Ausência

Do quase ser ao não ser

Componho-me como coadjuvante no acontecer desse insólito existir.
No esvaecer de mais um acordar, desfaço o acordo com o ser.
Deixo pra lá a vida, sigo e fito a perdição em mais um persistir.
Não há como continuar, mas também não havia como nascer.

Qual individualidade buscaria alguém que não é sujeito nos acontecimentos?
A ausência e a solidão são correlatos fenomenológicos.
Mas o percurso será sempre o mesmo, para quem da vida desfruta os fragmentos.
Sou quase apenas memória, mas já não lembro como sou. Sedutores são os alaridos órficos.

Reconheço-me apenas quando encontro-me no movimento de fuga.
Absorvido e perdido nos testemunhos alheios,
Sigo sob o signo da presciência onírica que a todo particular subjuga.

E quando cinzas minhas partirem, que ao mar o sal as encontre.
Sinto-me inapto a viver na falta de amor desse terno inferno normalizador.
Mas você sabe, sempre soube… talvez ao fim no exterior me enclaustre.

André Luiz Ramalho da Silveira

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Intoxicado com ar

Intoxicado por minha própria satisfação, de mim;
Já não me sinto como eu, meu pensamento se perde na aporia
De minha existência e de todos meus feitos, todos ausentes de mim;
Perder algo é o que me faz vivo, ou quase isso… seja por ironia ou por ataraxia.

Veja meus lábios, vermelhos de veneno que nesse sangue se pulsa,
Quando a vagava pelo corpo nosso, em busca de mim, em busca de uma fuga,
Uma fuga de mim, uma fuga de uma ausência, projetando-me como repulsa.
Veja meu reflexo, pois é só o que há de mim, uma bela osga.

Onde está a sobra de meus retalhos? Onde está aquele resíduo que cindi
De mim? Só consigo apreender a própria cisão, as partes no tempo obnubilaram-se.
E a harmonia nos encontrará assim como um deserto encontra o mar que o mendi.

E fomos separados por aquele iluminismo bastardo, novamente.
E o amor pede ao conhecer, novamente.
E a morte retorna como a epistemologia dos moralistas, novamente.

Brandas emoções

No cinza de um dia, aqueles fantasmas que se ausentam na aurora
Surgem renegando em você aquilo que lhe é posto como movimento,
Como a crença que você postula para algo mais que se corrobora.
Naquele aparente fim em si mesmo que é o engajado comportamento.

Naquela vacuidade de uma sonhada autenticidade, que livra o ser do solipsismo.
Mas nada passa de uma simples e escorregadia ausência de fundamento,
Que ainda sim se funda como ausência de essencialismo.
Mas volta-se novamente a dimensão opaca do feliz estancamento.

Despeito… é só o que resta ao mundo de quem é uma cisão.
Despeito à deus, revelado como ressentimento ao mundo.
Mas mudo, mudo deus em princípio de combustão; mudo despeito como decisão.

Não sei lhe dizer coisas que devem ser ditas; não sei me portar como algo.
Não sei não desconfiar de mim, não sei não esquecer,
Não consigo não ter medo da perda, não consigo a sinceridade dos fracos que se põem como algo; resta-me apenas essa desculpa por quase ser.

Além da distância

Ou considerações poético-teóricas sobre o ser

I – A metafísica
Para além da distância da qual ressoam os ecos de predicados distintos,
Cuja distinção e diferença tornam-se passíveis de constatação,
Tão aquém de si mesmo quanto além do próprio distanciar,
Uma individualidade cuja plena ausência torna possível
A cindibilidade do próprio eu em seu terreno cognoscível,
Cuja alteridade só é possível a partir de um si, cujo fixar
É a renúncia de um próprio posfácio, cuja própria libertação
É a história escrita através do eu cindido, além da distância dos ventos.

II – O resíduo
O dissintônico da distância apenas ressalta o amor como resíduo,
Cuja dissipabilidade não é possível nem mesmo no adejar do sabor
Incognoscível do gozar, cujo fenômeno prescinde ao prático.
Não na elevação ao teórico, mas sim ao repouso no aquém do existir.
Esse resíduo que prescreve a posição prévia de um prostrar-se assíduo.
Cuja proveniência é a proscrição da sanidade de qualquer labor.
E esse é o projeto vazio de uma existência num irromper sísmico.
Cujo abalo é o próprio banimento entediado de qualquer prosseguir.

