eloquência pedante, sangria em alheios ouvidos.
Beleza: o esquecimento da razão.
Solidão: comunhão de si mesmo como possibilidade de ser a si mesmo.
Finitude: ser uma permanente possibilidade no abismo da falta de fundamento.

Agoras e alegorias, ágoras e alegrias:
Balbúrdias e mundo, vida, verso e fundo.
Não, não há um fora, apenas razão imunda, profunda.

Memória: percepção interpretada de si mesmo.
Sonho: elucubração do esquecimento na sobrevivência cotidiana do existir.
Morte: ver a si mesmo na frente do abismo e decidir: ou-ou.

André Luiz Ramalho da Silveira

Hegel, Kierkegaard e Marx, por Karl Löwith

Kierkegaard e Marx como antítese à Hegel, trecho de Karl Löwith

O absoluto veste pijamas.

Hegel em: O absoluto veste pijamas.

Esse cristianismo eclesiástico-estatal ou também eclesiástico-popular, tal como representado na Dinamarca por Grundtvig, é contrário àquilo que o Novo Testamento anuncia como verdadeiro. Na moderna cristandade, o cristianismo foi abolido por sua divulgação. A conciliação hegeliana de Igreja e Estado transforma-se na revolta religiosa de Kierkegaard e na revolta social de Marx.

Marx caracterizou a época da revolução burguesa, no 18 Brumário de Luis Bonaparte, como tendo paixões sem verdade e verdade sem paixão; seu mundo tornado completamente prosaico se sustenta por plágios, seu desenvolvimento é uma constante repetição das mesmas tensões e relaxamentos, suas oposições se impelem ao cume somente para embotar-se e sucumbir, sua história é sem acontecimentos, seus heróis desprovidos de heroísmo. Sua “lei suprema” é a “falta de decisão”.

 

Com quase as mesmas palavras Kierkegaard, na sua Crítica do Presente, concebeu este mundo sem paixão e decisão

Soren, o jovem Kierkegaard.

Soren, o jovem Kierkegaard.

sob o signo do “nivelamento”, e ao aplanamento de suas diferenças distintivas opunha a acentuação das mesmas. Como modos concretos de nivelamento, ele analisa o aplanamento da disjunção apaixonada entre o falar e o calar, reduzida a palavreado irresponsável, entre o privado e o público, reduzida a publicidade privado-pública, entre forma e conteúdo, reduzida a uma carência de forma sem conteúdo, entre a reserva e a notoriedade, reduzida à representação, entre o amor profundo e a devassidão, reduzida a flerte sem paixão, entre saber objetivo e convicção subjetiva, reduzida a raciocínio sem compromisso. À bancarrota desse “mundo envelhecido”, Marx contrapôs o proletariado e Kierkegaard a existência individualizada perante Deus. As desordens econômicas lhe pareciam apenas ter significado sintomático: “Elas indicam que a constituição europeia […] se modificou totalmente. Nós teremos no futuro desordens interiores – secessio in montem sacrum.[‘levantamento do monte sagrado’, em alusão 494aC quando a plebe abandonou em massa  Roma em consequência das péssimas condições de vida]”.

marx

Marx, o Carlos

Mais decisiva que a bancarrota econômica, social e política que vai de encontro à Europa é a sua decadência espiritual, “sua confusão de línguas”, produzida pelo trabalho acelerado da imprensa. Melhor seria poder silenciar o carrilhão do tempo por uma hora, e visto que isso presumivelmente não daria bom resultado, ele gritaria com os financistas aos contemporâneos: “Economizar, enérgicas e profundas medidas de economia!”, quer dizer, redução às questões elementares da existência humana, à pura e simples questão da existência como tal, que para Kierkegaard constituía a contraparte interior do que Marx denominava como “a questão terrena em tamanho natural”. E assim, baseado na mesma cisão com o subsistente, à crítica mundana de Marx ao mundo burguês-capitalista, corresponde igualmente a crítica radical de Kierkegaard ao mundo burguês-cristão, que é tão alheio ao cristianismo originário quando o Estado burguês à polis. Que Marx coloque as relações exteriores de existência das massas diante de uma decisão, e Kierkegaard coloque a relação interna da existência do indivíduo em relação a si mesmo, que Marx filosofe sem Deus e Kierkegaard diante de Deus, estas evidentes oposições têm em comum sua separação de Deus e do mundo. A assim chamada existência não é mais para ambos aquilo que era para Hegel: o simples “ex-istere”, como surgimento e saída da essência interior que à existência que lhe é adequada. Em Kierkgaard, ela é um regresso à existência do indivíduo que se decide no âmbito da consciência moral, e em Marx uma partida em direção à decisão política concernente a circunstâncias de massas. Com base na mesma desavença com o mundo racional de Hegel, eles novamente separam o que aquele unira. Marx decide-se por um mundo humanitário e “humano”, e Kierkegaard por um cristianismo sem mundo, que, “considerado do ponto de vista humano”, é desumano.

