Amor

Astolfo e a superação da metafísica (ou sobre como irritar os leitores)

Astolfo e a superação da metafísica (ou sobre como irritar os leitores)

Libélula

Na rodoviária de uma cidade parcialmente escondida entre outras cidades também parcialmente escondidas por outras cidades – cidades tão invisíveis quanto seus habitantes -, em alguma dessas tardes em que o sol esquece a hora de partir, estava Astolfo Cisma dos Santos. Claro, havia outras pessoas. Sempre há. Também havia libélulas, vivendo como se vivem as libélulas, despertando a fantasia e os mitos que, por vezes, suspendem as pessoas da realidade. Também havia o calor. Contudo, ainda que ele fosse excessivo, a sensação de não pertencimento ao mundo – sentimento acentuado pelo local transitório em que estava -, não se eliminava com o suor.

(Essa impressão de ser jogado em meio a um vazio completo, que vem de sobressalto e faz todos os projetos ruírem, não se assemelha com o desespero concernente a alguma tragédia. Não está em questão se essa impressão é ou não agradável, pois essa impressão de mundo não é apenas um atributo psicológico. Se de fato for algo que diga respeito à relação de todo ser humano com o mundo, de uma identidade própria e de como se dá o reconhecimento na alteridade, essa cisão com o mundo só é possível de ser interpretada psicologicamente porque ela tem sua origem na constituição mais própria do ser humano. Explico-me melhor. Essa cisão revelada pela angústia mostra que o ser humano é um nada jogado em um mundo que ele não dá conta, e que é preciso assumir promissórias das quais ele não foi o responsável por criar. Por vezes, esse estranhamento tira a pessoa de órbita e todo o significado de seu mundo entra em colapso. O mais incrível não é exatamente que isso seja assim, mas, o extraordinário é justamente como sempre o ser humano consegue, ainda que quebrado no tempo, recomeçar a partir do nada a reconstruir sua identidade. Isso ocorre em todos os âmbitos da existência. Não porque a realidade é exatamente dessa forma, ou possível de ser descrita assim, tampouco porque seja uma ilusão. Em verdade, o mundo que compartilhamos é uma nuvem mantida impessoalmente e que, na maioria das vezes, é deixada de ser interpretada pela maioria de nós. Mas, ainda somos homens de bem. Tudo retorna ao seu lugar).

Van Gogh - Jardim de Inverno (desenho a lápis e pena, 1884).

Astolfo não iria embarcar em quaisquer daqueles ônibus, nem em qualquer outro veículo. Voltaria pra casa do mesmo modo em que chegou naquele local, levado pelos próprios pés. “Os caminhos são mais importantes do que nossa vontade” – dizia. Estava de chinelos, bermuda e camiseta. Usava também um chapéu – a contragosto, vale dizer, mas, na guerra contra o calor, usa-se as armas disponíveis. Havia atravessado parte da cidade, nessa sua caminhada. Ele andava rápido e olhava pra frente, como se precisasse vencer um inimigo. Passava quadras a fio, contava os próprios passos, e se confundia entre ações e pensamentos. Apenas algo de fixo em seus pensamentos: livrar-se do veneno.

Essa visceral e destrutiva sensação de que as possibilidades não vividas podem estar sendo vividas por outras pessoas. Essa estranha sensação de que outras pessoas podem viver na sombra de nossas vidas, com as pessoas que deixamos em algum ponto no passado. Nesse rastro que deixamos pra trás e que, em algum momento passado, por algum motivo, deixamos de encarar. Além disso, não apenas o abismo de não poder se projetar para o passado, e a consequente agonia disso, mas, a sensação de ser corroído por querer o que não pode ser (no sentido forte da palavra). Em estalos de razão, em meio à quase insanidade, pensava – a paixão pelo ressentimento: o fundamento da civilização –.

Não há muitos meios para se livrar disso. Contudo, pensava, um deles certamente é a exaustão de si mesmo. Destruir tudo, até que o sentimento cujo ressentimento é devedor seja aniquilado. E assim fazia. Caminhava, quando tinha pernas. Trepava, quando tinha companheira. Corria, quando tinha fôlego. Bebia, quando tinha dinheiro. Morria, quando existia demais. Nesse dia, apenas caminhava.

Astolfo, o gladiador. É preciso sofrer pela verdade, disseram os vários poetas, filósofos, religiosos e toda uma corja de pensadores. Há de se notar, caros leitores, por conseguinte, que a vida para muitas pessoas é sofrimento, mas, também, e por isso mesmo, é a verdade. “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”, dizia aquele poeta que dizia ser nada. Apenas acho que ele ignorou que o peso da pena é demasiado, algumas vezes.

Paremos com a enrolação. Isso já é metafísica. Mas, falando em metafísica, qual seria metafísica que assolava o nosso desiquilibrado herói? Se me permitem prosseguir o relato – se não me permitem, apenas parem a leitura –, em breve chegaremos a algum lugar.

