Prosa

O coveiro do Jardim dos Sonhos

O coveiro do Jardim dos Sonhos

Em uma cidade nem muito pequena, nem muito grande, no interior de uma federação nem muito grande, nem muito pequena, na região sul do Brasil, vivia um senhor chamado Alessandro Sermani. Nasceu, permaneceu e, possivelmente, morreu. De certo modo, viveu uma vida como qualquer outra pessoa, de qualquer outra cidade. Então, por que contar uma história comum, sem qualquer importância? Não farei malabarismos teóricos para justificar a escolha, caros leitores. Atento apenas ao fato que uma vida por si só não possui qualquer sentido senão àquele projetado e interpretado nessa mesma vida. Por vezes, esse sentido só é compreendido na posteridade por outras pessoas. Há quem exista apenas para a posteridade, ainda que disso não tenha consciência.

Sandman

Sandman

Começarei a história pelo começo. Aos seis anos de idade, Alessandro teve seu primeiro contato com a morte. Ao menos, o primeiro que teve grande significado. Seu cachorro Osório morrera envenenado, prestes a completar a primeira década de vida. Na ocasião, seus pais queriam desfazer-se do corpo do cão em algum local deserto, ou algo nesse sentido. Contudo, Alessandro insistiu que Osório fosse enterrado no pátio de sua residência. Depois do cachorro, foram dois gatos e um pássaro, até os dezessete anos. Alessandro enterrava seus animais não apenas com a obsessão justificada pelo luto de manter junto a si alguém que morreu, mas, sobretudo, com o zelo de quem quer preservar uma história. Fazia isso de tal modo que, desde a morte do seu cachorro, adquiriu o hábito de criar convites de enterro de conhecidos e distribuir nos postes de luz de seu bairro. Com o passar dos anos, descobriu que as funerárias locais faziam o mesmo.

Certa feita, um dia estava a passar em frente a um velório. Nunca havia entrado em um velório de gente. Decidiu entrar. Ele completava recém seus quinze anos, e faziam uns 39°C. O local era frio como o morto, para alegria dos vivos. Já dentro do local, apercebeu-se que algo ali lhe agradava. Não era bem um interesse particularmente egoísta, mas uma curiosidade misturada com algum grau de responsabilidade por contar a história daquele que já não mais existia. A partir daí, compareceu a diversos velórios. Preferencialmente de desconhecidos. Nada parecia mais verdadeiro do que a morte e a subsequente história que se conta após isso. Não se sabe se esse estranho gosto deixava Alessandro sombrio, mas o fato é que quanto mais compreendia a existência, mais a solidão aumentava.

Alguns anos após comparecer ao primeiro velório terminou o ensino médio e foi procurar emprego. Nada lhe agradava, não via sentido algum em qualquer trabalho. Mas, precisava de dinheiro, pois sua família não era abastada. Conseguiu alguns trabalhos temporários, até mesmo entrou para o curso de arquitetura na universidade. Gostava das formas. Por falta de dinheiro e interesse em dedicar-se exclusivamente a algo, abandonou o curso e voltou para a casa de seus pais. Conseguiu um trabalho em uma empreiteira, de modo que, ao menos por um tempo, conseguiu manter-se financeiramente. Como era muito ansioso, chegava sempre cansado ao trabalho, pois tinha dificuldade para dormir no horário correto para um trabalhador. Estava prestes a desistir novamente do trabalho, quando aos vinte e cinco anos seu velho e doente pai morreu. Um ano após, sua mãe morreu. Ambos tinham em torno de setenta anos. Escreveu um pequeno livro sobre ambos, que fora sepultado às escondidas no mesmo cemitério.

Com algumas economias e sem qualquer perspectiva de vida, Alessandro só conseguia lamentar-se por não ter sido ele a morrer. Por conseguinte, por alguns meses e enquanto o dinheiro durou, apenas dormia. Era o mais perto da morte que parecia conseguir chegar. Fechava os olhos na esperança de não mais acordar. Mas, era inútil. Se conservar esperanças era sempre ruim, nesse caso lhe era pior ainda. De todo modo, lhe parecia ser a hora de conseguir um novo trabalho. Constatava haver ao menos alguma resiliência no resto de seu ser. Um dia, em meio a essa época de desolação, foi visitar os túmulos de seus pais. Os dois túmulos eram contíguos, separados por cerca de um metro de distância e um esboço de canteiro que insinuava uma ligação entre os túmulos.

