Compreensão

Compreensão, esquecimento e ethos político

Considerações sobre o dia 17 de abril e o 31 de agosto de 2016
Pretendo fazer alguns apontamentos sobre como compreendemos as noções de esquecimento e compreensão, de modo a tentar explicitar como que, a partir de um esquecimento “ativo”, passamos da não compreensão à violência, e tudo isso tendo como ponto de partida nosso mundo comum brasileiro, sobretudo nesse complicado ano de 2016. Deste modo, penso que esquecimento histórico não diz respeito, de imediato, apenas à falta de memória. O esquecimento histórico tampouco se refere também ao vício linguístico de se tomar aquilo que não é explícito como fruto daquilo que foge ao racional. Neste sentido, da mesma forma que a memória não é uma massa amorfa e passiva, o esquecimento também precisa ser visto como um fenômeno que tem suas razões e um discurso que o legitima. O mundo público possui regras e normas que vão além de uma mera “projeção” subjetiva dos agentes ou sujeitos, assim como torna toda pretensa objetividade em algo opaco. O mundo público possui uma estrutura impessoal, uma publicidade impessoal que torna qualquer esquecimento em uma tarefa ativa para encobrir fenômenos originários. Não se trata de misticismo, de modo que para romper com esse esquecimento brutal que nos atinge nesse obscuro momento do século XXI, inclusive a nós brasileiros, não basta um exame individual sobre as próprias lembranças.  Apenas com uma crítica sobre comportamento e linguagem podemos conceituar essa massa cinzenta.

O discurso que articula nossos juízos sobre as coisas, sobre o mundo, sobre as pessoas, sobre os valores e sobre nós mesmos é determinado também pela compreensão não objetiva que temos disso tudo. Não se trata de uma visão subjetivista de nós mesmos, mas, que a compreensão de que existimos e compreendemos o mundo e a nós mesmos não é dada primeiramente por uma linguagem estruturada e delimitada teórica e objetivamente. As coisas já são compreendidas de um modo significativo para nós mesmos, e somente a partir daí é que conseguimos explicitar s sentidos e significados do nosso mundo, isto é, somente a partir disso é que tematizamos objetivamente o nosso mundo. É nessa orientação um pouco mais pragmática com o mundo que damos forma aos nossos projetos e possíveis realizações. É também nesse âmbito de comportamento que podemos ver como a partir de comportamentos significativos nossas opiniões sobre o mundo são formadas – sejam opiniões políticas, religiosas, morais ou filosóficas no sentido mais geral. Para exemplificar brevemente esse ponto, basta focarmos em um conceito muito importante da hermenêutica filosófica, que é o conceito de tradição. Este conceito diz, breve e grosseiramente falando, que nascemos em um mundo que não escolhemos, em uma época, família e em círculos sociais que a escolha não foi efetuada por nós, mas, que é a partir daí que vivemos e temos que assumir ou rejeitar determinadas possibilidades, sendo explicitamente responsáveis por essas situações, ou deixando de lado isso. Deste modo, muitas vezes passamos parte da vida apenas explicitando valores que antecederam a nossa geração e que, muitas vezes, determinaram as nossas vidas, sem que tenhamos isso explicitamente no nosso cotidiano. É nesse âmbito de comportamento que se dá o chamado ethos político, social e etc.

Contextualizando: a nossa situação hermenêutica

O colapso evidenciado no dia 17 de abril de 2016, cuja votação na Câmara dos Deputados deixou estarrecido qualquer ser humano minimamente sensato, por tamanha mediocridade e transgressões de normas que nossos políticos encarnam/encarnaram, tornou transparente todas as fissuras da representatividade do sistema político partidário brasileiro de um modo visceral. O esquecimento ativo, que se impõe brutalmente sobre as concepções de mundo – das mais gerais – implicaram no retorno de um pensamento político extremamente dogmático no imaginário de quem simpatiza com os atuais dirigentes. Uma série de questões se apresenta a partir dessa crise que vivemos. Penso que é preciso elaborar muito profundamente algumas questões centrais, pois do contrário estaríamos apenas repetindo erros que nos levaram até o momento. Das questões, enumero algumas: 1- de como pensar a superação dessa crise a partir de um “parricídio político”; 2- A grave falência do debate político e a quase ausência de um debate [inclusive de uma noção mais precisa de liberal/liberalismo] em escala nacional; 3- A violência como princípio de ação do esquecimento ativo e da burrice institucionalizada.

