André Luiz Ramalho da Silveira

Um sonho, uma realidade

Um sonho, uma realidade.

É preciso crer nas ilusões, antes que elas se transfigurem em realidade. Enganava-se que, mediante simples empenho próprio, isto é, por esforço de crença, poderia livrar-se dessa prisão que parecia não haver fronteiras. Não conseguia distinguir o resto do mundo de si mesmo. Neste momento, tornava-se como que um vetor entre o mundo dos despertos e a fantasia dos eruditos. Apenas seguia nesse aparente delírio. Não era apenas o cansaço extenuante que lhe obstruía o pensamento. O que o tinha levado a esse estado, e a esse lugar? Para existir, seria preciso ter desejo de realidade?

Essas questões começavam a surgir em meio ao burburinho de conversas aleatórias de pessoas inexistentes e do barulho de galhos de árvores que, por mais invisíveis que fossem, carimbavam nos ventos destemidos até mesmo as histórias mais lânguidas que pela terra já rastejaram. Começava a compreender que estava perdendo realidade, não obstante estar aos poucos ficando menos preso. Havia uma leveza nisso tudo, quer dizer, abandonar o fado do corpo pode despertar a impressão de alguma liberdade um tanto ilusória. Mas, junto a essa leveza, compreendia que com o passar do tempo tornava-se mais pesaroso o pensar. O desespero era, em verdade, o de não lembrar-se como lhe adviera tal situação aprisionadora.

Para encontrar algum fio de sentido, procurava, aos tapas, nas lembranças fugidias, algo que lhe situasse novamente ao mundo. Encontrou um remedo de rua, que lhe parecia familiar. Desavisadamente sentiu seu corpo corporificando novamente. Nessa rua em que fincava a imaginação, à busca de uma memória mais sólida, encontrou aquela esquina esfumaçada – que mais parecia um borrão expressionista do que propriamente algo que existisse por si – em que há não muito tempo perdeu o que pensava ser sua vida.

Contíguo à esquina levemente cinza e esfumaçada, e como que também formado pela mesma disforme dissociação de cores que pareciam materializar aquela realidade, estava uma pessoa com ares de elegância deletéria, mas ainda assim com um ar familiar. Num dos lados dessa esquina havia um banco, em que essa pessoa resolvera recostar-se. Vestia um longo casaco cinza, com botões pretos de expressões rústicas, um Keffiyeh verde escuro tracejado de preto – típico lenço árabe -, em que o deixara caído aos ombros e a cabeça descoberta, botas de couro pretas e um guarda-chuva florido. Às vezes, notavam-se algumas explosões de cores no cinza do casaco, e algum intumescimento nas flores do guarda-chuva, que pareciam querer beijar o chão. Contudo, essa pessoa escondia o rosto. Ou melhor, seu rosto era a expressão de cada canto desse lugar, cantos cuja mudança era permanente, ainda que de modo harmônico. Apesar de acinzentado, o cenário parecia saído da imaginação de Van Gogh.

Quando sem perceber e num súbito prostrou-se diante dessa figura, deu-se por conta de que certamente essa pessoa lhe era familiar, ainda que sem reconhecê-la. O casaco ofereceu ajuda e as flores do guarda-chuva serviram de apoio para que se chegasse até o banco. Olharam-se. Começava a duvidar de si mesmo, a duvidar seriamente se era mesmo alguém, dotado de “pessoalidade”, se não passava de uma imagem impressa num mundo atônito e maquinal. Adjacente a esta dúvida, lhe surgia como contra prova essa realidade abstrata que se concretizava como um orvalho se congelando num inverno. Olharam-se. A pessoa a sua frente parecia um velho, mas também parecia uma mulher, e quando começou a falar, tinha uma voz que lembrava a de uma criança. Onde estava, pensava… seria isso um sonho? Por que não desperta? Se despertar, será possível viver da mesma forma, depois de passar por isso? Olharam-se…

– Quem sou eu, ou, o que faço aqui? Organizava a pergunta com ares de presciência, ainda que gaguejasse e falasse rápido e aos tropeços.

