Prosa

Compreensão, esquecimento e ethos político

Considerações sobre o dia 17 de abril e o 31 de agosto de 2016
Pretendo fazer alguns apontamentos sobre como compreendemos as noções de esquecimento e compreensão, de modo a tentar explicitar como que, a partir de um esquecimento “ativo”, passamos da não compreensão à violência, e tudo isso tendo como ponto de partida nosso mundo comum brasileiro, sobretudo nesse complicado ano de 2016. Deste modo, penso que esquecimento histórico não diz respeito, de imediato, apenas à falta de memória. O esquecimento histórico tampouco se refere também ao vício linguístico de se tomar aquilo que não é explícito como fruto daquilo que foge ao racional. Neste sentido, da mesma forma que a memória não é uma massa amorfa e passiva, o esquecimento também precisa ser visto como um fenômeno que tem suas razões e um discurso que o legitima. O mundo público possui regras e normas que vão além de uma mera “projeção” subjetiva dos agentes ou sujeitos, assim como torna toda pretensa objetividade em algo opaco. O mundo público possui uma estrutura impessoal, uma publicidade impessoal que torna qualquer esquecimento em uma tarefa ativa para encobrir fenômenos originários. Não se trata de misticismo, de modo que para romper com esse esquecimento brutal que nos atinge nesse obscuro momento do século XXI, inclusive a nós brasileiros, não basta um exame individual sobre as próprias lembranças.  Apenas com uma crítica sobre comportamento e linguagem podemos conceituar essa massa cinzenta.

O discurso que articula nossos juízos sobre as coisas, sobre o mundo, sobre as pessoas, sobre os valores e sobre nós mesmos é determinado também pela compreensão não objetiva que temos disso tudo. Não se trata de uma visão subjetivista de nós mesmos, mas, que a compreensão de que existimos e compreendemos o mundo e a nós mesmos não é dada primeiramente por uma linguagem estruturada e delimitada teórica e objetivamente. As coisas já são compreendidas de um modo significativo para nós mesmos, e somente a partir daí é que conseguimos explicitar s sentidos e significados do nosso mundo, isto é, somente a partir disso é que tematizamos objetivamente o nosso mundo. É nessa orientação um pouco mais pragmática com o mundo que damos forma aos nossos projetos e possíveis realizações. É também nesse âmbito de comportamento que podemos ver como a partir de comportamentos significativos nossas opiniões sobre o mundo são formadas – sejam opiniões políticas, religiosas, morais ou filosóficas no sentido mais geral. Para exemplificar brevemente esse ponto, basta focarmos em um conceito muito importante da hermenêutica filosófica, que é o conceito de tradição. Este conceito diz, breve e grosseiramente falando, que nascemos em um mundo que não escolhemos, em uma época, família e em círculos sociais que a escolha não foi efetuada por nós, mas, que é a partir daí que vivemos e temos que assumir ou rejeitar determinadas possibilidades, sendo explicitamente responsáveis por essas situações, ou deixando de lado isso. Deste modo, muitas vezes passamos parte da vida apenas explicitando valores que antecederam a nossa geração e que, muitas vezes, determinaram as nossas vidas, sem que tenhamos isso explicitamente no nosso cotidiano. É nesse âmbito de comportamento que se dá o chamado ethos político, social e etc.

Contextualizando: a nossa situação hermenêutica

O colapso evidenciado no dia 17 de abril de 2016, cuja votação na Câmara dos Deputados deixou estarrecido qualquer ser humano minimamente sensato, por tamanha mediocridade e transgressões de normas que nossos políticos encarnam/encarnaram, tornou transparente todas as fissuras da representatividade do sistema político partidário brasileiro de um modo visceral. O esquecimento ativo, que se impõe brutalmente sobre as concepções de mundo – das mais gerais – implicaram no retorno de um pensamento político extremamente dogmático no imaginário de quem simpatiza com os atuais dirigentes. Uma série de questões se apresenta a partir dessa crise que vivemos. Penso que é preciso elaborar muito profundamente algumas questões centrais, pois do contrário estaríamos apenas repetindo erros que nos levaram até o momento. Das questões, enumero algumas: 1- de como pensar a superação dessa crise a partir de um “parricídio político”; 2- A grave falência do debate político e a quase ausência de um debate [inclusive de uma noção mais precisa de liberal/liberalismo] em escala nacional; 3- A violência como princípio de ação do esquecimento ativo e da burrice institucionalizada.

Aspectos a partir do dia 31 de agosto, votação e aprovação do impeachment:

1 – Não pretendo desenvolver uma análise sobre as diversas causas da perda de força da esquerda, sobretudo a esquerda ligada ao o Partido dos Trabalhadores, que um dia foi o maior partido de esquerda da América Latina e ainda é uma referência institucional para a esquerda, ainda que atualmente com extremas ressalvas. Meu ponto é apenas tentar visualizar algum caminho possível para o atual esgotamento no qual vivemos, que não é apenas político. Por político, penso aqui também aquela norma que nos permite regular, junto a outras pessoas, como ocorre e se estrutura desde aquele espaço que permite nossa individualidade até o âmbito mais geral ao qual somos submetidos, isto é, nossos vizinhos, nosso bairro, cidade, país, etc. Neste sentido, pensar a política como sistema de representação deveria implicar que ao menos alguns de nossos valores e desejos estariam sendo defendidos por aqueles a quem atribuímos nosso voto. O que ocorre, penso, é uma crise geral nesse sistema de representação – se é que algum dia em nosso país houve algo parecido com uma democracia -, de modo que o momento atual protagonizado pelo PT precisa nos fazer retomar e repensar o que queremos enquanto política, isto é, o que queremos pra nós mesmos e para o nosso país. Falo em relação ao PT porque, a meu ver e, sem entrar na questão de como isso foi realizado, é um partido que mudou nosso país, tendo em vista tanto a grande quantidade de programas sociais e culturais, quanto um projeto de soberania nacional – falo aqui de modo geral e sei de muitas das controvérsias em relação a isso, mas ainda assim creio que o fato principal permaneça. Após esse resumo esguio e sem qualquer detalhamento, gostaria apenas de entrar no ponto principal do que proponho, que é o de que não podemos nos estagnar no permanente luto em que se encontra a esquerda e, principalmente, não podemos apenas nos fixar no que um dia foi representado pelo PT. É inegável que houve um estelionato eleitoral em 2014, tanto quanto é inegável o golpe parlamentar que presenciamos há pouco tempo. A meu ver, isso só mostra a falência do nosso sistema representativo, ou, ao menos, de como as pessoas que deveriam nos representar não representam praticamente nada da sociedade brasileira. Todas essas descrições podem soar um tanto óbvia para quem acompanha a fragilidade política nos últimos anos. Deste modo, gostaria apenas de finalizar dizendo que é preciso pensar em uma política que diga respeito a nós mesmos, que possa minimamente nos representar. Essa condição, no momento atual, não parece ser possível de ser resolvida por nenhum partido político. No entanto, longe de pensar em um discurso apolítico, que negue a política, penso antes que é preciso desvelar e reconhecer os espaços políticos que são soterrados por discursos cristalizados, independente da posição política que seja, caso estejamos de acordo que a base da política seja essa formação de um espaço comum.

2 – Também nesse segundo ponto não pretendo e nem tenho condições de me aprofundar. Essa segunda questão é quase uma consequência natural da primeira: do fato não haver qualquer representatividade de fato, seja por corrupção, seja por “desvio de interesses”, seja por não haver um debate político legítimo, lógico, coerente. Lógico não apenas no sentido mais superficial de que determinadas regras sejam seguidas, mas, também que simplesmente que não há um espaço lógico aberto para uma cultura mais sincera de debates, e diálogos, em todas as esferas. São dogmas encravados em diversos sentidos, que regulam o discurso social e público. Em decorrência de uma paralisia nos espaços de debates, sejam em bares ou lugares institucionalizados, temos comportamentos extremos e “governismos” estagnados, que aceitam discutir pautas apenas quando há interesse particular e econômico. Não parece haver protagonismo de qualquer tipo em debates mais intensos sobre as questões mais polêmicas que se apresentam, de modo que há apenas extremos que se opõe. Um debate político liberal, no sentido mais específico do termo, aparenta ser quase nulo em escala nacional. Todas as questões que se impõe nestes últimos anos trafegam de uma esquerda já calejada, tediosa, estagnada e sem qualquer criatividade para uma direita extremamente autoritária e ultra-conservadora. O debate sobre questões fundamentais simplesmente se esvazia em meio à ausência de um debate honesto em relação a essas questões. Não me refiro apenas ao debate claro de ideias, mas, sobretudo, ao questionamento mais amplo de que determinadas pautas, por assim dizer, possam ser discutidas sem serem criminalizadas, simbólicas ou judicialmente. Basta observarmos o crescimento exponencial da violência em diversos âmbitos motivados por um moralismo estúpido de ser ‘contra tudo’, seja contra drogas, seja a impregnação religiosa na política, seja na violência linguística cotidiana. Além disso, voltando um pouco ao ponto anterior, gostaria de lembrar que os governos mais de esquerda, inclusive o PT – municipal, estadual e federal -, também sempre foram violentos e opressivos, principalmente em relação aqueles que não querem participar desse sistema político – como anarquistas, etc… -, de modo a inclusive a cometer o político ao sancionar a tenebrosa lei antiterrorismo. Meu objetivo não é simplesmente fazer juízos acerca disso ou daquilo, embora alguns sejam obviamente imprescindíveis. É preciso apenas reforçar a ideia de que a força política, seja ela de esquerda ou de direita, é mobilizada e articulada a partir do nosso ethos, isto é, da nossa situação, local e tradição atual. Deste modo, não se trata de demonizar certos grupos por se reconhecerem em determinados ideias, mesmo conservadores, mas, sim compreender que a esfera política é justamente isso: enfrentamento com todos os tipos de diferenças, inclusive com nós mesmos, regulados por certas leis políticas e morais que nunca são completamente imunes ao erro.

