Abnegação

Amor e Tremor

Amor e Tremor

Dar-lhe-ia qualquer estrela que, pela mão, condenam-me à sua orientação,
Na pesca oferecer-lhe-ia as águas ainda não tragadas de minha nutrição,
Nos sonhos, conceder-lhe-ia o voo para além da negação.
Mas tudo que posso é compartilhar a sabedoria do abismo de minha desorientação.

Entre tantas mentiras e violações, só resta-me permanecer na inação.
Confundem-te e injuriam-te, julgam-te e moldam-te… nos olhos encerram a adequação.
Não te preocupa, permanecerei calado e velado enquanto o mundo segue mudo na ação.
Se a coragem falta-me para qualquer fazer, ausenta-se ao resto a dignidade em aceitar a própria absorção,

Na herdada tradição, que tanto viola a liberdade como condição.
Só o tempo rompe com a exatidão da calcificação
E dissipa a má-fé de nosso coração… mas isso é pura fantasia plasmada de interjeição.

Às vezes quero me destruir, implodir as possibilidades… mas sigo nessa imolação.
Se a linha do céu eu perdi e uso das sombras pra do meu reflexo esquivar-me, é por consternação.
Sigo sem porque, mas é melhor seguir. Venha incompleta para mim, só assim saberás o que é a perdição.

André Luiz Ramalho da Silveira

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O pós-silábico

A poesia esvai-se no delongar dessa perdição incólume.
E o desencanto… essa forma medonha de perceber o mundo,
Como uma ilusão que se trai, mediante esse lume
De verdade… deixa-nos entregues a nós mesmos, num vazio quase imundo.

A apatia é só uma maneira de dizer que não queremos mudar.
No caos, o mais honroso é permanecer com o mesmo ar,
Não infectado pelas inspirações hipócritas de cada expresso assoviar.
Mas, essa abnegação é tão hipócrita quanto o mais torpe espinotear.

Apenas gostaria de fugir sem pensar que fosse fuga.
Quando os que ficam, ficariam de qualquer forma.
A excentricidade é só um espetáculo pertinente à norma.

Ser entregue ao próprio destino, quando se é nada,
É assumir-se como possibilidade, na corda bamba do desatino,
Donde a ficção torna o público e a morte existencial uma aventura pós-silábica, que nos permite aguentar essa realidade já designada.

André Luiz Ramalho da Silveira

Das palavras de salvação.

Do rastro daquelas palavras erguem-se pedestais, como uma morta nebulosa.
Tão frias e sinceras, provando que nada há de errado nesse opróbrio.
Que nunca houve nada de errado, que a corrupção é aquém a qualquer ilusão difusa.
E com o obedecer de qualquer oráculo, quando a salvação vier há de se estar ébrio.

Não quero salvação, ignomínia moralidade de nervos flácidos.
De culpa sinto apenas a minha, não a de um degenerado olimpo.
Assimilado pela bestialidade daqueles desertos floridos.
Mas ainda meu reles misticismo protege-me das religiões e das ciências, num brado ímpio.

Acreditando no que vem de dentro e absorvendo o que está fora,
Como se houvessem tais dimensões,
Somos obrigados a crer… é o que diz quem ora.

Mas não faz qualquer diferença a pergunta por existir ou não…
Quem está absorvido por si próprio não alcança o suicídio pelo desapego.
Materialista do espírito… assim é aquele que, quando existe, ganha já um ‘não’…