Angústia

Da filosofia

Da filosofia

Na boca, o repouso silencioso do gosto de ferrugem,
Daquela falta de álcool, daquele excesso de clareza.
O que seria a liberdade, senão a resposta aos gritos que urgem
De um mundo adoecido pela certeza?

Banida, a filosofia se encontra.
Morar na filosofia é morar no abismo,
Morar na filosofia é perecer no que se mostra,
Morar na filosofia é não morar em si mesmo.

A cada passo, calmo e sereno, o escalador une-se em carne, ato e montanha.
Mas, não, sou de baixo, não subo senão em espírito.
Sou da devastação, do abismo da existência, no máximo cavo, ávido, aflito e estrito.

Não por convicção, mas por constatação.
O campo do ser é o mesmo do nada.
Na boca, ainda o gosto de ferrugem de uma existência em permanente execução.

André Luiz Ramalho da Silveira

Memórias do subsolo – revisitado. Fragmento: O desespero da fé.

Memórias do subsolo – Dostoiévski – revisitado
Fragmento: O desespero da fé

O meu problema… Talvez seja uma psicose inerente a memória. É… A memória. Ela nunca descansa, ou talvez seu descansar seja exatamente essa atividade torturante de ser uma constante vigia dos atos humanos. Não sei se penso isso como um problema apenas meu. Explico-me, aos poucos… Independente de se eu quero transparecer ser uma pessoa doente, digna de pena e moído por ressentimento, ou se apenas sou obcecado por mim mesmo e, consequentemente, pela minha doença… Independente disso, sei que sou doente.

No entanto, essa é também uma doença filosófica. Em outros termos, isso é um problema filosófico, pois diz respeito à condição humana, ao nosso ser. Quando a imunidade está baixa, esse problema filosófico insufla-se pelas vias respiratórias e mistura-se a bile negra. A melancolia aterradora, então, nos arrebata neste duplo sentido. A partir disso, por essas linhas tracejadas que testemunham minha desavença com tudo que existe, poderia parecer que eu creio no sofrimento.

A inspiração de São Mateus (Vocazione di san Matteo)

A inspiração de São Mateus (Vocazione di san Matteo)

Antes de pensar sobre a fé, que julgo aqui nessas linhas não ter, apesar de parecer o contrário, ainda é preciso externar outras coisas… Por vezes vejo também, como problema, o fato de que tenho sempre a consciência de que tudo irei suportar. Pode isso nada demais ser, se não fosse o caso de eu também ter a consciência – sim, a consciência…- de que todos sabem que suportariam tudo (e suportam), com um pequeno esforço. É claro que, por mais conservador que eu seja, não consigo ser estoico o suficiente para crer que um desgraçado vítima de tragédias pessoais e políticas, poderia ter, por força de decisão própria, consciência e vontade e poder para mudar a si mesmo e o mundo ao seu entorno. De todo modo, pro resto das pessoas, em que a tragédia constitui-se apenas essa de ter nascido, penso que sim, sempre suportam tudo. Esperança talvez, ou desejos ancorados em ilusões transcendentais, como o amor ou a política, ou a filosofia. Ah, o engajar-se…

Não é isso exatamente algo que eu possa ir contra… aliás, claro que posso, e sou. Qualquer ação é já uma inserção nesse mundo, de modo que assumir a própria ausência é a única opção razoável. Todavia, sei que isso também é uma grande besteira. E, cá de meu subsolo, que quero eu universalizando valores? Acaso alguém viria a ler essas malditas linhas sujas? Acaso alguém leria algo disso, apenas para depois precisar de um banho pra tirar a sujeira fétida que a existência implica? Isto é, alguém, do alto de uma vida ordenada e lindamente burguesa, reconhecer-se-ia num tal lamaçal?

