Estrangeiro

Sem título

Se a minha realidade convergisse com a possibilidade que é a existência,
Eu não já não teria nem mesmo o discernimento pra me incluir,
No espaço da vida que me escapa a cada momento; mas ela me escapa em cadência,
Vejo-a indo aos poucos, sou apenas um eco da sangria que se põe num eterno restituir.

Se meus versos chegassem aos seus ouvidos, se essas letras me tirassem a inércia,
Se caso você pudesse aceitar as proposições de meus preconceitos, se, além disso, esse
Não fosse só mais um fim, como qualquer outro começo, se, além disso, esse
Começo não me representasse à neutralidade de qualquer incumbência…

Se meus gritos fossem ouvidos ao menos por mim,
Se ao menos eu não fosse clandestino, na existência que me tem como estrangeiro,
Se alguma mudança pudesse me tomar de modo a que eu fosse levado minimamente por mim…

Eu teria uma vida além da memória; minha memória projetiva; implosiva.
Onde um coração queima num futuro, amargura-se num passado, neutraliza-se num presente.
Já perdi o controle, agora posso ser apenas uma possibilidade evasiva.

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O resíduo de Rembrandt – II

Naquele ensimesmar-se que despe o poeta da própria poesia,
Configurando-se o resíduo de um si mesmo no sentimento de apostasia,
Não mais disseminado por pronomes e substantivos de qualquer alérgica alegoria,
Resta apenas o mudo sentimento de mundo, que acolhe o estrangeiro em sua afasia.

Quando se é estrangeiro a si mesmo, na cisão de um projeto abissal,
O outro aparece como a salvação nunca alcançável em meio a esse torpe nevoeiro.
Mas a fuga é somente a região espaço temporal em que é realizada a busca para o irreal,
Quando se alcança a fuga em sentido pleno, já se está novamente à mercê de algum coveiro.

A identidade sofre o mesmo processo da fuga de si mesmo, pois nada mais é do que isso.
E o reconhecimento é a elevação de si até a imagem fugaz de alguma idéia de realidade,
Não posso esperar ser reconhecido para além do processo limitado da fuga de identidade.

Desisto de tudo só para poder escolher-me uma vez mais; meu apreço ao outro
Resulta como o mais profundo egoísmo; nessa alteridade do espelho quebrado
Meu reflexo mostra-se como isso e apenas isso; uma inaptidão a qualquer brado.