Aspectos a partir do dia 31 de agosto, votação e aprovação do impeachment:

1 – Não pretendo desenvolver uma análise sobre as diversas causas da perda de força da esquerda, sobretudo a esquerda ligada ao o Partido dos Trabalhadores, que um dia foi o maior partido de esquerda da América Latina e ainda é uma referência institucional para a esquerda, ainda que atualmente com extremas ressalvas. Meu ponto é apenas tentar visualizar algum caminho possível para o atual esgotamento no qual vivemos, que não é apenas político. Por político, penso aqui também aquela norma que nos permite regular, junto a outras pessoas, como ocorre e se estrutura desde aquele espaço que permite nossa individualidade até o âmbito mais geral ao qual somos submetidos, isto é, nossos vizinhos, nosso bairro, cidade, país, etc. Neste sentido, pensar a política como sistema de representação deveria implicar que ao menos alguns de nossos valores e desejos estariam sendo defendidos por aqueles a quem atribuímos nosso voto. O que ocorre, penso, é uma crise geral nesse sistema de representação – se é que algum dia em nosso país houve algo parecido com uma democracia -, de modo que o momento atual protagonizado pelo PT precisa nos fazer retomar e repensar o que queremos enquanto política, isto é, o que queremos pra nós mesmos e para o nosso país. Falo em relação ao PT porque, a meu ver e, sem entrar na questão de como isso foi realizado, é um partido que mudou nosso país, tendo em vista tanto a grande quantidade de programas sociais e culturais, quanto um projeto de soberania nacional – falo aqui de modo geral e sei de muitas das controvérsias em relação a isso, mas ainda assim creio que o fato principal permaneça. Após esse resumo esguio e sem qualquer detalhamento, gostaria apenas de entrar no ponto principal do que proponho, que é o de que não podemos nos estagnar no permanente luto em que se encontra a esquerda e, principalmente, não podemos apenas nos fixar no que um dia foi representado pelo PT. É inegável que houve um estelionato eleitoral em 2014, tanto quanto é inegável o golpe parlamentar que presenciamos há pouco tempo. A meu ver, isso só mostra a falência do nosso sistema representativo, ou, ao menos, de como as pessoas que deveriam nos representar não representam praticamente nada da sociedade brasileira. Todas essas descrições podem soar um tanto óbvia para quem acompanha a fragilidade política nos últimos anos. Deste modo, gostaria apenas de finalizar dizendo que é preciso pensar em uma política que diga respeito a nós mesmos, que possa minimamente nos representar. Essa condição, no momento atual, não parece ser possível de ser resolvida por nenhum partido político. No entanto, longe de pensar em um discurso apolítico, que negue a política, penso antes que é preciso desvelar e reconhecer os espaços políticos que são soterrados por discursos cristalizados, independente da posição política que seja, caso estejamos de acordo que a base da política seja essa formação de um espaço comum.

