Do amor – do resíduo

Um domingo

Um domingo

Queria dizer sem precisar falar,
Sem precisar precisar.
Sem nada, apenas nada… e acabo por nadificar.
Uma linha, um sorriso, um errar.

Os acontecimentos desenham fugas,
Apenas encontro um desaser.
Desacontecer, um pesado parar, um pesado ser.
A leveza é o passado, a narração das rugas.

Acontecimentos são grandes vazios,
Que verbalizamos, como sujeitos,
Como se fôssemos sujeitos, vazios.

Queria querer, sem que isso me consumisse.
Queria morrer, sem que isso me matasse.
Queria viver, sem que isso me fizesse viver.

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André Luiz Ramalho da Silveira

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A escada

A escada

A cada palavra dita,
Um turbilhão de contradições
Vem-me numa ressaca maldita.
E, nela, cumpro minhas inações.

Descolei-me do andar e,
Do andar, me atirei.
Atiraram-me ao andar e,
No andar, sem chegar a qualquer lugar fiquei.

Parado, fui encontrar o nada
E dei de cara com o tédio
Ao impedir que o tempo me jogue uma escada.

De volta ao tempo, fudido e sem dinheiro,
Encontrei párias que amavam a vida e a conheciam pelo cheiro.
Derrubei a escada e abracei novamente as contradições de meu ser arredio.

André Luiz Ramalho da Silveira

No estribilho da balbúrdia

No estribilho da balbúrdia

Corte a linha, ande em círculos.
O sorriso das lâmpadas amarelas
Dão a medida daquele egoismozinho estampado nas lapelas,
Tão saudável a boa moral de nossos falos.

Sento-me numa dessas esquinas postas em bancos
Martirizados pelas pessoas que não deixam
As sombras taparem o sol com seus flancos.
Mas a verdade é que no espetáculo, todos a ele se queixam.

Minha linda, a liberdade é algo muito bonito
Quando a gente pensa nela como uma coisa
Pra ser usada sobre outra pessoa ou sobre outra coisa.

Mas essa boçalidadezinha chamada ser humano
Tão esplendorosamente altiva dentro de toda essa pequenez,
Quer mais é esquecer da própria miséria e comprar o sol no próximo ano.

André Luiz Ramalho da Silveira

Finitude e boa ventura

Finitude e boa ventura

Deixar a si mesmo… Despossuir o mundo do ser…
Deixar de ser… Na valentia de ser o próprio abismo…
A si mesmo… O vazio perdurará, na triunfante música do não-ser…
Deixar ser… Aquilo que só o tempo molda, ao esmo…

Na conformação… A forja das substâncias é a ilusão da eterna lisura.
No conforto da boa ventura… Em que a identidade é a justa dissimulação.
Regem um mundo nos atos da postura… Para a verdade enclausurarem na ação.
Reclamam dos ventos da negação… Mas os gritos ainda são pelos privilégios da escritura.

Caminhe na corda, amigo. O descolamento de si é o fundamento da
Se abandone no tempo. Democracia… O deslocamento do presente é a liberdade posta em firmamento.
A verdade é o tempo nos deixando ser… No completo inacabamento.

Inimigos da vida. Não nós, guerreiros silenciosos das cicatrizes esquecidas.
Necrolátricos vestidos de querubins. Líderes ferinos e falsários de mentes incandescidas.
Essa é a tentação primeira da existência, desde que o tempo nos fez gente.

André Luiz Ramalho da Silveira

Amor e Tremor

Amor e Tremor

Dar-lhe-ia qualquer estrela que, pela mão, condenam-me à sua orientação,
Na pesca oferecer-lhe-ia as águas ainda não tragadas de minha nutrição,
Nos sonhos, conceder-lhe-ia o voo para além da negação.
Mas tudo que posso é compartilhar a sabedoria do abismo de minha desorientação.

Entre tantas mentiras e violações, só resta-me permanecer na inação.
Confundem-te e injuriam-te, julgam-te e moldam-te… nos olhos encerram a adequação.
Não te preocupa, permanecerei calado e velado enquanto o mundo segue mudo na ação.
Se a coragem falta-me para qualquer fazer, ausenta-se ao resto a dignidade em aceitar a própria absorção,

Na herdada tradição, que tanto viola a liberdade como condição.
Só o tempo rompe com a exatidão da calcificação
E dissipa a má-fé de nosso coração… mas isso é pura fantasia plasmada de interjeição.

Às vezes quero me destruir, implodir as possibilidades… mas sigo nessa imolação.
Se a linha do céu eu perdi e uso das sombras pra do meu reflexo esquivar-me, é por consternação.
Sigo sem porque, mas é melhor seguir. Venha incompleta para mim, só assim saberás o que é a perdição.

André Luiz Ramalho da Silveira

Uma fortaleza, um abismo

Eu quebraria tudo, romperia com o mundo, voltaria para minha fortaleza.
Mas seria apenas mais uma embriaguez…
Permanecer na cisão nem sempre significa ter clareza
Dos pressupostos que nos derrubam mais uma vez…

O sangue ferve e o coração explode toda verve doentia
De quem foi esculpido para observar
O mundo por si mesmo, de si mesmo, numa vida vadia sem serventia.
A solidão não é escolha, sonhar não é amar.

Mas amigo, como julgar o mundo se não por si mesmo?
Como não transpor a negatividade individual para o universal?
Como abdicar do próprio mundo a fim de sobreviver, sem absorver-se no próprio abismo?

Não há pranto que sature a finitude da condição humana.
Não há canto que, em momentos escusos, acalente o lombo fatigado.
Simples e ridículo. Só resta-nos a liberdade, como um consequente imbróglio que a existência afana.

André Luiz Ramalho da Silveira

Do quase ser ao não ser

Componho-me como coadjuvante no acontecer desse insólito existir.
No esvaecer de mais um acordar, desfaço o acordo com o ser.
Deixo pra lá a vida, sigo e fito a perdição em mais um persistir.
Não há como continuar, mas também não havia como nascer.

Qual individualidade buscaria alguém que não é sujeito nos acontecimentos?
A ausência e a solidão são correlatos fenomenológicos.
Mas o percurso será sempre o mesmo, para quem da vida desfruta os fragmentos.
Sou quase apenas memória, mas já não lembro como sou. Sedutores são os alaridos órficos.

Reconheço-me apenas quando encontro-me no movimento de fuga.
Absorvido e perdido nos testemunhos alheios,
Sigo sob o signo da presciência onírica que a todo particular subjuga.

E quando cinzas minhas partirem, que ao mar o sal as encontre.
Sinto-me inapto a viver na falta de amor desse terno inferno normalizador.
Mas você sabe, sempre soube… talvez ao fim no exterior me enclaustre.

André Luiz Ramalho da Silveira