Conto

Ventos, ponteiros, Astolfo e Galiarda

Ventos, ponteiros, Astolfo e Galiarda

O mundo assemelha-se a um jogo de tabuleiro em que as peças movimentam-se com relativa autonomia e sem relação com o todo.

A-Jacek-Yerka-surrealist-fantasy-painting-of-the-guardian-of-time-and-his-henchmen-clocksDentre incontáveis invernos, aquele que ocupa a posição atual sempre parece o mais cruel. Astolfo sabia disso, mas não conseguia despir-se dessa sensação. O desespero era insistente, mas não o suficiente para acatar todo o seu clamor. A solidão impera, agora mais forte, agora já ultrapassando o silêncio. Como romper com o impessoal, com as práticas que se faz porque se precisa fazer para se suportar na vida? Isso tudo parece artimanha de uma solidão imperiosa, pois nos acostumamos a todas às situações e, a pra cada uma delas, conseguimos fazer um discurso que a justifique para que ela seja do jeito que é, tal como fazemos com nossas próprias vidas.

Aquela velha sensação de não estar vinculado e e estar desconexo com as situações em que se vive, a não ser por eventuais ou seguidas bebedeiras, parecia mais velada, mais forte. Parecia que pra cada criatura com quem travava alguma relação era preciso justificar bem a razão de isso ser assim. Mesmo quando era absurda e sem qualquer propósito. Afinal, não era a relação com alguém que estava pensando em justificar, mas sim o que de fato é uma relação. Isso não parece ser um problema para o pensamento mediano e mais imediato. Astolfo, além de não ser assim, ainda era uma pessoa demasiadamente complicada. Como todas as outras, mas tirava daí sua força criativa. Deste modo, o sentimento de estranheza no mundo era uma constante. Toda relação humana, penso eu que ele pensava assim, era dependente de uma relação consigo mesmo e, principalmente, dependente apenas de nossa relação com o tempo. Assim, se tratava mais de estar ou não vinculado a algo, inclusive mesmo à própria vida. Isso não era exatamente algo simples, como se apenas por uma opção trivial e por algum capricho se pudesse vincular-se ou desvincular-se de algo. Penso eu que a situação diz respeito mais ao fato de que as coisas humanas dependem mais daquilo que fazemos delas e não que haja algo por si só independente de nós. Para Astolfo, a desvinculação como uma evidência da finitude humana já ganhara inclusive força filosófica. Penso eu que ele pensava assim, mesmo que não formulasse tão eloquentemente quanto eu penso estar fazendo neste momento.
O que seria de um mundo sem os seus criadores ansiosos… o mundo, esse que fazemos parte e que formamos, que esbarra no tédio perante a impotência ontológica. Gostaria de visitar aquele antigo silêncio, em que a resignação aparentemente autêntica perante o mundo impedia-me de viver.

Astolfo procurava antigas cartas escritas e nunca enviadas, pois tencionava a encontrar algum resquício de sentimento que o permitisse identificar-se novamente como sendo alguém e não apenas parte figurativa de possibilidades irrealizadas. Buscava impressões de mundo, daquelas que quando se está na juventude costuma-se compreendê-las como o estar surpreso perante o desvelamento do mundo. Quando se envelhece, porém, tudo é consumido no tédio. Ou na angústia. Felizes os que não sabem da liberdade.

Fios pretos quase cinzas balançavam, uns se emparedavam, outros se separavam, outros, mais introvertidos, apenas se resignavam e juntavam-se a outros no movimento do vento, em que fingiam, na cabeça, serem cabelos. Um sol fotográfico, manifestado apenas como indício nas nuvens avermelhadas que lentamente se dissipavam com o vento quase frio, coroava aquele fim tarde. Momentos de rara beleza natural.

Ao lado, um negro que vestia uma calça cor de tabaco envelhecido, camisa clara e a cara arruinada pelas agruras, olhava fixamente para uma garrafa plástica pela metade, que tinha dentro o que parecia ser uma cachaça aquecida do sol. Na sua frente, um cachorro com aparência de ter nascido meio solto no mundo e de porte médio, que o olhava sem entender muito, mas, parecia faceiro. Ao lado, um homem em seus trinta anos, corpulento com cara de pensionista, cara meio rosada meio marrom, uma boca cheia de dentes que vociferava intempéries odiosas, escorado em seu carro, que olhava o cusco, a garrafa e o negro. Enquanto tomava sua cerveja quase quente. Queria jogar no negro. Ou no cachorro. Pra não errar, fingiu errar uma lixeira, e jogou entre os dois. A garrafa ricocheteou e, de revesgueio, quicou e acertou Astolfo triscando sua perna, que estava mais atrás da cena. O homem branco corpulento ousou de longe uns gestos estranhos, como se pedisse desculpa, mas sem querer pedir desculpas. Antes de terminar as mímicas, Astolfo já havia quebrado um vidro do carro com uma garrafada. Astolfo correu quadras. O homem tropeçou e não prosseguiu. Aprendeu uma lição: praticar melhor o tiro ao alvo.
Parado como quase estava, num movimento preguiçoso de negação de movimento, Astolfo inclinou-se para o lado ao reconhecer Galiarda, sua antiga paixão. O deslocamento existencial dessa judia francesa, que se expandia libidinosamente a criar formas, confortava de imediato a sensação permanente e, por vezes, brutal, do estranhamento de Astolfo perante o mundo. Viram-se numa bela praça. Galiarda queria encontrar-se, mas não encontrava, Astolfo não queria encontrar, mas encontrava. O que é isso? Pensava no jeito sagaz e nos fartos seios de Galiarda e nos seus gemidos, que pensava no jeito profético e sem talento burocrático de Astolfo. Pensava brutalidade do mundo, que não deixa como permanente nada que possa ser bom. O que é isso? Como pode a impotência atingir tamanha profundidade? Pensava nos quadris de Galiarda, que pensava nas mãos sábias de Astolfo, que depois se entediava e ficava apático porque depois do prazer tudo se acaba. Para onde vai à verdade indômita de um mundo que é absurdo? Pensaram isso por mais ou menos os dez passos que os separavam, até que se encontraram e se cumprimentaram.
Galiarda vestia as cores do fim da tarde, com uma elegância que sequestrava a atenção dos céticos. Astolfo, mais niilista e menos cético, desconfiava das cores. Mas, como um autêntico guerreiro contra o desorgulho – como ele de vez em quando zombava de si mesmo – atirava-se de corpo todo nesse sequestro.