Caminhava reticente, ainda que implacável. O inimigo era forte, um monstro, vale dizer. Era preciso criar condições adequadas para fazer com que esse mal aparecesse. Astolfo não era exatamente um atleta, de modo que não era preciso caminhar distâncias imensas pra fazer o corpo falar. Ao final de alguma distância, mais especificamente quando chegou à rodoviária, sentiu que com o suor havia saído um pouco de sua irritação e, assim, pode confrontar melhor a metafísica. Mas, não é uma batalha intelectual, apenas. Esta sombra que domina a civilização desde seu início é o que nos torna humanos. Mas, mais do que essa própria sombra constituir-se como uma das características fundamentais de nossa condição humana, o embate contra ela própria é o que o põe o ser humano à prova.

Claro que ele sentia-se assim, afinal é algo que todas as pessoas podem sentir, basta um pouco de tórrida solidão. Mas, não se enganem. Não se trata de vencer a moral de escravo, do chamado ressentimento nietzschiano. Claro, trata-se, em parte, de ter força suficiente para sustentar os próprios valores. Contudo, para nosso herói a situação não era exatamente como julgava o filósofo alemão, como veremos.

Sentou-se em uma mureta de meia altura, que em parte era abraçada pela sombra das árvores e, em parte, pelo concreto. Pediu um cigarro a alguém que passava. Fumou o cigarro. Após isso, compreendeu ser o momento de enfrentar seu inimigo. Enfrentar a si mesmo. Começava, assim, o diálogo interno:

– Ressentimento… você de volta a assombrar meus dias!?

– Não, caro Astolfo. Você é quem assombra os meus. Deixe-me continuar com a banalidade enfática e nutrir-me de seus sentimentos de desacontecimentos, que eu continuarei a lhe proporcionar a conexão com o resto do mundo.

– Mas, do que se trata, afinal? Já te venci outras vezes, te exauri como esse suor que me nubla o rosto… Por que esse abismo que nunca cessa? – replicou Astolfo.

– Esse abismo é você, Astolfo. É você e todos. Agora, quem lhe pergunta sou eu, vale a pena sofrer assim pela verdade? – perguntou o ressentimento.

– Não confunda as coisas. Já não é a primeira vez que nos enfrentamos, meu amigo. Sei que não basta fazer uma distinção conceitual para me livrar de ti. E que, enquanto eu existir, existirá o abismo e, por todo o lado, estará você.

– Vejo que você aprendeu algumas lições, nobre gladiador. Os lugares estão nas suas coisas. Mas, você não me respondeu. Vale a pena sofrer pela verdade? Por que não és hipócrita como toda a gente deste mundo?

Astolfo, que falava arqueado e ofegante, ao ouvir isso gargalhou sozinho. – Você era melhor, ressentimento. Ao menos mais esperto. Eu sei o que é ser hipócrita, porque, assim como de você, a hipocrisia é outra das incríveis qualidades humanas que é impossível de se purgar. Aliás, me ocorreu agora, a hipocrisia não teria sido originada quando você, ressentimento, foi olhado por alguém no espelho do mundo pela primeira vez? Enfim… não se trata apenas de verdade. Não quero saber da verdade. E se fosse o caso de sofrer pela verdade, eu não precisaria saber antes dessa verdade, para depois sofrer? – falava rindo.

– Tens razão, gladiador. A hipocrisia é uma de minhas consequências mais adoráveis. A mentira e a verdade, duas das ilusões ocidentais que mais me excita. Toda essa quase infinita fonte de tortura a minha inteira disposição. Você sabe disso. A questão é, que diferença isso faz? Você é só mais um insano solitário. Pensa que poderia fazer uma revolução em favor dos oprimidos pelo ressentimento? Você crê demais na humanidade, meu jovem. – Arfava com tirania o Ressentimento.

– Sei que não é possível me livrar permanentemente de você. Até porque você é parte de mim, de tudo que sou e de tudo que sinto. Uma parte terrível, é verdade, mas ainda assim é parte de mim. Te exasperei várias vezes, e farei quantas for preciso. Meu desprezo aos ressentidos – tanto os que acham que não são ressentidos quanto os que pensam ser e, assim, sentem-se justificados em agir como cretinos românticos – é maior do que o que eu tenho por você. Jamais me tornarei um desses idiotas, na defesa hipócrita de qualquer ideia apenas para fugir de si mesmo, do próprio abismo… é tudo tirania. – Nesse momento, Astolfo gritava mentalmente e gesticulava como um louco, mas de um modo muito caricato. – E mais, não sofro pela verdade, nobre ressentimento. Causam-me úlcera a estupidez e a incoerência de cada sujeito existente nessa merda de mundo. Bando de cretinos que defendem o amor, como se isso pudesse nos salvar da danação de existir! – Gritava em cólera, o gladiador; estava de pé e gesticulava sozinho. Após isso, ficou em silêncio em torno de um minuto, respirando fundo e tentando e acalmar. Continuou, agora pensando mais baixo. – Claro, de fato o amor pode nos salvar da danação, para quem com isso é verdadeiramente agraciado. Mas, isso ocorre mesmo? É um tiro no escuro, meu amigo… Ódio é o que sinto por tudo isso, mas, também, odeio o fato sentir ódio. Tudo se anula. E sinto que só não o abracei ainda porque mantenho em mim um amor misterioso, que não consigo justificar e tampouco me desfazer. Não gosto disso, não gosto de esperança… isso só causa-me dor e tédio, como já dizia aquele alemão – Astolfo se referia ao filósofo alemão Arthur Schopenhauer -. Só consigo pensar que o caminho para o nada é a exasperação de toda posição. Nada vence o nada, meu amigo. Agora me deixe um pouco em paz, que já estou muito cansado. – Completava Astolfo, completamente exausto, estirado em um banco.