Se isso for assim, a memória fará com que todas as coisas voltem a seus lugares. O império das opiniões, da inteligência comum, essa normalização estrutural do pensamento, é articulado na memória e solidificado, fazendo disso o solo comum do mundo. E a vontade de que isso assim seja, de que o passado idealizado seja o valor supremo, é o que entendo como vontade retroativa… Então… Causa-me uma certa ira essa vontade retroativa que as pessoas despertam, ou melhor, ‘criam’. Sim, pois vontade retroativa não é senão a má-fé nas roupagens de uma hipócrita diplomacia e apaziguamento das diferenças. Assim, as pessoas, falam do sofrimento e o usam para se ‘integrar’ em um grupo social, mesmo que seja o grupo dos solitários… Sim, existem tais grupos. Ou atribuem ao sofrimento uma nobre causa, ou um nobre fim.

Só vejo sentido quando ligo algo ao passado, apenas esse espírito temporal dá sentido, por mais que dele nada se pode falar, a não ser que é. Ele, o passado, não é possibilidade pura, como nós, mas simplesmente algo que é.
A memória é uma espécie de carrasco, atua como açoitador, que no menor vacilar chicoteia o atuante, às vezes chamado de sujeito. Isso mostra bem como o passado é presente. Sim, o que seria da moral sem a memória? A ausência dela poderia talvez nos consentir a abençoada felicidade, aliás, alguns – ou muitos – são agraciados dessa forma. Mas a memória não pode ser definida apenas como algo que ‘lembra’, ou talvez não. O fato é que só existe fato porque nos lembramos das coisas, obviamente.

Contudo, rabisquei acima sobre uma psicose em relação à memória, e isso não foi em vão. A memória é uma grande arma, junto com a consciência, uma grande arma para um suicídio coletivo. Sim, pois ambas são as maiores doenças que assolam as pessoas. (Ou as pessoas são as maiores doenças a assolarem a memória e a consciência?) Lembrar-se das coisas me causa certa, ou melhor, me sinto como uma espécie de louco e estrangeiro no mundo. Não me vejo como um louco sociopata, senão seria possível eu nem estar escrevendo isso, a esta altura da minha vida, com tantos anos de sofrimento… Na verdade sou é covarde para assumir qualquer identidade concreta e acimentada. Prefiro meu enclausuramento nesse subsolo infame, na solidão fria de meus sonhos, do que o contato com o mundo supostamente ordenado e mentiroso.

O problema é que sempre suporto. Se é que um problema isso é, mas eu não me sinto antissocial, não como esses que existem por aí. Sim, esses grupinhos de solitários e poetas e artistas e qualquer coisa, que desejam a solidão e nem boa memória possuem, não são doentes o suficiente. Pode soar engraçado isso, mas não tenho como não crer que são, a maioria, grandes vermes, os quais fazem contribuições ao meu ‘sofrer’. Talvez eu tenha me esquecido de mencionar que vida é dor, sim, a vida é dor. Todos gostam de dizer isso, principalmente os que se dizem sofredores. Neles mesmos atua a tal vontade retroativa, criada por eles; na verdade (se é que se pode falar em verdade) eles só mascaram os atos de si próprios, fazem por si mesmos o esforço de esquecer, anulam em parte a memória.

Alfred Hitchcock

Alfred Hitchcock

Será isso tudo minha fé escusa numa humanidade que cultivo em delírio? Não tenho paciência pra nada, ao bem da verdade. Toma-me muito tempo minhas dores físicas e psicológicas. E ainda tenho que lidar com a consciência dessas dores, com a consciência de que meu fim se aproxima e cuidar para não morrer açoitado pelas minhas memórias. Não sei se estou em desespero. Parece-me que sou nutrido, estranhamente, por esse sofrimento que me consome. A despeito de tudo, não consigo não me jogar frente a meus pares, para que eles vejam a vergonha que sou. Para que eles vejam que é desta carne que eles também são feitos, que partilhamos o mesmo conceito de humanidade, ainda que o veneno que inalamos seja distinto. Minha solidão precisa deles, pois eu sou reflexo da imbecilidade do mundo… Por fim, brilha-me agora essa verdade no canto da consciência, é isso… no fim, minha fé é nesse abismo.