 

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Bouguereau – The Nymphaeum – 1878

– Como está, meu caro?
– De passada… O dia está bonito, pensei em respirar algo que não seja os cômodos de casa… Esse meu relógio pesa, pelas horas desordenadas. E você, minha bela Galiarda, que a vida nos diz nesse momento?
– Eu estou bem sim. Aproveitei essas pequenas férias fora de época para não encontrar ninguém desinteressante na minha rota de fuga do mundo maquinal… e aproveitar para escrever sobre as cores e os desencontros. E você, quais os afazeres que tem lhe tirado o sono?
– Estou bem também. Já não sei bem tanto dessas coisas.. Tenho estado mais tranquilo, o que não sei se é bom. E essa resignação sua, também é a minha. Mas, vamos deixar pras narrativas darem conta desse abismo que parece imperar sobre nós… vamos dar uma volta?
– Claro! Mas, depois. Preciso encontrar uma pessoa estável, antes de flertarmos com nossas sombras… brincadeira. No entanto, acho que eu gostaria de querer isso.. isso de querer ter uma pessoa estável. Afinal, acho que é o nosso desejo, não? Não sei… Penso que pessoas estáveis servem como âncoras que ajudam pessoas como nós a nos guiarmos..
– É! Pessoas são balizas para que possamos sobreviver.. às vezes, é preciso se orientar pelo mundo… talvez o mundo não seja apenas um abismo… ou melhor, esse abismo às vezes nos olha de volta e, se não tivermos com a gente um bom lugar pra se segurar, ou ao menos se não soubermos do que são feitos os ponteiros do relógio, apenas seríamos consumidos por aquilo que pensamos rejeitar..
– Pode ser, mas não precisamos rejeitar o mundo, meu caro… a felicidade não é tão nefasta assim. A profundidade nem sempre é correta… às vezes, ela só é mais suja.
– É… não tenho comigo muitas convicções, Galiarda… e hoje menos que ontem, e etc. Mas, é fato que eu desconfie cada vez mais da minha profundidade, e da profundidade do abismo. O superficial, esse paraíso de sensações que ajuda a esconder a lembrança de ser alguém, não parece tão nefasto assim…
– Não apenas isso, Astolfo… o superficial não é superficial. Ou diria que toda a parte da sua vida que não esteve dominada pela reflexão seria trivial e descartável? É nisso que está a vida, Astolfo! Nas fendas do plastificado que reina a liberdade! Não apenas nisso, não me entenda mal… mas o mundo é bem mais do que o nosso julgamento faz dele.
– Não sei, mas, concordo… Mas, não sei. O superficial apenas me dá alguma força para seguir, pois não consigo nunca encontrar alguma razão universal que justifique qualquer coisa… nem nunca acharei. Acho que não estou fazendo a pergunta correta… Meus vícios já não me ajudam. Tentarei prestar mais atenção no vento, que se manifesta nas folhas, e alivia esse calor infernal.
A busca pela felicidade começa pela escolha de uma música, passando pelo encontro da cor de um bom vento e, por fim, com o exaurir de alguma parte de si que já não é mais parte.

Minotauromachy - Picasso

Minotauromachy – Picasso

André Luiz Ramalho da Silveira

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O homem sem história

O homem sem história

Egon Schiele - Self Portrait 1912

Egon Schiele – Self Portrait 1912

No que diz respeito à existência, era costume de minha parte pensar acontecimento e vida como uma correlação essencial, de tal modo que, se não houvesse acontecimento, não haveria vida. Como não me houveram acontecimentos, tinha plena convicção de que não morreria, até este momento. Não pretendo imitar a grandiosidade entediante de Machado de Assis, no seu clássico livro [Memórias Póstumas de Brás Cubas] em que a personagem principal começa a narrativa do mesmo modo que estou fazendo. Tampouco pretendo escrever um livro, e já peço de antemão as devidas desculpas pelo preâmbulo não muito elegante. Gostaria, por fim, não de narrar minha morte, tampouco minha vida, sem acontecimentos. Gostaria, sim, de escrever sobre o interlúdio. Peço desculpas pelas expressões não tão usuais, mas, é o modo que encontro para falar de “vivências” não tão comuns. Gostaria de falar sobre um existir que desacontece, isto é, esse âmbito da vida que nos faz duvidar dela mesma, de nossa existência, do sentido em geral.
Passarei a palavra, então, ao narrador.
Olhava para o chão, entristecido. Apenas por um momento. Logo se recobrava de sua típica alegria. Ainda estava sujo, com terra nas mãos e um pouco dentro dos calçados, que eram da mesma cor daquela terra seca. Foi parar ali por obra da necessidade. Resmungava para si mesmo, enquanto apertava insanamente contra o peito a mão direita enlaçada num crucifixo de metal: “nada há no mundo além da necessidade…”.
Em uma metrópole como São Paulo há muita vida, muitos acontecimentos, muito artifício maquinal dando suporte às relações impessoais que controlam a existência invisível de todos. Em todas as cidades há isso. Mas, nas maiores metrópoles, isso ocorre de uma forma completamente caótica, ou bela, como dizem alguns. Flores e violência, amor e preconceito e todas essas coisas que acontecem com as pessoas. Jarbas Arbelindo, o protagonista dessa narrativa, tinha uma vida semelhante à de qualquer outro cidadão, com as peculiaridades que fizeram ele o protagonista da narrativa e não outro personagem.
Morava na metrópole há aproximadamente dez anos. Queixava-se sempre da mesma situação, isto é, da falta de acontecimentos em sua vida. Embora tenha viajado clandestinamente da África ao Brasil, de ter sido fotógrafo amador na bizarra experiência cultural feita pelas grandes potências no Haiti, e de nos últimos anos trabalhar em um sebo bem conceituado da capital cosmopolita bandeirante, autoproclamados como os mais brasileiros entre todos os brasileiros, ainda lhe era um hábito bradar bêbado que Deus o tinha feito para não viver. Apesar do drama, falava sempre rindo.

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Acreditava que tudo que fazia era por necessidade. Toda sua vida havia sido um contínuo de eventos determinados, que o expulsava de si mesmo enquanto agente que realiza escolhas. Era muito cristão, também. Sabia que, no fundo, era sua fé que o guiava, apesar de saber que nunca morreria. Apesar de crer que sabia que nunca morreria, de conceber sua existência como uma eternidade permanente, imutável, isso não lhe garantia qualquer segurança para decisões práticas. Ao bem da verdade, fazia alguns anos que tomava a realidade como uma espécie de ficção, da qual bastaria entrar no jogo e interpretar as regras, ainda que essas regras mesmas não sejam feitas nem pelo jogo nem pela realidade. Deste modo, ao invés de deprimir-se morbidamente pela falta de liberdade prática, apenas seguia a metafísica, como o absoluto andando a cavalo – para usarmos uma metáfora hegeliana.
A memória, é preciso ter isso em mente, não é exatamente um trunfo para um homem sem história. Acontece que, para uma compreensão comum da realidade, os pensamentos e a memória dos acontecimentos podem relatar exatamente a realidade desses acontecimentos, como se funcionassem como impressões fotográficas de algo que está aí por si mesmo. Contudo, nesse sentido comum, verdades não passam de interpretações e preconceitos que articulam esses mesmos fatos. É preciso ter isso em mente. Ora, é preciso ter isso em mente porque a vida de Jarbas era, para ele mesmo, uma ficção. Uma ficção e que ele acreditava fielmente, mas, uma ficção. Em outros termos, uma vida como qualquer outra.