3 – Ao tentar não pensar a política apenas a partir do espectro político-partidário, penso que não é mais possível para a esquerda ancorar-se na passividade fisiológica/partidária, sem inovar-se politicamente, e em uma vã esperança por determinados políticos e, sobretudo, por determinados partidos. Não falo na questão de eleições, mas sim que não é possível se deixar determinar apenas por quadros partidários, quando são esses que deveriam se pautar pelas exigências de grupos e pessoas para determinados fins. Isso tanto ocorre pela falta de qualquer tipo de debate e conversa entre pessoas, quanto ajuda a permanecer essa falta de debate mais plural. A contextualização que pretendi fazer nos pontos 1 e 2 tinham como objetivo principal situar o debate para este 3º ponto. Penso que nosso espaço comum é construído através de interações e significados, no entanto, isso não precisa ser pensado como uma construção objetiva e teórica apenas, como se nossa relação com outras pessoas, coisas e nós mesmos fosse determinada por uma norma ou regra exterior a nossa vida prática. Penso assim tanto em relação à linguagem, quanto em relação aos valores éticos e sentidos políticos que guiam nossas vidas. Deste modo, o interesse na presente consideração visa tentar mostrar e descrever como ocorrem determinados discursos a partir dessa base ontológica. Ao pensar a noção de discurso como tendo um pressuposto hermenêutico, não temático – isto é, ainda não explicitado teoricamente –, é possível compreender que os debates e discussões sempre partem de uma base comum a se explicitar. Essa questão obviamente é muito sutil, mas agostaria apenas de sugerir – me apoiando em Heidegger, paradoxalmente – que os discursos acabam por legitimar determinadas normas e comportamentos sociais, eventualmente obscurecendo o contexto ou situação de onde partiram. Paradoxalmente, porque para Heidegger essas normas que regulam nossos comportamentos não são dadas meramente através de uma teorização sobre a realidade, mas são entendidas como aquilo que, ontologicamente, possibilitam nossa lida e nosso comportamento com significações. Neste sentido, o discurso expresso obedece de algum modo essa variação normativa, que ainda não é nem moral, nem política. Bem, o que esbocei anteriormente como sendo um esquecimento ativo, em parte é isso que tenho em vista, isto é, um discurso tão desenraizado do solo ou contexto de onde partiu que acaba se esvaziando. Em larga escala, legitima e se institucionaliza impessoalmente. De acordo com Heidegger, as normas impessoais pelas quais nos guiamos não são exatamente um mal a ser combatido, mas sim uma situação incontornável que precisamos lidar. Contudo, a normalização constante de um discurso público tende a nivelar nossas possibilidades. Penso que é possível dizer, a partir disso, que o discurso que não permite distinção é uma das fontes que elaboram dogmas, a partir dos quais acabam, eventualmente, se fixando como padrões e normas de comportamento e opiniões. A questão aqui é muito complexa e não pretendo discutir os pontos sociológicos e linguísticos envolvidos, mas sim mostrar que a partir desse nivelamento na compreensão ocorre uma violência simbólica e linguística, na medida em que torna fixa e rígida toda abertura à diferença. A partir dessa perspectiva, penso que a compreensão restrita e autoritária do mundo que passamos a ter apenas legitima a violência em relação ao outro, ainda que implicitamente. Não penso aqui apenas em termos morais ou políticos, de modo que, mesmo que não estejamos pensando em fins políticos específicos ou não estejamos explicitamente nos orientando por noções de bem e mal, ainda encobriremos toda e qualquer “realidade” diferente que se nos impõe.

Em conclusão, gostaria de falar apenas mais uma observação em relação a isso: essa não é exatamente a posição de Heidegger; de modo algum penso que é possível pensar, agir e existir a partir de uma situação em que a condição de encobrimento e de impessoalidade não esteja envolvida, isto é, a hermenêutica nos ensina que há sempre pressupostos de linguagem, históricos, etc., que nos antecedem, de modo que nos é cabido explicitar o mundo de onde partimos e para onde vamos. Neste sentido, quando falo em violência, tento sugerir que uma violência física, quando sistêmica e, no caso brasileiro – parto do caso brasileiro por este ser a nossa situação hermenêutica, nosso contexto, o nosso morar, mas não se trata apenas do Brasil –, epidêmica, é precedida por uma violência simbólica, linguística, social, etc.

André Luiz Ramalho da Silveira
Doutorando em Filosofia – UFSC

Ventos, ponteiros, Astolfo e Galiarda

Ventos, ponteiros, Astolfo e Galiarda

O mundo assemelha-se a um jogo de tabuleiro em que as peças movimentam-se com relativa autonomia e sem relação com o todo.

A-Jacek-Yerka-surrealist-fantasy-painting-of-the-guardian-of-time-and-his-henchmen-clocksDentre incontáveis invernos, aquele que ocupa a posição atual sempre parece o mais cruel. Astolfo sabia disso, mas não conseguia despir-se dessa sensação. O desespero era insistente, mas não o suficiente para acatar todo o seu clamor. A solidão impera, agora mais forte, agora já ultrapassando o silêncio. Como romper com o impessoal, com as práticas que se faz porque se precisa fazer para se suportar na vida? Isso tudo parece artimanha de uma solidão imperiosa, pois nos acostumamos a todas às situações e, a pra cada uma delas, conseguimos fazer um discurso que a justifique para que ela seja do jeito que é, tal como fazemos com nossas próprias vidas.

Aquela velha sensação de não estar vinculado e e estar desconexo com as situações em que se vive, a não ser por eventuais ou seguidas bebedeiras, parecia mais velada, mais forte. Parecia que pra cada criatura com quem travava alguma relação era preciso justificar bem a razão de isso ser assim. Mesmo quando era absurda e sem qualquer propósito. Afinal, não era a relação com alguém que estava pensando em justificar, mas sim o que de fato é uma relação. Isso não parece ser um problema para o pensamento mediano e mais imediato. Astolfo, além de não ser assim, ainda era uma pessoa demasiadamente complicada. Como todas as outras, mas tirava daí sua força criativa. Deste modo, o sentimento de estranheza no mundo era uma constante. Toda relação humana, penso eu que ele pensava assim, era dependente de uma relação consigo mesmo e, principalmente, dependente apenas de nossa relação com o tempo. Assim, se tratava mais de estar ou não vinculado a algo, inclusive mesmo à própria vida. Isso não era exatamente algo simples, como se apenas por uma opção trivial e por algum capricho se pudesse vincular-se ou desvincular-se de algo. Penso eu que a situação diz respeito mais ao fato de que as coisas humanas dependem mais daquilo que fazemos delas e não que haja algo por si só independente de nós. Para Astolfo, a desvinculação como uma evidência da finitude humana já ganhara inclusive força filosófica. Penso eu que ele pensava assim, mesmo que não formulasse tão eloquentemente quanto eu penso estar fazendo neste momento.
O que seria de um mundo sem os seus criadores ansiosos… o mundo, esse que fazemos parte e que formamos, que esbarra no tédio perante a impotência ontológica. Gostaria de visitar aquele antigo silêncio, em que a resignação aparentemente autêntica perante o mundo impedia-me de viver.

Astolfo procurava antigas cartas escritas e nunca enviadas, pois tencionava a encontrar algum resquício de sentimento que o permitisse identificar-se novamente como sendo alguém e não apenas parte figurativa de possibilidades irrealizadas. Buscava impressões de mundo, daquelas que quando se está na juventude costuma-se compreendê-las como o estar surpreso perante o desvelamento do mundo. Quando se envelhece, porém, tudo é consumido no tédio. Ou na angústia. Felizes os que não sabem da liberdade.