Ao chegar ao local, aflorou-se uma impressão que, conjugado a um pensamento que nos últimos dias já vinha se desenvolvendo, trouxe um pouco de calma. Essa impressão permitiu a Alessandro perceber como naquele local tudo existia de um modo intenso. Não em um sentido que apraz aos sentidos. O que aconteceu era que nesse lugar a verdade saltava aos olhos, e fazia qualquer um encontrar-se a si mesmo. As velhas lápides esburacadas pelo vento, as gramíneas que insistiam em nascer naquele local deserto, a necessidade que a humanidade possui de manter lugares para o não ser. Os insetos criando colônias nos cadáveres centenários, os mitos que precediam qualquer história sobre qualquer um dos que ali jaziam. Assim é a existência, penava a pensar Alessandro. O que para a maioria das pessoas era terrível, para Alessandro era tanto uma maneira de conseguir um trabalho quanto de compreender melhor sua vida. Por conseguinte, percebeu que, ao menos provisoriamente, poderia trabalhar naquele local.

Algumas semanas após essa visita, Alessandro começou a trabalhar como coveiro no principal cemitério da cidade. Era necessária uma dedicação quase que integral para o novo trabalho. Contudo, tinha uma liberdade muito grande com relação aos horários. Após alguns meses como coveiro iniciante, passou a residir no cemitério, em cujo interior havia, além dos túmulos, uma pequena construção para quem viesse a ser o coveiro. O atual coveiro estava por se aposentar, de modo que, em menos de um ano, Alessandro já era o coveiro oficial do cemitério Jardim dos Sonhos.

Dave Mckean - King staffs

Dave Mckean – King staffs

Alessandro tinha o hábito de ler e escrever, nas horas em que não estava ocupado diretamente com a morte. Gostava também de saber quem eram as pessoas que lhe eram destinadas. Assim fazia diariamente. Ao longo dos anos foi moldando a arquitetura do cemitério de acordo com a história e os sonhos das pessoas que ali residiam. Preferia pensar que as pessoas entravam ali para sonhar, para fazer justiça ao nome do local. Como sempre se sentiu incapaz de sonhar, instigava-se pelas histórias e projetos de vida das outras pessoas. Isso o tornou um bom contador de histórias, com uma memória muito viva. Dessa forma, sentia-se responsável por proteger o bem maior dessas pessoas, suas histórias, mantê-las vivas de algum modo.

Quando começou a envelhecer, passou a encarar a morte de um modo mais pragmático. Como não possuía muitos amigos e, tampouco, amores, flertava sempre consigo mesmo na terna solidão daquele jardim. Na falta de alguém para cuidar da sua própria história, iniciou os preparativos para um dia ser lembrado, caso alguém o descobrisse.

Nas horas vagas, além de fazer suas anotações fazia também escavações. Para proteger a história de todos e a de si mesmo enquanto o protetor do Jardim dos Sonhos, aos poucos fazia uma cova imensa. Para que coubesse além de si mesmo e de sua própria história, elaborava no seu imaginário uma cova que conservasse todas as histórias e os sonhos daqueles que ali estavam. De fato, todos os dias moldava a terra que, aos tropeços, ganhava forma.

A cova – que mais parecia um santuário esculpido no subterrâneo de sua casa no interior do Jardim dos Sonhos –, ganhou uma forma bruta quando Alessandro estava prestes a completar cinquenta e quatro anos. A partir daí, apenas lapidava os detalhes de sua criação. Juntou todos seus livros e anotações sobre as pessoas que ali moravam e organizou-os dentro da cova. Ela era circular, de modo que no centro havia algo que parecia um quarto, com uma pequena dispensa à esquerda, e nas paredes que faziam o entorno circular estavam depositados as memórias e livros. Após mobiliar o recinto, junto com o vazio proveniente de um projeto pessoal realizado, sentiu, por outro lado, uma paz razoavelmente significativa. Num dos lugares da construção ele havia instalado no improviso algo que se assemelhava a uma claraboia. Por ela, olhou a noite estrelada e clara, acendeu um charuto e repousou naquela noite, como poucas vezes fizera em sua vida.