Uma vez que se tenha compreendido a evolução espiritual entre Hegel e Nietzsche em sua lógica sistemática e histórica, então torna-se evidente que a análise econômica de Marx e a psicologia experimental de Kierkegaard coincidem conceitual e historicamente, constituindo uma antítese a Hegel. Eles concebem “o que é” como um mundo determinado por mercadorias e dinheiro, uma existência que está atravessada pela ironia e pelo “cultivo alternado” do tédio. Em um mundo do trabalho e do desespero, o “reino do espírito” da filosofia hegeleniana torna-se um fantasma. Em Marx, a “ideia” de Hegel, que é em si e para si, converte-se em “ideologia alemã” e, para Kierkegaard, a “autossatisfação” do espírito absoluto em “enfermidade moral”. A consumação hegeliana da história torna-se para ambos um encerramento da pré-história, anterior a uma revolução extensiva e a uma reforma intensiva.

LÖWITH, Karl. III, A dissolução das mediações de Hegel pelas decisões de Marx e Kierkegaard. In: De Hegel a Nietzsche: a ruptura revolucionária no pensamento do século XIX: Marx e Kierkegaard. Trad. Flamarion Ramos, Luiz Martin. 1 ed., São Paulo: Editora da Unesp, 2014, p.198-200.

Memórias do subsolo – revisitado. Fragmento: O desespero da fé.

Memórias do subsolo – Dostoiévski – revisitado
Fragmento: O desespero da fé

O meu problema… Talvez seja uma psicose inerente a memória. É… A memória. Ela nunca descansa, ou talvez seu descansar seja exatamente essa atividade torturante de ser uma constante vigia dos atos humanos. Não sei se penso isso como um problema apenas meu. Explico-me, aos poucos… Independente de se eu quero transparecer ser uma pessoa doente, digna de pena e moído por ressentimento, ou se apenas sou obcecado por mim mesmo e, consequentemente, pela minha doença… Independente disso, sei que sou doente.

No entanto, essa é também uma doença filosófica. Em outros termos, isso é um problema filosófico, pois diz respeito à condição humana, ao nosso ser. Quando a imunidade está baixa, esse problema filosófico insufla-se pelas vias respiratórias e mistura-se a bile negra. A melancolia aterradora, então, nos arrebata neste duplo sentido. A partir disso, por essas linhas tracejadas que testemunham minha desavença com tudo que existe, poderia parecer que eu creio no sofrimento.

A inspiração de São Mateus (Vocazione di san Matteo)

A inspiração de São Mateus (Vocazione di san Matteo)

Antes de pensar sobre a fé, que julgo aqui nessas linhas não ter, apesar de parecer o contrário, ainda é preciso externar outras coisas… Por vezes vejo também, como problema, o fato de que tenho sempre a consciência de que tudo irei suportar. Pode isso nada demais ser, se não fosse o caso de eu também ter a consciência – sim, a consciência…- de que todos sabem que suportariam tudo (e suportam), com um pequeno esforço. É claro que, por mais conservador que eu seja, não consigo ser estoico o suficiente para crer que um desgraçado vítima de tragédias pessoais e políticas, poderia ter, por força de decisão própria, consciência e vontade e poder para mudar a si mesmo e o mundo ao seu entorno. De todo modo, pro resto das pessoas, em que a tragédia constitui-se apenas essa de ter nascido, penso que sim, sempre suportam tudo. Esperança talvez, ou desejos ancorados em ilusões transcendentais, como o amor ou a política, ou a filosofia. Ah, o engajar-se…

Não é isso exatamente algo que eu possa ir contra… aliás, claro que posso, e sou. Qualquer ação é já uma inserção nesse mundo, de modo que assumir a própria ausência é a única opção razoável. Todavia, sei que isso também é uma grande besteira. E, cá de meu subsolo, que quero eu universalizando valores? Acaso alguém viria a ler essas malditas linhas sujas? Acaso alguém leria algo disso, apenas para depois precisar de um banho pra tirar a sujeira fétida que a existência implica? Isto é, alguém, do alto de uma vida ordenada e lindamente burguesa, reconhecer-se-ia num tal lamaçal?

Se isso for assim, a memória fará com que todas as coisas voltem a seus lugares. O império das opiniões, da inteligência comum, essa normalização estrutural do pensamento, é articulado na memória e solidificado, fazendo disso o solo comum do mundo. E a vontade de que isso assim seja, de que o passado idealizado seja o valor supremo, é o que entendo como vontade retroativa… Então… Causa-me uma certa ira essa vontade retroativa que as pessoas despertam, ou melhor, ‘criam’. Sim, pois vontade retroativa não é senão a má-fé nas roupagens de uma hipócrita diplomacia e apaziguamento das diferenças. Assim, as pessoas, falam do sofrimento e o usam para se ‘integrar’ em um grupo social, mesmo que seja o grupo dos solitários… Sim, existem tais grupos. Ou atribuem ao sofrimento uma nobre causa, ou um nobre fim.

Só vejo sentido quando ligo algo ao passado, apenas esse espírito temporal dá sentido, por mais que dele nada se pode falar, a não ser que é. Ele, o passado, não é possibilidade pura, como nós, mas simplesmente algo que é.
A memória é uma espécie de carrasco, atua como açoitador, que no menor vacilar chicoteia o atuante, às vezes chamado de sujeito. Isso mostra bem como o passado é presente. Sim, o que seria da moral sem a memória? A ausência dela poderia talvez nos consentir a abençoada felicidade, aliás, alguns – ou muitos – são agraciados dessa forma. Mas a memória não pode ser definida apenas como algo que ‘lembra’, ou talvez não. O fato é que só existe fato porque nos lembramos das coisas, obviamente.