Libélula gigante - fóssil

Para não perder o hábito, Astolfo rascunhou esse diálogo em algumas linhas. Fez também para lembrar-se de como se enfrenta esse inimigo impiedoso. Não é sempre que se ganha. Ou melhor, não é sempre que se perde. Ficou mais uma hora naquele local, parado e em estado de êxtase, observando as libélulas formarem aquela imagem surreal, que mais parecia um portal para algum mundo diferente. Um mundo de fantasia, que somente os seres humanos conseguem visualizar. Não por alguma elevação espiritual, mas sim porque somente os seres humanos são cindidos. No fim das contas, apenas permanecem as ideias e as libélulas.

André Luiz Ramalho da Silveira

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Astolfo e a diligência

Astolfo e a diligência

“Diligência, meu amigo… diligência é o que precisamos. A sanidade é traiçoeira. Essa é a sabedoria que aprendemos com os velhos, com as crianças, com os bêbados e com os filósofos. Eu, quando são, sou no máximo um velho… mas quando bêbado, me aproximo dos filósofos… não, longe de mim querer ser filósofo… mas, só é possível transcender quando se mata a objetividade… a poesia, o dionisíaco… Aliás, a sabedoria que me refiro é a diligência, não a sanidade. Esta, só com alguma dose de covardia e… outra dose de coragem, pra querer que ela seja um remédio pra falta de sentido do mundo. No mais, diligência pro fígado não matar a memória! Um homem sem memória, meu amigo… um homem sem memória não passa de um elefante sem tromba… e sem memória!”

Dizia um velho bêbado e, talvez, filósofo, na entrada de um bar. Dizia sozinho e repetia essas frases, à espreita de alguém que lhe desse ouvidos. Astolfo, ansioso como sempre, debatia consigo mesmo questões que dizem respeito somente a si mesmo. Questões que talvez nem mesmo existissem. Talvez tenha sido essa a sincronia entre os dois, que simultaneamente miraram-se, como dois espelhos convexos que refletem apenas o exterior. Ensimesmados, viram-se um no outro. Enquanto pouco a pouco o fogo percorria o cigarro amassado, pausadamente o velho ia lhe dissertando, ainda que nesta altura já não houvesse mais cigarro e, talvez, nem mesmo ar para tragá-lo. Astolfo ficou levemente surpreso com as palavras do velho, por também estar com semelhantes pensamentos no momento. De todo modo, preferiu honrar seu espírito não aventureiro e agradeceu ao velho pelas palavras, deu-lhe um cigarro e seguiu o caminho para sua fortaleza. Não sabia se era a melhor escolha, mas há tempos que a racionalidade lhe superava a vontade.

Poderia arrepender-se depois, como sempre fazia, mas era melhor não correr o risco de decepcionar-se. Além disso, também não queria correr o risco de estar em algum lugar que o fizesse sentir-se coagido. No caso de Astolfo, sentir-se coagido era rotina, o que alternava era a intensidade com a qual essa sensação lhe acometia. Havia já algum tempo que lhe vinha à cabeça um pensamento anuviado, desses que rodeiam da nuca à testa, mas que raramente encontram-se na altura do olho. Como aqueles pensamentos em que diante de uma interrogação abrupta, porém passageira, se franze o cenho desapercebidamente. O tal pensamento era de se ele possuía algum tipo de fobia social, algo patológico mesmo. Claro, talvez a maioria das pessoas já tenha pensado algo assim. Mas saber tal de constatação não lhe desanuviava. Indo aos idos, isto é, aos fatos, antes que a nós nos venham eles, o embrutecido Astolfo andava se esgueirando pelas ruas, e sempre a pensar que qualquer outro ser humano pudesse lhe ser uma ameaça em potencial. Quem o encontra pelas ruas talvez não saiba do que aqui escrevo. Mas, é preciso querer olhar para além dos fatos, obviamente. De todo modo, o caso é que Astolfo permanentemente andava em clima de guerra consigo mesmo, não obstante conseguia disfarçar muito bem. Talvez se comportava assim como estratégia de combate, isto é, imaginem se alguém o compreendesse de verdade!? Acho que seria o fim do guerreiro transcendental.

Presumo que ele pensava algo parecido, mas, ainda assim, quem conseguiria manter a sanidade sem cair nas desgraças da relação interpessoal!? Depois da conversa com o velho, ou do monólogo refletido, Astolfo foi para onde estava indo. Foi para sua casa e depois a um encontro amoroso, ou ao menos essa era sua esperança. Conheceu Galiarda – uma judia francesa de sobrenome húngaro (por isso impronunciável aqui) -, após encontra-la algumas vezes num mesmo local (às vezes num bar, outras vezes num café). Galiarda é uma escritora amadora e libertária profissional. Na faixa dos trinta anos, mulher de olhos negros, cabelos castanhos escuros longos, com um aspecto renascentista em suas curvas generosas. Dotada de um corpo bem agraciado pela natureza, podemos dizer. Além disso, havia um ar de intelectual decadente do leste europeu em sua face caucasiana. Por isso mesmo, tinha um charme bem impressionante, ainda que peculiar. Isso já era o suficiente para nosso querido matreiro.