Jarbas gostava de arriscar a vida, para testar a sorte. Mas, testava-a sempre com muita cautela, afinal pensava não ser prudente sobreviver à vida estando em partes. Estava atrás de acontecimentos, mas sempre tomando medidas para que eles não acontecessem. Desse modo, conseguia sempre o feito de ser um antagonista consciente nas próprias ações. Fazia o mesmo quando se tratava de questões sentimentais, com a diferença que a proteção contra os acontecimentos rivalizava belicamente com a vontade de participar dos acontecimentos. Jarbas vivia como uma experiência de si mesmo. Mas, é preciso que se diga, tinha muita sorte e Deus a seu lado.

Escher

Escher

Como a existência é abençoada! – pensava Jarbas. Certa vez, Jarbas começou um namoro porque, ao atravessar uma rua muito movimentada, correu fora da faixa de pedestres e, vendo que os carros pararam e ficaram no aguardo de sua travessia, fingiu ser um robô e repetiu o percurso umas duas vezes, até ser atropelado. Quando levantou, percebeu que não havia se machucado gravemente e, sempre de olho em seu estado de graça divina, apenas sorriu e agradeceu o motorista, que ali já não estava. Começou o namoro porque algumas moças viram o acontecido e riam muito, até o atropelamento. Depois, como que socialmente justificado para sentir prazer por sentirem pena dele, fez disso um charme e acabou em relação com Alardina Trambolho. Logo terminaram, afinal um relacionamento precisa ter um bom começo para que dure.

Antes de se encontrar no momento relatado ao início, Jarbas saiu de seu trabalho, com um velho livro contra o peito, e em alguns passos já se ofuscava na multidão de sem-nomes. Parou em algum bar para tomar uma cerveja, de preferência em algum lugar limpo e higienizado – o que, segundo Arbelindo, era uma árdua tarefa. Após isso pensou que era hora de voltar para seu lar. “À caminho do calvário”, pensava rindo-se sem crer muito no que fazia.

Pelo caminho comum, pegaria o metrô na estação Praça da Árvore e iria até São Bento. Ao invés disso, preferiu caminhar uma parte do trajeto. Garoava. Pensou que não se molharia, porque a água rala lhe cobria a face engraçadamente carrancuda e iria vivar vapor, como toda questão de física. Derretendo assim, levemente ébrio com cerveja aguada, embrenhou-se na garoa já espessa em um começo de noite primaveril. Ou seria outono? Talvez verão, mas, não importa. Após sentir as têmporas esquentarem, sofreu um empurrão decorrente de uma quase briga que ocorreu ao seu lado. Não se machucou, mas, acabou caindo em uma poça rasa de lama, enlamaçando-se. Se era razoável a seriedade que seu corpo passava, agora com a cara e roupas sujas, tinha um ar estranho e talvez assustador. Pegou o metrô e desceu na estação que mais lhe aproximava de seu lar.

Chegou à estação São Bento após um tempo curto. Não quis se limpar durante todo esse trajeto, não acreditava muito na sujeira. Apenas queria terminar o calvário. Apesar de calculada apatia, Jarbas inclinava-se cada vez mais a querer conhecer o que as pessoas chamam de fé. Contudo, Jarbas apenas conseguia se aproximar desse âmbito da existência de um modo calculado, não conseguia parar de fazer projeções. Cria tanto na realidade, que toda verdade, por ele entendida como verdade irredutível e empírica, baseava-se na observação. Dessa forma, ele acreditava que não morreria, que não se molharia, enfim, que o mundo acontecia a partir dele. Em uma cidade como São Paulo, crenças metafísicas são comuns, pois é assim que se sustenta o mito da intersubjetividade nas grandes metrópoles.

Goya

Goya

Após caminhar durante dez minutos mais ou menos, Jarbas avistou uma grande Igreja Católica, que ficava na rua de sua casa. Atravessou a rua, com o barro já secando em sua cara, ainda que garoasse. Eram 18h. Saíam da Igreja alguns fiéis: beatas, mulheres submissas, cidadãos de bem, muitos sofredores, dois filósofos, alguns bêbados, algumas crianças obrigadas pelos pais, alguns pais obrigados pelas crianças que estavam entrando na puberdade, alguns velhos que iam aplacar o tédio, e alguns playboys que precisam se confessar regularmente, a fim de manter a conta em dia. Jarbas abraçava o seu velho livro prefiro: Eneida, de Virgílio. Andava tropegamente desviando dessas pessoas. Estava um tanto atordoado. Até que, em um momento de descuido, uma dessas crianças que obrigaram os pais a irem à Igreja empurrou Jarbas e, este achando que não cairia porque só cai quem voa, caiu de cara em seu livro Aeneis ao tropeçar em si mesmo. Jarbas levantou, pegou seu livro que parcialmente se rasgou, arrumou sua roupa suja, tirou o barro do olho, riu para as pessoas a sua volta, e deu um chute nos peitos do quase adolescente que o derrubou. Ao fazer isso, perdeu o equilíbrio e quase caiu novamente.

Seu corpo torceu-se para a direita, segurando o livro com o braço do mesmo lado, e caiu de joelhos. No mesmo movimento, quando foi levantar-se, foi golpeado por um cidadão de bem, e por um playboy com a consciência tranquila. Os bêbados faziam apostas, as mulheres submissas imitavam o que seus esposos cidadãos de bem graciosamente machistas faziam, que era justamente apontar para Jarbas e dizer que o marginal devia apanhar. Os sofredores se apiedavam em seu solipsismo, enquanto os filósofos xingavam os playboys, que também batiam nos filósofos. As crianças ficaram protegidas do agressor que apanhava, e as beatas batiam em Jarbas com seus guarda-chuvas.
A polícia ameaçou a chegar e o público dispersou. Nesse meio tempo, Jarbas foi ajudado por algum anônimo que, no rápido momento aproveitou pra surrupiar algum dinheiro da carteira de Jarbas como pagamento. Ele foi arrastado e largado em um canto parcialmente camuflado, perto de sua casa, em um terreno razoavelmente vazio.

