As mãos dadas II – O adeus de Penélope

Litost

O carro estava indo talvez um pouco rápido demais para que Alex o conduzisse com uma única mão. Mas não queria soltar a mão de Penélope. E se dirigir segurando a mão da moça já não era imprudência suficiente, Alex aproveitava para espiá-la, várias vezes por minuto, enquanto ela se deixava embalar pela velocidade e, em um aparente transe, se deleitava com a vista que se oferecia pela janela aberta do automóvel. Seus cabelos, então mais curtos do que outrora já foram, escapavam mecha por mecha do rabo de cavalo que a moça improvisara. A fumaça do cigarro segurado com a outra mão quase não se deixava entrever, pois mal deixava a ponta do mesmo e se perdia no turbilhão de ar causado no interior do veículo pela velocidade. Alex tinha de se concentrar, pois quanto estava com Penélope parecia contagiado pela mesma maldição que a acometia, a saber, a de…

Ver o post original 2.025 mais palavras

Anúncios

Menos maniqueísmo e mais empatia

Texto excelente de meu amigo Vitor.

Escrevo aqui apenas algumas considerações já mencionadas em comentário a postagem original.

Nesse pequeno texto é levantado um problema extremamente importante, que pode ser visto de vários modos. Eu concordo plenamente com o que tu propõe, e inclusive do jeito que está posto quem não concorda já estaria sendo insensato. Contudo, eu discordo em alguns pontos.

Em primeiro lugar, eu penso que ele não é tão ingênuo assim como transparece no texto. Basta ver as declarações dele sobre ditadura – não apenas a brasileira, segundo a qual ele fala que por ele não ter sentido na pele, não pode opinar sobre -, e vemos que a coisa é um pouco menos nivelada. Outro ponto é que, salvo erro de generalização de minha parte, no futebol isso é praticamente um imperativo: máfia e aniquilação de pensamento. O exemplo usado nesse caso até pode ter sua força demonstrativa, mas penso que essa pessoa em questão apenas faz parte de um ‘grupo’ em que isso é lei.

Outro ponto em que discordo é sobre uma suposta falta de empatia. Eu não discordo que isso seja parte do problema, mas.. penso que esse conceito não serve pra explicar adequadamente a existência desse maniqueísmo na opinião mediana. Eu penso que, junto com a falta da empatia, há uma planificação na própria linguagem, o famoso impessoal imperando. No âmbito político, apelar fortemente pro conceito de empatia traz junto o conceito de consciência ou de sentimento. Não que não haja isso, mas o domínio público e político é formado principalmente por linguagem – mesmo que possamos considerar um âmbito ontológico anterior a isso, como o âmbito existencial da compreensão e do existir um com o outro (ser-com), e que apenas por isso há o domínio comum formado pelas opiniões. Me parece que se a abordagem for pela linha mais psicológica (mesmo em um sentido bem geral), não há como escapar do maniqueísmo.

Ficou um comentário longo, mas é que realmente foi levantado aí um problema fundamental, sobretudo diante dessa horda obscurantista que estamos vendo. Desta feita, apenas pra concluir queria dizer que concordo totalmente com a tua conclusão.

Litost

Talvez tudo o que eu vá dizer agora diga mais respeito à mim mesmo – que não sei o que sentir nem depois de ser assaltado e agredido – do que ao caso do qual vou falar. Mas, vamos “reflexionar” nesse lindo domingo de sol e melancolia.

Dunga, o técnico da seleção brasileira e ex-jogador, deu uma declaração muito infeliz e completamente racista dias atrás. Daquelas que permitem que se entreveja o quanto um sujeito pode simular um comportamento sem absolutamente o compreender. O racismo “cordial” que impregnou as palavras do ex-jogador mostra o quanto ele sabe que deve evitar certas palavras e ações e mostra também o quanto ele não tem nenhuma empatia ou compreensão da questão, embora saiba que será vaiado se cometer algum deslize.

Mas, o comportamento de Dunga é infelizmente a regra em nosso país. Essa falta de boa-vontade para tentativa de diálogo e compreensão do…

Ver o post original 290 mais palavras

Palavra dita, palavra morta

Palavra dita, palavra morta
A palavra dita, parece dita, parece escrita, parece finta.
A palavra dita é dita, seja bem dita, mal seja dita.
Reverbera a coisa, como diz a escrita, como faz quando bem dita.
Quando mal dita, encobre a coisa, mal seja dita, bem seja dita.