Contudo, rabisquei acima sobre uma psicose em relação à memória, e isso não foi em vão. A memória é uma grande arma, junto com a consciência, uma grande arma para um suicídio coletivo. Sim, pois ambas são as maiores doenças que assolam as pessoas. (Ou as pessoas são as maiores doenças a assolarem a memória e a consciência?) Lembrar-se das coisas me causa certa, ou melhor, me sinto como uma espécie de louco e estrangeiro no mundo. Não me vejo como um louco sociopata, senão seria possível eu nem estar escrevendo isso, a esta altura da minha vida, com tantos anos de sofrimento… Na verdade sou é covarde para assumir qualquer identidade concreta e acimentada. Prefiro meu enclausuramento nesse subsolo infame, na solidão fria de meus sonhos, do que o contato com o mundo supostamente ordenado e mentiroso.

O problema é que sempre suporto. Se é que um problema isso é, mas eu não me sinto antissocial, não como esses que existem por aí. Sim, esses grupinhos de solitários e poetas e artistas e qualquer coisa, que desejam a solidão e nem boa memória possuem, não são doentes o suficiente. Pode soar engraçado isso, mas não tenho como não crer que são, a maioria, grandes vermes, os quais fazem contribuições ao meu ‘sofrer’. Talvez eu tenha me esquecido de mencionar que vida é dor, sim, a vida é dor. Todos gostam de dizer isso, principalmente os que se dizem sofredores. Neles mesmos atua a tal vontade retroativa, criada por eles; na verdade (se é que se pode falar em verdade) eles só mascaram os atos de si próprios, fazem por si mesmos o esforço de esquecer, anulam em parte a memória.

Alfred Hitchcock

Alfred Hitchcock

Será isso tudo minha fé escusa numa humanidade que cultivo em delírio? Não tenho paciência pra nada, ao bem da verdade. Toma-me muito tempo minhas dores físicas e psicológicas. E ainda tenho que lidar com a consciência dessas dores, com a consciência de que meu fim se aproxima e cuidar para não morrer açoitado pelas minhas memórias. Não sei se estou em desespero. Parece-me que sou nutrido, estranhamente, por esse sofrimento que me consome. A despeito de tudo, não consigo não me jogar frente a meus pares, para que eles vejam a vergonha que sou. Para que eles vejam que é desta carne que eles também são feitos, que partilhamos o mesmo conceito de humanidade, ainda que o veneno que inalamos seja distinto. Minha solidão precisa deles, pois eu sou reflexo da imbecilidade do mundo… Por fim, brilha-me agora essa verdade no canto da consciência, é isso… no fim, minha fé é nesse abismo.

André Luiz Ramalho da Silveira

À meu amigo, Raskólnikov

Do fim do mundo
De quando o tempo ainda não destruiu o ser.

À meu amigo, Raskólnikov¹ [ver nota ao fim da carta]
(Parte I )

Prezado senhor,

Não sei se nosso tempo ainda permite a contação de histórias, isto é, o ato de contar histórias. Mas, meu amigo, sei o quão perigoso é não conta-las. Havia muito tempo que esta carta deveria ter sido escrita. Mas, quem somos nós para saber do tempo das coisas. Ou melhor, do tempo dos eventos. De todo modo, meu caro, não é exatamente um relato que pretendo aqui fazer. A existência é muito pesada para aguentar sozinho seu fado. Não, não estou aqui para dividir o seu fado. Entendo que há cargas que podem ser compartilhadas, pois somos pessoas e temos amigos, famílias, etc. Contudo, falar disso com você seria perda de tempo. Eu quero aqui falar dessa carga intransferível, meu amigo. Essa que, o máximo que podemos fazer é questioná-la, narrar nossa história para amenizar e dar uma beleza maior a esse peso injustificável. Clandestinamente percorro caminhos em direção à eternidade. Mas, você bem sabe o que é ser um abismo em si mesmo, meu caro. Em breve posso tornar-me poeira. Só faremos sentido quando este tempo findar. Que esta carta, então, mantenha a história, e conserve nosso tempo.
Meu caro Rodka – tomo aqui a liberdade de chama-lo tal como era você chamado pelos seus bravos -, esta carta não é um desafio intelectual, tampouco uma narrativa grandiosa sobre uma realidade enfeitada. Escrevo-lhe sim porque, além do fato de eu já externar isso sobre o que eu tenho a lhe dizer, penso que tudo o que está dito aqui é o mesmo que você pensa sobre o mundo.

Picasso - refeição do homem cego

Picasso – refeição do homem cego

 

Não sei muito bem como começar as coisas. Acho que, de certo modo, há uma impotência tão grande para certos seres que qualquer ato de compreensão é uma ousadia contra a divina criação. Teríamos nós o poder de criarmos algo excluindo o arrependimento quase que visceral à ação? Já não me sinto perdido. Escrevo-lhe com uma idade mais avançada da qual tinha você quando aceitou ser preso. Não falarei muito mais sobre esse assunto, apenas penso que sua decisão foi muito além de um mero arrependimento moral, ou mesmo por represálias sociais – num sentido muito amplo, veja bem. Não quero aqui, também, arriscar linhas erradas sobre sua pessoa. Digo isso por pensar ser insustentável para você conseguir cuidar de si próprio e daqueles aos quais se importavam com você. Insustentável porque tudo é insustentável quando a única coisa que temos é a liberdade existencial, de nosso ser.