Acordou no outro dia com sol no rosto, sem ninguém a sua volta, ensimesmado e sobre si mesmo, duro da água que secou sobre seu corpo, e da terra a estalar sob seus olhos. Acordou, apertando firme seu crucifixo, pois sabia da importância de Deus caso um dia decidisse por morrer. Sentia que esse era o momento do encontro de sua falta de história com um fim não registrado. Sabia que apenas Virgílio lhe seria testemunha, que após Troia nada mais fazia sentido. Que, após o nascimento do ocidente, tudo jazia para o mesmo lugar, talvez para o nada, ou para alguma divindade. Mas, para pessoas que são sem história, que parcialmente vivem na ficção, esses caminhos sempre serão caminhos alheios. Revirou-se, ainda deitado, para ficar de frente para o sol. Como que em uma revelação mística, teve certeza de sua existência naquele momento… sorriu pra si mesmo, e falou: “nada há no mundo além da necessidade…”.

Piazza del Popolo

Piazza del Popolo

André Luiz Ramalho da Silveira

Memórias do subsolo – revisitado. Fragmento: O desespero da fé.

Memórias do subsolo – Dostoiévski – revisitado
Fragmento: O desespero da fé

O meu problema… Talvez seja uma psicose inerente a memória. É… A memória. Ela nunca descansa, ou talvez seu descansar seja exatamente essa atividade torturante de ser uma constante vigia dos atos humanos. Não sei se penso isso como um problema apenas meu. Explico-me, aos poucos… Independente de se eu quero transparecer ser uma pessoa doente, digna de pena e moído por ressentimento, ou se apenas sou obcecado por mim mesmo e, consequentemente, pela minha doença… Independente disso, sei que sou doente.

No entanto, essa é também uma doença filosófica. Em outros termos, isso é um problema filosófico, pois diz respeito à condição humana, ao nosso ser. Quando a imunidade está baixa, esse problema filosófico insufla-se pelas vias respiratórias e mistura-se a bile negra. A melancolia aterradora, então, nos arrebata neste duplo sentido. A partir disso, por essas linhas tracejadas que testemunham minha desavença com tudo que existe, poderia parecer que eu creio no sofrimento.

A inspiração de São Mateus (Vocazione di san Matteo)

A inspiração de São Mateus (Vocazione di san Matteo)

Antes de pensar sobre a fé, que julgo aqui nessas linhas não ter, apesar de parecer o contrário, ainda é preciso externar outras coisas… Por vezes vejo também, como problema, o fato de que tenho sempre a consciência de que tudo irei suportar. Pode isso nada demais ser, se não fosse o caso de eu também ter a consciência – sim, a consciência…- de que todos sabem que suportariam tudo (e suportam), com um pequeno esforço. É claro que, por mais conservador que eu seja, não consigo ser estoico o suficiente para crer que um desgraçado vítima de tragédias pessoais e políticas, poderia ter, por força de decisão própria, consciência e vontade e poder para mudar a si mesmo e o mundo ao seu entorno. De todo modo, pro resto das pessoas, em que a tragédia constitui-se apenas essa de ter nascido, penso que sim, sempre suportam tudo. Esperança talvez, ou desejos ancorados em ilusões transcendentais, como o amor ou a política, ou a filosofia. Ah, o engajar-se…

Não é isso exatamente algo que eu possa ir contra… aliás, claro que posso, e sou. Qualquer ação é já uma inserção nesse mundo, de modo que assumir a própria ausência é a única opção razoável. Todavia, sei que isso também é uma grande besteira. E, cá de meu subsolo, que quero eu universalizando valores? Acaso alguém viria a ler essas malditas linhas sujas? Acaso alguém leria algo disso, apenas para depois precisar de um banho pra tirar a sujeira fétida que a existência implica? Isto é, alguém, do alto de uma vida ordenada e lindamente burguesa, reconhecer-se-ia num tal lamaçal?

Se isso for assim, a memória fará com que todas as coisas voltem a seus lugares. O império das opiniões, da inteligência comum, essa normalização estrutural do pensamento, é articulado na memória e solidificado, fazendo disso o solo comum do mundo. E a vontade de que isso assim seja, de que o passado idealizado seja o valor supremo, é o que entendo como vontade retroativa… Então… Causa-me uma certa ira essa vontade retroativa que as pessoas despertam, ou melhor, ‘criam’. Sim, pois vontade retroativa não é senão a má-fé nas roupagens de uma hipócrita diplomacia e apaziguamento das diferenças. Assim, as pessoas, falam do sofrimento e o usam para se ‘integrar’ em um grupo social, mesmo que seja o grupo dos solitários… Sim, existem tais grupos. Ou atribuem ao sofrimento uma nobre causa, ou um nobre fim.

Só vejo sentido quando ligo algo ao passado, apenas esse espírito temporal dá sentido, por mais que dele nada se pode falar, a não ser que é. Ele, o passado, não é possibilidade pura, como nós, mas simplesmente algo que é.
A memória é uma espécie de carrasco, atua como açoitador, que no menor vacilar chicoteia o atuante, às vezes chamado de sujeito. Isso mostra bem como o passado é presente. Sim, o que seria da moral sem a memória? A ausência dela poderia talvez nos consentir a abençoada felicidade, aliás, alguns – ou muitos – são agraciados dessa forma. Mas a memória não pode ser definida apenas como algo que ‘lembra’, ou talvez não. O fato é que só existe fato porque nos lembramos das coisas, obviamente.

Contudo, rabisquei acima sobre uma psicose em relação à memória, e isso não foi em vão. A memória é uma grande arma, junto com a consciência, uma grande arma para um suicídio coletivo. Sim, pois ambas são as maiores doenças que assolam as pessoas. (Ou as pessoas são as maiores doenças a assolarem a memória e a consciência?) Lembrar-se das coisas me causa certa, ou melhor, me sinto como uma espécie de louco e estrangeiro no mundo. Não me vejo como um louco sociopata, senão seria possível eu nem estar escrevendo isso, a esta altura da minha vida, com tantos anos de sofrimento… Na verdade sou é covarde para assumir qualquer identidade concreta e acimentada. Prefiro meu enclausuramento nesse subsolo infame, na solidão fria de meus sonhos, do que o contato com o mundo supostamente ordenado e mentiroso.

O problema é que sempre suporto. Se é que um problema isso é, mas eu não me sinto antissocial, não como esses que existem por aí. Sim, esses grupinhos de solitários e poetas e artistas e qualquer coisa, que desejam a solidão e nem boa memória possuem, não são doentes o suficiente. Pode soar engraçado isso, mas não tenho como não crer que são, a maioria, grandes vermes, os quais fazem contribuições ao meu ‘sofrer’. Talvez eu tenha me esquecido de mencionar que vida é dor, sim, a vida é dor. Todos gostam de dizer isso, principalmente os que se dizem sofredores. Neles mesmos atua a tal vontade retroativa, criada por eles; na verdade (se é que se pode falar em verdade) eles só mascaram os atos de si próprios, fazem por si mesmos o esforço de esquecer, anulam em parte a memória.