É difícil saber, caros leitores, se Alessandro ainda vive. Ainda assim, há muitas histórias sobre o paradeiro de sua pessoa. Há quem diga que ele nunca morreu, ou que ele não seja nada além de uma lenda. De todo modo – e talvez mesmo inspirado pelo coveiro Alessandro -, estou apenas contando uma versão de sua história. Dizem que esse é o melhor cemitério da região. O jardim dos Sonhos.

André Luiz Ramalho da Silveira

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Um sonho, uma realidade

Um sonho, uma realidade.

É preciso crer nas ilusões, antes que elas se transfigurem em realidade. Enganava-se que, mediante simples empenho próprio, isto é, por esforço de crença, poderia livrar-se dessa prisão que parecia não haver fronteiras. Não conseguia distinguir o resto do mundo de si mesmo. Neste momento, tornava-se como que um vetor entre o mundo dos despertos e a fantasia dos eruditos. Apenas seguia nesse aparente delírio. Não era apenas o cansaço extenuante que lhe obstruía o pensamento. O que o tinha levado a esse estado, e a esse lugar? Para existir, seria preciso ter desejo de realidade?

Essas questões começavam a surgir em meio ao burburinho de conversas aleatórias de pessoas inexistentes e do barulho de galhos de árvores que, por mais invisíveis que fossem, carimbavam nos ventos destemidos até mesmo as histórias mais lânguidas que pela terra já rastejaram. Começava a compreender que estava perdendo realidade, não obstante estar aos poucos ficando menos preso. Havia uma leveza nisso tudo, quer dizer, abandonar o fado do corpo pode despertar a impressão de alguma liberdade um tanto ilusória. Mas, junto a essa leveza, compreendia que com o passar do tempo tornava-se mais pesaroso o pensar. O desespero era, em verdade, o de não lembrar-se como lhe adviera tal situação aprisionadora.

Para encontrar algum fio de sentido, procurava, aos tapas, nas lembranças fugidias, algo que lhe situasse novamente ao mundo. Encontrou um remedo de rua, que lhe parecia familiar. Desavisadamente sentiu seu corpo corporificando novamente. Nessa rua em que fincava a imaginação, à busca de uma memória mais sólida, encontrou aquela esquina esfumaçada – que mais parecia um borrão expressionista do que propriamente algo que existisse por si – em que há não muito tempo perdeu o que pensava ser sua vida.

Contíguo à esquina levemente cinza e esfumaçada, e como que também formado pela mesma disforme dissociação de cores que pareciam materializar aquela realidade, estava uma pessoa com ares de elegância deletéria, mas ainda assim com um ar familiar. Num dos lados dessa esquina havia um banco, em que essa pessoa resolvera recostar-se. Vestia um longo casaco cinza, com botões pretos de expressões rústicas, um Keffiyeh verde escuro tracejado de preto – típico lenço árabe -, em que o deixara caído aos ombros e a cabeça descoberta, botas de couro pretas e um guarda-chuva florido. Às vezes, notavam-se algumas explosões de cores no cinza do casaco, e algum intumescimento nas flores do guarda-chuva, que pareciam querer beijar o chão. Contudo, essa pessoa escondia o rosto. Ou melhor, seu rosto era a expressão de cada canto desse lugar, cantos cuja mudança era permanente, ainda que de modo harmônico. Apesar de acinzentado, o cenário parecia saído da imaginação de Van Gogh.