Fios pretos quase cinzas balançavam, uns se emparedavam, outros se separavam, outros, mais introvertidos, apenas se resignavam e juntavam-se a outros no movimento do vento, em que fingiam, na cabeça, serem cabelos. Um sol fotográfico, manifestado apenas como indício nas nuvens avermelhadas que lentamente se dissipavam com o vento quase frio, coroava aquele fim tarde. Momentos de rara beleza natural.

Ao lado, um negro que vestia uma calça cor de tabaco envelhecido, camisa clara e a cara arruinada pelas agruras, olhava fixamente para uma garrafa plástica pela metade, que tinha dentro o que parecia ser uma cachaça aquecida do sol. Na sua frente, um cachorro com aparência de ter nascido meio solto no mundo e de porte médio, que o olhava sem entender muito, mas, parecia faceiro. Ao lado, um homem em seus trinta anos, corpulento com cara de pensionista, cara meio rosada meio marrom, uma boca cheia de dentes que vociferava intempéries odiosas, escorado em seu carro, que olhava o cusco, a garrafa e o negro. Enquanto tomava sua cerveja quase quente. Queria jogar no negro. Ou no cachorro. Pra não errar, fingiu errar uma lixeira, e jogou entre os dois. A garrafa ricocheteou e, de revesgueio, quicou e acertou Astolfo triscando sua perna, que estava mais atrás da cena. O homem branco corpulento ousou de longe uns gestos estranhos, como se pedisse desculpa, mas sem querer pedir desculpas. Antes de terminar as mímicas, Astolfo já havia quebrado um vidro do carro com uma garrafada. Astolfo correu quadras. O homem tropeçou e não prosseguiu. Aprendeu uma lição: praticar melhor o tiro ao alvo.
Parado como quase estava, num movimento preguiçoso de negação de movimento, Astolfo inclinou-se para o lado ao reconhecer Galiarda, sua antiga paixão. O deslocamento existencial dessa judia francesa, que se expandia libidinosamente a criar formas, confortava de imediato a sensação permanente e, por vezes, brutal, do estranhamento de Astolfo perante o mundo. Viram-se numa bela praça. Galiarda queria encontrar-se, mas não encontrava, Astolfo não queria encontrar, mas encontrava. O que é isso? Pensava no jeito sagaz e nos fartos seios de Galiarda e nos seus gemidos, que pensava no jeito profético e sem talento burocrático de Astolfo. Pensava brutalidade do mundo, que não deixa como permanente nada que possa ser bom. O que é isso? Como pode a impotência atingir tamanha profundidade? Pensava nos quadris de Galiarda, que pensava nas mãos sábias de Astolfo, que depois se entediava e ficava apático porque depois do prazer tudo se acaba. Para onde vai à verdade indômita de um mundo que é absurdo? Pensaram isso por mais ou menos os dez passos que os separavam, até que se encontraram e se cumprimentaram.
Galiarda vestia as cores do fim da tarde, com uma elegância que sequestrava a atenção dos céticos. Astolfo, mais niilista e menos cético, desconfiava das cores. Mas, como um autêntico guerreiro contra o desorgulho – como ele de vez em quando zombava de si mesmo – atirava-se de corpo todo nesse sequestro.

 

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Bouguereau – The Nymphaeum – 1878

– Como está, meu caro?
– De passada… O dia está bonito, pensei em respirar algo que não seja os cômodos de casa… Esse meu relógio pesa, pelas horas desordenadas. E você, minha bela Galiarda, que a vida nos diz nesse momento?
– Eu estou bem sim. Aproveitei essas pequenas férias fora de época para não encontrar ninguém desinteressante na minha rota de fuga do mundo maquinal… e aproveitar para escrever sobre as cores e os desencontros. E você, quais os afazeres que tem lhe tirado o sono?
– Estou bem também. Já não sei bem tanto dessas coisas.. Tenho estado mais tranquilo, o que não sei se é bom. E essa resignação sua, também é a minha. Mas, vamos deixar pras narrativas darem conta desse abismo que parece imperar sobre nós… vamos dar uma volta?
– Claro! Mas, depois. Preciso encontrar uma pessoa estável, antes de flertarmos com nossas sombras… brincadeira. No entanto, acho que eu gostaria de querer isso.. isso de querer ter uma pessoa estável. Afinal, acho que é o nosso desejo, não? Não sei… Penso que pessoas estáveis servem como âncoras que ajudam pessoas como nós a nos guiarmos..
– É! Pessoas são balizas para que possamos sobreviver.. às vezes, é preciso se orientar pelo mundo… talvez o mundo não seja apenas um abismo… ou melhor, esse abismo às vezes nos olha de volta e, se não tivermos com a gente um bom lugar pra se segurar, ou ao menos se não soubermos do que são feitos os ponteiros do relógio, apenas seríamos consumidos por aquilo que pensamos rejeitar..
– Pode ser, mas não precisamos rejeitar o mundo, meu caro… a felicidade não é tão nefasta assim. A profundidade nem sempre é correta… às vezes, ela só é mais suja.
– É… não tenho comigo muitas convicções, Galiarda… e hoje menos que ontem, e etc. Mas, é fato que eu desconfie cada vez mais da minha profundidade, e da profundidade do abismo. O superficial, esse paraíso de sensações que ajuda a esconder a lembrança de ser alguém, não parece tão nefasto assim…
– Não apenas isso, Astolfo… o superficial não é superficial. Ou diria que toda a parte da sua vida que não esteve dominada pela reflexão seria trivial e descartável? É nisso que está a vida, Astolfo! Nas fendas do plastificado que reina a liberdade! Não apenas nisso, não me entenda mal… mas o mundo é bem mais do que o nosso julgamento faz dele.
– Não sei, mas, concordo… Mas, não sei. O superficial apenas me dá alguma força para seguir, pois não consigo nunca encontrar alguma razão universal que justifique qualquer coisa… nem nunca acharei. Acho que não estou fazendo a pergunta correta… Meus vícios já não me ajudam. Tentarei prestar mais atenção no vento, que se manifesta nas folhas, e alivia esse calor infernal.
A busca pela felicidade começa pela escolha de uma música, passando pelo encontro da cor de um bom vento e, por fim, com o exaurir de alguma parte de si que já não é mais parte.

Minotauromachy - Picasso

Minotauromachy – Picasso

André Luiz Ramalho da Silveira

Astolfo e seus recortes impublicáveis

 

Astolfo e seus recortes impublicáveis

 

Após superar a metafísica através de um diálogo perturbador com o ressentimento, Astolfo ficou recluso e mais ensimesmado do que de costume. Buscou força na rotina, como fazem aqueles que querem se recuperar de uma situação traumática. Afinal, mesmo superando a metafísica e aparentemente se saindo vitorioso, na existência não se trata de vencer ou perder, pois pode ser um pouco de cada aspecto. Sobretudo tratando-se da própria sombra, pois enquanto se existir, sempre se existirá nesse abismo em preto e branco.

Vasily Polenov

Vasily Polenov

Com uma rotina razoavelmente regrada, era possível manter a memória fixa, os sonhos um tanto calmos, e a vontade quieta. São processos tipicamente ascéticos, ou burocráticos – que são processos ascéticos sem o caráter moral. Contudo, um extraordinário acontecimento implodiu toda sua rotina. Astolfo encontrou alguns documentos que relatavam a relação entre um desconhecido com Rodion Românovitch Raskólnikov, personagem que escapou da obra ficcional russa de Dostoievski e que se encontra perdido atualmente em alguma parte do mundo. Mas, não apenas… Astolfo cria fortemente saber do paradeiro de Raskólnikov, de modo que, ao ser abordado pela selvagem polícia, teve que prometer não falar mais no assunto, temendo por sua própria segurança. Os documentos encontrados por Astolfo foram para a Biblioteca Sazonal da Guarda do Ser, em uma cidade próxima a que reside nosso herói. Essa experiência implodiu a estabilidade de Astolfo. Contudo, o deixou com algum objetivo novo na sua intrigante vida. Os sete fragmentos que se seguem – é curioso notar que não sabemos se Astolfo falava de si mesmo ou de outra pessoa, ou mesmo se isso foi algum surto paranoico – foram extraídos de pedaços de um livro que Astolfo rascunhara após esse incidente, de modo que toda sua existência adormecida irrompeu.

 

Recortes de Reflexões sobre o diário de uma não-vida, de Astolfo Cisma dos Santos.

1 –       Precisou enganar-se a si próprio para então ver sua vida como de fato era. Tinha bons olhos, e registrara seus instantes como uma máquina fotográfica. Contudo, possuía alguma generosidade ainda não corroída e atenuava parcialmente o cinza dessas imagens com o movimento e musicalidade propícia, de modo que a fixidez fosse apenas aparente. Com essa impressão precisa e, vá lá, categorizante da realidade a vida se tornava uma totalidade com momentos divididos em épocas cuidadosamente distinguidas pelas vivências e contextos. Essa mesma disposição a imprimir a realidade de forma ondular, ainda que em retratos, admitia como consequência quase que invariável uma identidade pessoal muito rígida. Isso não é exatamente um problema, caso sejam tomados contextos ideais – como nas famosas experiências em que tão somente a resistência do ar deve ser desconsiderada -, mas, como contextos projetados idealmente são, como diz o nome, meramente ideais, a pessoa corre o risco de ser um pedaço descontextualizado no insano sistema burocrático.