Alfred Hitchcock

Alfred Hitchcock

Será isso tudo minha fé escusa numa humanidade que cultivo em delírio? Não tenho paciência pra nada, ao bem da verdade. Toma-me muito tempo minhas dores físicas e psicológicas. E ainda tenho que lidar com a consciência dessas dores, com a consciência de que meu fim se aproxima e cuidar para não morrer açoitado pelas minhas memórias. Não sei se estou em desespero. Parece-me que sou nutrido, estranhamente, por esse sofrimento que me consome. A despeito de tudo, não consigo não me jogar frente a meus pares, para que eles vejam a vergonha que sou. Para que eles vejam que é desta carne que eles também são feitos, que partilhamos o mesmo conceito de humanidade, ainda que o veneno que inalamos seja distinto. Minha solidão precisa deles, pois eu sou reflexo da imbecilidade do mundo… Por fim, brilha-me agora essa verdade no canto da consciência, é isso… no fim, minha fé é nesse abismo.

André Luiz Ramalho da Silveira

Um sonho, uma realidade

Um sonho, uma realidade.

É preciso crer nas ilusões, antes que elas se transfigurem em realidade. Enganava-se que, mediante simples empenho próprio, isto é, por esforço de crença, poderia livrar-se dessa prisão que parecia não haver fronteiras. Não conseguia distinguir o resto do mundo de si mesmo. Neste momento, tornava-se como que um vetor entre o mundo dos despertos e a fantasia dos eruditos. Apenas seguia nesse aparente delírio. Não era apenas o cansaço extenuante que lhe obstruía o pensamento. O que o tinha levado a esse estado, e a esse lugar? Para existir, seria preciso ter desejo de realidade?

Essas questões começavam a surgir em meio ao burburinho de conversas aleatórias de pessoas inexistentes e do barulho de galhos de árvores que, por mais invisíveis que fossem, carimbavam nos ventos destemidos até mesmo as histórias mais lânguidas que pela terra já rastejaram. Começava a compreender que estava perdendo realidade, não obstante estar aos poucos ficando menos preso. Havia uma leveza nisso tudo, quer dizer, abandonar o fado do corpo pode despertar a impressão de alguma liberdade um tanto ilusória. Mas, junto a essa leveza, compreendia que com o passar do tempo tornava-se mais pesaroso o pensar. O desespero era, em verdade, o de não lembrar-se como lhe adviera tal situação aprisionadora.

Para encontrar algum fio de sentido, procurava, aos tapas, nas lembranças fugidias, algo que lhe situasse novamente ao mundo. Encontrou um remedo de rua, que lhe parecia familiar. Desavisadamente sentiu seu corpo corporificando novamente. Nessa rua em que fincava a imaginação, à busca de uma memória mais sólida, encontrou aquela esquina esfumaçada – que mais parecia um borrão expressionista do que propriamente algo que existisse por si – em que há não muito tempo perdeu o que pensava ser sua vida.

Contíguo à esquina levemente cinza e esfumaçada, e como que também formado pela mesma disforme dissociação de cores que pareciam materializar aquela realidade, estava uma pessoa com ares de elegância deletéria, mas ainda assim com um ar familiar. Num dos lados dessa esquina havia um banco, em que essa pessoa resolvera recostar-se. Vestia um longo casaco cinza, com botões pretos de expressões rústicas, um Keffiyeh verde escuro tracejado de preto – típico lenço árabe -, em que o deixara caído aos ombros e a cabeça descoberta, botas de couro pretas e um guarda-chuva florido. Às vezes, notavam-se algumas explosões de cores no cinza do casaco, e algum intumescimento nas flores do guarda-chuva, que pareciam querer beijar o chão. Contudo, essa pessoa escondia o rosto. Ou melhor, seu rosto era a expressão de cada canto desse lugar, cantos cuja mudança era permanente, ainda que de modo harmônico. Apesar de acinzentado, o cenário parecia saído da imaginação de Van Gogh.

Quando sem perceber e num súbito prostrou-se diante dessa figura, deu-se por conta de que certamente essa pessoa lhe era familiar, ainda que sem reconhecê-la. O casaco ofereceu ajuda e as flores do guarda-chuva serviram de apoio para que se chegasse até o banco. Olharam-se. Começava a duvidar de si mesmo, a duvidar seriamente se era mesmo alguém, dotado de “pessoalidade”, se não passava de uma imagem impressa num mundo atônito e maquinal. Adjacente a esta dúvida, lhe surgia como contra prova essa realidade abstrata que se concretizava como um orvalho se congelando num inverno. Olharam-se. A pessoa a sua frente parecia um velho, mas também parecia uma mulher, e quando começou a falar, tinha uma voz que lembrava a de uma criança. Onde estava, pensava… seria isso um sonho? Por que não desperta? Se despertar, será possível viver da mesma forma, depois de passar por isso? Olharam-se…

– Quem sou eu, ou, o que faço aqui? Organizava a pergunta com ares de presciência, ainda que gaguejasse e falasse rápido e aos tropeços.

– Pergunta difícil, jovem; vamos caminhar e eu lhe explicarei melhor. Replicou a pessoa misteriosa.

Levantaram-se e seguiram ao largo de um jardim outonal. As ruas eram muito semelhantes entre si, de modo que ao caminhar por umas cinco quadras, mal pareciam ter saído do lugar em que estavam. Despertou um vento frio, sendo necessário puxar algum capuz e cobrir a cabeça. Seguiram até uma grande praça, em que ao centro havia uma espécie de basílica. Havia muitas pessoas na praça, apesar do vento razoavelmente frio. Estava noite, aparentemente, mas havia claridade suficiente pra que se distinguissem as coisas que são possíveis de se distinguir.

– Vamos nos sentar. – Disse a figura de casaco e guarda-chuva. – Veja essas pessoas a caminhar, como se tivessem algum propósito em suas vidas. Você pensa que elas estão presas nesse mundo? Ou melhor, você pensa que elas sabem que estão presas? A compreensão não depende apenas de nossa disposição a compreender. É preciso algum sacrifício para colapsar a ignominiosa dominação da falta de reflexão. Este mundo apenas configura-se como uma distopia para quem já entra nele cindido. Ou talvez não. Mas, não há volta, quando se chega a este ponto. – Prosseguiu a figura, falando hermética e pausadamente e acentuando cada palavra.

– Mas, eu morri, ou isto é apenas um sonho? Veja, eu não sinto meu corpo. Parece apenas um delírio, no entanto, sinto como se toda a realidade de fato fosse assim. Aliás, quem é você? Faz parte desse meu delírio ou do delírio de outra pessoa, ou existe mesmo? Ou nenhuma coisa nem outra? – replicava.