Seja escrita, seja dita, a palavra da rima dá forma ao limo.
O mundo formado dá lugar à palavra, seja afiada, seja fragilizada.
Na espada que apruma ao cimo,
A palavra pensada só tem lugar se a existência já se devaneia empertigada.

Das ruas frágeis, ouviam-se rumores fracos sobre o manifestar de forças,
Ante o certo e indeterminado fim,
Como se a pequenos passos, numa elegância mediana, pra frente se andasse de costas.

Afogava-se o silêncio, olhava-se de frente pra trás, e de costas pra frente,
Andava-se pela palavra dita e não dita, numa tagarelagem faminta,
Até que se tornaram, desde sempre e para adiante, verbos mortos por linguagem indistinta.

André Luiz Ramalho da Silveira

Desfragmentos de liberdade

Desfragmentos de liberdade

A passos lentos e seguros ocorre uma dança com tormentas insaciáveis.
Há pequenos demônios dentro de nós, que cravejamos em solfejo,
Vontade, ira, sexo, violência… desejos indomesticáveis.
A aproximação com a possibilidade do colapso existencial é uma saciação que se extingue num lampejo.

As letras se negaram a permanecer como pedaços de mim.
E assim, os pedaços abandonaram as letras sem fim.
E assim, sangraram e mais sangraram o que foi de mim.
Se encontro-me profundo, é porque cavei ao fundo das terras que já chamei de fim.

Porque pensei com meus ecos,
Surdos como meus gritos,
Agora sinto-me opaco diante desses ritos.

A liberdade, vista de baixo, parece o encontro do ar
Com o corpo em queda livre,
Que cai dentro de um copo, ou dentro de um corpo, ou de um chão… como ser o nada a vingar.

André Luiz Ramalho da Silveira

O tempo depois do fim

O tempo, que nascemos já arremessados, é o tempo
Que, pela história, nos amassa com um rolo compressor.
Será que somos apenas isso, impotentes ao domínio opressor?
Se ser é o que somos, de nada nos adianta um rastejo em campo limpo.

Viver é esperar o dia longo em que não mais teremos de esperar.
Talvez não seja tão ruim, assim, deixar de lutar
Por algum pouco de ar tão lapidado a ódio,
Se beira à atemporalidade a mediocridade do cidadão médio.

Queria um pouco de chão que não fosse nem meu,
Para que pudesse sentir a estranheza boa,
De conquistar um vazio que se desfizesse junto com meu eu.

Uma vez eu vi o tempo, saindo da minha cabeça,
Indo pro mundo e fazendo ruína de peça a peça.
Quando acordei, arremessado no meu tempo, soube que é pra frente que o destino ressoa.

André Luiz Ramalho da Silveira

Astolfo e seus recortes impublicáveis

 

Astolfo e seus recortes impublicáveis

 

Após superar a metafísica através de um diálogo perturbador com o ressentimento, Astolfo ficou recluso e mais ensimesmado do que de costume. Buscou força na rotina, como fazem aqueles que querem se recuperar de uma situação traumática. Afinal, mesmo superando a metafísica e aparentemente se saindo vitorioso, na existência não se trata de vencer ou perder, pois pode ser um pouco de cada aspecto. Sobretudo tratando-se da própria sombra, pois enquanto se existir, sempre se existirá nesse abismo em preto e branco.

Vasily Polenov

Vasily Polenov

Com uma rotina razoavelmente regrada, era possível manter a memória fixa, os sonhos um tanto calmos, e a vontade quieta. São processos tipicamente ascéticos, ou burocráticos – que são processos ascéticos sem o caráter moral. Contudo, um extraordinário acontecimento implodiu toda sua rotina. Astolfo encontrou alguns documentos que relatavam a relação entre um desconhecido com Rodion Românovitch Raskólnikov, personagem que escapou da obra ficcional russa de Dostoievski e que se encontra perdido atualmente em alguma parte do mundo. Mas, não apenas… Astolfo cria fortemente saber do paradeiro de Raskólnikov, de modo que, ao ser abordado pela selvagem polícia, teve que prometer não falar mais no assunto, temendo por sua própria segurança. Os documentos encontrados por Astolfo foram para a Biblioteca Sazonal da Guarda do Ser, em uma cidade próxima a que reside nosso herói. Essa experiência implodiu a estabilidade de Astolfo. Contudo, o deixou com algum objetivo novo na sua intrigante vida. Os sete fragmentos que se seguem – é curioso notar que não sabemos se Astolfo falava de si mesmo ou de outra pessoa, ou mesmo se isso foi algum surto paranoico – foram extraídos de pedaços de um livro que Astolfo rascunhara após esse incidente, de modo que toda sua existência adormecida irrompeu.