2 –       Parecia viver dentro de uma cela, em que se dividia entre o comando do verbo e o comando do cetro. Às vezes, a ação se concatenava, isto é, se organizava e a execução era harmônica, de modo que o tempo e o espaço fluíam e arrepiavam os pelos da cela. Não se tratava de racionalizar os desejos, ou a vida de modo geral. Quer dizer, fazia isso, mas suspeitava haver algo a condicionar essa racionalização. Claro, pensava consigo mesmo, toda compreensão é perfilada… recorta-se um pedaço da realidade, remonta-se ao todo ou contexto a que pertence esse pedaço, e se constata que essa é a perspectiva de que se parte… e há tantos contextos possíveis quanto há compreensões possíveis… e a realidade é essa ocorrência nula de fatos.

3 –       A solidão é amarga apenas nos primeiros anos. Ao longo dessa vida, o hábito reduz os danos do abismo e nos acostumamos a fragilidade da existência. Da impotência perante o todo à incapacidade de controlar esse incontrolável solo de afecções, parece ter como conclusão única a imobilidade de todo existir. Apenas seguir como bestas, na luta por sexo e poder. Ou cair na hipocrisia naturalista, como se fosse a natureza fosse uma redenção menos religiosa do que a crença em qualquer mísera divindade. Ou também podemos aceitar o imobilismo e nos comportarmos como cretinos grotões que estufam a barriga como bestas burocráticas humanas e espalitam os dentes com seus escravos. Ou como cretinos estúpidos que aceitamos e defendemos isso, mas, trabalhamos para esses mesmos grotões. Mas, tudo isso importa? Quer dizer, essas são as escolhas? E a beleza? E há beleza? Não sei… a liberdade não pode ser apenas negativa, isto é, apenas determinada como “não ser determinado por” algo… Pode a liberdade ser definida apenas como independência? Estou preso há tanto tempo que já não sei se estou certo sobre o funcionamento lógico do mundo.

Pablo Picasso - Portrait of ambroise vollard-1910

Pablo Picasso – Portrait of ambroise vollard-1910

4 –       Pensava que estava preso, só não sabia se fora ou se dentro. De todo modo, a fuga da situação, por mais que fosse determinada pela atual situação, sempre era uma alternativa. Não era possível aguentar tanta burrice e má vontade. Em todos os lugares. Em si mesmo. Não é que encontrava paz nas viagens físicas e existenciais, mas, sim… encontrava um mínimo de prazer e tranquilidade ao constatar que essas viagens lhe faziam bem. Após sintetizar suas imagens e estrutura-las musicalmente, conseguia aguentar mais um pouco de si mesmo num mundo qualquer. A solidão, assim, perdia o seu sentido, porque englobava o mundo como um todo. Mas, um todo sempre perfilado, sempre visto em perspectivas, de modo que essa solidão era sempre transpassada e ferida por uma não-solidão. Perguntava-se qual seria o sentido de ter essa vida? Bom, pensava sempre que era melhor permanecer do que não permanecer, afinal, no permanecer se pode sonhar.

5 – Como não explodir em ódio no mundo humano? Como não desistir de tudo em meio a tanto ódio estúpido nesse mundo humano? Há outros mundos? Como não adquirir uma úlcera da vida? Por que tudo é tão insuportável, nos momentos suportáveis? Por que esse subsolo é tão acolhedor? Será síndrome de Estocolmo? Será culpa de alguém, ou encontrar uma razão única é algo pertencente apenas aos tiranos? Será preciso encontrar uma razão para o agir? Ou o agir deve ser a razão explicativa do pensamento? Por que tão abandonados por Deus? Porque tão abandonados por si mesmos? Por que inventamos a nós mesmos? Porque queremos.

Elicia Edijanto

6 – É preciso experimentar a si mesmo. Enquanto não tomarmos uma boa dose de veneno do mundo, nossos olhos arderão sempre pela falta de hábito. A beleza é a única cura para o fanatismo, pois atinge diretamente à vontade. De nada adianta uma inteligência envenenada. O âmbito da razão é o das questões e o da dúvida, e é nesse abismo que tenho força, pois a verdade é parte disso, a verdade é pluralidade, luz e dúvida. O costume da certeza plena é o cetro dos idiotas.

 

7 – Tento ser o mais hipócrita possível. Sim, constatar meus preconceitos até exauri-los. Exaurir a si mesmo, como uma purificação hermenêutica. Saturar as opiniões, posições e preconceitos, depurá-los, para assim me desconstruir, para me sentir humano. Não busco cura alguma, tampouco vício algum. Apenas quero fotografar e manter em minha memória tudo o que sou, o que acabo de ser e o que posso ser. Não ser idiota e burro já é algo digno.

 

 

André Luiz Ramalho da Silveira

 

O homem sem história

O homem sem história

Egon Schiele - Self Portrait 1912

Egon Schiele – Self Portrait 1912

No que diz respeito à existência, era costume de minha parte pensar acontecimento e vida como uma correlação essencial, de tal modo que, se não houvesse acontecimento, não haveria vida. Como não me houveram acontecimentos, tinha plena convicção de que não morreria, até este momento. Não pretendo imitar a grandiosidade entediante de Machado de Assis, no seu clássico livro [Memórias Póstumas de Brás Cubas] em que a personagem principal começa a narrativa do mesmo modo que estou fazendo. Tampouco pretendo escrever um livro, e já peço de antemão as devidas desculpas pelo preâmbulo não muito elegante. Gostaria, por fim, não de narrar minha morte, tampouco minha vida, sem acontecimentos. Gostaria, sim, de escrever sobre o interlúdio. Peço desculpas pelas expressões não tão usuais, mas, é o modo que encontro para falar de “vivências” não tão comuns. Gostaria de falar sobre um existir que desacontece, isto é, esse âmbito da vida que nos faz duvidar dela mesma, de nossa existência, do sentido em geral.
Passarei a palavra, então, ao narrador.
Olhava para o chão, entristecido. Apenas por um momento. Logo se recobrava de sua típica alegria. Ainda estava sujo, com terra nas mãos e um pouco dentro dos calçados, que eram da mesma cor daquela terra seca. Foi parar ali por obra da necessidade. Resmungava para si mesmo, enquanto apertava insanamente contra o peito a mão direita enlaçada num crucifixo de metal: “nada há no mundo além da necessidade…”.
Em uma metrópole como São Paulo há muita vida, muitos acontecimentos, muito artifício maquinal dando suporte às relações impessoais que controlam a existência invisível de todos. Em todas as cidades há isso. Mas, nas maiores metrópoles, isso ocorre de uma forma completamente caótica, ou bela, como dizem alguns. Flores e violência, amor e preconceito e todas essas coisas que acontecem com as pessoas. Jarbas Arbelindo, o protagonista dessa narrativa, tinha uma vida semelhante à de qualquer outro cidadão, com as peculiaridades que fizeram ele o protagonista da narrativa e não outro personagem.
Morava na metrópole há aproximadamente dez anos. Queixava-se sempre da mesma situação, isto é, da falta de acontecimentos em sua vida. Embora tenha viajado clandestinamente da África ao Brasil, de ter sido fotógrafo amador na bizarra experiência cultural feita pelas grandes potências no Haiti, e de nos últimos anos trabalhar em um sebo bem conceituado da capital cosmopolita bandeirante, autoproclamados como os mais brasileiros entre todos os brasileiros, ainda lhe era um hábito bradar bêbado que Deus o tinha feito para não viver. Apesar do drama, falava sempre rindo.

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Acreditava que tudo que fazia era por necessidade. Toda sua vida havia sido um contínuo de eventos determinados, que o expulsava de si mesmo enquanto agente que realiza escolhas. Era muito cristão, também. Sabia que, no fundo, era sua fé que o guiava, apesar de saber que nunca morreria. Apesar de crer que sabia que nunca morreria, de conceber sua existência como uma eternidade permanente, imutável, isso não lhe garantia qualquer segurança para decisões práticas. Ao bem da verdade, fazia alguns anos que tomava a realidade como uma espécie de ficção, da qual bastaria entrar no jogo e interpretar as regras, ainda que essas regras mesmas não sejam feitas nem pelo jogo nem pela realidade. Deste modo, ao invés de deprimir-se morbidamente pela falta de liberdade prática, apenas seguia a metafísica, como o absoluto andando a cavalo – para usarmos uma metáfora hegeliana.
A memória, é preciso ter isso em mente, não é exatamente um trunfo para um homem sem história. Acontece que, para uma compreensão comum da realidade, os pensamentos e a memória dos acontecimentos podem relatar exatamente a realidade desses acontecimentos, como se funcionassem como impressões fotográficas de algo que está aí por si mesmo. Contudo, nesse sentido comum, verdades não passam de interpretações e preconceitos que articulam esses mesmos fatos. É preciso ter isso em mente. Ora, é preciso ter isso em mente porque a vida de Jarbas era, para ele mesmo, uma ficção. Uma ficção e que ele acreditava fielmente, mas, uma ficção. Em outros termos, uma vida como qualquer outra.