André Luiz Ramalho da Silveira

Astolfo e a superação da metafísica (ou sobre como irritar os leitores)

Astolfo e a superação da metafísica (ou sobre como irritar os leitores)

Libélula

Na rodoviária de uma cidade parcialmente escondida entre outras cidades também parcialmente escondidas por outras cidades – cidades tão invisíveis quanto seus habitantes -, em alguma dessas tardes em que o sol esquece a hora de partir, estava Astolfo Cisma dos Santos. Claro, havia outras pessoas. Sempre há. Também havia libélulas, vivendo como se vivem as libélulas, despertando a fantasia e os mitos que, por vezes, suspendem as pessoas da realidade. Também havia o calor. Contudo, ainda que ele fosse excessivo, a sensação de não pertencimento ao mundo – sentimento acentuado pelo local transitório em que estava -, não se eliminava com o suor.

(Essa impressão de ser jogado em meio a um vazio completo, que vem de sobressalto e faz todos os projetos ruírem, não se assemelha com o desespero concernente a alguma tragédia. Não está em questão se essa impressão é ou não agradável, pois essa impressão de mundo não é apenas um atributo psicológico. Se de fato for algo que diga respeito à relação de todo ser humano com o mundo, de uma identidade própria e de como se dá o reconhecimento na alteridade, essa cisão com o mundo só é possível de ser interpretada psicologicamente porque ela tem sua origem na constituição mais própria do ser humano. Explico-me melhor. Essa cisão revelada pela angústia mostra que o ser humano é um nada jogado em um mundo que ele não dá conta, e que é preciso assumir promissórias das quais ele não foi o responsável por criar. Por vezes, esse estranhamento tira a pessoa de órbita e todo o significado de seu mundo entra em colapso. O mais incrível não é exatamente que isso seja assim, mas, o extraordinário é justamente como sempre o ser humano consegue, ainda que quebrado no tempo, recomeçar a partir do nada a reconstruir sua identidade. Isso ocorre em todos os âmbitos da existência. Não porque a realidade é exatamente dessa forma, ou possível de ser descrita assim, tampouco porque seja uma ilusão. Em verdade, o mundo que compartilhamos é uma nuvem mantida impessoalmente e que, na maioria das vezes, é deixada de ser interpretada pela maioria de nós. Mas, ainda somos homens de bem. Tudo retorna ao seu lugar).

Van Gogh - Jardim de Inverno (desenho a lápis e pena, 1884).

Astolfo não iria embarcar em quaisquer daqueles ônibus, nem em qualquer outro veículo. Voltaria pra casa do mesmo modo em que chegou naquele local, levado pelos próprios pés. “Os caminhos são mais importantes do que nossa vontade” – dizia. Estava de chinelos, bermuda e camiseta. Usava também um chapéu – a contragosto, vale dizer, mas, na guerra contra o calor, usa-se as armas disponíveis. Havia atravessado parte da cidade, nessa sua caminhada. Ele andava rápido e olhava pra frente, como se precisasse vencer um inimigo. Passava quadras a fio, contava os próprios passos, e se confundia entre ações e pensamentos. Apenas algo de fixo em seus pensamentos: livrar-se do veneno.

Essa visceral e destrutiva sensação de que as possibilidades não vividas podem estar sendo vividas por outras pessoas. Essa estranha sensação de que outras pessoas podem viver na sombra de nossas vidas, com as pessoas que deixamos em algum ponto no passado. Nesse rastro que deixamos pra trás e que, em algum momento passado, por algum motivo, deixamos de encarar. Além disso, não apenas o abismo de não poder se projetar para o passado, e a consequente agonia disso, mas, a sensação de ser corroído por querer o que não pode ser (no sentido forte da palavra). Em estalos de razão, em meio à quase insanidade, pensava – a paixão pelo ressentimento: o fundamento da civilização –.