A fome e o frio não devem se aliar com a liberdade. Ao menos, não é justo que assim seja. Liberdade é a condição para que consigamos cuidar de nós próprios, e a partir disso, cuidar daqueles a quem cultivamos algum apreço. Sei que, apesar de você não admitir, a limitação e o trabalho da prisão fizeram sua vida menos terrível do que aquela antiga vida de jovem pobre compassivo e asperamente inteligente. Gostaria, antes de qualquer coisa, lhe agradecer por ter feito o que fez, meu caro Rodka. É verdade, disse que não falaria mais desse assunto. Todavia, vamos fazer assim, deixarei apenas como pano de fundo. Melhor dizendo, não é possível dizer que os acontecimentos da vida são apenas questões externas à própria existência, pois a despeito dessas questões e eventos serem determinados pela nossa condição enquanto seres humanos, elas determinam nosso acontecer enquanto seres históricos e temporais. Perdão por falar demais sobre essas questões não tão importantes, mas se há alguém que pode entender o valor quase que intrínseco dos pressupostos, é você, caro Rodka.

Ademais, não julgarei suas reações imediatas e posteriores ações ao assassinato. Somente por você ter feito o que fez é que hoje podemos pensar que há uma linha tênue que não se deve ultrapassar, para que ainda continuemos minimamente humanos. Aliás, não apenas isso… pois você continuou humano, mesmo antes do arrependimento – talvez mais antes do que depois. Quero apenas deixar explícita minha compreensão vaga do momento em que você foi acometido pela cólera do abismo. A pobreza, Rodka, a pobreza é o mal do mundo. Não, não… a vontade, o querer… o querer a pobreza material é o mal do mundo. A pobreza enquanto condição existencial é a situação mais reveladora da existência. Desnudar-se e sermos apenas o que somos, nadas ocorrentes na história. Seres que se multiplicam, criando coisas e justificando essas coisas, apenas para fugir do nada. A pobreza é o caminho para a verdade. Mas, note bem, não sou franciscano, nem sou purista, nem ortodoxo, nem conservador, enfim, não sei o que sou. A hipocrisia também é um preço a se pagar pela sobrevivência. Apenas noto que a condição de fuga, dessa estranheza pela perpétua falta de um lar, tanto material quanto existencial, é o nosso chão, nosso fundamento enquanto bípedes que almejam a divindade. Mas, ainda olho… visar o abismo em meio ao nada.

Caravaggio - Narcis

Caravaggio – Narciso

Entendo sua vontade de pular no abismo, sem antes abraçá-lo. A justiça também ocorre por meio da injustiça. A despeito do merecimento ou não merecimento, é complicado nos darmos o direito de decidir sobre a vida de outras pessoas, de tirar outras vidas. Não penso também que você tenha feito isso somente por causa de ou em um estado de desespero. Certamente havia também uma espécie de ato singularizado – ainda que não explícito para você mesmo -, um ato que representaria uma justiça encarnada contra todo o mal do mundo, naquele momento.

Não compreendo – na verdade é óbvio que compreendo, mas digo assim por vício da língua – como as pessoas encaram a própria solidão. Como o encontro consigo mesmo pode ser encarado como algo tão estúpido e artificial? Tudo bem que se fosse um encontro natural também não nos adiantaria. Mas continua sendo estupidez. Não sei se há mesmo escolhas possíveis quando se tem essa vida que temos. Tudo parece ser fruto de uma vontade, uma força irracional. Se tivermos compreensão e coragem para assumi-la, não haverá escolhas. O possível foge da necessidade. No entanto, essa existência gratuita e sem propósito. Diga-me, caro Rodka, qual o porquê de tudo isso? O mesmo ocorre com a morte… Encaram a morte como o próprio fim, mas não encaram a solidão como sendo a si mesmos. Não que eu faça muito diferente, mas isso não é exatamente uma questão de crença. Claro, falo de crença em um sentido de convicção, talvez. Não gosto de convictos, a verdade objetiva é frágil demais pra que se tenha tanto zelo por ela. Não defendo aqui a ausência de sentido pelo absurdo da existência. Mas, é um fato que, ao menos pra nós, nascidos praticamente sem história, tendo como legado o abismo niilista, tendo que assumir a si mesmos como quem assume o mundo, numa roleta russa com a fortuna – talvez por isso sua situação não tenha sido ainda pior, tendo em vista sua “russidade” -, ao menos pra nós nada disso é justificável, tampouco agradável.

Ademais, com o passar desses anos tortos o mundo virou para mim uma espécie de ficção parcial, meu caro Rodka. Sinto-me como se toda sinceridade que tivesse em meu ser se esgotasse nessa relação. Explico-me melhor. Como se, não, não… Na relação comigo mesmo, é como se fosse gasta toda sinceridade de que disponho. Nessa relação e na minha relação com o mundo da arte ou com essa filosofia. Não é que eu minta para os outros, caro Rodka. Mas, o resto do mundo se esvai nesse jogo, uma espécie de abismo que nos absorve e nos condena à completa falta de liberdade. Se a história do tempo for, quer dizer, se a história pertencer mesmo ao tempo, isso não deve ser eterno. Mas, cá entre nós, seria essa história mesmo assim? Tenho medo da eternidade, meu caro. Mas, assim como sobrevivi à morte, sobreviverei à vida.
Para finalizar, por agora… Sei que você não me responderá estas cartas, Rodka, mas, faço questão de enviá-las. Já faz algum tempo que não saio de meu subsolo. Confesso certo alívio ao externar essas palavras para alguém que me compreenderá. Assim que eu puder, enviarei a próxima.

