Decisão

Hegel, Kierkegaard e Marx, por Karl Löwith

Kierkegaard e Marx como antítese à Hegel, trecho de Karl Löwith

O absoluto veste pijamas.

Hegel em: O absoluto veste pijamas.

Esse cristianismo eclesiástico-estatal ou também eclesiástico-popular, tal como representado na Dinamarca por Grundtvig, é contrário àquilo que o Novo Testamento anuncia como verdadeiro. Na moderna cristandade, o cristianismo foi abolido por sua divulgação. A conciliação hegeliana de Igreja e Estado transforma-se na revolta religiosa de Kierkegaard e na revolta social de Marx.

Marx caracterizou a época da revolução burguesa, no 18 Brumário de Luis Bonaparte, como tendo paixões sem verdade e verdade sem paixão; seu mundo tornado completamente prosaico se sustenta por plágios, seu desenvolvimento é uma constante repetição das mesmas tensões e relaxamentos, suas oposições se impelem ao cume somente para embotar-se e sucumbir, sua história é sem acontecimentos, seus heróis desprovidos de heroísmo. Sua “lei suprema” é a “falta de decisão”.

 

Com quase as mesmas palavras Kierkegaard, na sua Crítica do Presente, concebeu este mundo sem paixão e decisão

Soren, o jovem Kierkegaard.

Soren, o jovem Kierkegaard.

sob o signo do “nivelamento”, e ao aplanamento de suas diferenças distintivas opunha a acentuação das mesmas. Como modos concretos de nivelamento, ele analisa o aplanamento da disjunção apaixonada entre o falar e o calar, reduzida a palavreado irresponsável, entre o privado e o público, reduzida a publicidade privado-pública, entre forma e conteúdo, reduzida a uma carência de forma sem conteúdo, entre a reserva e a notoriedade, reduzida à representação, entre o amor profundo e a devassidão, reduzida a flerte sem paixão, entre saber objetivo e convicção subjetiva, reduzida a raciocínio sem compromisso. À bancarrota desse “mundo envelhecido”, Marx contrapôs o proletariado e Kierkegaard a existência individualizada perante Deus. As desordens econômicas lhe pareciam apenas ter significado sintomático: “Elas indicam que a constituição europeia […] se modificou totalmente. Nós teremos no futuro desordens interiores – secessio in montem sacrum.[‘levantamento do monte sagrado’, em alusão 494aC quando a plebe abandonou em massa  Roma em consequência das péssimas condições de vida]”.

marx

Marx, o Carlos

Mais decisiva que a bancarrota econômica, social e política que vai de encontro à Europa é a sua decadência espiritual, “sua confusão de línguas”, produzida pelo trabalho acelerado da imprensa. Melhor seria poder silenciar o carrilhão do tempo por uma hora, e visto que isso presumivelmente não daria bom resultado, ele gritaria com os financistas aos contemporâneos: “Economizar, enérgicas e profundas medidas de economia!”, quer dizer, redução às questões elementares da existência humana, à pura e simples questão da existência como tal, que para Kierkegaard constituía a contraparte interior do que Marx denominava como “a questão terrena em tamanho natural”. E assim, baseado na mesma cisão com o subsistente, à crítica mundana de Marx ao mundo burguês-capitalista, corresponde igualmente a crítica radical de Kierkegaard ao mundo burguês-cristão, que é tão alheio ao cristianismo originário quando o Estado burguês à polis. Que Marx coloque as relações exteriores de existência das massas diante de uma decisão, e Kierkegaard coloque a relação interna da existência do indivíduo em relação a si mesmo, que Marx filosofe sem Deus e Kierkegaard diante de Deus, estas evidentes oposições têm em comum sua separação de Deus e do mundo. A assim chamada existência não é mais para ambos aquilo que era para Hegel: o simples “ex-istere”, como surgimento e saída da essência interior que à existência que lhe é adequada. Em Kierkgaard, ela é um regresso à existência do indivíduo que se decide no âmbito da consciência moral, e em Marx uma partida em direção à decisão política concernente a circunstâncias de massas. Com base na mesma desavença com o mundo racional de Hegel, eles novamente separam o que aquele unira. Marx decide-se por um mundo humanitário e “humano”, e Kierkegaard por um cristianismo sem mundo, que, “considerado do ponto de vista humano”, é desumano.

Uma vez que se tenha compreendido a evolução espiritual entre Hegel e Nietzsche em sua lógica sistemática e histórica, então torna-se evidente que a análise econômica de Marx e a psicologia experimental de Kierkegaard coincidem conceitual e historicamente, constituindo uma antítese a Hegel. Eles concebem “o que é” como um mundo determinado por mercadorias e dinheiro, uma existência que está atravessada pela ironia e pelo “cultivo alternado” do tédio. Em um mundo do trabalho e do desespero, o “reino do espírito” da filosofia hegeleniana torna-se um fantasma. Em Marx, a “ideia” de Hegel, que é em si e para si, converte-se em “ideologia alemã” e, para Kierkegaard, a “autossatisfação” do espírito absoluto em “enfermidade moral”. A consumação hegeliana da história torna-se para ambos um encerramento da pré-história, anterior a uma revolução extensiva e a uma reforma intensiva.

LÖWITH, Karl. III, A dissolução das mediações de Hegel pelas decisões de Marx e Kierkegaard. In: De Hegel a Nietzsche: a ruptura revolucionária no pensamento do século XIX: Marx e Kierkegaard. Trad. Flamarion Ramos, Luiz Martin. 1 ed., São Paulo: Editora da Unesp, 2014, p.198-200.

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