Não há muitos meios para se livrar disso. Contudo, pensava, um deles certamente é a exaustão de si mesmo. Destruir tudo, até que o sentimento cujo ressentimento é devedor seja aniquilado. E assim fazia. Caminhava, quando tinha pernas. Trepava, quando tinha companheira. Corria, quando tinha fôlego. Bebia, quando tinha dinheiro. Morria, quando existia demais. Nesse dia, apenas caminhava.

Astolfo, o gladiador. É preciso sofrer pela verdade, disseram os vários poetas, filósofos, religiosos e toda uma corja de pensadores. Há de se notar, caros leitores, por conseguinte, que a vida para muitas pessoas é sofrimento, mas, também, e por isso mesmo, é a verdade. “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”, dizia aquele poeta que dizia ser nada. Apenas acho que ele ignorou que o peso da pena é demasiado, algumas vezes.

Paremos com a enrolação. Isso já é metafísica. Mas, falando em metafísica, qual seria metafísica que assolava o nosso desiquilibrado herói? Se me permitem prosseguir o relato – se não me permitem, apenas parem a leitura –, em breve chegaremos a algum lugar.

Caminhava reticente, ainda que implacável. O inimigo era forte, um monstro, vale dizer. Era preciso criar condições adequadas para fazer com que esse mal aparecesse. Astolfo não era exatamente um atleta, de modo que não era preciso caminhar distâncias imensas pra fazer o corpo falar. Ao final de alguma distância, mais especificamente quando chegou à rodoviária, sentiu que com o suor havia saído um pouco de sua irritação e, assim, pode confrontar melhor a metafísica. Mas, não é uma batalha intelectual, apenas. Esta sombra que domina a civilização desde seu início é o que nos torna humanos. Mas, mais do que essa própria sombra constituir-se como uma das características fundamentais de nossa condição humana, o embate contra ela própria é o que o põe o ser humano à prova.

Claro que ele sentia-se assim, afinal é algo que todas as pessoas podem sentir, basta um pouco de tórrida solidão. Mas, não se enganem. Não se trata de vencer a moral de escravo, do chamado ressentimento nietzschiano. Claro, trata-se, em parte, de ter força suficiente para sustentar os próprios valores. Contudo, para nosso herói a situação não era exatamente como julgava o filósofo alemão, como veremos.

Sentou-se em uma mureta de meia altura, que em parte era abraçada pela sombra das árvores e, em parte, pelo concreto. Pediu um cigarro a alguém que passava. Fumou o cigarro. Após isso, compreendeu ser o momento de enfrentar seu inimigo. Enfrentar a si mesmo. Começava, assim, o diálogo interno:

– Ressentimento… você de volta a assombrar meus dias!?

– Não, caro Astolfo. Você é quem assombra os meus. Deixe-me continuar com a banalidade enfática e nutrir-me de seus sentimentos de desacontecimentos, que eu continuarei a lhe proporcionar a conexão com o resto do mundo.

– Mas, do que se trata, afinal? Já te venci outras vezes, te exauri como esse suor que me nubla o rosto… Por que esse abismo que nunca cessa? – replicou Astolfo.

– Esse abismo é você, Astolfo. É você e todos. Agora, quem lhe pergunta sou eu, vale a pena sofrer assim pela verdade? – perguntou o ressentimento.

– Não confunda as coisas. Já não é a primeira vez que nos enfrentamos, meu amigo. Sei que não basta fazer uma distinção conceitual para me livrar de ti. E que, enquanto eu existir, existirá o abismo e, por todo o lado, estará você.

– Vejo que você aprendeu algumas lições, nobre gladiador. Os lugares estão nas suas coisas. Mas, você não me respondeu. Vale a pena sofrer pela verdade? Por que não és hipócrita como toda a gente deste mundo?