Quando sem perceber e num súbito prostrou-se diante dessa figura, deu-se por conta de que certamente essa pessoa lhe era familiar, ainda que sem reconhecê-la. O casaco ofereceu ajuda e as flores do guarda-chuva serviram de apoio para que se chegasse até o banco. Olharam-se. Começava a duvidar de si mesmo, a duvidar seriamente se era mesmo alguém, dotado de “pessoalidade”, se não passava de uma imagem impressa num mundo atônito e maquinal. Adjacente a esta dúvida, lhe surgia como contra prova essa realidade abstrata que se concretizava como um orvalho se congelando num inverno. Olharam-se. A pessoa a sua frente parecia um velho, mas também parecia uma mulher, e quando começou a falar, tinha uma voz que lembrava a de uma criança. Onde estava, pensava… seria isso um sonho? Por que não desperta? Se despertar, será possível viver da mesma forma, depois de passar por isso? Olharam-se…

– Quem sou eu, ou, o que faço aqui? Organizava a pergunta com ares de presciência, ainda que gaguejasse e falasse rápido e aos tropeços.

– Pergunta difícil, jovem; vamos caminhar e eu lhe explicarei melhor. Replicou a pessoa misteriosa.

Levantaram-se e seguiram ao largo de um jardim outonal. As ruas eram muito semelhantes entre si, de modo que ao caminhar por umas cinco quadras, mal pareciam ter saído do lugar em que estavam. Despertou um vento frio, sendo necessário puxar algum capuz e cobrir a cabeça. Seguiram até uma grande praça, em que ao centro havia uma espécie de basílica. Havia muitas pessoas na praça, apesar do vento razoavelmente frio. Estava noite, aparentemente, mas havia claridade suficiente pra que se distinguissem as coisas que são possíveis de se distinguir.

– Vamos nos sentar. – Disse a figura de casaco e guarda-chuva. – Veja essas pessoas a caminhar, como se tivessem algum propósito em suas vidas. Você pensa que elas estão presas nesse mundo? Ou melhor, você pensa que elas sabem que estão presas? A compreensão não depende apenas de nossa disposição a compreender. É preciso algum sacrifício para colapsar a ignominiosa dominação da falta de reflexão. Este mundo apenas configura-se como uma distopia para quem já entra nele cindido. Ou talvez não. Mas, não há volta, quando se chega a este ponto. – Prosseguiu a figura, falando hermética e pausadamente e acentuando cada palavra.

– Mas, eu morri, ou isto é apenas um sonho? Veja, eu não sinto meu corpo. Parece apenas um delírio, no entanto, sinto como se toda a realidade de fato fosse assim. Aliás, quem é você? Faz parte desse meu delírio ou do delírio de outra pessoa, ou existe mesmo? Ou nenhuma coisa nem outra? – replicava.

– Muitas perguntas você faz, como se você não soubesse as respostas. O que você procura é algo que garanta um mínimo de sentido para a existência, um sentido que não possa se desfazer a cada pouco. Mas, isso não é possível. Toda a realidade, essa que você pensa viver, essa que está fora deste mundo, toda ela assenta-se sobre esse mundo tal como você agora vê. O erro e a fragilidade é o que dá suporte a toda objetividade. Não é que a realidade seja uma ilusão. Creio que ilusão não seja um conceito útil para compreender a complexidade que aqui se impõe. Aqui, todos apenas somos. Apenas ser, nada mais. Sem realidade transcendente, de modo que não haja apoio além de nós mesmos, nós, seres cindidos e incompletos. Mas, a fim de lhe responder, você me perguntou quem ou o que sou eu. Pois lhe respondo, sou muitas coisas. Sou seu nêmesis, sou parte de você, sou parte do mundo, sou parte de outras pessoas. Sou deus, delírio e sonho. Sou qualquer coisa. Mas, mais importante que isso, é como você compreenderá tudo isso, isto é, o que eu significarei para você. Seu mundo é mais do que eu e você, mas ele não é sem nós. – Respondeu-lhe, quase em transe, a pessoa misteriosa, enquanto podava as flores do seu chapéu.