Jarbas gostava de arriscar a vida, para testar a sorte. Mas, testava-a sempre com muita cautela, afinal pensava não ser prudente sobreviver à vida estando em partes. Estava atrás de acontecimentos, mas sempre tomando medidas para que eles não acontecessem. Desse modo, conseguia sempre o feito de ser um antagonista consciente nas próprias ações. Fazia o mesmo quando se tratava de questões sentimentais, com a diferença que a proteção contra os acontecimentos rivalizava belicamente com a vontade de participar dos acontecimentos. Jarbas vivia como uma experiência de si mesmo. Mas, é preciso que se diga, tinha muita sorte e Deus a seu lado.

Escher

Escher

Como a existência é abençoada! – pensava Jarbas. Certa vez, Jarbas começou um namoro porque, ao atravessar uma rua muito movimentada, correu fora da faixa de pedestres e, vendo que os carros pararam e ficaram no aguardo de sua travessia, fingiu ser um robô e repetiu o percurso umas duas vezes, até ser atropelado. Quando levantou, percebeu que não havia se machucado gravemente e, sempre de olho em seu estado de graça divina, apenas sorriu e agradeceu o motorista, que ali já não estava. Começou o namoro porque algumas moças viram o acontecido e riam muito, até o atropelamento. Depois, como que socialmente justificado para sentir prazer por sentirem pena dele, fez disso um charme e acabou em relação com Alardina Trambolho. Logo terminaram, afinal um relacionamento precisa ter um bom começo para que dure.

Antes de se encontrar no momento relatado ao início, Jarbas saiu de seu trabalho, com um velho livro contra o peito, e em alguns passos já se ofuscava na multidão de sem-nomes. Parou em algum bar para tomar uma cerveja, de preferência em algum lugar limpo e higienizado – o que, segundo Arbelindo, era uma árdua tarefa. Após isso pensou que era hora de voltar para seu lar. “À caminho do calvário”, pensava rindo-se sem crer muito no que fazia.

Pelo caminho comum, pegaria o metrô na estação Praça da Árvore e iria até São Bento. Ao invés disso, preferiu caminhar uma parte do trajeto. Garoava. Pensou que não se molharia, porque a água rala lhe cobria a face engraçadamente carrancuda e iria vivar vapor, como toda questão de física. Derretendo assim, levemente ébrio com cerveja aguada, embrenhou-se na garoa já espessa em um começo de noite primaveril. Ou seria outono? Talvez verão, mas, não importa. Após sentir as têmporas esquentarem, sofreu um empurrão decorrente de uma quase briga que ocorreu ao seu lado. Não se machucou, mas, acabou caindo em uma poça rasa de lama, enlamaçando-se. Se era razoável a seriedade que seu corpo passava, agora com a cara e roupas sujas, tinha um ar estranho e talvez assustador. Pegou o metrô e desceu na estação que mais lhe aproximava de seu lar.

Chegou à estação São Bento após um tempo curto. Não quis se limpar durante todo esse trajeto, não acreditava muito na sujeira. Apenas queria terminar o calvário. Apesar de calculada apatia, Jarbas inclinava-se cada vez mais a querer conhecer o que as pessoas chamam de fé. Contudo, Jarbas apenas conseguia se aproximar desse âmbito da existência de um modo calculado, não conseguia parar de fazer projeções. Cria tanto na realidade, que toda verdade, por ele entendida como verdade irredutível e empírica, baseava-se na observação. Dessa forma, ele acreditava que não morreria, que não se molharia, enfim, que o mundo acontecia a partir dele. Em uma cidade como São Paulo, crenças metafísicas são comuns, pois é assim que se sustenta o mito da intersubjetividade nas grandes metrópoles.

Goya

Goya

Após caminhar durante dez minutos mais ou menos, Jarbas avistou uma grande Igreja Católica, que ficava na rua de sua casa. Atravessou a rua, com o barro já secando em sua cara, ainda que garoasse. Eram 18h. Saíam da Igreja alguns fiéis: beatas, mulheres submissas, cidadãos de bem, muitos sofredores, dois filósofos, alguns bêbados, algumas crianças obrigadas pelos pais, alguns pais obrigados pelas crianças que estavam entrando na puberdade, alguns velhos que iam aplacar o tédio, e alguns playboys que precisam se confessar regularmente, a fim de manter a conta em dia. Jarbas abraçava o seu velho livro prefiro: Eneida, de Virgílio. Andava tropegamente desviando dessas pessoas. Estava um tanto atordoado. Até que, em um momento de descuido, uma dessas crianças que obrigaram os pais a irem à Igreja empurrou Jarbas e, este achando que não cairia porque só cai quem voa, caiu de cara em seu livro Aeneis ao tropeçar em si mesmo. Jarbas levantou, pegou seu livro que parcialmente se rasgou, arrumou sua roupa suja, tirou o barro do olho, riu para as pessoas a sua volta, e deu um chute nos peitos do quase adolescente que o derrubou. Ao fazer isso, perdeu o equilíbrio e quase caiu novamente.

Seu corpo torceu-se para a direita, segurando o livro com o braço do mesmo lado, e caiu de joelhos. No mesmo movimento, quando foi levantar-se, foi golpeado por um cidadão de bem, e por um playboy com a consciência tranquila. Os bêbados faziam apostas, as mulheres submissas imitavam o que seus esposos cidadãos de bem graciosamente machistas faziam, que era justamente apontar para Jarbas e dizer que o marginal devia apanhar. Os sofredores se apiedavam em seu solipsismo, enquanto os filósofos xingavam os playboys, que também batiam nos filósofos. As crianças ficaram protegidas do agressor que apanhava, e as beatas batiam em Jarbas com seus guarda-chuvas.
A polícia ameaçou a chegar e o público dispersou. Nesse meio tempo, Jarbas foi ajudado por algum anônimo que, no rápido momento aproveitou pra surrupiar algum dinheiro da carteira de Jarbas como pagamento. Ele foi arrastado e largado em um canto parcialmente camuflado, perto de sua casa, em um terreno razoavelmente vazio.

Acordou no outro dia com sol no rosto, sem ninguém a sua volta, ensimesmado e sobre si mesmo, duro da água que secou sobre seu corpo, e da terra a estalar sob seus olhos. Acordou, apertando firme seu crucifixo, pois sabia da importância de Deus caso um dia decidisse por morrer. Sentia que esse era o momento do encontro de sua falta de história com um fim não registrado. Sabia que apenas Virgílio lhe seria testemunha, que após Troia nada mais fazia sentido. Que, após o nascimento do ocidente, tudo jazia para o mesmo lugar, talvez para o nada, ou para alguma divindade. Mas, para pessoas que são sem história, que parcialmente vivem na ficção, esses caminhos sempre serão caminhos alheios. Revirou-se, ainda deitado, para ficar de frente para o sol. Como que em uma revelação mística, teve certeza de sua existência naquele momento… sorriu pra si mesmo, e falou: “nada há no mundo além da necessidade…”.

Piazza del Popolo

Piazza del Popolo

André Luiz Ramalho da Silveira

Memórias do subsolo – revisitado. Fragmento: O desespero da fé.

Memórias do subsolo – Dostoiévski – revisitado
Fragmento: O desespero da fé

O meu problema… Talvez seja uma psicose inerente a memória. É… A memória. Ela nunca descansa, ou talvez seu descansar seja exatamente essa atividade torturante de ser uma constante vigia dos atos humanos. Não sei se penso isso como um problema apenas meu. Explico-me, aos poucos… Independente de se eu quero transparecer ser uma pessoa doente, digna de pena e moído por ressentimento, ou se apenas sou obcecado por mim mesmo e, consequentemente, pela minha doença… Independente disso, sei que sou doente.

No entanto, essa é também uma doença filosófica. Em outros termos, isso é um problema filosófico, pois diz respeito à condição humana, ao nosso ser. Quando a imunidade está baixa, esse problema filosófico insufla-se pelas vias respiratórias e mistura-se a bile negra. A melancolia aterradora, então, nos arrebata neste duplo sentido. A partir disso, por essas linhas tracejadas que testemunham minha desavença com tudo que existe, poderia parecer que eu creio no sofrimento.