Não sei se ela percebeu esses detalhes no estranho rapaz, mas certamente ela se encantou com sua sutil peculiaridade – sutil, pois, por mais que não pareça, Astolfo sabia se portar como toda gente reprimida e civilizada. Conheceu-a num desses momentos introspectivos, em que ele olhava ao redor do seu copo de cerveja suado pelo calor e via ideias e não pessoas. Claro, isso é uma interpretação que fazia de si mesmo num exercício de lembrar o que pensava em determinado momento. Aliás, tentar rememorar ideias e não fatos era um exercício que fazia com frequência. Apesar da peculiaridade, Astolfo reprimia bem seu ímpeto antissocial. Até porque, ao ir a um bar – ou happy hour, como dizem as pessoas que dizem beber, mas que não bebem -, sabia que de algum modo esperava encontrar alguma companhia. Aliás, é presumível que todas as pessoas que saem esperam encontrar alguma companhia, ainda que isso ocorra em diferentes intensidades. Seguindo a narrativa, num desses dias em que Astolfo estava um pouco mais aéreo do que o comum, Galiarda estava no local e o observou atentamente. Nesse primeiro encontro, ela vestia uma longa saia preta e uma blusa azul marinho em que realçava seus fartos seios, com o cabelo levemente preso e uma franja propositadamente bagunçada. Obviamente, ele a achou deveras interessante, porém, pensava ele, se ele mal era capaz de honrar um encontro previamente combinado, quem dera fosse capaz do feito homérico que é a tal chamada conquista. Na maioria das vezes não tinha a menor disposição para existir, quanto mais para fazer algo. Das forças que Astolfo era devoto, certamente a inércia e a gravidade faziam parte. O fato é que depois de algumas cervejas, os dois foram um ao outro e conversaram. Ela logo estava de saída, então combinaram algo para a próxima semana.

O dia em questão é esse em que ele falou com o velho e seguia ao tal encontro. Após sobreviver a si mesmo – e às suas ideias, advindas de um universo kafkaniano -, Astolfo, o inabalável, chegou ao tal lugar e lá estava Galiarda a lhe esperar. Depois de certo tempo de conversas aleatórias, entraram em alguma conversa muito chata sobre questões teóricas que, possivelmente, nenhum dos dois estava de pleno acordo sobre a veracidade do que diziam. Mas, talvez por força de uma lógica interna à própria conversação, nenhum dos dois poderia recuar. Ainda que a vontade de Astolfo fosse a de abocanhar os seios de Galiarda ali mesmo e, por isso mesmo, mal conseguia pensar. E ainda que a vontade de Galiarda fosse a mesma dele e, por isso mesmo, também mal conseguia pensar, era preciso continuar a disputa. Aliás, uma disputa em que tanto o vencedor quanto o perdedor seriam agraciados do mesmo modo, isto é, com o sexo – e talvez, meus caros leitores, essa seja a máxima expressão que a justiça distributiva pode angariar.

385px-Bouguereau,_William_-_Femme_au_Coquillage_-1885 (A mulher com a concha)

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Ele nunca conseguia prever o que poderia acontecer, como fazem os homens de ação. Então, na hipótese de nada fazer, escolhia sempre se animar pela embriaguez. Ela também fazia o mesmo, ainda que talvez não pelo mesmo motivo. Por conseguinte, não foi necessário muito empenho para não se auto-sabotar, pois Galiarda, com muita galhardia, também não quis perder muito tempo e, antes de qualquer sabotagem de ambos os lados, disse que poderiam estar trepando ao invés de falar sobre as falhas de caráter do ser humano. Bom, foi o que fizeram e tornaram a fazer algumas vezes mais no último mês. Talvez só cessassem de se ver quando o tesão acabasse. A partir disso poderiam se tornar amigos. Astolfo era bom nisso, pois era muito diligente. Mas tão diligente, que se perdia na diligência. Era um cristão. Pobre Astolfo.

Como seres livres, ao longo de um certo tempo ambos se afastaram livremente um do outro, ainda que mantivessem algum contato, na situação de conhecidos. Ele voltou para o universal. Na verdade apenas saía de lá de vez em quando. Galiarda tinha uma manha mais dinâmica com o mundo, conseguia conciliar sua vida de escritora amadora com sua gana libertária. Para Astolfo, o difícil da separação – se é que podemos nos referir a isso nesses termos – foi ver Galiarda com um novo parceiro. Não pelo fato de ela estar com outra pessoa, isso nem lhe incomodaria tanto, mas sim o fato de o novo companheiro de Galiarda ser um músico errante e morador de rua. Talvez ela tenha feito isso para romper com valores burgueses pré-estabelecidos, ou tenha mesmo gostado dele. No fim, parece que se gostaram mesmo. Ela era libertária, isso não lhe era um problema. O que era um problema para Astolfo era não saber exatamente porque esse novo amante peculiar de Galiarda tinha que vir logo após o quase romance com Astolfo.