Astolfo, que falava arqueado e ofegante, ao ouvir isso gargalhou sozinho. – Você era melhor, ressentimento. Ao menos mais esperto. Eu sei o que é ser hipócrita, porque, assim como de você, a hipocrisia é outra das incríveis qualidades humanas que é impossível de se purgar. Aliás, me ocorreu agora, a hipocrisia não teria sido originada quando você, ressentimento, foi olhado por alguém no espelho do mundo pela primeira vez? Enfim… não se trata apenas de verdade. Não quero saber da verdade. E se fosse o caso de sofrer pela verdade, eu não precisaria saber antes dessa verdade, para depois sofrer? – falava rindo.

– Tens razão, gladiador. A hipocrisia é uma de minhas consequências mais adoráveis. A mentira e a verdade, duas das ilusões ocidentais que mais me excita. Toda essa quase infinita fonte de tortura a minha inteira disposição. Você sabe disso. A questão é, que diferença isso faz? Você é só mais um insano solitário. Pensa que poderia fazer uma revolução em favor dos oprimidos pelo ressentimento? Você crê demais na humanidade, meu jovem. – Arfava com tirania o Ressentimento.

– Sei que não é possível me livrar permanentemente de você. Até porque você é parte de mim, de tudo que sou e de tudo que sinto. Uma parte terrível, é verdade, mas ainda assim é parte de mim. Te exasperei várias vezes, e farei quantas for preciso. Meu desprezo aos ressentidos – tanto os que acham que não são ressentidos quanto os que pensam ser e, assim, sentem-se justificados em agir como cretinos românticos – é maior do que o que eu tenho por você. Jamais me tornarei um desses idiotas, na defesa hipócrita de qualquer ideia apenas para fugir de si mesmo, do próprio abismo… é tudo tirania. – Nesse momento, Astolfo gritava mentalmente e gesticulava como um louco, mas de um modo muito caricato. – E mais, não sofro pela verdade, nobre ressentimento. Causam-me úlcera a estupidez e a incoerência de cada sujeito existente nessa merda de mundo. Bando de cretinos que defendem o amor, como se isso pudesse nos salvar da danação de existir! – Gritava em cólera, o gladiador; estava de pé e gesticulava sozinho. Após isso, ficou em silêncio em torno de um minuto, respirando fundo e tentando e acalmar. Continuou, agora pensando mais baixo. – Claro, de fato o amor pode nos salvar da danação, para quem com isso é verdadeiramente agraciado. Mas, isso ocorre mesmo? É um tiro no escuro, meu amigo… Ódio é o que sinto por tudo isso, mas, também, odeio o fato sentir ódio. Tudo se anula. E sinto que só não o abracei ainda porque mantenho em mim um amor misterioso, que não consigo justificar e tampouco me desfazer. Não gosto disso, não gosto de esperança… isso só causa-me dor e tédio, como já dizia aquele alemão – Astolfo se referia ao filósofo alemão Arthur Schopenhauer -. Só consigo pensar que o caminho para o nada é a exasperação de toda posição. Nada vence o nada, meu amigo. Agora me deixe um pouco em paz, que já estou muito cansado. – Completava Astolfo, completamente exausto, estirado em um banco.

Libélula gigante - fóssil

Para não perder o hábito, Astolfo rascunhou esse diálogo em algumas linhas. Fez também para lembrar-se de como se enfrenta esse inimigo impiedoso. Não é sempre que se ganha. Ou melhor, não é sempre que se perde. Ficou mais uma hora naquele local, parado e em estado de êxtase, observando as libélulas formarem aquela imagem surreal, que mais parecia um portal para algum mundo diferente. Um mundo de fantasia, que somente os seres humanos conseguem visualizar. Não por alguma elevação espiritual, mas sim porque somente os seres humanos são cindidos. No fim das contas, apenas permanecem as ideias e as libélulas.