 

Com todo reconhecimento e simpatia,
Alguém ainda sem nome.

 

 

1 – Esta carta pode ser entendida como um fragmento que, somada a outras cartas, constitui ou pode constituir um importante documento de caráter literário e histórico. Estes documentos tratam da relação entre esse desconhecido com Rodion Românovitch Raskólnikov, personagem que escapou da obra ficcional russa de Dostoievski e que se encontra perdido atualmente em várias partes do mundo. Ao que se sabe, estes documentos foram encontrados por Astolfo Cisma dos Santos, residente em uma pequena cidade no estado do Rio Grande do Sul, Brasil. Astolfo, segundo consta em seu depoimento, após a entrega dos documentos às autoridades locais – que pensavam se tratar de documentos codificados que continham informações sobre o tráfico de drogas para os internos da ala psiquiátrica do Hospital da pequena cidade – jurou conhecer o paradeiro de Raskólnikov. Contudo, após algumas horas de incômodos, teria sido liberado com a condição de não falar mais no assunto. Os presentes arquivos encontram-se na Biblioteca Sazonal da Guarda do Ser, em uma cidade próxima a que reside o Sr. Astolfo, e foram traduzidas por um seleto grupo de uma universidade que possui contatos com a tal biblioteca.
______________________________________________________________________
André Luiz Ramalho da Silveira

Astolfo e a superação da metafísica (ou sobre como irritar os leitores)

Astolfo e a superação da metafísica (ou sobre como irritar os leitores)

Libélula

Na rodoviária de uma cidade parcialmente escondida entre outras cidades também parcialmente escondidas por outras cidades – cidades tão invisíveis quanto seus habitantes -, em alguma dessas tardes em que o sol esquece a hora de partir, estava Astolfo Cisma dos Santos. Claro, havia outras pessoas. Sempre há. Também havia libélulas, vivendo como se vivem as libélulas, despertando a fantasia e os mitos que, por vezes, suspendem as pessoas da realidade. Também havia o calor. Contudo, ainda que ele fosse excessivo, a sensação de não pertencimento ao mundo – sentimento acentuado pelo local transitório em que estava -, não se eliminava com o suor.

(Essa impressão de ser jogado em meio a um vazio completo, que vem de sobressalto e faz todos os projetos ruírem, não se assemelha com o desespero concernente a alguma tragédia. Não está em questão se essa impressão é ou não agradável, pois essa impressão de mundo não é apenas um atributo psicológico. Se de fato for algo que diga respeito à relação de todo ser humano com o mundo, de uma identidade própria e de como se dá o reconhecimento na alteridade, essa cisão com o mundo só é possível de ser interpretada psicologicamente porque ela tem sua origem na constituição mais própria do ser humano. Explico-me melhor. Essa cisão revelada pela angústia mostra que o ser humano é um nada jogado em um mundo que ele não dá conta, e que é preciso assumir promissórias das quais ele não foi o responsável por criar. Por vezes, esse estranhamento tira a pessoa de órbita e todo o significado de seu mundo entra em colapso. O mais incrível não é exatamente que isso seja assim, mas, o extraordinário é justamente como sempre o ser humano consegue, ainda que quebrado no tempo, recomeçar a partir do nada a reconstruir sua identidade. Isso ocorre em todos os âmbitos da existência. Não porque a realidade é exatamente dessa forma, ou possível de ser descrita assim, tampouco porque seja uma ilusão. Em verdade, o mundo que compartilhamos é uma nuvem mantida impessoalmente e que, na maioria das vezes, é deixada de ser interpretada pela maioria de nós. Mas, ainda somos homens de bem. Tudo retorna ao seu lugar).

Van Gogh - Jardim de Inverno (desenho a lápis e pena, 1884).

Astolfo não iria embarcar em quaisquer daqueles ônibus, nem em qualquer outro veículo. Voltaria pra casa do mesmo modo em que chegou naquele local, levado pelos próprios pés. “Os caminhos são mais importantes do que nossa vontade” – dizia. Estava de chinelos, bermuda e camiseta. Usava também um chapéu – a contragosto, vale dizer, mas, na guerra contra o calor, usa-se as armas disponíveis. Havia atravessado parte da cidade, nessa sua caminhada. Ele andava rápido e olhava pra frente, como se precisasse vencer um inimigo. Passava quadras a fio, contava os próprios passos, e se confundia entre ações e pensamentos. Apenas algo de fixo em seus pensamentos: livrar-se do veneno.

Essa visceral e destrutiva sensação de que as possibilidades não vividas podem estar sendo vividas por outras pessoas. Essa estranha sensação de que outras pessoas podem viver na sombra de nossas vidas, com as pessoas que deixamos em algum ponto no passado. Nesse rastro que deixamos pra trás e que, em algum momento passado, por algum motivo, deixamos de encarar. Além disso, não apenas o abismo de não poder se projetar para o passado, e a consequente agonia disso, mas, a sensação de ser corroído por querer o que não pode ser (no sentido forte da palavra). Em estalos de razão, em meio à quase insanidade, pensava – a paixão pelo ressentimento: o fundamento da civilização –.