A inspiração de São Mateus (Vocazione di san Matteo)

A inspiração de São Mateus (Vocazione di san Matteo)

Antes de pensar sobre a fé, que julgo aqui nessas linhas não ter, apesar de parecer o contrário, ainda é preciso externar outras coisas… Por vezes vejo também, como problema, o fato de que tenho sempre a consciência de que tudo irei suportar. Pode isso nada demais ser, se não fosse o caso de eu também ter a consciência – sim, a consciência…- de que todos sabem que suportariam tudo (e suportam), com um pequeno esforço. É claro que, por mais conservador que eu seja, não consigo ser estoico o suficiente para crer que um desgraçado vítima de tragédias pessoais e políticas, poderia ter, por força de decisão própria, consciência e vontade e poder para mudar a si mesmo e o mundo ao seu entorno. De todo modo, pro resto das pessoas, em que a tragédia constitui-se apenas essa de ter nascido, penso que sim, sempre suportam tudo. Esperança talvez, ou desejos ancorados em ilusões transcendentais, como o amor ou a política, ou a filosofia. Ah, o engajar-se…

Não é isso exatamente algo que eu possa ir contra… aliás, claro que posso, e sou. Qualquer ação é já uma inserção nesse mundo, de modo que assumir a própria ausência é a única opção razoável. Todavia, sei que isso também é uma grande besteira. E, cá de meu subsolo, que quero eu universalizando valores? Acaso alguém viria a ler essas malditas linhas sujas? Acaso alguém leria algo disso, apenas para depois precisar de um banho pra tirar a sujeira fétida que a existência implica? Isto é, alguém, do alto de uma vida ordenada e lindamente burguesa, reconhecer-se-ia num tal lamaçal?

Se isso for assim, a memória fará com que todas as coisas voltem a seus lugares. O império das opiniões, da inteligência comum, essa normalização estrutural do pensamento, é articulado na memória e solidificado, fazendo disso o solo comum do mundo. E a vontade de que isso assim seja, de que o passado idealizado seja o valor supremo, é o que entendo como vontade retroativa… Então… Causa-me uma certa ira essa vontade retroativa que as pessoas despertam, ou melhor, ‘criam’. Sim, pois vontade retroativa não é senão a má-fé nas roupagens de uma hipócrita diplomacia e apaziguamento das diferenças. Assim, as pessoas, falam do sofrimento e o usam para se ‘integrar’ em um grupo social, mesmo que seja o grupo dos solitários… Sim, existem tais grupos. Ou atribuem ao sofrimento uma nobre causa, ou um nobre fim.

Só vejo sentido quando ligo algo ao passado, apenas esse espírito temporal dá sentido, por mais que dele nada se pode falar, a não ser que é. Ele, o passado, não é possibilidade pura, como nós, mas simplesmente algo que é.
A memória é uma espécie de carrasco, atua como açoitador, que no menor vacilar chicoteia o atuante, às vezes chamado de sujeito. Isso mostra bem como o passado é presente. Sim, o que seria da moral sem a memória? A ausência dela poderia talvez nos consentir a abençoada felicidade, aliás, alguns – ou muitos – são agraciados dessa forma. Mas a memória não pode ser definida apenas como algo que ‘lembra’, ou talvez não. O fato é que só existe fato porque nos lembramos das coisas, obviamente.

Contudo, rabisquei acima sobre uma psicose em relação à memória, e isso não foi em vão. A memória é uma grande arma, junto com a consciência, uma grande arma para um suicídio coletivo. Sim, pois ambas são as maiores doenças que assolam as pessoas. (Ou as pessoas são as maiores doenças a assolarem a memória e a consciência?) Lembrar-se das coisas me causa certa, ou melhor, me sinto como uma espécie de louco e estrangeiro no mundo. Não me vejo como um louco sociopata, senão seria possível eu nem estar escrevendo isso, a esta altura da minha vida, com tantos anos de sofrimento… Na verdade sou é covarde para assumir qualquer identidade concreta e acimentada. Prefiro meu enclausuramento nesse subsolo infame, na solidão fria de meus sonhos, do que o contato com o mundo supostamente ordenado e mentiroso.

O problema é que sempre suporto. Se é que um problema isso é, mas eu não me sinto antissocial, não como esses que existem por aí. Sim, esses grupinhos de solitários e poetas e artistas e qualquer coisa, que desejam a solidão e nem boa memória possuem, não são doentes o suficiente. Pode soar engraçado isso, mas não tenho como não crer que são, a maioria, grandes vermes, os quais fazem contribuições ao meu ‘sofrer’. Talvez eu tenha me esquecido de mencionar que vida é dor, sim, a vida é dor. Todos gostam de dizer isso, principalmente os que se dizem sofredores. Neles mesmos atua a tal vontade retroativa, criada por eles; na verdade (se é que se pode falar em verdade) eles só mascaram os atos de si próprios, fazem por si mesmos o esforço de esquecer, anulam em parte a memória.

Alfred Hitchcock

Alfred Hitchcock

Será isso tudo minha fé escusa numa humanidade que cultivo em delírio? Não tenho paciência pra nada, ao bem da verdade. Toma-me muito tempo minhas dores físicas e psicológicas. E ainda tenho que lidar com a consciência dessas dores, com a consciência de que meu fim se aproxima e cuidar para não morrer açoitado pelas minhas memórias. Não sei se estou em desespero. Parece-me que sou nutrido, estranhamente, por esse sofrimento que me consome. A despeito de tudo, não consigo não me jogar frente a meus pares, para que eles vejam a vergonha que sou. Para que eles vejam que é desta carne que eles também são feitos, que partilhamos o mesmo conceito de humanidade, ainda que o veneno que inalamos seja distinto. Minha solidão precisa deles, pois eu sou reflexo da imbecilidade do mundo… Por fim, brilha-me agora essa verdade no canto da consciência, é isso… no fim, minha fé é nesse abismo.

André Luiz Ramalho da Silveira

À meu amigo, Raskólnikov

Do fim do mundo
De quando o tempo ainda não destruiu o ser.

À meu amigo, Raskólnikov¹ [ver nota ao fim da carta]
(Parte I )

Prezado senhor,

Não sei se nosso tempo ainda permite a contação de histórias, isto é, o ato de contar histórias. Mas, meu amigo, sei o quão perigoso é não conta-las. Havia muito tempo que esta carta deveria ter sido escrita. Mas, quem somos nós para saber do tempo das coisas. Ou melhor, do tempo dos eventos. De todo modo, meu caro, não é exatamente um relato que pretendo aqui fazer. A existência é muito pesada para aguentar sozinho seu fado. Não, não estou aqui para dividir o seu fado. Entendo que há cargas que podem ser compartilhadas, pois somos pessoas e temos amigos, famílias, etc. Contudo, falar disso com você seria perda de tempo. Eu quero aqui falar dessa carga intransferível, meu amigo. Essa que, o máximo que podemos fazer é questioná-la, narrar nossa história para amenizar e dar uma beleza maior a esse peso injustificável. Clandestinamente percorro caminhos em direção à eternidade. Mas, você bem sabe o que é ser um abismo em si mesmo, meu caro. Em breve posso tornar-me poeira. Só faremos sentido quando este tempo findar. Que esta carta, então, mantenha a história, e conserve nosso tempo.
Meu caro Rodka – tomo aqui a liberdade de chama-lo tal como era você chamado pelos seus bravos -, esta carta não é um desafio intelectual, tampouco uma narrativa grandiosa sobre uma realidade enfeitada. Escrevo-lhe sim porque, além do fato de eu já externar isso sobre o que eu tenho a lhe dizer, penso que tudo o que está dito aqui é o mesmo que você pensa sobre o mundo.

Picasso - refeição do homem cego

Picasso – refeição do homem cego

 

Não sei muito bem como começar as coisas. Acho que, de certo modo, há uma impotência tão grande para certos seres que qualquer ato de compreensão é uma ousadia contra a divina criação. Teríamos nós o poder de criarmos algo excluindo o arrependimento quase que visceral à ação? Já não me sinto perdido. Escrevo-lhe com uma idade mais avançada da qual tinha você quando aceitou ser preso. Não falarei muito mais sobre esse assunto, apenas penso que sua decisão foi muito além de um mero arrependimento moral, ou mesmo por represálias sociais – num sentido muito amplo, veja bem. Não quero aqui, também, arriscar linhas erradas sobre sua pessoa. Digo isso por pensar ser insustentável para você conseguir cuidar de si próprio e daqueles aos quais se importavam com você. Insustentável porque tudo é insustentável quando a única coisa que temos é a liberdade existencial, de nosso ser.