André Luiz Ramalho da Silveira

Finitude e boa ventura

Finitude e boa ventura

Deixar a si mesmo… Despossuir o mundo do ser…
Deixar de ser… Na valentia de ser o próprio abismo…
A si mesmo… O vazio perdurará, na triunfante música do não-ser…
Deixar ser… Aquilo que só o tempo molda, ao esmo…

Na conformação… A forja das substâncias é a ilusão da eterna lisura.
No conforto da boa ventura… Em que a identidade é a justa dissimulação.
Regem um mundo nos atos da postura… Para a verdade enclausurarem na ação.
Reclamam dos ventos da negação… Mas os gritos ainda são pelos privilégios da escritura.

Caminhe na corda, amigo. O descolamento de si é o fundamento da
Se abandone no tempo. Democracia… O deslocamento do presente é a liberdade posta em firmamento.
A verdade é o tempo nos deixando ser… No completo inacabamento.

Inimigos da vida. Não nós, guerreiros silenciosos das cicatrizes esquecidas.
Necrolátricos vestidos de querubins. Líderes ferinos e falsários de mentes incandescidas.
Essa é a tentação primeira da existência, desde que o tempo nos fez gente.

André Luiz Ramalho da Silveira

Mário Quintana – A Rua dos Cata-ventos XXII

Mário Quintana – A Rua dos Cata-ventos

XXII

Vontade de escrever quatorze versos…
Pobre do Poeta!… É só pra disfarçar…
Andam por tudo signos diversos
Impossíveis da gente decifrar.

Quem sabe lá que estranhos universos
Que navios começaram a afundar…
Olha! Os meus dedos, no nevoeiro imersos,
Diluíram-se… Escusado navegador!

Barca perdida que não sabe o porto,
Carregada de cântaros vazios…
Oh! dá-me tua mão, Amigo Morto!

Quê procuravas, solitário e triste?
Vamos andando entre os nevoeiros frios…
Vamos andando… Nada mais existe!…

Mário Quintana: A Rua dos Cataventos – XIII

Mario Quintana – A Rua do cata-ventos XIII

Êste silêncio é feito de agonias
E de luas enormes, irreais,
Dessas que espiam pelas gradarias
Nos longos dormitórios de hospitais.

De encontro à Lua, as hirtas galharias
Estão paradas como nos vitrais
E o luar decalca nas paredes frias
Misteriosas janelas fantasmas…

O silêncio de quando, em alto mar,
Pálida, vaga aparição lunar,
Como um sonho vem vindo essa Fragata…

Estranha Nau que demanda os portos!
Com mastros de marfim, velas de prata,
Tôda apinhada de meninos mortos…

Reconhecimento em revés

Quando os dias se quebram,
Quando não é mais possível compartilhar o fado,
Quando da vivacidade diletante da existência apenas ecoam
Os passos falsos da eternidade vazia de cada amor, ceifado.

Advém com a assombrosa agudeza espiritual a incapacidade
De qualquer crença… E para saber que se vive, é preciso sentir-se como vivo.
Quando o mais material é a fumaça entre os dedos, a fragilidade
É a única força de constatação que valida esse arquivo.

E querem reconhecimento, mas pelo que são.
Mas se vemos por perfis, como interpessoalmente haverá algo como
Reconhecimento para além do que permite a vontade de quem quer ser reconhecido?
Se o querer ser reconhecido é mais forte do que a satisfação de ser reconhecido,
Escuso-me a deleitar na limitada paz da solidão, e por qualquer desaprumo,
Degrado-me ao civismo do bom cristão.

E devemos superar tudo, vencer, sonhar, viver.
E transar com dinheiro e vomitar valores reproduzidos.
E vender a alma a um diabo que teria vergonha de nos conhecer.

Não é decadência, pois nunca houve tempo em que as pessoas não foram pessoas.
A miséria humana não é uma doença no tempo, um prego histórico.
É isto, a existência. Uma desconexão de miseráveis numa sobrevaloração de um ego nada metafórico.

André Luiz Ramalho da Silveira