 

Recortes de Reflexões sobre o diário de uma não-vida, de Astolfo Cisma dos Santos.

1 –       Precisou enganar-se a si próprio para então ver sua vida como de fato era. Tinha bons olhos, e registrara seus instantes como uma máquina fotográfica. Contudo, possuía alguma generosidade ainda não corroída e atenuava parcialmente o cinza dessas imagens com o movimento e musicalidade propícia, de modo que a fixidez fosse apenas aparente. Com essa impressão precisa e, vá lá, categorizante da realidade a vida se tornava uma totalidade com momentos divididos em épocas cuidadosamente distinguidas pelas vivências e contextos. Essa mesma disposição a imprimir a realidade de forma ondular, ainda que em retratos, admitia como consequência quase que invariável uma identidade pessoal muito rígida. Isso não é exatamente um problema, caso sejam tomados contextos ideais – como nas famosas experiências em que tão somente a resistência do ar deve ser desconsiderada -, mas, como contextos projetados idealmente são, como diz o nome, meramente ideais, a pessoa corre o risco de ser um pedaço descontextualizado no insano sistema burocrático.

2 –       Parecia viver dentro de uma cela, em que se dividia entre o comando do verbo e o comando do cetro. Às vezes, a ação se concatenava, isto é, se organizava e a execução era harmônica, de modo que o tempo e o espaço fluíam e arrepiavam os pelos da cela. Não se tratava de racionalizar os desejos, ou a vida de modo geral. Quer dizer, fazia isso, mas suspeitava haver algo a condicionar essa racionalização. Claro, pensava consigo mesmo, toda compreensão é perfilada… recorta-se um pedaço da realidade, remonta-se ao todo ou contexto a que pertence esse pedaço, e se constata que essa é a perspectiva de que se parte… e há tantos contextos possíveis quanto há compreensões possíveis… e a realidade é essa ocorrência nula de fatos.

3 –       A solidão é amarga apenas nos primeiros anos. Ao longo dessa vida, o hábito reduz os danos do abismo e nos acostumamos a fragilidade da existência. Da impotência perante o todo à incapacidade de controlar esse incontrolável solo de afecções, parece ter como conclusão única a imobilidade de todo existir. Apenas seguir como bestas, na luta por sexo e poder. Ou cair na hipocrisia naturalista, como se fosse a natureza fosse uma redenção menos religiosa do que a crença em qualquer mísera divindade. Ou também podemos aceitar o imobilismo e nos comportarmos como cretinos grotões que estufam a barriga como bestas burocráticas humanas e espalitam os dentes com seus escravos. Ou como cretinos estúpidos que aceitamos e defendemos isso, mas, trabalhamos para esses mesmos grotões. Mas, tudo isso importa? Quer dizer, essas são as escolhas? E a beleza? E há beleza? Não sei… a liberdade não pode ser apenas negativa, isto é, apenas determinada como “não ser determinado por” algo… Pode a liberdade ser definida apenas como independência? Estou preso há tanto tempo que já não sei se estou certo sobre o funcionamento lógico do mundo.

Pablo Picasso - Portrait of ambroise vollard-1910

Pablo Picasso – Portrait of ambroise vollard-1910

4 –       Pensava que estava preso, só não sabia se fora ou se dentro. De todo modo, a fuga da situação, por mais que fosse determinada pela atual situação, sempre era uma alternativa. Não era possível aguentar tanta burrice e má vontade. Em todos os lugares. Em si mesmo. Não é que encontrava paz nas viagens físicas e existenciais, mas, sim… encontrava um mínimo de prazer e tranquilidade ao constatar que essas viagens lhe faziam bem. Após sintetizar suas imagens e estrutura-las musicalmente, conseguia aguentar mais um pouco de si mesmo num mundo qualquer. A solidão, assim, perdia o seu sentido, porque englobava o mundo como um todo. Mas, um todo sempre perfilado, sempre visto em perspectivas, de modo que essa solidão era sempre transpassada e ferida por uma não-solidão. Perguntava-se qual seria o sentido de ter essa vida? Bom, pensava sempre que era melhor permanecer do que não permanecer, afinal, no permanecer se pode sonhar.