A fome e o frio não devem se aliar com a liberdade. Ao menos, não é justo que assim seja. Liberdade é a condição para que consigamos cuidar de nós próprios, e a partir disso, cuidar daqueles a quem cultivamos algum apreço. Sei que, apesar de você não admitir, a limitação e o trabalho da prisão fizeram sua vida menos terrível do que aquela antiga vida de jovem pobre compassivo e asperamente inteligente. Gostaria, antes de qualquer coisa, lhe agradecer por ter feito o que fez, meu caro Rodka. É verdade, disse que não falaria mais desse assunto. Todavia, vamos fazer assim, deixarei apenas como pano de fundo. Melhor dizendo, não é possível dizer que os acontecimentos da vida são apenas questões externas à própria existência, pois a despeito dessas questões e eventos serem determinados pela nossa condição enquanto seres humanos, elas determinam nosso acontecer enquanto seres históricos e temporais. Perdão por falar demais sobre essas questões não tão importantes, mas se há alguém que pode entender o valor quase que intrínseco dos pressupostos, é você, caro Rodka.

Ademais, não julgarei suas reações imediatas e posteriores ações ao assassinato. Somente por você ter feito o que fez é que hoje podemos pensar que há uma linha tênue que não se deve ultrapassar, para que ainda continuemos minimamente humanos. Aliás, não apenas isso… pois você continuou humano, mesmo antes do arrependimento – talvez mais antes do que depois. Quero apenas deixar explícita minha compreensão vaga do momento em que você foi acometido pela cólera do abismo. A pobreza, Rodka, a pobreza é o mal do mundo. Não, não… a vontade, o querer… o querer a pobreza material é o mal do mundo. A pobreza enquanto condição existencial é a situação mais reveladora da existência. Desnudar-se e sermos apenas o que somos, nadas ocorrentes na história. Seres que se multiplicam, criando coisas e justificando essas coisas, apenas para fugir do nada. A pobreza é o caminho para a verdade. Mas, note bem, não sou franciscano, nem sou purista, nem ortodoxo, nem conservador, enfim, não sei o que sou. A hipocrisia também é um preço a se pagar pela sobrevivência. Apenas noto que a condição de fuga, dessa estranheza pela perpétua falta de um lar, tanto material quanto existencial, é o nosso chão, nosso fundamento enquanto bípedes que almejam a divindade. Mas, ainda olho… visar o abismo em meio ao nada.

Caravaggio - Narcis

Caravaggio – Narciso

Entendo sua vontade de pular no abismo, sem antes abraçá-lo. A justiça também ocorre por meio da injustiça. A despeito do merecimento ou não merecimento, é complicado nos darmos o direito de decidir sobre a vida de outras pessoas, de tirar outras vidas. Não penso também que você tenha feito isso somente por causa de ou em um estado de desespero. Certamente havia também uma espécie de ato singularizado – ainda que não explícito para você mesmo -, um ato que representaria uma justiça encarnada contra todo o mal do mundo, naquele momento.

Não compreendo – na verdade é óbvio que compreendo, mas digo assim por vício da língua – como as pessoas encaram a própria solidão. Como o encontro consigo mesmo pode ser encarado como algo tão estúpido e artificial? Tudo bem que se fosse um encontro natural também não nos adiantaria. Mas continua sendo estupidez. Não sei se há mesmo escolhas possíveis quando se tem essa vida que temos. Tudo parece ser fruto de uma vontade, uma força irracional. Se tivermos compreensão e coragem para assumi-la, não haverá escolhas. O possível foge da necessidade. No entanto, essa existência gratuita e sem propósito. Diga-me, caro Rodka, qual o porquê de tudo isso? O mesmo ocorre com a morte… Encaram a morte como o próprio fim, mas não encaram a solidão como sendo a si mesmos. Não que eu faça muito diferente, mas isso não é exatamente uma questão de crença. Claro, falo de crença em um sentido de convicção, talvez. Não gosto de convictos, a verdade objetiva é frágil demais pra que se tenha tanto zelo por ela. Não defendo aqui a ausência de sentido pelo absurdo da existência. Mas, é um fato que, ao menos pra nós, nascidos praticamente sem história, tendo como legado o abismo niilista, tendo que assumir a si mesmos como quem assume o mundo, numa roleta russa com a fortuna – talvez por isso sua situação não tenha sido ainda pior, tendo em vista sua “russidade” -, ao menos pra nós nada disso é justificável, tampouco agradável.

Ademais, com o passar desses anos tortos o mundo virou para mim uma espécie de ficção parcial, meu caro Rodka. Sinto-me como se toda sinceridade que tivesse em meu ser se esgotasse nessa relação. Explico-me melhor. Como se, não, não… Na relação comigo mesmo, é como se fosse gasta toda sinceridade de que disponho. Nessa relação e na minha relação com o mundo da arte ou com essa filosofia. Não é que eu minta para os outros, caro Rodka. Mas, o resto do mundo se esvai nesse jogo, uma espécie de abismo que nos absorve e nos condena à completa falta de liberdade. Se a história do tempo for, quer dizer, se a história pertencer mesmo ao tempo, isso não deve ser eterno. Mas, cá entre nós, seria essa história mesmo assim? Tenho medo da eternidade, meu caro. Mas, assim como sobrevivi à morte, sobreviverei à vida.
Para finalizar, por agora… Sei que você não me responderá estas cartas, Rodka, mas, faço questão de enviá-las. Já faz algum tempo que não saio de meu subsolo. Confesso certo alívio ao externar essas palavras para alguém que me compreenderá. Assim que eu puder, enviarei a próxima.

 

Com todo reconhecimento e simpatia,
Alguém ainda sem nome.

 

 

1 – Esta carta pode ser entendida como um fragmento que, somada a outras cartas, constitui ou pode constituir um importante documento de caráter literário e histórico. Estes documentos tratam da relação entre esse desconhecido com Rodion Românovitch Raskólnikov, personagem que escapou da obra ficcional russa de Dostoievski e que se encontra perdido atualmente em várias partes do mundo. Ao que se sabe, estes documentos foram encontrados por Astolfo Cisma dos Santos, residente em uma pequena cidade no estado do Rio Grande do Sul, Brasil. Astolfo, segundo consta em seu depoimento, após a entrega dos documentos às autoridades locais – que pensavam se tratar de documentos codificados que continham informações sobre o tráfico de drogas para os internos da ala psiquiátrica do Hospital da pequena cidade – jurou conhecer o paradeiro de Raskólnikov. Contudo, após algumas horas de incômodos, teria sido liberado com a condição de não falar mais no assunto. Os presentes arquivos encontram-se na Biblioteca Sazonal da Guarda do Ser, em uma cidade próxima a que reside o Sr. Astolfo, e foram traduzidas por um seleto grupo de uma universidade que possui contatos com a tal biblioteca.
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André Luiz Ramalho da Silveira

Astolfo e a superação da metafísica (ou sobre como irritar os leitores)

Astolfo e a superação da metafísica (ou sobre como irritar os leitores)

Libélula

Na rodoviária de uma cidade parcialmente escondida entre outras cidades também parcialmente escondidas por outras cidades – cidades tão invisíveis quanto seus habitantes -, em alguma dessas tardes em que o sol esquece a hora de partir, estava Astolfo Cisma dos Santos. Claro, havia outras pessoas. Sempre há. Também havia libélulas, vivendo como se vivem as libélulas, despertando a fantasia e os mitos que, por vezes, suspendem as pessoas da realidade. Também havia o calor. Contudo, ainda que ele fosse excessivo, a sensação de não pertencimento ao mundo – sentimento acentuado pelo local transitório em que estava -, não se eliminava com o suor.

(Essa impressão de ser jogado em meio a um vazio completo, que vem de sobressalto e faz todos os projetos ruírem, não se assemelha com o desespero concernente a alguma tragédia. Não está em questão se essa impressão é ou não agradável, pois essa impressão de mundo não é apenas um atributo psicológico. Se de fato for algo que diga respeito à relação de todo ser humano com o mundo, de uma identidade própria e de como se dá o reconhecimento na alteridade, essa cisão com o mundo só é possível de ser interpretada psicologicamente porque ela tem sua origem na constituição mais própria do ser humano. Explico-me melhor. Essa cisão revelada pela angústia mostra que o ser humano é um nada jogado em um mundo que ele não dá conta, e que é preciso assumir promissórias das quais ele não foi o responsável por criar. Por vezes, esse estranhamento tira a pessoa de órbita e todo o significado de seu mundo entra em colapso. O mais incrível não é exatamente que isso seja assim, mas, o extraordinário é justamente como sempre o ser humano consegue, ainda que quebrado no tempo, recomeçar a partir do nada a reconstruir sua identidade. Isso ocorre em todos os âmbitos da existência. Não porque a realidade é exatamente dessa forma, ou possível de ser descrita assim, tampouco porque seja uma ilusão. Em verdade, o mundo que compartilhamos é uma nuvem mantida impessoalmente e que, na maioria das vezes, é deixada de ser interpretada pela maioria de nós. Mas, ainda somos homens de bem. Tudo retorna ao seu lugar).

Van Gogh - Jardim de Inverno (desenho a lápis e pena, 1884).