Imóvel, ele fitava o estranho buscando compreendê-lo. Sim, talvez ele já imaginasse alguma resposta nesse sentido. Mas, apercebeu-se que precisava dessa confirmação pra poder voltar de onde viera. Precisava extenuar-se até perder a noção do próprio corpo e da própria consciência, pra conseguir se livrar do apego a substancialidade. Beirava desmaiar. Respirou fundo, agradeceu a conversa, levantou e espreguiçou-se. Não sabia onde estava, nem se lembrava de como foi ali parar. Mas, misteriosamente sabia como voltar, ainda que houvesse esquecido também o lugar de onde viera. Caminhou dois passos, tirou o capuz e respirou todo o vento que havia nesse pedaço de mundo. De imediato, acordou caído da cama, no quarto do albergue em que morava. Levantou-se, pensou e decidiu: nunca mais dormirei. Sentou-se novamente e, após constatar novamente a vida que leva, tornou a dormir.

André Luiz Ramalho da Silveira

Astolfo e a diligência

Astolfo e a diligência

“Diligência, meu amigo… diligência é o que precisamos. A sanidade é traiçoeira. Essa é a sabedoria que aprendemos com os velhos, com as crianças, com os bêbados e com os filósofos. Eu, quando são, sou no máximo um velho… mas quando bêbado, me aproximo dos filósofos… não, longe de mim querer ser filósofo… mas, só é possível transcender quando se mata a objetividade… a poesia, o dionisíaco… Aliás, a sabedoria que me refiro é a diligência, não a sanidade. Esta, só com alguma dose de covardia e… outra dose de coragem, pra querer que ela seja um remédio pra falta de sentido do mundo. No mais, diligência pro fígado não matar a memória! Um homem sem memória, meu amigo… um homem sem memória não passa de um elefante sem tromba… e sem memória!”

Dizia um velho bêbado e, talvez, filósofo, na entrada de um bar. Dizia sozinho e repetia essas frases, à espreita de alguém que lhe desse ouvidos. Astolfo, ansioso como sempre, debatia consigo mesmo questões que dizem respeito somente a si mesmo. Questões que talvez nem mesmo existissem. Talvez tenha sido essa a sincronia entre os dois, que simultaneamente miraram-se, como dois espelhos convexos que refletem apenas o exterior. Ensimesmados, viram-se um no outro. Enquanto pouco a pouco o fogo percorria o cigarro amassado, pausadamente o velho ia lhe dissertando, ainda que nesta altura já não houvesse mais cigarro e, talvez, nem mesmo ar para tragá-lo. Astolfo ficou levemente surpreso com as palavras do velho, por também estar com semelhantes pensamentos no momento. De todo modo, preferiu honrar seu espírito não aventureiro e agradeceu ao velho pelas palavras, deu-lhe um cigarro e seguiu o caminho para sua fortaleza. Não sabia se era a melhor escolha, mas há tempos que a racionalidade lhe superava a vontade.

Poderia arrepender-se depois, como sempre fazia, mas era melhor não correr o risco de decepcionar-se. Além disso, também não queria correr o risco de estar em algum lugar que o fizesse sentir-se coagido. No caso de Astolfo, sentir-se coagido era rotina, o que alternava era a intensidade com a qual essa sensação lhe acometia. Havia já algum tempo que lhe vinha à cabeça um pensamento anuviado, desses que rodeiam da nuca à testa, mas que raramente encontram-se na altura do olho. Como aqueles pensamentos em que diante de uma interrogação abrupta, porém passageira, se franze o cenho desapercebidamente. O tal pensamento era de se ele possuía algum tipo de fobia social, algo patológico mesmo. Claro, talvez a maioria das pessoas já tenha pensado algo assim. Mas saber tal de constatação não lhe desanuviava. Indo aos idos, isto é, aos fatos, antes que a nós nos venham eles, o embrutecido Astolfo andava se esgueirando pelas ruas, e sempre a pensar que qualquer outro ser humano pudesse lhe ser uma ameaça em potencial. Quem o encontra pelas ruas talvez não saiba do que aqui escrevo. Mas, é preciso querer olhar para além dos fatos, obviamente. De todo modo, o caso é que Astolfo permanentemente andava em clima de guerra consigo mesmo, não obstante conseguia disfarçar muito bem. Talvez se comportava assim como estratégia de combate, isto é, imaginem se alguém o compreendesse de verdade!? Acho que seria o fim do guerreiro transcendental.