2 – Também nesse segundo ponto não pretendo e nem tenho condições de me aprofundar. Essa segunda questão é quase uma consequência natural da primeira: do fato não haver qualquer representatividade de fato, seja por corrupção, seja por “desvio de interesses”, seja por não haver um debate político legítimo, lógico, coerente. Lógico não apenas no sentido mais superficial de que determinadas regras sejam seguidas, mas, também que simplesmente que não há um espaço lógico aberto para uma cultura mais sincera de debates, e diálogos, em todas as esferas. São dogmas encravados em diversos sentidos, que regulam o discurso social e público. Em decorrência de uma paralisia nos espaços de debates, sejam em bares ou lugares institucionalizados, temos comportamentos extremos e “governismos” estagnados, que aceitam discutir pautas apenas quando há interesse particular e econômico. Não parece haver protagonismo de qualquer tipo em debates mais intensos sobre as questões mais polêmicas que se apresentam, de modo que há apenas extremos que se opõe. Um debate político liberal, no sentido mais específico do termo, aparenta ser quase nulo em escala nacional. Todas as questões que se impõe nestes últimos anos trafegam de uma esquerda já calejada, tediosa, estagnada e sem qualquer criatividade para uma direita extremamente autoritária e ultra-conservadora. O debate sobre questões fundamentais simplesmente se esvazia em meio à ausência de um debate honesto em relação a essas questões. Não me refiro apenas ao debate claro de ideias, mas, sobretudo, ao questionamento mais amplo de que determinadas pautas, por assim dizer, possam ser discutidas sem serem criminalizadas, simbólicas ou judicialmente. Basta observarmos o crescimento exponencial da violência em diversos âmbitos motivados por um moralismo estúpido de ser ‘contra tudo’, seja contra drogas, seja a impregnação religiosa na política, seja na violência linguística cotidiana. Além disso, voltando um pouco ao ponto anterior, gostaria de lembrar que os governos mais de esquerda, inclusive o PT – municipal, estadual e federal -, também sempre foram violentos e opressivos, principalmente em relação aqueles que não querem participar desse sistema político – como anarquistas, etc… -, de modo a inclusive a cometer o político ao sancionar a tenebrosa lei antiterrorismo. Meu objetivo não é simplesmente fazer juízos acerca disso ou daquilo, embora alguns sejam obviamente imprescindíveis. É preciso apenas reforçar a ideia de que a força política, seja ela de esquerda ou de direita, é mobilizada e articulada a partir do nosso ethos, isto é, da nossa situação, local e tradição atual. Deste modo, não se trata de demonizar certos grupos por se reconhecerem em determinados ideias, mesmo conservadores, mas, sim compreender que a esfera política é justamente isso: enfrentamento com todos os tipos de diferenças, inclusive com nós mesmos, regulados por certas leis políticas e morais que nunca são completamente imunes ao erro.

3 – Ao tentar não pensar a política apenas a partir do espectro político-partidário, penso que não é mais possível para a esquerda ancorar-se na passividade fisiológica/partidária, sem inovar-se politicamente, e em uma vã esperança por determinados políticos e, sobretudo, por determinados partidos. Não falo na questão de eleições, mas sim que não é possível se deixar determinar apenas por quadros partidários, quando são esses que deveriam se pautar pelas exigências de grupos e pessoas para determinados fins. Isso tanto ocorre pela falta de qualquer tipo de debate e conversa entre pessoas, quanto ajuda a permanecer essa falta de debate mais plural. A contextualização que pretendi fazer nos pontos 1 e 2 tinham como objetivo principal situar o debate para este 3º ponto. Penso que nosso espaço comum é construído através de interações e significados, no entanto, isso não precisa ser pensado como uma construção objetiva e teórica apenas, como se nossa relação com outras pessoas, coisas e nós mesmos fosse determinada por uma norma ou regra exterior a nossa vida prática. Penso assim tanto em relação à linguagem, quanto em relação aos valores éticos e sentidos políticos que guiam nossas vidas. Deste modo, o interesse na presente consideração visa tentar mostrar e descrever como ocorrem determinados discursos a partir dessa base ontológica. Ao pensar a noção de discurso como tendo um pressuposto hermenêutico, não temático – isto é, ainda não explicitado teoricamente –, é possível compreender que os debates e discussões sempre partem de uma base comum a se explicitar. Essa questão obviamente é muito sutil, mas agostaria apenas de sugerir – me apoiando em Heidegger, paradoxalmente – que os discursos acabam por legitimar determinadas normas e comportamentos sociais, eventualmente obscurecendo o contexto ou situação de onde partiram. Paradoxalmente, porque para Heidegger essas normas que regulam nossos comportamentos não são dadas meramente através de uma teorização sobre a realidade, mas são entendidas como aquilo que, ontologicamente, possibilitam nossa lida e nosso comportamento com significações. Neste sentido, o discurso expresso obedece de algum modo essa variação normativa, que ainda não é nem moral, nem política. Bem, o que esbocei anteriormente como sendo um esquecimento ativo, em parte é isso que tenho em vista, isto é, um discurso tão desenraizado do solo ou contexto de onde partiu que acaba se esvaziando. Em larga escala, legitima e se institucionaliza impessoalmente. De acordo com Heidegger, as normas impessoais pelas quais nos guiamos não são exatamente um mal a ser combatido, mas sim uma situação incontornável que precisamos lidar. Contudo, a normalização constante de um discurso público tende a nivelar nossas possibilidades. Penso que é possível dizer, a partir disso, que o discurso que não permite distinção é uma das fontes que elaboram dogmas, a partir dos quais acabam, eventualmente, se fixando como padrões e normas de comportamento e opiniões. A questão aqui é muito complexa e não pretendo discutir os pontos sociológicos e linguísticos envolvidos, mas sim mostrar que a partir desse nivelamento na compreensão ocorre uma violência simbólica e linguística, na medida em que torna fixa e rígida toda abertura à diferença. A partir dessa perspectiva, penso que a compreensão restrita e autoritária do mundo que passamos a ter apenas legitima a violência em relação ao outro, ainda que implicitamente. Não penso aqui apenas em termos morais ou políticos, de modo que, mesmo que não estejamos pensando em fins políticos específicos ou não estejamos explicitamente nos orientando por noções de bem e mal, ainda encobriremos toda e qualquer “realidade” diferente que se nos impõe.