Após ruminar algumas vezes sobre o assunto, Astolfo, por certa generosidade, conseguiu compreender que Galiarda realmente estava amando seu novo companheiro. E, com essa constatação, o que mais lhe doía era o fato de saber como o amor lhe era incompreensível. Não apenas incompreensível, mas ele realmente achava que, por ser irracional, não poderia não apenas ser algo razoavelmente bom, como não deveria nem mesmo ser possível. Astolfo, como um poço de ressentimento e egoísmo, apesar de não aceitar que o mundo fosse assim, conseguia ao menos compreender que o amor move as pessoas. E Galiarda, longe de ser insensata, não via o menor problema em seus atos. Aliás, se ela soubesse o que Astolfo pensava, talvez não tivesse se relacionado com ele. Mas isso é outra história.

Passados uns três meses desde que vira pela última vez o velho bêbado e o casal em questão, Astolfo pensou que era hora de dar uma resposta à altura. Rascunhou diversas vezes num pedaço de papel qualquer – na maioria das vezes um extrato de banco quase apagado – uma resposta para aquilo que tanto lhe indagava. Até que, finalmente, depois de alguma boa procura pela cidade, encontrou o tal velho e leu-lhe a resposta que sentiu ficar devendo naquela vez. A tal resposta foi mais ou menos assim:

“Às vezes, desconfio do acaso. Pergunto-me, sinceramente, qual o estatuto ontológico do acontecer. Pode parecer pedantismo, mas é muito incrível como algumas situações nos marcam tão fortemente em determinado contexto, que se elas ocorrem em outros momentos de nossa existência talvez mesmo fossem despercebidas. O acaso seria assim tão acaso, que simplesmente surge como um evento da natureza rompendo nossos projetos cotidianos? Ou, seria mais uma sombra sempre presente nesses nossos projetos, de tal modo que surjam justamente quando os compreendemos? Enfim… o que lhe faz envelhecer e saudar a memória, se se consegue compreender o quanto a razão é má para o peito, para o espírito? Se a diligência está para além disso, não deveria estar também para além do dionisíaco, velhote?”

André Luiz Ramalho da Silveira

Rilke, Cartas a um jovem poeta (oitava carta)

O livro ‘Cartas a um jovem poeta’ é constituído por 10 cartas trocadas entre o jovem poeta Franz Kappus e Rainer Maria Rilke.
Rilke certamente foi um dos maiores poetas dos últimos séculos.
Sem mais delongas, segue abaixo a transcrição da 8° carta.

Borgeby Gard, Flàdie, Suécia,
12 de agosto de 1904

Quero conversar de novo com o senhor por um momento, meu caro Kappus, embora não possa dizer quase nada que o ajude, quase nada de útil. O senhor teve muitas e grandes tristezas que passaram. E diz que mesmo esta passagem foi difícil e perturbadora. Mas, por favor, avalie se essas grandes tristezas não atravessaram o seu íntimo, se muita coisa no senhor não se transformou, se algum lugar, algum ponto do seu ser não se modificou enquanto o senhor estava triste. Só são ruins e perigosas as tristezas que carregamos em meio às pessoas para dominá-las; como doenças que são tratadas de modo superficial e leviano, elas apenas recuam e, após uma pequena pausa, irrompem ainda mais terríveis. Essas tristezas se
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acumulam no íntimo e constituem a vida, constituem uma vida não vivida, desdenhada, perdida, de que se pode morrer. Se nos fosse possível ver além do alcance do nosso saber, e ainda um pouco além da obra preparatória do nosso pressentimento, talvez suportássemos as nossas tristezas com mais confiança do que nossas alegrias. Pois elas são os instantes em que algo de novo penetrou em nós, algo desconhecido; nossos sentimentos se calam em um acanhamento tímido, tudo em nós recua, surge uma quietude, e o novo, que ninguém conhece, é encontrado bem ali no meio, em silêncio.
Acredito que quase todas as nossas tristezas são momentos de tensão, que sentimos como uma paralisia porque não ouvimos ecoar a vida dos nossos sentimentos que se tornaram estranhos para nós. Isso porque estamos sozinhos com o estranho que entrou em nossa casa, porque tudo o que era confiável e habitual nos foi retirado por um instante, porque estamos no meio de uma transição, em um ponto no qual não podemos permanecer. É por isso que a tristeza também passa: o novo em nós, o acréscimo, entrou em nosso coração, alcançou seu recanto mais íntimo e mesmo ali ele já não está mais – está no sangue. E não

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percebemos o que houve. Seria fácil nos fazer acreditar que nada aconteceu, no entanto nos transformamos, como uma casa se transforma quando chega um hóspede. Não somos capazes de dizer quem chegou, talvez nunca cheguemos a saber, mas vários sinais indicam que o futuro entra em nós dessa maneira, para se transformar em nós muito antes de acontecer. Por isso é tão importante estar sozinho e atento quando se está triste: porque o instante aparentemente parado, sem nenhum acontecimento, no qual o nosso futuro entra em nós, está bem mais próximo da vida do que aquele outro ponto, ruidoso e acidental, em que ele acontece como que vindo de fora. Quanto mais tranqüilos, pacientes e receptivos formos quando estamos tristes, tanto mais profundo e mais firme o modo como o novo entra em nós, tanto mais fazemos por merecê-lo, tanto mais ele se torna o nosso destino. Assim, quando em um dia distante o novo “acontecer” (ou seja: sair de nós e aparecer para os outros),estaremos intimamente familiarizados com ele e nos sentiremos próximos. É necessário que isso ocorra. É necessário – e dessa maneira se dá aos poucos a nossa evolução – que não experimentemos nada de estranho, mas apenas aquilo que nos pertence