Presumo que ele pensava algo parecido, mas, ainda assim, quem conseguiria manter a sanidade sem cair nas desgraças da relação interpessoal!? Depois da conversa com o velho, ou do monólogo refletido, Astolfo foi para onde estava indo. Foi para sua casa e depois a um encontro amoroso, ou ao menos essa era sua esperança. Conheceu Galiarda – uma judia francesa de sobrenome húngaro (por isso impronunciável aqui) -, após encontra-la algumas vezes num mesmo local (às vezes num bar, outras vezes num café). Galiarda é uma escritora amadora e libertária profissional. Na faixa dos trinta anos, mulher de olhos negros, cabelos castanhos escuros longos, com um aspecto renascentista em suas curvas generosas. Dotada de um corpo bem agraciado pela natureza, podemos dizer. Além disso, havia um ar de intelectual decadente do leste europeu em sua face caucasiana. Por isso mesmo, tinha um charme bem impressionante, ainda que peculiar. Isso já era o suficiente para nosso querido matreiro.

Não sei se ela percebeu esses detalhes no estranho rapaz, mas certamente ela se encantou com sua sutil peculiaridade – sutil, pois, por mais que não pareça, Astolfo sabia se portar como toda gente reprimida e civilizada. Conheceu-a num desses momentos introspectivos, em que ele olhava ao redor do seu copo de cerveja suado pelo calor e via ideias e não pessoas. Claro, isso é uma interpretação que fazia de si mesmo num exercício de lembrar o que pensava em determinado momento. Aliás, tentar rememorar ideias e não fatos era um exercício que fazia com frequência. Apesar da peculiaridade, Astolfo reprimia bem seu ímpeto antissocial. Até porque, ao ir a um bar – ou happy hour, como dizem as pessoas que dizem beber, mas que não bebem -, sabia que de algum modo esperava encontrar alguma companhia. Aliás, é presumível que todas as pessoas que saem esperam encontrar alguma companhia, ainda que isso ocorra em diferentes intensidades. Seguindo a narrativa, num desses dias em que Astolfo estava um pouco mais aéreo do que o comum, Galiarda estava no local e o observou atentamente. Nesse primeiro encontro, ela vestia uma longa saia preta e uma blusa azul marinho em que realçava seus fartos seios, com o cabelo levemente preso e uma franja propositadamente bagunçada. Obviamente, ele a achou deveras interessante, porém, pensava ele, se ele mal era capaz de honrar um encontro previamente combinado, quem dera fosse capaz do feito homérico que é a tal chamada conquista. Na maioria das vezes não tinha a menor disposição para existir, quanto mais para fazer algo. Das forças que Astolfo era devoto, certamente a inércia e a gravidade faziam parte. O fato é que depois de algumas cervejas, os dois foram um ao outro e conversaram. Ela logo estava de saída, então combinaram algo para a próxima semana.

O dia em questão é esse em que ele falou com o velho e seguia ao tal encontro. Após sobreviver a si mesmo – e às suas ideias, advindas de um universo kafkaniano -, Astolfo, o inabalável, chegou ao tal lugar e lá estava Galiarda a lhe esperar. Depois de certo tempo de conversas aleatórias, entraram em alguma conversa muito chata sobre questões teóricas que, possivelmente, nenhum dos dois estava de pleno acordo sobre a veracidade do que diziam. Mas, talvez por força de uma lógica interna à própria conversação, nenhum dos dois poderia recuar. Ainda que a vontade de Astolfo fosse a de abocanhar os seios de Galiarda ali mesmo e, por isso mesmo, mal conseguia pensar. E ainda que a vontade de Galiarda fosse a mesma dele e, por isso mesmo, também mal conseguia pensar, era preciso continuar a disputa. Aliás, uma disputa em que tanto o vencedor quanto o perdedor seriam agraciados do mesmo modo, isto é, com o sexo – e talvez, meus caros leitores, essa seja a máxima expressão que a justiça distributiva pode angariar.

