Do amor – do resíduo

Manifesto contra a ditadura da felicidade III

Irás desvencilhar-te de toda imundícia
Que do embuste nutre todo o bem estar.
Não se trata de felicidade, essa indomável sordícia,
Mas sim da injustificável manutenção do próprio ensimesmar.

Testo minha alma, estabeleço as condições,
Degusto o fracasso, queimo meu espírito no logro das tradições.
Perdi a vida, pedaço a pedaço, desculpa a desculpa.
Alimento o corpo com os motivos da alma, já fraca, sem polpa.

Algum prazer haverá no destinado sono.
Eternidade é a mácula impregnada no egoísmo
Imbricado em cada esforço por uma salvação justificada no auto-engano.

E tudo o que desejas é gostar daquilo que tem e pode ter.
Concebe-te como livre para escolher a carência,
Mas é pela carência que foge tua liberdade. O mundo brada tua aurora autêntica, pífia existência.

André Luiz Ramalho da Silveira

Manifesto contra a ditadura da felicidade II

Sem repensar o passado, não há futuro que se desdobre livre da mácula do fanatismo.
Sem ver o reflexo da razão e escutar os ecos abstratos da tortura e mortificação,
Não há a possibilidade de transcender o abjeto moralismo,
Que permeia a estúpida crença na felicidade desnuda de qualquer pressuposição.

Tal como expôs Andrei Tarkovski, o grande poeta cinematográfico,
A flexibilidade e a fraqueza são qualidades da vivacidade do ser,
Ao passo que a dureza e a força são atributos da morte, conjugadas com a supremacia da ontologia do “físico”.
Liberdade e verdade estão além da ditadura implacável do “você pode ser”.

“Anestesie-me, instituição pútrida.
Roubem meu espírito e firam minha liberdade.
Conservo em mim todos os defeitos ignorados por qualquer santidade.

A solidão nos dá a mão para moldar o tempo na repulsa dessa vida sofrida.
Mas não se enganem neófitos juvenis e anarquistas, não é apenas com o próprio sangue que se faz a liberdade.
A beleza da infelicidade está na autonomia única de ser alheio a qualquer tipo de santidade”.

André Luiz Ramalho da Silveira

Manifesto contra a ditadura da felicidade I

O desencanto é o abrigo dos esquecidos e sustenta um céu que simboliza
A presença quase invisível entre os pares da quase nula diferença.
Trago a vida, ao tragar um sonho, num trago para brindar os entristecidos.
Quando a solidão é contada, já não é mais escravidão… assim serve-se a crença.

Bicam a alma aos poucos, para que possamos olhar os pedaços.
Os ventos acordam e a lua acalenta… e a hecatombe não se desdobra
Nos fatos. Nada acontece. “É loucura!”, diz a cabeça turva sem ver os próprios estilhaços.
E caminham em seus ciclos doentios negando o que querem. O resíduo atribui sentido a sobra.

Não há porque se importar com algo além da própria felicidade.
Não há porque existir sem essa liberdade dos atos.
Para todo erro, haverá um remédio. Um brinde a clínica da superficialidade!

Sob esse céu, as pessoas pensam com a bílis estragada, com a publicidade
Da qual se nutre o ressentimento. Não há liberdade dentro disso.
A verdade surge no colapso dessas orações ao amor ofendido da mediocridade.

André Luiz Ramalho da Silveira

Primavera lunar

Lembro-me de lições e adequações,
Dessas lições que só o verão pode ensinar ao inverno,
E que só depois da dura solidão do conjunto das estações,
Pode-se saber da liberdade como o manter-se na incompletude de qualquer destino.

Eu preciso de mais, mas nada do que tenho importa.
Despidos de crenças, somos todos iguais, perante a morte.
Então, todo afirmar-se é sobrepor-se à força da alteridade inerte.
A individualidade compartilhada é uma hierarquia de hipocrisias sem volta.

A poesia nos ensina ir ao mar, não a amar.
Depois de ir ao mar, não há como tirar o sal do próprio ar.
Inapto ao ar, ao mar, ao amar.

O mundo torna-se adulto, planos fracionados e redirecionados sob a luz do sol.
Mas ao menos a lua ainda segue seu ciclo, nos permitindo,
Ser um espelho de sua sombra, de sua sobra, de seu amor não correspondido ao sol.

André Luiz Ramalho da Silveira

Pintura de alguém

Você pinta as sombras
Com as vagas sobras
De todas as suas fracassadas obras
Pois não há como sumir apenas fechando as pálpebras.

O vento bate, mas não parece haver algo
Para apará-lo.
Não existe mundo, não mais, só um reles estrago.
Subsiste apenas a memória, com o dever de escravizá-lo.

Não existe sobra sem sombra.
Mas sobra a sombra dessa relação, como refém
D’um sonho em que se discerne algum ninguém dessa penumbra.

Suas sombras pintadas florescem como ideias
E as paredes como prisões que acalentam a miséria dos que não dormem
Como os que existem em pares que seguem o jogo das facetas marcadas e estragadas.

André Luiz Ramalho da Silveira

O mausoléu

Se ao menos o céu
Estivesse ao nosso alcance,
Servir-nos-ia as nuvens como mausoléu.
Mas da verdade alçada no flechar, alcançável nos é apenas uma nuance.

Não se supera a algazarra triunfante com outros berros mais,
Alarme, alarido, perfídia desmedida.
Diferença de grau é sempre diferença de grau. É preciso mais.
Suspender o resíduo do mundo e encontrar a própria medida.

O descontentamento acompanha todas as incursões.
Depois do colapso da identidade, não é possível ser o mesmo.
À parte disso, a existência continua longe, no alheio terreno das ilusões.

Arrebentar o céu e não ter forças para suportar a falta de ar,
De nada adianta. Mas sempre há um idiota para doar
Algum arfar.

André Luiz Ramalho da Silveira

Soneto para Aarmond – III

Num horizonte estrépito o tédio move o discurso.
Sou patético e vagabundo, deveras desajeitado,
Para a conformidade esclerosada,
Dessa prosa funesta.

O outro é morto.
O outro é quem
Morre, como outro,
Quem é morto.

Corra para longe
E viva sua vida
Sazonal e medíocre.

Agora é hora de procurar abrigo.
Ninguém há de encontrar peixes nesse exíguo
Mundo sem fronteiras. Um paralelo em desuso.

André Luiz Ramalho da Silveira