5 – Como não explodir em ódio no mundo humano? Como não desistir de tudo em meio a tanto ódio estúpido nesse mundo humano? Há outros mundos? Como não adquirir uma úlcera da vida? Por que tudo é tão insuportável, nos momentos suportáveis? Por que esse subsolo é tão acolhedor? Será síndrome de Estocolmo? Será culpa de alguém, ou encontrar uma razão única é algo pertencente apenas aos tiranos? Será preciso encontrar uma razão para o agir? Ou o agir deve ser a razão explicativa do pensamento? Por que tão abandonados por Deus? Porque tão abandonados por si mesmos? Por que inventamos a nós mesmos? Porque queremos.

Elicia Edijanto

6 – É preciso experimentar a si mesmo. Enquanto não tomarmos uma boa dose de veneno do mundo, nossos olhos arderão sempre pela falta de hábito. A beleza é a única cura para o fanatismo, pois atinge diretamente à vontade. De nada adianta uma inteligência envenenada. O âmbito da razão é o das questões e o da dúvida, e é nesse abismo que tenho força, pois a verdade é parte disso, a verdade é pluralidade, luz e dúvida. O costume da certeza plena é o cetro dos idiotas.

 

7 – Tento ser o mais hipócrita possível. Sim, constatar meus preconceitos até exauri-los. Exaurir a si mesmo, como uma purificação hermenêutica. Saturar as opiniões, posições e preconceitos, depurá-los, para assim me desconstruir, para me sentir humano. Não busco cura alguma, tampouco vício algum. Apenas quero fotografar e manter em minha memória tudo o que sou, o que acabo de ser e o que posso ser. Não ser idiota e burro já é algo digno.

 

 

André Luiz Ramalho da Silveira

 

O homem sem história

O homem sem história

Egon Schiele - Self Portrait 1912

Egon Schiele – Self Portrait 1912

No que diz respeito à existência, era costume de minha parte pensar acontecimento e vida como uma correlação essencial, de tal modo que, se não houvesse acontecimento, não haveria vida. Como não me houveram acontecimentos, tinha plena convicção de que não morreria, até este momento. Não pretendo imitar a grandiosidade entediante de Machado de Assis, no seu clássico livro [Memórias Póstumas de Brás Cubas] em que a personagem principal começa a narrativa do mesmo modo que estou fazendo. Tampouco pretendo escrever um livro, e já peço de antemão as devidas desculpas pelo preâmbulo não muito elegante. Gostaria, por fim, não de narrar minha morte, tampouco minha vida, sem acontecimentos. Gostaria, sim, de escrever sobre o interlúdio. Peço desculpas pelas expressões não tão usuais, mas, é o modo que encontro para falar de “vivências” não tão comuns. Gostaria de falar sobre um existir que desacontece, isto é, esse âmbito da vida que nos faz duvidar dela mesma, de nossa existência, do sentido em geral.
Passarei a palavra, então, ao narrador.
Olhava para o chão, entristecido. Apenas por um momento. Logo se recobrava de sua típica alegria. Ainda estava sujo, com terra nas mãos e um pouco dentro dos calçados, que eram da mesma cor daquela terra seca. Foi parar ali por obra da necessidade. Resmungava para si mesmo, enquanto apertava insanamente contra o peito a mão direita enlaçada num crucifixo de metal: “nada há no mundo além da necessidade…”.
Em uma metrópole como São Paulo há muita vida, muitos acontecimentos, muito artifício maquinal dando suporte às relações impessoais que controlam a existência invisível de todos. Em todas as cidades há isso. Mas, nas maiores metrópoles, isso ocorre de uma forma completamente caótica, ou bela, como dizem alguns. Flores e violência, amor e preconceito e todas essas coisas que acontecem com as pessoas. Jarbas Arbelindo, o protagonista dessa narrativa, tinha uma vida semelhante à de qualquer outro cidadão, com as peculiaridades que fizeram ele o protagonista da narrativa e não outro personagem.
Morava na metrópole há aproximadamente dez anos. Queixava-se sempre da mesma situação, isto é, da falta de acontecimentos em sua vida. Embora tenha viajado clandestinamente da África ao Brasil, de ter sido fotógrafo amador na bizarra experiência cultural feita pelas grandes potências no Haiti, e de nos últimos anos trabalhar em um sebo bem conceituado da capital cosmopolita bandeirante, autoproclamados como os mais brasileiros entre todos os brasileiros, ainda lhe era um hábito bradar bêbado que Deus o tinha feito para não viver. Apesar do drama, falava sempre rindo.