III – O coração
Não há espelhos para uma beleza que é capaz de se olhar.
Não há refúgio digno para um vulto cansado de sozinho o próprio fado arrastar.
Não há insanidade que pode abater a memória que não ousa sonhar.
Não há solicitude que dê conta do a priori si dos que se põem a morrer.
Não há começo para quem não crê no findar.
Não há crença para quem consegue viver na dimensão do vazio arfar.
Não há tempo mais originário do que o tempo que a cada vez se ousa cunhar.
Não há falta de amor num coração que sangra por não conseguir se por a esquecer.

Estação das Brumas: revisitado

E me surpreendi com os cacos de um espelho quebrado,
Quando todos eles me olharam como inquisidores,
E eu apenas fechei os olhos, tentando encontrar em mim algo que não fosse fado,
Mas apenas novamente encontro-me em uma mônada, disseminado nos bastidores.

Ela sabe, todos sabem, eu sei. Mas àquele esquecimento que se esquece nos faz lembrar,
Por vezes, que a morte de Deus não é apenas uma metáfora,
E quando a mim perguntei sobre o que fazer, não estava em condições de encontrar ar.
Disseminado em bastidores e ainda preso, dentro de uma ânfora.

Implodindo, mas nunca o suficiente pra fazer barulho.
Apenas na efetividade de um ainda ser, como um estar circunspecto que sempre cai.
Difícil é lidar com verdades referentes ao próprio entulho.

E aquela tão querida ausência sempre se manifesta como um tornar presente
Aquilo que a memória acalenta, mas que não aquiesce em sua vertente.
Em uma peculiar solidão, resta apenas um despedir-se de si mesmo, dormente.

O silêncio da libido

A falta de si mesmo dissemina-se como solidão na falta do outro,
Mas o outro apresenta-se como ausência não refletida do próprio reflexo.
E no fundo, finda-se o mundo sem objeto por algum plexo.
E no fim, todo aquele sentir é só mais alguma expressão de tudo que já foi outro.

Resina-se aquele silêncio verbal em meio ao movimento dos corpos, insaciáveis.
Como que mortos por um logos, cujo reconhecimento suicida-se ante o tédio.
E o sexo das almas paralisa-se na contemplação dos corpos enganáveis.
E a contemplação rompe-se em mais alguma angústia qualquer, daquelas que configuram a possibilidade de algum suicídio.

Ainda restam-nos aqueles dias brancos, nos quais revela-se a paz intransigente.
Na qual somos tomados por qualquer coisa como uma solidão,
E nos leva a pensar como seria o mundo se ele fosse um eterno domingo.

Por fim, sobra-nos o amor, àquele ao qual abandonaremos pelo simples fato de amar.
Que por constatação advém-nos a plenitude planificada de uma ausência em negrito.
Mas que esquecemos pela presença do outro, como uma doença a se alçar.

Um anjo caído

Um anjo caído

Silêncio gêmeo como o resíduo dos que tiveram as asas queimadas,
Gêmeo do grito de desespero que fora dissimulado em um sorriso normativo.
Ainda ouvem a voz que clama pelo derradeiro silêncio das alvoradas,
Esses que nem excêntricos conseguem ser, pois desprezam o vôo do coletivo.

O abismo figura-se como morada do ser, numa nostalgia sempre suspensa,
Atraindo para baixo àqueles que voam com asas espirituais;
Em uma imaginação que adorna o quase-viver, o limbo torna-se o que dele se pensa.
E voa-se com a leveza de um seixo, nesses estanques virtuais.

Ela quis explodir, seu corpo queimando como pétalas se congelando,
Mas ela queimou… as asas do seu amado, para se livrar da ficção,
Pois se acha na ímpar autenticidade dos que julgam espanando.

E o amor se derreteu com as asas do anjo, depois que este se congelou.
Agora a história é apenas o ideal do amor contada sob as vestes da tragédia,
Mas apenas história, apenas para acalentar esse que nunca amou.