Não há muitos meios para se livrar disso. Contudo, pensava, um deles certamente é a exaustão de si mesmo. Destruir tudo, até que o sentimento cujo ressentimento é devedor seja aniquilado. E assim fazia. Caminhava, quando tinha pernas. Trepava, quando tinha companheira. Corria, quando tinha fôlego. Bebia, quando tinha dinheiro. Morria, quando existia demais. Nesse dia, apenas caminhava.

Astolfo, o gladiador. É preciso sofrer pela verdade, disseram os vários poetas, filósofos, religiosos e toda uma corja de pensadores. Há de se notar, caros leitores, por conseguinte, que a vida para muitas pessoas é sofrimento, mas, também, e por isso mesmo, é a verdade. “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”, dizia aquele poeta que dizia ser nada. Apenas acho que ele ignorou que o peso da pena é demasiado, algumas vezes.

Paremos com a enrolação. Isso já é metafísica. Mas, falando em metafísica, qual seria metafísica que assolava o nosso desiquilibrado herói? Se me permitem prosseguir o relato – se não me permitem, apenas parem a leitura –, em breve chegaremos a algum lugar.

Caminhava reticente, ainda que implacável. O inimigo era forte, um monstro, vale dizer. Era preciso criar condições adequadas para fazer com que esse mal aparecesse. Astolfo não era exatamente um atleta, de modo que não era preciso caminhar distâncias imensas pra fazer o corpo falar. Ao final de alguma distância, mais especificamente quando chegou à rodoviária, sentiu que com o suor havia saído um pouco de sua irritação e, assim, pode confrontar melhor a metafísica. Mas, não é uma batalha intelectual, apenas. Esta sombra que domina a civilização desde seu início é o que nos torna humanos. Mas, mais do que essa própria sombra constituir-se como uma das características fundamentais de nossa condição humana, o embate contra ela própria é o que o põe o ser humano à prova.

Claro que ele sentia-se assim, afinal é algo que todas as pessoas podem sentir, basta um pouco de tórrida solidão. Mas, não se enganem. Não se trata de vencer a moral de escravo, do chamado ressentimento nietzschiano. Claro, trata-se, em parte, de ter força suficiente para sustentar os próprios valores. Contudo, para nosso herói a situação não era exatamente como julgava o filósofo alemão, como veremos.

Sentou-se em uma mureta de meia altura, que em parte era abraçada pela sombra das árvores e, em parte, pelo concreto. Pediu um cigarro a alguém que passava. Fumou o cigarro. Após isso, compreendeu ser o momento de enfrentar seu inimigo. Enfrentar a si mesmo. Começava, assim, o diálogo interno:

– Ressentimento… você de volta a assombrar meus dias!?

– Não, caro Astolfo. Você é quem assombra os meus. Deixe-me continuar com a banalidade enfática e nutrir-me de seus sentimentos de desacontecimentos, que eu continuarei a lhe proporcionar a conexão com o resto do mundo.

– Mas, do que se trata, afinal? Já te venci outras vezes, te exauri como esse suor que me nubla o rosto… Por que esse abismo que nunca cessa? – replicou Astolfo.

– Esse abismo é você, Astolfo. É você e todos. Agora, quem lhe pergunta sou eu, vale a pena sofrer assim pela verdade? – perguntou o ressentimento.

– Não confunda as coisas. Já não é a primeira vez que nos enfrentamos, meu amigo. Sei que não basta fazer uma distinção conceitual para me livrar de ti. E que, enquanto eu existir, existirá o abismo e, por todo o lado, estará você.

– Vejo que você aprendeu algumas lições, nobre gladiador. Os lugares estão nas suas coisas. Mas, você não me respondeu. Vale a pena sofrer pela verdade? Por que não és hipócrita como toda a gente deste mundo?

Astolfo, que falava arqueado e ofegante, ao ouvir isso gargalhou sozinho. – Você era melhor, ressentimento. Ao menos mais esperto. Eu sei o que é ser hipócrita, porque, assim como de você, a hipocrisia é outra das incríveis qualidades humanas que é impossível de se purgar. Aliás, me ocorreu agora, a hipocrisia não teria sido originada quando você, ressentimento, foi olhado por alguém no espelho do mundo pela primeira vez? Enfim… não se trata apenas de verdade. Não quero saber da verdade. E se fosse o caso de sofrer pela verdade, eu não precisaria saber antes dessa verdade, para depois sofrer? – falava rindo.

– Tens razão, gladiador. A hipocrisia é uma de minhas consequências mais adoráveis. A mentira e a verdade, duas das ilusões ocidentais que mais me excita. Toda essa quase infinita fonte de tortura a minha inteira disposição. Você sabe disso. A questão é, que diferença isso faz? Você é só mais um insano solitário. Pensa que poderia fazer uma revolução em favor dos oprimidos pelo ressentimento? Você crê demais na humanidade, meu jovem. – Arfava com tirania o Ressentimento.

