Abismo

Da filosofia

Da filosofia

Na boca, o repouso silencioso do gosto de ferrugem,
Daquela falta de álcool, daquele excesso de clareza.
O que seria a liberdade, senão a resposta aos gritos que urgem
De um mundo adoecido pela certeza?

Banida, a filosofia se encontra.
Morar na filosofia é morar no abismo,
Morar na filosofia é perecer no que se mostra,
Morar na filosofia é não morar em si mesmo.

A cada passo, calmo e sereno, o escalador une-se em carne, ato e montanha.
Mas, não, sou de baixo, não subo senão em espírito.
Sou da devastação, do abismo da existência, no máximo cavo, ávido, aflito e estrito.

Não por convicção, mas por constatação.
O campo do ser é o mesmo do nada.
Na boca, ainda o gosto de ferrugem de uma existência em permanente execução.

André Luiz Ramalho da Silveira

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Uma fortaleza, um abismo

Eu quebraria tudo, romperia com o mundo, voltaria para minha fortaleza.
Mas seria apenas mais uma embriaguez…
Permanecer na cisão nem sempre significa ter clareza
Dos pressupostos que nos derrubam mais uma vez…

O sangue ferve e o coração explode toda verve doentia
De quem foi esculpido para observar
O mundo por si mesmo, de si mesmo, numa vida vadia sem serventia.
A solidão não é escolha, sonhar não é amar.

Mas amigo, como julgar o mundo se não por si mesmo?
Como não transpor a negatividade individual para o universal?
Como abdicar do próprio mundo a fim de sobreviver, sem absorver-se no próprio abismo?

Não há pranto que sature a finitude da condição humana.
Não há canto que, em momentos escusos, acalente o lombo fatigado.
Simples e ridículo. Só resta-nos a liberdade, como um consequente imbróglio que a existência afana.

André Luiz Ramalho da Silveira

A sombra dos dias

Se os dias fossem sós, como assim muitos os representam em suas concepções
A quietude estóica seria um fim alcançado por simples sabedoria.
E a mudança não seria ilusão transcendental, mas erupções
Na inércia a que se prostram os infelizes glutões da aporia.

O movimento da mudança obedece a um princípio peculiar,
Pois ele apenas revela o contexto não manifesto de algo para esse algo mesmo,
De modo que o resíduo entre um dia e outro nos eleva à comoção de morar
Em nossos espaços vazios como sendo esses o único traço de constância de nosso esmo.

Se os dias fossem sós eles já seriam como eu, o que me tranqüilizaria
Na medida em que não haveria angústia temporal e o abismo seria teórico.
Mas os dias são juntos e grandes… o que os permite ser eternos em sua letargia.

E as pessoas pensam que mudam para assim satisfazer seus desejos lascivos
Numa ideação puritana. E ainda pensam que mudança é o mesmo que causalidade.
Ninguém muda e a desonestidade consigo mesmo é o trunfo dos esquivos.

No fundo do espelho e além da mancha

No fundo do espelho e além da mancha.

Na paz do mundo, na paz do fundo. No fundo do mundo, no fundo da paz.
No fundo do poço, reinando sobre si mesmo.
Reconhecendo-se no espelho plano como um lixo que em si mesmo jaz.
Respeito metafísico, culpa existencial, distância da vida, viver a esmo.

Construir a própria indiferença, confundir os signos da convenção.
Retalhamento da identidade, escrever o próprio epitáfio e sair por antecipação.
Aguardando o esquecimento do soberano, ser a miséria da própria emoção.
Olhando ao redor, vendo desdobrar-se como um projeto disseminado, em comoção.

Atrás da porta têm sombras, atrás das sombras as sobras.
Eu abro meus olhos e vejo as sobras.
Eu olho as sobras e é só um espelho desvelando-me como as sombras.

E finalmente rebate o sol atrás das cortinas de corpos e concreto,
Com todo o calor humano que todos prezam, em suas ignóbeis essencialidades,
E os reflexos quebram-se como cristais estéticos no fundo do poço, na beleza de um puro sorriso de concreto, concreto.

O reflexo partido do sonho.

Como senhor do próprio caminho, denominado sonho pelo próprio destino,
Criado pelo próprio senhor do espinho, onde cravou as mãos na rosa do desatino,
E descobrira que tudo o que sabia com o vinho, onde o próprio abismo lhe fora desvelado por seu próprio seu tino,
Apenas tornou indiferente a questão pela verdade em seu coração que não passa de um enferrujado sino.

E na absorção do próprio juízo, degustou o próprio deserto conceitual da desvitalização,
Intuindo o mundo em apenas um instante, ferindo-se com seu próprio espinho,
Como um errante de possibilidades, que num talhar descobre-se como a refração,
A própria, amarga e cinzenta refração de seu reflexo partido… espelho feito espinho.

E pensa como seria se fosse mais real que um sonho,
E ainda que a loucura seja tão aquém de si quanto além do próprio saber,
Compreendia o quão turvo era seu cenho,

Mas como somente a liberdade pode ser tão vazia, sentia que um sonho já não era.
Que aquilo que lhe fora num tolher divino tirado, não fora sua identidade, mas sim o próprio sonho.
Que não podia mais sonhar, não podia ver outro que não a si mesmo no espelho quebrado que lhe fora destinado pelo próprio senhor do sonho.

Na incrédula reticência do prometer

No eufemismo dessa existência, gritam superficialidades em sonora cadência.
Como se essa segurança que se diz ter fosse para outrem dar.
Mas esse coração ardendo é só mais uma máscara, áspera inapta a um par.
Mas essa máscara é só a armadura para o apresentar-se com decência.

É só mais um jogo, é só mais um estar sob o jugo, é só mais isso o que sempre é.
Sem novidades e sem novas qualidades, nem mesmo velhas…
É só essa falta de substância, que nos faz rir… e onde tanto se quer que uma mão nos seja estendida.
Só porque no fundo do próprio abismo só se quer aquele sopro de vida, pra voltar ao que é.

Porque na ausência que se é no próprio abismo, só se sai sozinho, quando se sai.
E só a si mesmo se vê a máscara que se é, no apresentar-se do que sempre cai.
Quanto ao resto, só segue como sempre se segue, seduzido pela vertigem que se sobressai.

E nesse eufemismo, a autenticidade está em quebrar promessas, rir da leveza.
Prometer como um esporte… é a ignomínia fraterna condição da realeza.
Mas segurança isso dá a quem esquecer-se precisa da própria pobreza.

Alteridade do mesmo, abismo do outro

É só um esconder-se… o ver-se como póstumo jaz na alteridade.
Não àquela pertinente a outro, mas à própria relutante ao nada intempestivo.
Na promessa de um amor à hipocrisia de uma contingência rogada em personalidade.
O escondido ego deve ser merecido pela persona serene do corrosivo.

Oh impérios de luz, saboreando-se de indignas iluminuras.
Oh impérios populares, feitos de pessoas… asco ímpio é elogio à elegia.
Nesse humanismo prometido onde nem mesmo à terra prometida era posta em tais molduras.
Clamo-me à altura de minha felicidade ao fosso onde achei que regia.

Criaturas ausentes de alteridade me chamam, preciso dormir.
Mas o sono não deixa-me aquiescer à memória na qual o sorrir é propriedade.
A essência é menos mística do que o que se diz ser… pobres de egoidade.

Facínoras desprezíveis em seu atordoamento mnemônico…
Esfolar-lhes-ia como o fazem os homens de ação… mas à esses o mesmo faria.
Harmônico tudo parece ser ao exilado de alteridade, estúpido si renegado em eco…