– Muitas perguntas você faz, como se você não soubesse as respostas. O que você procura é algo que garanta um mínimo de sentido para a existência, um sentido que não possa se desfazer a cada pouco. Mas, isso não é possível. Toda a realidade, essa que você pensa viver, essa que está fora deste mundo, toda ela assenta-se sobre esse mundo tal como você agora vê. O erro e a fragilidade é o que dá suporte a toda objetividade. Não é que a realidade seja uma ilusão. Creio que ilusão não seja um conceito útil para compreender a complexidade que aqui se impõe. Aqui, todos apenas somos. Apenas ser, nada mais. Sem realidade transcendente, de modo que não haja apoio além de nós mesmos, nós, seres cindidos e incompletos. Mas, a fim de lhe responder, você me perguntou quem ou o que sou eu. Pois lhe respondo, sou muitas coisas. Sou seu nêmesis, sou parte de você, sou parte do mundo, sou parte de outras pessoas. Sou deus, delírio e sonho. Sou qualquer coisa. Mas, mais importante que isso, é como você compreenderá tudo isso, isto é, o que eu significarei para você. Seu mundo é mais do que eu e você, mas ele não é sem nós. – Respondeu-lhe, quase em transe, a pessoa misteriosa, enquanto podava as flores do seu chapéu.

Imóvel, ele fitava o estranho buscando compreendê-lo. Sim, talvez ele já imaginasse alguma resposta nesse sentido. Mas, apercebeu-se que precisava dessa confirmação pra poder voltar de onde viera. Precisava extenuar-se até perder a noção do próprio corpo e da própria consciência, pra conseguir se livrar do apego a substancialidade. Beirava desmaiar. Respirou fundo, agradeceu a conversa, levantou e espreguiçou-se. Não sabia onde estava, nem se lembrava de como foi ali parar. Mas, misteriosamente sabia como voltar, ainda que houvesse esquecido também o lugar de onde viera. Caminhou dois passos, tirou o capuz e respirou todo o vento que havia nesse pedaço de mundo. De imediato, acordou caído da cama, no quarto do albergue em que morava. Levantou-se, pensou e decidiu: nunca mais dormirei. Sentou-se novamente e, após constatar novamente a vida que leva, tornou a dormir.

André Luiz Ramalho da Silveira

Astolfo e a diligência

Astolfo e a diligência

“Diligência, meu amigo… diligência é o que precisamos. A sanidade é traiçoeira. Essa é a sabedoria que aprendemos com os velhos, com as crianças, com os bêbados e com os filósofos. Eu, quando são, sou no máximo um velho… mas quando bêbado, me aproximo dos filósofos… não, longe de mim querer ser filósofo… mas, só é possível transcender quando se mata a objetividade… a poesia, o dionisíaco… Aliás, a sabedoria que me refiro é a diligência, não a sanidade. Esta, só com alguma dose de covardia e… outra dose de coragem, pra querer que ela seja um remédio pra falta de sentido do mundo. No mais, diligência pro fígado não matar a memória! Um homem sem memória, meu amigo… um homem sem memória não passa de um elefante sem tromba… e sem memória!”

Dizia um velho bêbado e, talvez, filósofo, na entrada de um bar. Dizia sozinho e repetia essas frases, à espreita de alguém que lhe desse ouvidos. Astolfo, ansioso como sempre, debatia consigo mesmo questões que dizem respeito somente a si mesmo. Questões que talvez nem mesmo existissem. Talvez tenha sido essa a sincronia entre os dois, que simultaneamente miraram-se, como dois espelhos convexos que refletem apenas o exterior. Ensimesmados, viram-se um no outro. Enquanto pouco a pouco o fogo percorria o cigarro amassado, pausadamente o velho ia lhe dissertando, ainda que nesta altura já não houvesse mais cigarro e, talvez, nem mesmo ar para tragá-lo. Astolfo ficou levemente surpreso com as palavras do velho, por também estar com semelhantes pensamentos no momento. De todo modo, preferiu honrar seu espírito não aventureiro e agradeceu ao velho pelas palavras, deu-lhe um cigarro e seguiu o caminho para sua fortaleza. Não sabia se era a melhor escolha, mas há tempos que a racionalidade lhe superava a vontade.

Poderia arrepender-se depois, como sempre fazia, mas era melhor não correr o risco de decepcionar-se. Além disso, também não queria correr o risco de estar em algum lugar que o fizesse sentir-se coagido. No caso de Astolfo, sentir-se coagido era rotina, o que alternava era a intensidade com a qual essa sensação lhe acometia. Havia já algum tempo que lhe vinha à cabeça um pensamento anuviado, desses que rodeiam da nuca à testa, mas que raramente encontram-se na altura do olho. Como aqueles pensamentos em que diante de uma interrogação abrupta, porém passageira, se franze o cenho desapercebidamente. O tal pensamento era de se ele possuía algum tipo de fobia social, algo patológico mesmo. Claro, talvez a maioria das pessoas já tenha pensado algo assim. Mas saber tal de constatação não lhe desanuviava. Indo aos idos, isto é, aos fatos, antes que a nós nos venham eles, o embrutecido Astolfo andava se esgueirando pelas ruas, e sempre a pensar que qualquer outro ser humano pudesse lhe ser uma ameaça em potencial. Quem o encontra pelas ruas talvez não saiba do que aqui escrevo. Mas, é preciso querer olhar para além dos fatos, obviamente. De todo modo, o caso é que Astolfo permanentemente andava em clima de guerra consigo mesmo, não obstante conseguia disfarçar muito bem. Talvez se comportava assim como estratégia de combate, isto é, imaginem se alguém o compreendesse de verdade!? Acho que seria o fim do guerreiro transcendental.

Presumo que ele pensava algo parecido, mas, ainda assim, quem conseguiria manter a sanidade sem cair nas desgraças da relação interpessoal!? Depois da conversa com o velho, ou do monólogo refletido, Astolfo foi para onde estava indo. Foi para sua casa e depois a um encontro amoroso, ou ao menos essa era sua esperança. Conheceu Galiarda – uma judia francesa de sobrenome húngaro (por isso impronunciável aqui) -, após encontra-la algumas vezes num mesmo local (às vezes num bar, outras vezes num café). Galiarda é uma escritora amadora e libertária profissional. Na faixa dos trinta anos, mulher de olhos negros, cabelos castanhos escuros longos, com um aspecto renascentista em suas curvas generosas. Dotada de um corpo bem agraciado pela natureza, podemos dizer. Além disso, havia um ar de intelectual decadente do leste europeu em sua face caucasiana. Por isso mesmo, tinha um charme bem impressionante, ainda que peculiar. Isso já era o suficiente para nosso querido matreiro.