– Pergunta difícil, jovem; vamos caminhar e eu lhe explicarei melhor. Replicou a pessoa misteriosa.

Levantaram-se e seguiram ao largo de um jardim outonal. As ruas eram muito semelhantes entre si, de modo que ao caminhar por umas cinco quadras, mal pareciam ter saído do lugar em que estavam. Despertou um vento frio, sendo necessário puxar algum capuz e cobrir a cabeça. Seguiram até uma grande praça, em que ao centro havia uma espécie de basílica. Havia muitas pessoas na praça, apesar do vento razoavelmente frio. Estava noite, aparentemente, mas havia claridade suficiente pra que se distinguissem as coisas que são possíveis de se distinguir.

– Vamos nos sentar. – Disse a figura de casaco e guarda-chuva. – Veja essas pessoas a caminhar, como se tivessem algum propósito em suas vidas. Você pensa que elas estão presas nesse mundo? Ou melhor, você pensa que elas sabem que estão presas? A compreensão não depende apenas de nossa disposição a compreender. É preciso algum sacrifício para colapsar a ignominiosa dominação da falta de reflexão. Este mundo apenas configura-se como uma distopia para quem já entra nele cindido. Ou talvez não. Mas, não há volta, quando se chega a este ponto. – Prosseguiu a figura, falando hermética e pausadamente e acentuando cada palavra.

– Mas, eu morri, ou isto é apenas um sonho? Veja, eu não sinto meu corpo. Parece apenas um delírio, no entanto, sinto como se toda a realidade de fato fosse assim. Aliás, quem é você? Faz parte desse meu delírio ou do delírio de outra pessoa, ou existe mesmo? Ou nenhuma coisa nem outra? – replicava.

– Muitas perguntas você faz, como se você não soubesse as respostas. O que você procura é algo que garanta um mínimo de sentido para a existência, um sentido que não possa se desfazer a cada pouco. Mas, isso não é possível. Toda a realidade, essa que você pensa viver, essa que está fora deste mundo, toda ela assenta-se sobre esse mundo tal como você agora vê. O erro e a fragilidade é o que dá suporte a toda objetividade. Não é que a realidade seja uma ilusão. Creio que ilusão não seja um conceito útil para compreender a complexidade que aqui se impõe. Aqui, todos apenas somos. Apenas ser, nada mais. Sem realidade transcendente, de modo que não haja apoio além de nós mesmos, nós, seres cindidos e incompletos. Mas, a fim de lhe responder, você me perguntou quem ou o que sou eu. Pois lhe respondo, sou muitas coisas. Sou seu nêmesis, sou parte de você, sou parte do mundo, sou parte de outras pessoas. Sou deus, delírio e sonho. Sou qualquer coisa. Mas, mais importante que isso, é como você compreenderá tudo isso, isto é, o que eu significarei para você. Seu mundo é mais do que eu e você, mas ele não é sem nós. – Respondeu-lhe, quase em transe, a pessoa misteriosa, enquanto podava as flores do seu chapéu.

Imóvel, ele fitava o estranho buscando compreendê-lo. Sim, talvez ele já imaginasse alguma resposta nesse sentido. Mas, apercebeu-se que precisava dessa confirmação pra poder voltar de onde viera. Precisava extenuar-se até perder a noção do próprio corpo e da própria consciência, pra conseguir se livrar do apego a substancialidade. Beirava desmaiar. Respirou fundo, agradeceu a conversa, levantou e espreguiçou-se. Não sabia onde estava, nem se lembrava de como foi ali parar. Mas, misteriosamente sabia como voltar, ainda que houvesse esquecido também o lugar de onde viera. Caminhou dois passos, tirou o capuz e respirou todo o vento que havia nesse pedaço de mundo. De imediato, acordou caído da cama, no quarto do albergue em que morava. Levantou-se, pensou e decidiu: nunca mais dormirei. Sentou-se novamente e, após constatar novamente a vida que leva, tornou a dormir.