tumblr_myzlvvMBzL1rjlfd7o8_1280
Acreditava que tudo que fazia era por necessidade. Toda sua vida havia sido um contínuo de eventos determinados, que o expulsava de si mesmo enquanto agente que realiza escolhas. Era muito cristão, também. Sabia que, no fundo, era sua fé que o guiava, apesar de saber que nunca morreria. Apesar de crer que sabia que nunca morreria, de conceber sua existência como uma eternidade permanente, imutável, isso não lhe garantia qualquer segurança para decisões práticas. Ao bem da verdade, fazia alguns anos que tomava a realidade como uma espécie de ficção, da qual bastaria entrar no jogo e interpretar as regras, ainda que essas regras mesmas não sejam feitas nem pelo jogo nem pela realidade. Deste modo, ao invés de deprimir-se morbidamente pela falta de liberdade prática, apenas seguia a metafísica, como o absoluto andando a cavalo – para usarmos uma metáfora hegeliana.
A memória, é preciso ter isso em mente, não é exatamente um trunfo para um homem sem história. Acontece que, para uma compreensão comum da realidade, os pensamentos e a memória dos acontecimentos podem relatar exatamente a realidade desses acontecimentos, como se funcionassem como impressões fotográficas de algo que está aí por si mesmo. Contudo, nesse sentido comum, verdades não passam de interpretações e preconceitos que articulam esses mesmos fatos. É preciso ter isso em mente. Ora, é preciso ter isso em mente porque a vida de Jarbas era, para ele mesmo, uma ficção. Uma ficção e que ele acreditava fielmente, mas, uma ficção. Em outros termos, uma vida como qualquer outra.

Jarbas gostava de arriscar a vida, para testar a sorte. Mas, testava-a sempre com muita cautela, afinal pensava não ser prudente sobreviver à vida estando em partes. Estava atrás de acontecimentos, mas sempre tomando medidas para que eles não acontecessem. Desse modo, conseguia sempre o feito de ser um antagonista consciente nas próprias ações. Fazia o mesmo quando se tratava de questões sentimentais, com a diferença que a proteção contra os acontecimentos rivalizava belicamente com a vontade de participar dos acontecimentos. Jarbas vivia como uma experiência de si mesmo. Mas, é preciso que se diga, tinha muita sorte e Deus a seu lado.

Escher

Escher

Como a existência é abençoada! – pensava Jarbas. Certa vez, Jarbas começou um namoro porque, ao atravessar uma rua muito movimentada, correu fora da faixa de pedestres e, vendo que os carros pararam e ficaram no aguardo de sua travessia, fingiu ser um robô e repetiu o percurso umas duas vezes, até ser atropelado. Quando levantou, percebeu que não havia se machucado gravemente e, sempre de olho em seu estado de graça divina, apenas sorriu e agradeceu o motorista, que ali já não estava. Começou o namoro porque algumas moças viram o acontecido e riam muito, até o atropelamento. Depois, como que socialmente justificado para sentir prazer por sentirem pena dele, fez disso um charme e acabou em relação com Alardina Trambolho. Logo terminaram, afinal um relacionamento precisa ter um bom começo para que dure.

Antes de se encontrar no momento relatado ao início, Jarbas saiu de seu trabalho, com um velho livro contra o peito, e em alguns passos já se ofuscava na multidão de sem-nomes. Parou em algum bar para tomar uma cerveja, de preferência em algum lugar limpo e higienizado – o que, segundo Arbelindo, era uma árdua tarefa. Após isso pensou que era hora de voltar para seu lar. “À caminho do calvário”, pensava rindo-se sem crer muito no que fazia.

Pelo caminho comum, pegaria o metrô na estação Praça da Árvore e iria até São Bento. Ao invés disso, preferiu caminhar uma parte do trajeto. Garoava. Pensou que não se molharia, porque a água rala lhe cobria a face engraçadamente carrancuda e iria vivar vapor, como toda questão de física. Derretendo assim, levemente ébrio com cerveja aguada, embrenhou-se na garoa já espessa em um começo de noite primaveril. Ou seria outono? Talvez verão, mas, não importa. Após sentir as têmporas esquentarem, sofreu um empurrão decorrente de uma quase briga que ocorreu ao seu lado. Não se machucou, mas, acabou caindo em uma poça rasa de lama, enlamaçando-se. Se era razoável a seriedade que seu corpo passava, agora com a cara e roupas sujas, tinha um ar estranho e talvez assustador. Pegou o metrô e desceu na estação que mais lhe aproximava de seu lar.