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há muito tempo. Já foi preciso modificar tantos conceitos relativos ao movimento, e também se aprenderá gradativamente que vem de dentro dos homens aquilo a que damos o nome de destino, não se trata de algo que entra neles partindo de fora. Muitos destinos não foram absorvidos pelos homens, não foram transformados enquanto viviam neles, só por isso eles não foram identificados como algo que era proveniente dos próprios homens. O acontecimento aparecia como algo tão estranho, que eles, em seu espanto confuso, julgavam que ele tinha surgido neles exatamente naquele instante, pois juravam nunca ter encontrado nada semelhante em si mesmos. Assim como, por muito tempo, os homens se enganaram a respeito do movimento do sol, eles ainda se enganam quanto ao movimento do porvir. O futuro permanece firme, caro senhor Kappus, mas nós nos movemos no espaço infinito.
Como isso não seria difícil para nós?
Voltando ao assunto da solidão, fica cada vez mais claro que no fundo ela não é nada que se possa escolher ou abandonar. Somos solitários. É possível iludir-se a esse respeito e agir como se não fôssemos. É tudo. Muito melhor, porém, é perceber que somos solitários, e partir exatamente

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daí. Com certeza acontecerá de sentirmos vertigens, pois todos os pontos em que nossos olhos costumavam descansar nos são tirados, não há mais nada próximo, e toda distância é uma distância infinita. Quem fosse retirado de seu quarto, quase sem preparação ou transição, e posto nas alturas de uma grande montanha, necessariamente sentiria algo semelhante: uma insegurança sem igual, um abandono ao inominável quase o aniquilariam. Ele pensaria estar caindo ou sendo arrastado pelos ares ou destroçado em mil pedaços. Seu cérebro precisaria inventar uma mentira enorme para captar e esclarecer a situação de seus sentidos. É assim que se modificam, para quem se torna solitário, todas as distâncias, todas as medidas; dessas modificações, há muitas que ocorrem repentinamente. Como para aquele homem no pico da montanha, surgem então imaginações inabituais e sensações estranhas, que parecem ultrapassar a medida do que se pode suportar. No entanto é necessário que vivamos também isso. Precisamos aceitar a nossa existência em todo o seu alcance; tudo, mesmo o inaudito, tem de ser possível nela. No fundo é esta a única coragem que se exige de nós: sermos corajosos diante do que é mais estranho, mais maravilhoso e mais

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inexplicável entre tudo com que nos deparamos. O fato de os homens terem sido covardes nesse sentido causou danos infinitos à vida; as experiências que são chamadas de “fenômenos”, todo o suposto “mundo dos espíritos”, a morte, todas essas coisas tão familiares para nós foram tão excluídas da vida, por meio de uma atitude cotidiana defensiva, que os sentidos com os quais poderíamos apreendê-las se atrofiaram. Sem falar em Deus. Mas o medo do inexplicável não empobreceu apenas a existência individual, também as relações entre as pessoas foram limitadas por ele, como que transferidas do leito de um rio de infinitas possibilidades para um local ermo da margem, onde nada acontece. Pois não é apenas a indolência que faz as relações humanas se repetirem de modo tão monótono e sem renovação de caso a caso, é a timidez diante de qualquer experiência nova, imprevista, para a qual não nos consideramos amadurecidos. Mas apenas quem está pronto para tudo, quem não exclui nada, nem mesmo o mais enigmático, viverá a relação com uma outra pessoa como algo vivo e irá até o fundo de sua própria existência. Pois, se pensamos a existência do indivíduo como um cômodo de dimensões maiores ou menores, revela-se que a maioria de

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nós só chega a conhecer um canto de seu quarto, um local perto da janela, uma faixa na qual se anda para lá e para cá. Contudo, é muito mais humana do que essa segurança aquela incerteza, cheia de perigos, que leva os prisioneiros dos contos de Poe a tatearem as formas de seus cárceres aterrorizantes e a não serem alheios aos horrores indizíveis de sua permanência ali. E no entanto nós não somos prisioneiros. Não há armadilhas e emboscadas armadas em torno de nós, nada que nos devesse angustiar ou perturbar. Estamos lançados na vida como no elemento ao qual correspondemos melhor, além disso nos tornamos, por meio de uma adaptação de milhares de anos, tão semelhantes a essa vida que, por um mimetismo afortunado, se nos mantivermos quietos, quase não nos diferenciaremos daquilo que nos cerca. Não temos motivo algum para desconfiar de nosso mundo, pois ele não está contra nós. Caso possua terrores, são nossos terrores; caso surjam abismos, esses abismos pertencem a nós; caso existam perigos, então precisamos aprender a amá-los. Se orientarmos a nossa vida segundo aquele princípio que nos aconselha a nos aferrarmos sempre ao que é difícil, o que agora nos parece ser muito estranho se tornará o que há de mais familiar e

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confiável. Como poderíamos esquecer aqueles antigos mitos que se encontram nos primórdios de todos os povos, os mitos sobre os dragões que, no último momento, transformam-se em princesas; talvez todos os dragões de nossa vida sejam princesas, que só esperam nos ver um dia belos e corajosos. Talvez todo terror não passe, em última instância, do desamparo que requer nossa ajuda.