André Luiz Ramalho da Silveira

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Astolfo e o espelho

Astolfo e o espelho

Caminho pelas ruas como se não caminhasse. Imagino roteiros não feitos, mas instantes depois lembro ter feito todos os caminhos possíveis. Reflito minha vida e faço narrativas para aplacar o tédio. Em certos momentos, penso minha própria existência como se eu não mais existisse, na ilusão de abarcar a totalidade do meu tempo de vida e dar um sentido não niilista pra isso. Contradição, sim. Mas, quem se importa. Fato é que diversas vezes me pego pensando na posteridade, uma espécie de fé no futuro, num futuro em que eu já não estaria, mas que simbolicamente deixaria algo para a nobre humanidade. Isso tudo é tão instantâneo que, em outras tantas vezes, esse lapso de imaginação se interrompe pelo café que quase derrubo.
Existo como vírgulas nesse ato descontínuo de sobreviver. Assim mesmo, em verbo, não acredito muito nos substantivos.
É insuportável a existência. Mas, quando eu me vejo escrevendo essa frase, dou risada. Nem pessimista, nem niilista, nem qualquer ‘ista’ consigo ser com êxito. Aliás, se “ser” dependesse de algum esforço, já não seria nada. Mas também “ser nada” depende de esforços. Já me é demais justificar toda e qualquer ação. Não que eu faça ações, mas essa resistência a qualquer substância que chamam de realidade. É tanto valor dado a essa esquizofrenia mimética, que por vezes até eu mesmo caio no esquecimento de que fatos não são nada.
Mas, para não desviar do assunto – muito interessante, como podemos notar – dizia eu que o existir é um fado. É preciso muito amor para não se matar. Mas isso são apenas palavras sem significado expressivo. Parece engraçado, e é engraçado, e patético. A condição humana é isso. Uma tragédia, que só quem a compreende em seu sentido mais originário, necessite rir. Porque quem a compreende em seu sentido originário e não consegue rir, é porque não existe mais. Não é compreender a existência como um substantivo, categorizar e elaborar conclusões fechadas sobre o mistério da vida. Mas, é existir como incógnita sem fundamento e, muitas vezes, sem sentido. Sem essa percepção trágica da existência, da miséria existencial que todos somos, é mesmo impossível de se reconhecer o próximo como alguém.
E há quem fale de amor livre. Há quem fale das mazelas da vida e, por necessidade de justificar a própria hipocrisia, não consegue sobreviver sem gorfar salvacionismos. É um grande excesso de carência se deixar levar pelo autoengano. Mas é ignóbil não admitir isso pra si mesmo. Eu mesmo vivo admitindo minhas hipocrisias pra todo mundo. Até elas perderem o sentido. Afinal, não quero ninguém me condenando por ser o único autêntico entre as mulheres. Mas também não tenho tanta paciência assim, comigo. Sou é covarde, mas isso já é outra coisa. Pelo menos o amargo dessas décadas me vacinou contra idiotas. É o que digo na frente do espelho.

André Luiz Ramalho da Silveira

As ruas – de pedaço a pedaço

As ruas – De pedaço a pedaço

Das ruas, histórias brotam… E, quem nelas se dispersa,
Em meio a teias narrativas que se engalfinham por entre sonhos e perdições,
Tem a linha da existência urdida em enlutáveis fugas de indizíveis solidões.
Já as memórias, recuperadas a cada brisa, atrelam-se aos silenciosos versos de quem se singulariza.

Quisera eu compor-me como componho o carme de minhas desilusões
Mas dos traços vilanescos dessas ruas sectárias
Resta-me espalhar-me numa harmonia com o mundo, meu mundo, sem conclusões.
Apenas constato a violência desta finitude insidiosa e nela forjo poesias quadradas.

As sombras dessas ruas esquálidas
Apenas nos condenam às sobras
De memórias intumescidas.

Amigo, melhor é viver sem certeza e orgulho
Do que, de todas as verdades dessas tristes ruas do espírito,
Não nos sobrar nem mesmo um reles entulho.

André Luiz Ramalho da Silveira