Ensaio sobre a memória e o esquecimento

A memória viva é a história das possibilidades. Seria prudente, nesse caso, falar de uma memória morta? É preciso distinguir entre memória viva enquanto uma ação projetiva no mundo, ainda que esta recaia sobre a dimensão existencial do passado mantido no presente, do esquecimento, da memória morta como apenas um entulho cristalizado na dimensão do passado, residindo apenas no passado. O esquecimento, por sua vez, não é memória morta, mas é memória ativa inconsciente assentada sobre o presente e sobre o futuro, ambos compreendidos sem qualquer fundamentação teoria ou prática, ainda que possuam uma lógica interna que o tornam possíveis.

Rememorar o mundo é trazer para o agora aquilo que foi vivido, trazer para a nossa historicidade o legado que nos envolve, para assim o apreendermos. Mundo, como o habitar e como a síntese global daquilo que nos torna finitos, mundo como aquilo ao qual é em função do que somos. Aquele espaço de transcendência para o qual nos projetamos e nos tornamos, tanto individualmente quanto coletivamente, aquilo que somos. Mundo não entendido como apenas a soma de tudo o que é, como uma classificação estrangeira ao que nós somos. Neste sentido, trazer novamente para nós a possibilidade de outrora é recuperar a possibilidade da ação a partir do pensar que apropria e destrói aquilo que um dia foi vigente.

Recuperar a possibilidade que um dia não escolhemos é impossível. Por outro lado, é possível – e necessário para uma compreensão mais autêntica de si mesmo -, colocar os erros para tomar um banho de sol. Não apenas os erros, mas todas as experiências traumáticas e trágicas – que são as únicas que importam, quando o assunto é ruptura e correção. O mesmo ocorre na experiência do luto, uma vez que estruturalmente a memória conserva no presente aquele que partiu, e precisamos conviver de diferentes modos com a falta. A falta não necessariamente de uma pessoa, mas também de um mundo, aquela falta que quando ocorre nós perdemos a nós mesmos, para depois termos que nos reinventar. Se mundo fosse apenas uma coleção de unidades ou conjuntos, essas mesmas perdas poderiam ser simplesmente substituíveis.

A memória viva como o elemento que perfaz a projeção para o futuro é o que tira do ocultamento a sombra do totalitarismo. Somente a partir do desvelamento desse fenômeno é que se torna possível vê-lo em seu esgueirar-se modorrento em cada discurso e comportamento. Como contrapartida a isso, se tem o esquecimento.

Não me refiro ao esquecimento trivial, como a ausência de determinada lembrança. Mas si ao esquecimento que está na base das posições dogmáticas. O esquecimento que impede a dúvida por implodir as possibilidades e manter junto a si apenas uma certeza. O esquecimento, nessa acepção, concerne a imposição de uma nova significação e compreensão de vida e de totalidade dentro do mundo. Isso, por sua vez, significa impor uma nova visão de mundo a partir da falta da memória ativa que salvaguarda o pensamento. Com a destruição do flanco defensivo da memória, o esquecimento contamina como vírus o mundo das opiniões.

O esquecimento como memória ativa, porquanto inconsciente de si e do mundo, consuma-se como o maior perigo para o ser humano, tendo em vista que é a partir desse fato que colapsos podem ser justificados. Justificados, sim, pois a partir da falta de um mínimo fundamento, não segue simplesmente que essas posições não teriam alguma lógica interna. O fato é que posições dogmáticas preservam-se na história humana com justificativas atrozes, mas preservam-se, atingindo toda estrutura de poder possível. O perigo do totalitarismo, dos odores do nazi-fascismo, repousa naquilo que os tornaram possíveis. Sim, sempre a possibilidade. A certeza ancorada em dogmas é a arma fatal dos que se propõem como destruidores de mundo.

O grande problema nesse talvez não diga respeito apenas aos humanos passivos que são engolidos pelo ressentimento, que se tornam os grandes protagonistas de histórias destrutivas. O problema também se ancora a todas as forças que referendam essas atitudes, por vezes mantidas por pessoas mais razoáveis. Essas forças, políticas e intelectuais, por covardia de manter a memória ativa e encarar aquilo mesmo que propunham, abrem mais uma vez o abismo da falta de orientação para qualquer coisa que venha a ser chamada de verdade.

A memória ativa como história das possibilidades é quem possibilita, para aqueles com coragem, a revisitação a si mesmo e a compreensão de que a sombra da besta pode ser a sombra de cada um. Somente a partir do desvelamento da sombra da besta pode o tempo conjurar uma história que nos liberte do terror.

André Luiz Ramalho da Silveira

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