Assim, não é preciso se assustar, meu caro Kappus, quando uma tristeza se ergue à sua frente, tão grande como o senhor nunca viu; quando uma inquietação passa por sobre as suas mãos e perpassa todas as suas ações, como a luz e as sombras das nuvens. É preciso pensar que acontece algo com o senhor, que a vida não o esqueceu, que ela segura sua mão e não o deixará cair. Por que o senhor pretende excluir de sua vida qualquer inquietude, qualquer dor, qualquer melancolia, sem saber o que essas circunstâncias realizam? Por que perseguir a si mesmo com estas perguntas: de onde pode vir tudo isso e para onde vai? No entanto, o senhor sabe que está em meio a transições e não desejaria nada mais do que se transformar.
Se algum dos seus procedimentos for doentio, considere que a doença é um meio com o qual o organismo se liberta de corpos estranhos;

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por isso é apenas preciso ajudá-lo a estar doente, a assumir e ter sua doença por completo, pois é esse o seu curso natural. Agora acontece tanta coisa em seu íntimo, meu caro Kappus. É preciso ter paciência como um doente e ter confiança como um convalescente, pois talvez o senhor seja ambas as coisas. Mais ainda: o senhor também é o médico que tem de tratar de si mesmo. Mas em toda doença há muitos dias em que o médico não pode fazer nada além de esperar. E é isso, mais do que qualquer outra coisa, que o senhor, por ser seu próprio médico, precisa fazer agora.
Não se observe demais. Não tire conclusões demasiado apressadas daquilo que lhe acontece; deixe simplesmente as coisas acontecerem. Senão facilmente chegará a considerar com censuras (morais) o seu passado, que naturalmente tem participação em tudo aquilo com que o senhor se depara agora. Mas, dos erros, desejos e nostalgias de seu tempo de menino, o que atua agora em sua pessoa não é o que o senhor tem na memória e reprova. As relações extraordinárias de uma infância solitária e desamparada são tão difíceis, tão complicadas, submetidas a tantas influências, e ao mesmo tempo tão desligadas de todas as circunstâncias reais da vida, que quando surge um

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vício não se deve dar a ele sem mais o nome de vício. Em geral, é preciso ter muito cuidado com os nomes; muitas vezes é o nome de um crime que destrói uma vida, e não a própria ação, pessoal e inominada, que talvez fosse uma necessidade muito determinada dessa vida e pudesse ser acolhida sem esforço por ela. O dispêndio de energia só lhe parece tão grande porque senhor superestima a vitória; não é ela a “grandiosa” realização que o senhor pretende ter conseguido, embora tenha razão com relação a seu modo de sentir; o grandioso é o fato de haver algo ali que o senhor pôde colocar no lugar daquele engano, algo de verdadeiro e real. Sem isso, mesmo a sua vitória teria sido apenas uma reação moral, sem um significado amplo, mas dessa maneira ela se tornou uma parcela da sua vida. Da sua vida, caro senhor Kappus, na qual penso fazendo tantos votos. Lembra-se de como essa vida aspirava desde a infância pelos “grandes”? Vejo como ela agora parte dos grandes para aspirar pelos maiores. É por isso que ela nunca deixa de ser difícil, mas também é por isso que nunca deixará de crescer.
Se ainda posso acrescentar algo, é o seguinte: não acredite que quem procura consolá-lo vive sem esforço, em meio às palavras simples e tran-

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qüilas que às vezes lhe fazem bem. A vida dele tem muita labuta e muita tristeza e permanece muito atrás dessas coisas. Se fosse de outra maneira, nunca teria encontrado aquelas palavras.

Seu,
Rainer Maria Rilke

RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta. Trad.: Pedro Süssekind. Porto Alegre: L&PM Pocket Plus, 2006, p. 72-82.

