Alteridade

Primavera lunar

Lembro-me de lições e adequações,
Dessas lições que só o verão pode ensinar ao inverno,
E que só depois da dura solidão do conjunto das estações,
Pode-se saber da liberdade como o manter-se na incompletude de qualquer destino.

Eu preciso de mais, mas nada do que tenho importa.
Despidos de crenças, somos todos iguais, perante a morte.
Então, todo afirmar-se é sobrepor-se à força da alteridade inerte.
A individualidade compartilhada é uma hierarquia de hipocrisias sem volta.

A poesia nos ensina ir ao mar, não a amar.
Depois de ir ao mar, não há como tirar o sal do próprio ar.
Inapto ao ar, ao mar, ao amar.

O mundo torna-se adulto, planos fracionados e redirecionados sob a luz do sol.
Mas ao menos a lua ainda segue seu ciclo, nos permitindo,
Ser um espelho de sua sombra, de sua sobra, de seu amor não correspondido ao sol.

André Luiz Ramalho da Silveira

Anúncios

Soneto para Aarmond – III

Num horizonte estrépito o tédio move o discurso.
Sou patético e vagabundo, deveras desajeitado,
Para a conformidade esclerosada,
Dessa prosa funesta.

O outro é morto.
O outro é quem
Morre, como outro,
Quem é morto.

Corra para longe
E viva sua vida
Sazonal e medíocre.

Agora é hora de procurar abrigo.
Ninguém há de encontrar peixes nesse exíguo
Mundo sem fronteiras. Um paralelo em desuso.

André Luiz Ramalho da Silveira

Nada além, ou quase

De olhos cerrados, a violência frui do solipsismo da nova era de liberdade.
Morte ao lado, vida a cima, um sonho de salvação já sem Deus.
Mais do que escolhas, na ação subjaz a vinculação fugaz, que nos dá identidade.
E o alheamento já bane o instituído deus.

No final, nada nos sobra… a sombra de uma pretensa pureza se dissipa
A cada novo amargo despertar… e os olhos continuam cerrados, oprimidos pelo ar,
A pobreza e vontade de aprisionamento cristalizaram-se já na autonomia da culpa,
Já não me importo mais… continuarei chamando meus muros de lar.

Não há como sustentar-se na liberdade.
Na nostalgia recrio os paralogismos da insanidade.
E para quem goza de felicidade, digo que também eles sofrem do mal da mortalidade.

Apenas problemas têm soluções, essa condição nossa é para além disso.
Se for possível viver livremente como uma concepção, que se viva.
Se já não mudei, é porque não mudarei. A permanência no tempo é só mais uma forma de esquiva.

André Luiz Ramalho da Silveira

Para cada colapso, um mesmo tango

Certos tormentos são como vultos imortais, que sempre nos transpassam,
Mas amiúde nos esquivamos pelo esquecimento que antecipa os temporais.
Essas faces esquivas que nos torna aéreos, essas paixões que movem os ventos,
Esse sentimento do fim que a cada começo surge abarca-nos como espirais.

O coração… o tango… palpita… como o púlpito que antecede a ação.
O que antecede… o absurdo como a condição humana, nada além, nada aquém.
E sobressai-se essa covardia, cujo instante seguinte é a amargura fixada num estado de inação.
Não há ponte entre o espírito e o mundo que afaga o absurdo da falta do sincero amém.

E essa descrição já se esvai perante a força da desconstrução de qualquer…
Não sair do campo do possível é a expressão máxima da consciência: apatia.
E o movimento. E as vidas. E o resto. Para nós, jaz como equivalência qualquer.

Se não fosse o estado de culpa pela condição da cisão, poderíamos ter a felicidade dos autômatos.
Aos homens de ação, para permanecerem na tragédia devem estar na comédia, e vice-versa.
E isso basta, para aqueles que fogem do vazio que é ser um si mesmo desvinculado de determinações e que apenas do mundo se dispersa.

 

André Luiz Ramalho da Silveira

Escopo da abjeção

E o mundo me cala. Não, eu calo o mundo.
Ora, mas faço eu o mundo me calar, como o mais autêntico fracasso que embala
A solidão que nunca é atingida, porque nela apenas se é, um fundo sem fundo.
E as lágrimas apenas saem pela necessidade que é perseguir a contingência que nos entala.

Harmonia é o imaginário eu que melhor advém à liberdade prospectiva…
Chamada sobrevivência. Mas do mundo já me distancio, alheio á tudo que me guia.
Liberdade não vai além da autonomia visceral de se saber como uma farsa paliativa,
Na construção teórica com o único objetivo de lidar com a morte como um negócio que expia.

Já não mais poesia há nessa farsa de ser, nessa lealdade ao jazer em modos.
Secam-se os lagos a cada inspiração desnecessária que à vida fazem.
E não importa o que se faça, nada irá destruir esse muro, tijolos de felicidade, sopros de engodos.

A consciência é essa doença que nos torna humanos,
Excludentes de um Deus, mas condenados a lembrar da ficção de um tempo
Sem liberdade. Não há escolha que sobreviva a angústia dos sem-anos.

O cerrar das sombras – um novo dia

Não sou mais o mesmo; com o cerrar dos olhos já não me vem mais o encerrar do dia.
Não sei se não sou mais o mesmo, mas já não sinto mais a mudança
Através do aspecto substancial de algo que muda, mas apenas como um emudecido mudar que adia
A cada novo dia um novo cerrar de perspectiva; a noite é já sem pujança.

Já me estranha a permanência no tempo, mas sem aquelas dúvidas que levam o homem
À ação, apenas fujo para mim com uma angústia silenciosa e sem propósito.
Sem o ceticismo dos asseclas da liberdade, apenas o alheamento que envolve me vem.
Como algo a ser cuidado, como o mais próximo de mim que consigo, sem qualquer rito.

A ausência torna-nos livres, infelizes e sequazes da falta de solo que é a existência.
Já não participar de nada não me desola, meu orgulho vazio não cairá
Apenas pela decadência do existir, já não sinto a necessidade de expressar a proposição absoluta da imbecil coerência.

E não sei até quando, mas já a mudança não muda as pessoas.
Hipócritas são todos, menos o espelho da noite que reflete o dia torto dos sonhos.
Cerro meus olhos e caio em mais um abismo, ainda escondo-me entre pessoas.

Barítono e bajesto

Calei-me, envolvido no fluxo temporão de uma paranóia redentora.
Calei-me pela amplitude da possibilidade, que sou e que fui.
Calei-me por saber o que serei, calei-me como quem segrega um segredo que rui.
Gritei apenas para mim, num silêncio que me expira a aurora.

E a burrice forma um círculo inescrupuloso com a má vontade,
Perfazendo o aprisionamento da alteridade na realidade, mascarando com rimas
Os espinhos que hoje são julgados como o mal que veda a liberdade.
E toda consideração a outrem é apenas veste de sujas lágrimas.

A noite já não faz aquela conformação de um velho coração com a percepção
Daquele mundo paranóico… apenas protege quem pode iluminar de feiúra as sombras
De si mesmos. Existo como uma erupção, na febre de uma cisão.

E o difícil é aceitar o fato de se ter um rumo, e fazer parte do próprio julgamento.
Existir como um improviso de si próprio já não me cala mais… mas, apenas não falo.
O que antes era medo, agora é um silencioso despeito pelo vazio de qualquer advento.