385px-Bouguereau,_William_-_Femme_au_Coquillage_-1885 (A mulher com a concha)

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Ele nunca conseguia prever o que poderia acontecer, como fazem os homens de ação. Então, na hipótese de nada fazer, escolhia sempre se animar pela embriaguez. Ela também fazia o mesmo, ainda que talvez não pelo mesmo motivo. Por conseguinte, não foi necessário muito empenho para não se auto-sabotar, pois Galiarda, com muita galhardia, também não quis perder muito tempo e, antes de qualquer sabotagem de ambos os lados, disse que poderiam estar trepando ao invés de falar sobre as falhas de caráter do ser humano. Bom, foi o que fizeram e tornaram a fazer algumas vezes mais no último mês. Talvez só cessassem de se ver quando o tesão acabasse. A partir disso poderiam se tornar amigos. Astolfo era bom nisso, pois era muito diligente. Mas tão diligente, que se perdia na diligência. Era um cristão. Pobre Astolfo.

Como seres livres, ao longo de um certo tempo ambos se afastaram livremente um do outro, ainda que mantivessem algum contato, na situação de conhecidos. Ele voltou para o universal. Na verdade apenas saía de lá de vez em quando. Galiarda tinha uma manha mais dinâmica com o mundo, conseguia conciliar sua vida de escritora amadora com sua gana libertária. Para Astolfo, o difícil da separação – se é que podemos nos referir a isso nesses termos – foi ver Galiarda com um novo parceiro. Não pelo fato de ela estar com outra pessoa, isso nem lhe incomodaria tanto, mas sim o fato de o novo companheiro de Galiarda ser um músico errante e morador de rua. Talvez ela tenha feito isso para romper com valores burgueses pré-estabelecidos, ou tenha mesmo gostado dele. No fim, parece que se gostaram mesmo. Ela era libertária, isso não lhe era um problema. O que era um problema para Astolfo era não saber exatamente porque esse novo amante peculiar de Galiarda tinha que vir logo após o quase romance com Astolfo.

Após ruminar algumas vezes sobre o assunto, Astolfo, por certa generosidade, conseguiu compreender que Galiarda realmente estava amando seu novo companheiro. E, com essa constatação, o que mais lhe doía era o fato de saber como o amor lhe era incompreensível. Não apenas incompreensível, mas ele realmente achava que, por ser irracional, não poderia não apenas ser algo razoavelmente bom, como não deveria nem mesmo ser possível. Astolfo, como um poço de ressentimento e egoísmo, apesar de não aceitar que o mundo fosse assim, conseguia ao menos compreender que o amor move as pessoas. E Galiarda, longe de ser insensata, não via o menor problema em seus atos. Aliás, se ela soubesse o que Astolfo pensava, talvez não tivesse se relacionado com ele. Mas isso é outra história.

Passados uns três meses desde que vira pela última vez o velho bêbado e o casal em questão, Astolfo pensou que era hora de dar uma resposta à altura. Rascunhou diversas vezes num pedaço de papel qualquer – na maioria das vezes um extrato de banco quase apagado – uma resposta para aquilo que tanto lhe indagava. Até que, finalmente, depois de alguma boa procura pela cidade, encontrou o tal velho e leu-lhe a resposta que sentiu ficar devendo naquela vez. A tal resposta foi mais ou menos assim:

“Às vezes, desconfio do acaso. Pergunto-me, sinceramente, qual o estatuto ontológico do acontecer. Pode parecer pedantismo, mas é muito incrível como algumas situações nos marcam tão fortemente em determinado contexto, que se elas ocorrem em outros momentos de nossa existência talvez mesmo fossem despercebidas. O acaso seria assim tão acaso, que simplesmente surge como um evento da natureza rompendo nossos projetos cotidianos? Ou, seria mais uma sombra sempre presente nesses nossos projetos, de tal modo que surjam justamente quando os compreendemos? Enfim… o que lhe faz envelhecer e saudar a memória, se se consegue compreender o quanto a razão é má para o peito, para o espírito? Se a diligência está para além disso, não deveria estar também para além do dionisíaco, velhote?”

André Luiz Ramalho da Silveira