Chegou à estação São Bento após um tempo curto. Não quis se limpar durante todo esse trajeto, não acreditava muito na sujeira. Apenas queria terminar o calvário. Apesar de calculada apatia, Jarbas inclinava-se cada vez mais a querer conhecer o que as pessoas chamam de fé. Contudo, Jarbas apenas conseguia se aproximar desse âmbito da existência de um modo calculado, não conseguia parar de fazer projeções. Cria tanto na realidade, que toda verdade, por ele entendida como verdade irredutível e empírica, baseava-se na observação. Dessa forma, ele acreditava que não morreria, que não se molharia, enfim, que o mundo acontecia a partir dele. Em uma cidade como São Paulo, crenças metafísicas são comuns, pois é assim que se sustenta o mito da intersubjetividade nas grandes metrópoles.

Goya

Goya

Após caminhar durante dez minutos mais ou menos, Jarbas avistou uma grande Igreja Católica, que ficava na rua de sua casa. Atravessou a rua, com o barro já secando em sua cara, ainda que garoasse. Eram 18h. Saíam da Igreja alguns fiéis: beatas, mulheres submissas, cidadãos de bem, muitos sofredores, dois filósofos, alguns bêbados, algumas crianças obrigadas pelos pais, alguns pais obrigados pelas crianças que estavam entrando na puberdade, alguns velhos que iam aplacar o tédio, e alguns playboys que precisam se confessar regularmente, a fim de manter a conta em dia. Jarbas abraçava o seu velho livro prefiro: Eneida, de Virgílio. Andava tropegamente desviando dessas pessoas. Estava um tanto atordoado. Até que, em um momento de descuido, uma dessas crianças que obrigaram os pais a irem à Igreja empurrou Jarbas e, este achando que não cairia porque só cai quem voa, caiu de cara em seu livro Aeneis ao tropeçar em si mesmo. Jarbas levantou, pegou seu livro que parcialmente se rasgou, arrumou sua roupa suja, tirou o barro do olho, riu para as pessoas a sua volta, e deu um chute nos peitos do quase adolescente que o derrubou. Ao fazer isso, perdeu o equilíbrio e quase caiu novamente.

Seu corpo torceu-se para a direita, segurando o livro com o braço do mesmo lado, e caiu de joelhos. No mesmo movimento, quando foi levantar-se, foi golpeado por um cidadão de bem, e por um playboy com a consciência tranquila. Os bêbados faziam apostas, as mulheres submissas imitavam o que seus esposos cidadãos de bem graciosamente machistas faziam, que era justamente apontar para Jarbas e dizer que o marginal devia apanhar. Os sofredores se apiedavam em seu solipsismo, enquanto os filósofos xingavam os playboys, que também batiam nos filósofos. As crianças ficaram protegidas do agressor que apanhava, e as beatas batiam em Jarbas com seus guarda-chuvas.
A polícia ameaçou a chegar e o público dispersou. Nesse meio tempo, Jarbas foi ajudado por algum anônimo que, no rápido momento aproveitou pra surrupiar algum dinheiro da carteira de Jarbas como pagamento. Ele foi arrastado e largado em um canto parcialmente camuflado, perto de sua casa, em um terreno razoavelmente vazio.

Acordou no outro dia com sol no rosto, sem ninguém a sua volta, ensimesmado e sobre si mesmo, duro da água que secou sobre seu corpo, e da terra a estalar sob seus olhos. Acordou, apertando firme seu crucifixo, pois sabia da importância de Deus caso um dia decidisse por morrer. Sentia que esse era o momento do encontro de sua falta de história com um fim não registrado. Sabia que apenas Virgílio lhe seria testemunha, que após Troia nada mais fazia sentido. Que, após o nascimento do ocidente, tudo jazia para o mesmo lugar, talvez para o nada, ou para alguma divindade. Mas, para pessoas que são sem história, que parcialmente vivem na ficção, esses caminhos sempre serão caminhos alheios. Revirou-se, ainda deitado, para ficar de frente para o sol. Como que em uma revelação mística, teve certeza de sua existência naquele momento… sorriu pra si mesmo, e falou: “nada há no mundo além da necessidade…”.

Piazza del Popolo

Piazza del Popolo

André Luiz Ramalho da Silveira