– Sei que não é possível me livrar permanentemente de você. Até porque você é parte de mim, de tudo que sou e de tudo que sinto. Uma parte terrível, é verdade, mas ainda assim é parte de mim. Te exasperei várias vezes, e farei quantas for preciso. Meu desprezo aos ressentidos – tanto os que acham que não são ressentidos quanto os que pensam ser e, assim, sentem-se justificados em agir como cretinos românticos – é maior do que o que eu tenho por você. Jamais me tornarei um desses idiotas, na defesa hipócrita de qualquer ideia apenas para fugir de si mesmo, do próprio abismo… é tudo tirania. – Nesse momento, Astolfo gritava mentalmente e gesticulava como um louco, mas de um modo muito caricato. – E mais, não sofro pela verdade, nobre ressentimento. Causam-me úlcera a estupidez e a incoerência de cada sujeito existente nessa merda de mundo. Bando de cretinos que defendem o amor, como se isso pudesse nos salvar da danação de existir! – Gritava em cólera, o gladiador; estava de pé e gesticulava sozinho. Após isso, ficou em silêncio em torno de um minuto, respirando fundo e tentando e acalmar. Continuou, agora pensando mais baixo. – Claro, de fato o amor pode nos salvar da danação, para quem com isso é verdadeiramente agraciado. Mas, isso ocorre mesmo? É um tiro no escuro, meu amigo… Ódio é o que sinto por tudo isso, mas, também, odeio o fato sentir ódio. Tudo se anula. E sinto que só não o abracei ainda porque mantenho em mim um amor misterioso, que não consigo justificar e tampouco me desfazer. Não gosto disso, não gosto de esperança… isso só causa-me dor e tédio, como já dizia aquele alemão – Astolfo se referia ao filósofo alemão Arthur Schopenhauer -. Só consigo pensar que o caminho para o nada é a exasperação de toda posição. Nada vence o nada, meu amigo. Agora me deixe um pouco em paz, que já estou muito cansado. – Completava Astolfo, completamente exausto, estirado em um banco.

Libélula gigante - fóssil

Para não perder o hábito, Astolfo rascunhou esse diálogo em algumas linhas. Fez também para lembrar-se de como se enfrenta esse inimigo impiedoso. Não é sempre que se ganha. Ou melhor, não é sempre que se perde. Ficou mais uma hora naquele local, parado e em estado de êxtase, observando as libélulas formarem aquela imagem surreal, que mais parecia um portal para algum mundo diferente. Um mundo de fantasia, que somente os seres humanos conseguem visualizar. Não por alguma elevação espiritual, mas sim porque somente os seres humanos são cindidos. No fim das contas, apenas permanecem as ideias e as libélulas.

André Luiz Ramalho da Silveira

Um sonho, uma realidade

Um sonho, uma realidade.

É preciso crer nas ilusões, antes que elas se transfigurem em realidade. Enganava-se que, mediante simples empenho próprio, isto é, por esforço de crença, poderia livrar-se dessa prisão que parecia não haver fronteiras. Não conseguia distinguir o resto do mundo de si mesmo. Neste momento, tornava-se como que um vetor entre o mundo dos despertos e a fantasia dos eruditos. Apenas seguia nesse aparente delírio. Não era apenas o cansaço extenuante que lhe obstruía o pensamento. O que o tinha levado a esse estado, e a esse lugar? Para existir, seria preciso ter desejo de realidade?

Essas questões começavam a surgir em meio ao burburinho de conversas aleatórias de pessoas inexistentes e do barulho de galhos de árvores que, por mais invisíveis que fossem, carimbavam nos ventos destemidos até mesmo as histórias mais lânguidas que pela terra já rastejaram. Começava a compreender que estava perdendo realidade, não obstante estar aos poucos ficando menos preso. Havia uma leveza nisso tudo, quer dizer, abandonar o fado do corpo pode despertar a impressão de alguma liberdade um tanto ilusória. Mas, junto a essa leveza, compreendia que com o passar do tempo tornava-se mais pesaroso o pensar. O desespero era, em verdade, o de não lembrar-se como lhe adviera tal situação aprisionadora.

Para encontrar algum fio de sentido, procurava, aos tapas, nas lembranças fugidias, algo que lhe situasse novamente ao mundo. Encontrou um remedo de rua, que lhe parecia familiar. Desavisadamente sentiu seu corpo corporificando novamente. Nessa rua em que fincava a imaginação, à busca de uma memória mais sólida, encontrou aquela esquina esfumaçada – que mais parecia um borrão expressionista do que propriamente algo que existisse por si – em que há não muito tempo perdeu o que pensava ser sua vida.

Contíguo à esquina levemente cinza e esfumaçada, e como que também formado pela mesma disforme dissociação de cores que pareciam materializar aquela realidade, estava uma pessoa com ares de elegância deletéria, mas ainda assim com um ar familiar. Num dos lados dessa esquina havia um banco, em que essa pessoa resolvera recostar-se. Vestia um longo casaco cinza, com botões pretos de expressões rústicas, um Keffiyeh verde escuro tracejado de preto – típico lenço árabe -, em que o deixara caído aos ombros e a cabeça descoberta, botas de couro pretas e um guarda-chuva florido. Às vezes, notavam-se algumas explosões de cores no cinza do casaco, e algum intumescimento nas flores do guarda-chuva, que pareciam querer beijar o chão. Contudo, essa pessoa escondia o rosto. Ou melhor, seu rosto era a expressão de cada canto desse lugar, cantos cuja mudança era permanente, ainda que de modo harmônico. Apesar de acinzentado, o cenário parecia saído da imaginação de Van Gogh.