Astolfo e o espelho

Astolfo e o espelho

Caminho pelas ruas como se não caminhasse. Imagino roteiros não feitos, mas instantes depois lembro ter feito todos os caminhos possíveis. Reflito minha vida e faço narrativas para aplacar o tédio. Em certos momentos, penso minha própria existência como se eu não mais existisse, na ilusão de abarcar a totalidade do meu tempo de vida e dar um sentido não niilista pra isso. Contradição, sim. Mas, quem se importa. Fato é que diversas vezes me pego pensando na posteridade, uma espécie de fé no futuro, num futuro em que eu já não estaria, mas que simbolicamente deixaria algo para a nobre humanidade. Isso tudo é tão instantâneo que, em outras tantas vezes, esse lapso de imaginação se interrompe pelo café que quase derrubo.
Existo como vírgulas nesse ato descontínuo de sobreviver. Assim mesmo, em verbo, não acredito muito nos substantivos.
É insuportável a existência. Mas, quando eu me vejo escrevendo essa frase, dou risada. Nem pessimista, nem niilista, nem qualquer ‘ista’ consigo ser com êxito. Aliás, se “ser” dependesse de algum esforço, já não seria nada. Mas também “ser nada” depende de esforços. Já me é demais justificar toda e qualquer ação. Não que eu faça ações, mas essa resistência a qualquer substância que chamam de realidade. É tanto valor dado a essa esquizofrenia mimética, que por vezes até eu mesmo caio no esquecimento de que fatos não são nada.
Mas, para não desviar do assunto – muito interessante, como podemos notar – dizia eu que o existir é um fado. É preciso muito amor para não se matar. Mas isso são apenas palavras sem significado expressivo. Parece engraçado, e é engraçado, e patético. A condição humana é isso. Uma tragédia, que só quem a compreende em seu sentido mais originário, necessite rir. Porque quem a compreende em seu sentido originário e não consegue rir, é porque não existe mais. Não é compreender a existência como um substantivo, categorizar e elaborar conclusões fechadas sobre o mistério da vida. Mas, é existir como incógnita sem fundamento e, muitas vezes, sem sentido. Sem essa percepção trágica da existência, da miséria existencial que todos somos, é mesmo impossível de se reconhecer o próximo como alguém.
E há quem fale de amor livre. Há quem fale das mazelas da vida e, por necessidade de justificar a própria hipocrisia, não consegue sobreviver sem gorfar salvacionismos. É um grande excesso de carência se deixar levar pelo autoengano. Mas é ignóbil não admitir isso pra si mesmo. Eu mesmo vivo admitindo minhas hipocrisias pra todo mundo. Até elas perderem o sentido. Afinal, não quero ninguém me condenando por ser o único autêntico entre as mulheres. Mas também não tenho tanta paciência assim, comigo. Sou é covarde, mas isso já é outra coisa. Pelo menos o amargo dessas décadas me vacinou contra idiotas. É o que digo na frente do espelho.

André Luiz Ramalho da Silveira

Multidão é a solidão do egoísmo

Multidão é a solidão do egoísmo

Apenas não parece fazer diferença.
Do mundo, não herdei crença nem dispensa.
Amor mundi jaz como fato nessa desgraça.
Não sou nada do que você pensa.

E confusos seguimos por espaços
Arquivados. Um vazio guardado
Para ser saboreado
Como ilusões adornadas em laços.

Eu que já de mim nunca soube,
Ando sem acasos para evitar
Escusos egoísmos d’um sopro vulgar.

As ruas clamam por uma verdade
Mas só exprimem
A solidão, que me acolhe com serenidade.

André Luiz Ramalho da Silveira

Amor e Tremor

Amor e Tremor

Dar-lhe-ia qualquer estrela que, pela mão, condenam-me à sua orientação,
Na pesca oferecer-lhe-ia as águas ainda não tragadas de minha nutrição,
Nos sonhos, conceder-lhe-ia o voo para além da negação.
Mas tudo que posso é compartilhar a sabedoria do abismo de minha desorientação.

Entre tantas mentiras e violações, só resta-me permanecer na inação.
Confundem-te e injuriam-te, julgam-te e moldam-te… nos olhos encerram a adequação.
Não te preocupa, permanecerei calado e velado enquanto o mundo segue mudo na ação.
Se a coragem falta-me para qualquer fazer, ausenta-se ao resto a dignidade em aceitar a própria absorção,

Na herdada tradição, que tanto viola a liberdade como condição.
Só o tempo rompe com a exatidão da calcificação
E dissipa a má-fé de nosso coração… mas isso é pura fantasia plasmada de interjeição.

Às vezes quero me destruir, implodir as possibilidades… mas sigo nessa imolação.
Se a linha do céu eu perdi e uso das sombras pra do meu reflexo esquivar-me, é por consternação.
Sigo sem porque, mas é melhor seguir. Venha incompleta para mim, só assim saberás o que é a perdição.

André Luiz Ramalho da Silveira

Do quase ser ao não ser

Componho-me como coadjuvante no acontecer desse insólito existir.
No esvaecer de mais um acordar, desfaço o acordo com o ser.
Deixo pra lá a vida, sigo e fito a perdição em mais um persistir.
Não há como continuar, mas também não havia como nascer.

Qual individualidade buscaria alguém que não é sujeito nos acontecimentos?
A ausência e a solidão são correlatos fenomenológicos.
Mas o percurso será sempre o mesmo, para quem da vida desfruta os fragmentos.
Sou quase apenas memória, mas já não lembro como sou. Sedutores são os alaridos órficos.

Reconheço-me apenas quando encontro-me no movimento de fuga.
Absorvido e perdido nos testemunhos alheios,
Sigo sob o signo da presciência onírica que a todo particular subjuga.

E quando cinzas minhas partirem, que ao mar o sal as encontre.
Sinto-me inapto a viver na falta de amor desse terno inferno normalizador.
Mas você sabe, sempre soube… talvez ao fim no exterior me enclaustre.

André Luiz Ramalho da Silveira