Não sei se ela percebeu esses detalhes no estranho rapaz, mas certamente ela se encantou com sua sutil peculiaridade – sutil, pois, por mais que não pareça, Astolfo sabia se portar como toda gente reprimida e civilizada. Conheceu-a num desses momentos introspectivos, em que ele olhava ao redor do seu copo de cerveja suado pelo calor e via ideias e não pessoas. Claro, isso é uma interpretação que fazia de si mesmo num exercício de lembrar o que pensava em determinado momento. Aliás, tentar rememorar ideias e não fatos era um exercício que fazia com frequência. Apesar da peculiaridade, Astolfo reprimia bem seu ímpeto antissocial. Até porque, ao ir a um bar – ou happy hour, como dizem as pessoas que dizem beber, mas que não bebem -, sabia que de algum modo esperava encontrar alguma companhia. Aliás, é presumível que todas as pessoas que saem esperam encontrar alguma companhia, ainda que isso ocorra em diferentes intensidades. Seguindo a narrativa, num desses dias em que Astolfo estava um pouco mais aéreo do que o comum, Galiarda estava no local e o observou atentamente. Nesse primeiro encontro, ela vestia uma longa saia preta e uma blusa azul marinho em que realçava seus fartos seios, com o cabelo levemente preso e uma franja propositadamente bagunçada. Obviamente, ele a achou deveras interessante, porém, pensava ele, se ele mal era capaz de honrar um encontro previamente combinado, quem dera fosse capaz do feito homérico que é a tal chamada conquista. Na maioria das vezes não tinha a menor disposição para existir, quanto mais para fazer algo. Das forças que Astolfo era devoto, certamente a inércia e a gravidade faziam parte. O fato é que depois de algumas cervejas, os dois foram um ao outro e conversaram. Ela logo estava de saída, então combinaram algo para a próxima semana.

O dia em questão é esse em que ele falou com o velho e seguia ao tal encontro. Após sobreviver a si mesmo – e às suas ideias, advindas de um universo kafkaniano -, Astolfo, o inabalável, chegou ao tal lugar e lá estava Galiarda a lhe esperar. Depois de certo tempo de conversas aleatórias, entraram em alguma conversa muito chata sobre questões teóricas que, possivelmente, nenhum dos dois estava de pleno acordo sobre a veracidade do que diziam. Mas, talvez por força de uma lógica interna à própria conversação, nenhum dos dois poderia recuar. Ainda que a vontade de Astolfo fosse a de abocanhar os seios de Galiarda ali mesmo e, por isso mesmo, mal conseguia pensar. E ainda que a vontade de Galiarda fosse a mesma dele e, por isso mesmo, também mal conseguia pensar, era preciso continuar a disputa. Aliás, uma disputa em que tanto o vencedor quanto o perdedor seriam agraciados do mesmo modo, isto é, com o sexo – e talvez, meus caros leitores, essa seja a máxima expressão que a justiça distributiva pode angariar.

385px-Bouguereau,_William_-_Femme_au_Coquillage_-1885 (A mulher com a concha)

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Ele nunca conseguia prever o que poderia acontecer, como fazem os homens de ação. Então, na hipótese de nada fazer, escolhia sempre se animar pela embriaguez. Ela também fazia o mesmo, ainda que talvez não pelo mesmo motivo. Por conseguinte, não foi necessário muito empenho para não se auto-sabotar, pois Galiarda, com muita galhardia, também não quis perder muito tempo e, antes de qualquer sabotagem de ambos os lados, disse que poderiam estar trepando ao invés de falar sobre as falhas de caráter do ser humano. Bom, foi o que fizeram e tornaram a fazer algumas vezes mais no último mês. Talvez só cessassem de se ver quando o tesão acabasse. A partir disso poderiam se tornar amigos. Astolfo era bom nisso, pois era muito diligente. Mas tão diligente, que se perdia na diligência. Era um cristão. Pobre Astolfo.

Como seres livres, ao longo de um certo tempo ambos se afastaram livremente um do outro, ainda que mantivessem algum contato, na situação de conhecidos. Ele voltou para o universal. Na verdade apenas saía de lá de vez em quando. Galiarda tinha uma manha mais dinâmica com o mundo, conseguia conciliar sua vida de escritora amadora com sua gana libertária. Para Astolfo, o difícil da separação – se é que podemos nos referir a isso nesses termos – foi ver Galiarda com um novo parceiro. Não pelo fato de ela estar com outra pessoa, isso nem lhe incomodaria tanto, mas sim o fato de o novo companheiro de Galiarda ser um músico errante e morador de rua. Talvez ela tenha feito isso para romper com valores burgueses pré-estabelecidos, ou tenha mesmo gostado dele. No fim, parece que se gostaram mesmo. Ela era libertária, isso não lhe era um problema. O que era um problema para Astolfo era não saber exatamente porque esse novo amante peculiar de Galiarda tinha que vir logo após o quase romance com Astolfo.

Após ruminar algumas vezes sobre o assunto, Astolfo, por certa generosidade, conseguiu compreender que Galiarda realmente estava amando seu novo companheiro. E, com essa constatação, o que mais lhe doía era o fato de saber como o amor lhe era incompreensível. Não apenas incompreensível, mas ele realmente achava que, por ser irracional, não poderia não apenas ser algo razoavelmente bom, como não deveria nem mesmo ser possível. Astolfo, como um poço de ressentimento e egoísmo, apesar de não aceitar que o mundo fosse assim, conseguia ao menos compreender que o amor move as pessoas. E Galiarda, longe de ser insensata, não via o menor problema em seus atos. Aliás, se ela soubesse o que Astolfo pensava, talvez não tivesse se relacionado com ele. Mas isso é outra história.

Passados uns três meses desde que vira pela última vez o velho bêbado e o casal em questão, Astolfo pensou que era hora de dar uma resposta à altura. Rascunhou diversas vezes num pedaço de papel qualquer – na maioria das vezes um extrato de banco quase apagado – uma resposta para aquilo que tanto lhe indagava. Até que, finalmente, depois de alguma boa procura pela cidade, encontrou o tal velho e leu-lhe a resposta que sentiu ficar devendo naquela vez. A tal resposta foi mais ou menos assim:

“Às vezes, desconfio do acaso. Pergunto-me, sinceramente, qual o estatuto ontológico do acontecer. Pode parecer pedantismo, mas é muito incrível como algumas situações nos marcam tão fortemente em determinado contexto, que se elas ocorrem em outros momentos de nossa existência talvez mesmo fossem despercebidas. O acaso seria assim tão acaso, que simplesmente surge como um evento da natureza rompendo nossos projetos cotidianos? Ou, seria mais uma sombra sempre presente nesses nossos projetos, de tal modo que surjam justamente quando os compreendemos? Enfim… o que lhe faz envelhecer e saudar a memória, se se consegue compreender o quanto a razão é má para o peito, para o espírito? Se a diligência está para além disso, não deveria estar também para além do dionisíaco, velhote?”