Quando sem perceber e num súbito prostrou-se diante dessa figura, deu-se por conta de que certamente essa pessoa lhe era familiar, ainda que sem reconhecê-la. O casaco ofereceu ajuda e as flores do guarda-chuva serviram de apoio para que se chegasse até o banco. Olharam-se. Começava a duvidar de si mesmo, a duvidar seriamente se era mesmo alguém, dotado de “pessoalidade”, se não passava de uma imagem impressa num mundo atônito e maquinal. Adjacente a esta dúvida, lhe surgia como contra prova essa realidade abstrata que se concretizava como um orvalho se congelando num inverno. Olharam-se. A pessoa a sua frente parecia um velho, mas também parecia uma mulher, e quando começou a falar, tinha uma voz que lembrava a de uma criança. Onde estava, pensava… seria isso um sonho? Por que não desperta? Se despertar, será possível viver da mesma forma, depois de passar por isso? Olharam-se…

– Quem sou eu, ou, o que faço aqui? Organizava a pergunta com ares de presciência, ainda que gaguejasse e falasse rápido e aos tropeços.

– Pergunta difícil, jovem; vamos caminhar e eu lhe explicarei melhor. Replicou a pessoa misteriosa.

Levantaram-se e seguiram ao largo de um jardim outonal. As ruas eram muito semelhantes entre si, de modo que ao caminhar por umas cinco quadras, mal pareciam ter saído do lugar em que estavam. Despertou um vento frio, sendo necessário puxar algum capuz e cobrir a cabeça. Seguiram até uma grande praça, em que ao centro havia uma espécie de basílica. Havia muitas pessoas na praça, apesar do vento razoavelmente frio. Estava noite, aparentemente, mas havia claridade suficiente pra que se distinguissem as coisas que são possíveis de se distinguir.

– Vamos nos sentar. – Disse a figura de casaco e guarda-chuva. – Veja essas pessoas a caminhar, como se tivessem algum propósito em suas vidas. Você pensa que elas estão presas nesse mundo? Ou melhor, você pensa que elas sabem que estão presas? A compreensão não depende apenas de nossa disposição a compreender. É preciso algum sacrifício para colapsar a ignominiosa dominação da falta de reflexão. Este mundo apenas configura-se como uma distopia para quem já entra nele cindido. Ou talvez não. Mas, não há volta, quando se chega a este ponto. – Prosseguiu a figura, falando hermética e pausadamente e acentuando cada palavra.

– Mas, eu morri, ou isto é apenas um sonho? Veja, eu não sinto meu corpo. Parece apenas um delírio, no entanto, sinto como se toda a realidade de fato fosse assim. Aliás, quem é você? Faz parte desse meu delírio ou do delírio de outra pessoa, ou existe mesmo? Ou nenhuma coisa nem outra? – replicava.

– Muitas perguntas você faz, como se você não soubesse as respostas. O que você procura é algo que garanta um mínimo de sentido para a existência, um sentido que não possa se desfazer a cada pouco. Mas, isso não é possível. Toda a realidade, essa que você pensa viver, essa que está fora deste mundo, toda ela assenta-se sobre esse mundo tal como você agora vê. O erro e a fragilidade é o que dá suporte a toda objetividade. Não é que a realidade seja uma ilusão. Creio que ilusão não seja um conceito útil para compreender a complexidade que aqui se impõe. Aqui, todos apenas somos. Apenas ser, nada mais. Sem realidade transcendente, de modo que não haja apoio além de nós mesmos, nós, seres cindidos e incompletos. Mas, a fim de lhe responder, você me perguntou quem ou o que sou eu. Pois lhe respondo, sou muitas coisas. Sou seu nêmesis, sou parte de você, sou parte do mundo, sou parte de outras pessoas. Sou deus, delírio e sonho. Sou qualquer coisa. Mas, mais importante que isso, é como você compreenderá tudo isso, isto é, o que eu significarei para você. Seu mundo é mais do que eu e você, mas ele não é sem nós. – Respondeu-lhe, quase em transe, a pessoa misteriosa, enquanto podava as flores do seu chapéu.

Imóvel, ele fitava o estranho buscando compreendê-lo. Sim, talvez ele já imaginasse alguma resposta nesse sentido. Mas, apercebeu-se que precisava dessa confirmação pra poder voltar de onde viera. Precisava extenuar-se até perder a noção do próprio corpo e da própria consciência, pra conseguir se livrar do apego a substancialidade. Beirava desmaiar. Respirou fundo, agradeceu a conversa, levantou e espreguiçou-se. Não sabia onde estava, nem se lembrava de como foi ali parar. Mas, misteriosamente sabia como voltar, ainda que houvesse esquecido também o lugar de onde viera. Caminhou dois passos, tirou o capuz e respirou todo o vento que havia nesse pedaço de mundo. De imediato, acordou caído da cama, no quarto do albergue em que morava. Levantou-se, pensou e decidiu: nunca mais dormirei. Sentou-se novamente e, após constatar novamente a vida que leva, tornou a dormir.

André Luiz Ramalho da Silveira