Em conclusão, gostaria de falar apenas mais uma observação em relação a isso: essa não é exatamente a posição de Heidegger; de modo algum penso que é possível pensar, agir e existir a partir de uma situação em que a condição de encobrimento e de impessoalidade não esteja envolvida, isto é, a hermenêutica nos ensina que há sempre pressupostos de linguagem, históricos, etc., que nos antecedem, de modo que nos é cabido explicitar o mundo de onde partimos e para onde vamos. Neste sentido, quando falo em violência, tento sugerir que uma violência física, quando sistêmica e, no caso brasileiro – parto do caso brasileiro por este ser a nossa situação hermenêutica, nosso contexto, o nosso morar, mas não se trata apenas do Brasil –, epidêmica, é precedida por uma violência simbólica, linguística, social, etc.

André Luiz Ramalho da Silveira
Doutorando em Filosofia – UFSC

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PS: Um último beijo, com escárnio

PS: Um último beijo, com escárnio

Beijo seus lábios, para que assim seja selado o poder do mito.
Com todo o desdém possível, limito minha interação à minha alteridade,
Mas ainda faz parte de você, esse escárnio que nos dá validade.
Se alguma vez alguém respeitar o próprio nome, que façam o tal rito!

Promessas são quebradas apenas para provar que um dia foram prometidas.
Caia aos pés de seu orgulho e implore sua alma ao seu pesadelo!
Grite, caindo de joelhos para o céu, pelo falso sofrimento de suas veias retorcidas!
Às vezes ainda sinto, às vezes ainda explodo, às vezes ainda pareço um camelo…

Sinto sua dor, sinto a minha dor, mas isso em nada nos torna semelhantes.
Minha solidão é anterior ao seu estado de ausências mundanas.
Grito como um louco pra ver se ainda consigo enxergar todos os meus semblantes!

No fim, a briga pela comida é superada pela guerra em que o mais faminto é vencedor,
Onde o sofrimento é visto como propriedade que aplaca a própria dor,
Onde toda risada é já calculada dentro de um pão e circo sempre novamente assumido por todas as veias humanas.

Dos ventos de Bronze

Nós deveremos chorar, silenciaremos as escolhas nas pausas da rouquidão.
Sentenciaremos a verdade na visão. Tornaremos a crença um subproduto do orar.
Evidenciaremos o olvido da existência nessa lassidão. Nós deveremos orar.
Fastio escuso e impenetrável amalgama do projetar. Apenas escolherão a alteridade de gana por escuridão.

Vetores enclausurados, centros desmedidos, encarnações dos que venderam o mundo.
Não poderia ser mais do que uma crença em um espelho resumido.
O submundo do pós-fim é anterior a paranóia dos arroubos de um sem mundo.
Mas o fim é o único prazer constatado ante a doença da falta da morte na ausência de mundo.

Respire, amigo… é só mais um vento a passar…
Bronze é o céu agora, preto fora o pulmão ontem, amarga é a vida em sua eternidade desmedida.
As pessoas nunca mudarão, as coisas nunca serão, os espelhos nunca morrerão.

Não espero a compreensão, ainda se pode negar algo compreendido.
Não espero viver, ainda se pode esperar algo novamente acontecido.
Não espero morrer, ainda se pode existir com a liberdade do incompreendido.