Astolfo não iria embarcar em quaisquer daqueles ônibus, nem em qualquer outro veículo. Voltaria pra casa do mesmo modo em que chegou naquele local, levado pelos próprios pés. “Os caminhos são mais importantes do que nossa vontade” – dizia. Estava de chinelos, bermuda e camiseta. Usava também um chapéu – a contragosto, vale dizer, mas, na guerra contra o calor, usa-se as armas disponíveis. Havia atravessado parte da cidade, nessa sua caminhada. Ele andava rápido e olhava pra frente, como se precisasse vencer um inimigo. Passava quadras a fio, contava os próprios passos, e se confundia entre ações e pensamentos. Apenas algo de fixo em seus pensamentos: livrar-se do veneno.

Essa visceral e destrutiva sensação de que as possibilidades não vividas podem estar sendo vividas por outras pessoas. Essa estranha sensação de que outras pessoas podem viver na sombra de nossas vidas, com as pessoas que deixamos em algum ponto no passado. Nesse rastro que deixamos pra trás e que, em algum momento passado, por algum motivo, deixamos de encarar. Além disso, não apenas o abismo de não poder se projetar para o passado, e a consequente agonia disso, mas, a sensação de ser corroído por querer o que não pode ser (no sentido forte da palavra). Em estalos de razão, em meio à quase insanidade, pensava – a paixão pelo ressentimento: o fundamento da civilização –.

Não há muitos meios para se livrar disso. Contudo, pensava, um deles certamente é a exaustão de si mesmo. Destruir tudo, até que o sentimento cujo ressentimento é devedor seja aniquilado. E assim fazia. Caminhava, quando tinha pernas. Trepava, quando tinha companheira. Corria, quando tinha fôlego. Bebia, quando tinha dinheiro. Morria, quando existia demais. Nesse dia, apenas caminhava.

Astolfo, o gladiador. É preciso sofrer pela verdade, disseram os vários poetas, filósofos, religiosos e toda uma corja de pensadores. Há de se notar, caros leitores, por conseguinte, que a vida para muitas pessoas é sofrimento, mas, também, e por isso mesmo, é a verdade. “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”, dizia aquele poeta que dizia ser nada. Apenas acho que ele ignorou que o peso da pena é demasiado, algumas vezes.

Paremos com a enrolação. Isso já é metafísica. Mas, falando em metafísica, qual seria metafísica que assolava o nosso desiquilibrado herói? Se me permitem prosseguir o relato – se não me permitem, apenas parem a leitura –, em breve chegaremos a algum lugar.

Caminhava reticente, ainda que implacável. O inimigo era forte, um monstro, vale dizer. Era preciso criar condições adequadas para fazer com que esse mal aparecesse. Astolfo não era exatamente um atleta, de modo que não era preciso caminhar distâncias imensas pra fazer o corpo falar. Ao final de alguma distância, mais especificamente quando chegou à rodoviária, sentiu que com o suor havia saído um pouco de sua irritação e, assim, pode confrontar melhor a metafísica. Mas, não é uma batalha intelectual, apenas. Esta sombra que domina a civilização desde seu início é o que nos torna humanos. Mas, mais do que essa própria sombra constituir-se como uma das características fundamentais de nossa condição humana, o embate contra ela própria é o que o põe o ser humano à prova.

Claro que ele sentia-se assim, afinal é algo que todas as pessoas podem sentir, basta um pouco de tórrida solidão. Mas, não se enganem. Não se trata de vencer a moral de escravo, do chamado ressentimento nietzschiano. Claro, trata-se, em parte, de ter força suficiente para sustentar os próprios valores. Contudo, para nosso herói a situação não era exatamente como julgava o filósofo alemão, como veremos.

Sentou-se em uma mureta de meia altura, que em parte era abraçada pela sombra das árvores e, em parte, pelo concreto. Pediu um cigarro a alguém que passava. Fumou o cigarro. Após isso, compreendeu ser o momento de enfrentar seu inimigo. Enfrentar a si mesmo. Começava, assim, o diálogo interno:

– Ressentimento… você de volta a assombrar meus dias!?

– Não, caro Astolfo. Você é quem assombra os meus. Deixe-me continuar com a banalidade enfática e nutrir-me de seus sentimentos de desacontecimentos, que eu continuarei a lhe proporcionar a conexão com o resto do mundo.

– Mas, do que se trata, afinal? Já te venci outras vezes, te exauri como esse suor que me nubla o rosto… Por que esse abismo que nunca cessa? – replicou Astolfo.

– Esse abismo é você, Astolfo. É você e todos. Agora, quem lhe pergunta sou eu, vale a pena sofrer assim pela verdade? – perguntou o ressentimento.

– Não confunda as coisas. Já não é a primeira vez que nos enfrentamos, meu amigo. Sei que não basta fazer uma distinção conceitual para me livrar de ti. E que, enquanto eu existir, existirá o abismo e, por todo o lado, estará você.

– Vejo que você aprendeu algumas lições, nobre gladiador. Os lugares estão nas suas coisas. Mas, você não me respondeu. Vale a pena sofrer pela verdade? Por que não és hipócrita como toda a gente deste mundo?

Astolfo, que falava arqueado e ofegante, ao ouvir isso gargalhou sozinho. – Você era melhor, ressentimento. Ao menos mais esperto. Eu sei o que é ser hipócrita, porque, assim como de você, a hipocrisia é outra das incríveis qualidades humanas que é impossível de se purgar. Aliás, me ocorreu agora, a hipocrisia não teria sido originada quando você, ressentimento, foi olhado por alguém no espelho do mundo pela primeira vez? Enfim… não se trata apenas de verdade. Não quero saber da verdade. E se fosse o caso de sofrer pela verdade, eu não precisaria saber antes dessa verdade, para depois sofrer? – falava rindo.

– Tens razão, gladiador. A hipocrisia é uma de minhas consequências mais adoráveis. A mentira e a verdade, duas das ilusões ocidentais que mais me excita. Toda essa quase infinita fonte de tortura a minha inteira disposição. Você sabe disso. A questão é, que diferença isso faz? Você é só mais um insano solitário. Pensa que poderia fazer uma revolução em favor dos oprimidos pelo ressentimento? Você crê demais na humanidade, meu jovem. – Arfava com tirania o Ressentimento.

– Sei que não é possível me livrar permanentemente de você. Até porque você é parte de mim, de tudo que sou e de tudo que sinto. Uma parte terrível, é verdade, mas ainda assim é parte de mim. Te exasperei várias vezes, e farei quantas for preciso. Meu desprezo aos ressentidos – tanto os que acham que não são ressentidos quanto os que pensam ser e, assim, sentem-se justificados em agir como cretinos românticos – é maior do que o que eu tenho por você. Jamais me tornarei um desses idiotas, na defesa hipócrita de qualquer ideia apenas para fugir de si mesmo, do próprio abismo… é tudo tirania. – Nesse momento, Astolfo gritava mentalmente e gesticulava como um louco, mas de um modo muito caricato. – E mais, não sofro pela verdade, nobre ressentimento. Causam-me úlcera a estupidez e a incoerência de cada sujeito existente nessa merda de mundo. Bando de cretinos que defendem o amor, como se isso pudesse nos salvar da danação de existir! – Gritava em cólera, o gladiador; estava de pé e gesticulava sozinho. Após isso, ficou em silêncio em torno de um minuto, respirando fundo e tentando e acalmar. Continuou, agora pensando mais baixo. – Claro, de fato o amor pode nos salvar da danação, para quem com isso é verdadeiramente agraciado. Mas, isso ocorre mesmo? É um tiro no escuro, meu amigo… Ódio é o que sinto por tudo isso, mas, também, odeio o fato sentir ódio. Tudo se anula. E sinto que só não o abracei ainda porque mantenho em mim um amor misterioso, que não consigo justificar e tampouco me desfazer. Não gosto disso, não gosto de esperança… isso só causa-me dor e tédio, como já dizia aquele alemão – Astolfo se referia ao filósofo alemão Arthur Schopenhauer -. Só consigo pensar que o caminho para o nada é a exasperação de toda posição. Nada vence o nada, meu amigo. Agora me deixe um pouco em paz, que já estou muito cansado. – Completava Astolfo, completamente exausto, estirado em um banco.

Libélula gigante - fóssil

Para não perder o hábito, Astolfo rascunhou esse diálogo em algumas linhas. Fez também para lembrar-se de como se enfrenta esse inimigo impiedoso. Não é sempre que se ganha. Ou melhor, não é sempre que se perde. Ficou mais uma hora naquele local, parado e em estado de êxtase, observando as libélulas formarem aquela imagem surreal, que mais parecia um portal para algum mundo diferente. Um mundo de fantasia, que somente os seres humanos conseguem visualizar. Não por alguma elevação espiritual, mas sim porque somente os seres humanos são cindidos. No fim das contas, apenas permanecem as ideias e as libélulas.

André Luiz Ramalho da Silveira