André Luiz Ramalho da Silveira

Carta sobre a mudança

Após o incidente na ponte, em que Astolfo precisou de cuidados médicos sob risco de não continuar mais nesse plano, ele ficou resguardado do mundo e abraçou sua rotina. Algumas semanas após o incidente, já restabelecido, Astolfo recebeu uma carta – coisa rara, nos dias de hoje – de um amigo de longa data. Não nos é necessário reproduzir aqui a carta de Petror a Astolfo, de modo que reproduzo aqui, como impaciente observador, apenas resposta de Astolfo para Petror.

 

De algum canto do mundo
Novembro de 2013

Meu amigo Petror Calascos, há quanto tempo! Sei que também não enviei notícias nos últimos meses – ou anos, enfim -, mas estive mesmo ocupado, como deve imaginar. Na verdade, não ocupado, mas, você sabe, tanto quanto eu, o quanto a reflexão açoita-nos. Às vezes é difícil manter a sociabilidade. Não diria isso a qualquer pessoa, obviamente; mas, penso que para o senhor a situação é a mesma. Acabamos seguindo um caminho que trilha por si mesmo, e seguimos os rastros desse mesmo caminho, mendigando algum conforto, talvez mesmo algum sentido. Ademais, compreendo sua paixão pelo ego, caro Petror. Não partilho da mesma inclinação, mas o compreendo. Também sei perfeitamente como é difícil se desfazer de si mesmo, quando tudo o que temos não vai além de nós mesmos. Minha situação também não está a melhor possível, até estive de visitas ao hospital dias atrás. E o motivo vai de encontro às suas queixas. Antes de propriamente lhe responder, permita-me tropeçar num circunlóquio – lembre-se que não sei ser objetivo e sistemático para questões não objetivas e não sistemáticas –, para que eu possa melhor ser compreendido.
Em um famoso aforismo, Heráclito utiliza-se de um rio para apresentar uma metáfora (ou parábola) que, além de sintetizar boa parte de seu pensamento, teve grandes consequências ao longo da história. Esse aforismo, segundo o qual é dito ser impossível acompanhar ou percorrer duas vezes o mesmo rio, mediante sua mutabilidade em oposição à permanência imóvel do ser, além mostrar o movimento a que estamos submetidos, mostra também, tal como nas inúmeras interpretações circunscritas ao longo de toda a literatura filosófica, a impossibilidade de nos determinarmos simplesmente por arquétipos imutáveis. Ou melhor, é perfeitamente possível tanto nos compreendermos por arquétipos, quanto concebermos a nós mesmos como uma essência indissolúvel e singular, essência segundo a qual é derivada de um primeiro motor (força divina ou qualquer outra instância). O fato, é que essas concepções não nos permitem compreender a nossa própria existência a partir de um movimento próprio, com um tempo e história específica, de modo que teríamos de apelar para uma instância exterior para que pudéssemos dizer quem somos.
O movimento que normatiza a identidade, isto é, que determina caminhos regrados pelos quais não se pode seguir, mostra que a construção de nossa identidade além de se afixar a um lugar e, consequentemente, familiarizar-se com ele, pressupõe impreterivelmente uma disposição e identificação daquele que pretende morar no mundo. Só é possível cair em uma familiaridade com o mundo por sermos essencialmente estranhos a ele, dizia um filósofo alemão – um tal de Heidegger. Contradição! Não, espere… novamente: só é possível sentir-se familiar com o mundo porque, antes desse repouso nefasto na burocracia pragmática que é a existência cotidiana, sentimo-nos estranhos a tudo, num isolamento aparentemente impenetrável e sufocados por uma singularidade que preferíamos morrer… mas, antes a familiaridade do que a morte. Contudo, esqueci-me qual seria a ligação entre o ser, o movimento, a construção de uma identidade e o que eu estava querendo dizer.
O caso é – indo de encontro a sua pergunta – que eu já desisti de ter identidade, meu caro Petror. Que dramático. Não, não. Penso ser estoico, consigo viver sem afirmações. Restam-me apenas questões. Quando estas viram respostas, já tomo antipatia. O fracasso, como diz um amigo (sim, ainda tenho amigos, além de você), nada mais é do que um compromisso consigo mesmo. Talvez seja um páthos metafísico dessa época, uma mistura de niilismo com a crença no demiurgo do primeiro testamento. Pra que isso não fique um fluxo de consciência – sim, até isso é um fluxo… e não, não gosto de fluxos, pra mim, tudo poderia ser imutável, estável, como um grande domingo em que nada se espera, nem mesmo se morre aos domingos (muito menos se vive) –, é preciso dizer que eu já desisti de ter uma identidade. Já disse isso. Então, já desisti de ter uma identidade, por mais que isso se configure como uma identidade. Então, eu creio já ter dispensado de mim uma identidade.
Já tive algumas identidades, todas forjadas com o esmero ímpar de quem busca a excelência de si mesmo – independente do que seja esse si mesmo. Você sabe disso, por mais que sejamos levianos, temos a bênção da culpa para nos mortificar a cada pouco. Talvez minha nostalgia de uma familiaridade com o mundo advenha dessa ausência de substancialidade que penso ser. Se a mudança surge a cada pouco – ou melhor, o movimento prossegue sem mudar a si mesmo –, e parece ser impossível voltar pelo mesmo caminho a que chego, pois já não seria mais eu mesmo e já não seria o mesmo caminho a se percorrer, como será possível dizer o que somos sem uma projeção no futuro e sem uma nostalgia desse passado? Tudo isso num mesmo instante… e tudo flui, muda, destrói.
Mas, e se nada muda? Se mudar significa morrer, isto é, romper com um projeto de vida e uma concepção existencial, ou mesmo religiosa, morremos a cada pouco? Existimos morrendo? Bom… é uma pergunta complicada, mas a conclusão pode ser essa mesma, mas com outra premissa. Concebo a mudança, a fluidez, o ser e a temporalidade, mas ainda assim as pessoas não mudam. Ou melhor, as pessoas morrem. Talvez, podemos dizer que mudam. Eu fui proibido de mudar. Por isso antecipei a discussão e dei um passo atrás, não participo mais de identidades. Não é que não as compreendo, mas fico na generalidade da singularidade e não me vinculo tanto nessas vidas que se desfazem a cada pouco. Talvez isso não passe de autoproteção, mas temos de fazer algo por nós mesmos, não é? Das identidades que tive, parece-me que não passaram de eventuais desejos de realidade. Mas isso é conversa para outra hora… agora já me divorciei dessa mundanidade. Claro, por tempo indeterminado, pois ainda mergulho no rio fingindo ser ele o mesmo, e ignorando a pergunta sobre mim mesmo. Se toda experiência concreta for uma liturgia hipócrita, é também uma questão para outra hora. Mas, é sempre bom lembrar: as generalidades seduzem demais e explicam pouco. Quanto a mim, você pergunta se eu morri ou mudei? Acho que, de minha parte, nunca cheguei a ser.

Cordialmente,
Astolfo Cisma dos Santos

 

 

– André Luiz Ramalho da Silveira