Memórias do subsolo – revisitado. Fragmento: O desespero da fé.

Memórias do subsolo – Dostoiévski – revisitado
Fragmento: O desespero da fé

O meu problema… Talvez seja uma psicose inerente a memória. É… A memória. Ela nunca descansa, ou talvez seu descansar seja exatamente essa atividade torturante de ser uma constante vigia dos atos humanos. Não sei se penso isso como um problema apenas meu. Explico-me, aos poucos… Independente de se eu quero transparecer ser uma pessoa doente, digna de pena e moído por ressentimento, ou se apenas sou obcecado por mim mesmo e, consequentemente, pela minha doença… Independente disso, sei que sou doente.

No entanto, essa é também uma doença filosófica. Em outros termos, isso é um problema filosófico, pois diz respeito à condição humana, ao nosso ser. Quando a imunidade está baixa, esse problema filosófico insufla-se pelas vias respiratórias e mistura-se a bile negra. A melancolia aterradora, então, nos arrebata neste duplo sentido. A partir disso, por essas linhas tracejadas que testemunham minha desavença com tudo que existe, poderia parecer que eu creio no sofrimento.

A inspiração de São Mateus (Vocazione di san Matteo)

A inspiração de São Mateus (Vocazione di san Matteo)

Antes de pensar sobre a fé, que julgo aqui nessas linhas não ter, apesar de parecer o contrário, ainda é preciso externar outras coisas… Por vezes vejo também, como problema, o fato de que tenho sempre a consciência de que tudo irei suportar. Pode isso nada demais ser, se não fosse o caso de eu também ter a consciência – sim, a consciência…- de que todos sabem que suportariam tudo (e suportam), com um pequeno esforço. É claro que, por mais conservador que eu seja, não consigo ser estoico o suficiente para crer que um desgraçado vítima de tragédias pessoais e políticas, poderia ter, por força de decisão própria, consciência e vontade e poder para mudar a si mesmo e o mundo ao seu entorno. De todo modo, pro resto das pessoas, em que a tragédia constitui-se apenas essa de ter nascido, penso que sim, sempre suportam tudo. Esperança talvez, ou desejos ancorados em ilusões transcendentais, como o amor ou a política, ou a filosofia. Ah, o engajar-se…

Não é isso exatamente algo que eu possa ir contra… aliás, claro que posso, e sou. Qualquer ação é já uma inserção nesse mundo, de modo que assumir a própria ausência é a única opção razoável. Todavia, sei que isso também é uma grande besteira. E, cá de meu subsolo, que quero eu universalizando valores? Acaso alguém viria a ler essas malditas linhas sujas? Acaso alguém leria algo disso, apenas para depois precisar de um banho pra tirar a sujeira fétida que a existência implica? Isto é, alguém, do alto de uma vida ordenada e lindamente burguesa, reconhecer-se-ia num tal lamaçal?

Se isso for assim, a memória fará com que todas as coisas voltem a seus lugares. O império das opiniões, da inteligência comum, essa normalização estrutural do pensamento, é articulado na memória e solidificado, fazendo disso o solo comum do mundo. E a vontade de que isso assim seja, de que o passado idealizado seja o valor supremo, é o que entendo como vontade retroativa… Então… Causa-me uma certa ira essa vontade retroativa que as pessoas despertam, ou melhor, ‘criam’. Sim, pois vontade retroativa não é senão a má-fé nas roupagens de uma hipócrita diplomacia e apaziguamento das diferenças. Assim, as pessoas, falam do sofrimento e o usam para se ‘integrar’ em um grupo social, mesmo que seja o grupo dos solitários… Sim, existem tais grupos. Ou atribuem ao sofrimento uma nobre causa, ou um nobre fim.

Só vejo sentido quando ligo algo ao passado, apenas esse espírito temporal dá sentido, por mais que dele nada se pode falar, a não ser que é. Ele, o passado, não é possibilidade pura, como nós, mas simplesmente algo que é.
A memória é uma espécie de carrasco, atua como açoitador, que no menor vacilar chicoteia o atuante, às vezes chamado de sujeito. Isso mostra bem como o passado é presente. Sim, o que seria da moral sem a memória? A ausência dela poderia talvez nos consentir a abençoada felicidade, aliás, alguns – ou muitos – são agraciados dessa forma. Mas a memória não pode ser definida apenas como algo que ‘lembra’, ou talvez não. O fato é que só existe fato porque nos lembramos das coisas, obviamente.

Contudo, rabisquei acima sobre uma psicose em relação à memória, e isso não foi em vão. A memória é uma grande arma, junto com a consciência, uma grande arma para um suicídio coletivo. Sim, pois ambas são as maiores doenças que assolam as pessoas. (Ou as pessoas são as maiores doenças a assolarem a memória e a consciência?) Lembrar-se das coisas me causa certa, ou melhor, me sinto como uma espécie de louco e estrangeiro no mundo. Não me vejo como um louco sociopata, senão seria possível eu nem estar escrevendo isso, a esta altura da minha vida, com tantos anos de sofrimento… Na verdade sou é covarde para assumir qualquer identidade concreta e acimentada. Prefiro meu enclausuramento nesse subsolo infame, na solidão fria de meus sonhos, do que o contato com o mundo supostamente ordenado e mentiroso.

O problema é que sempre suporto. Se é que um problema isso é, mas eu não me sinto antissocial, não como esses que existem por aí. Sim, esses grupinhos de solitários e poetas e artistas e qualquer coisa, que desejam a solidão e nem boa memória possuem, não são doentes o suficiente. Pode soar engraçado isso, mas não tenho como não crer que são, a maioria, grandes vermes, os quais fazem contribuições ao meu ‘sofrer’. Talvez eu tenha me esquecido de mencionar que vida é dor, sim, a vida é dor. Todos gostam de dizer isso, principalmente os que se dizem sofredores. Neles mesmos atua a tal vontade retroativa, criada por eles; na verdade (se é que se pode falar em verdade) eles só mascaram os atos de si próprios, fazem por si mesmos o esforço de esquecer, anulam em parte a memória.

Alfred Hitchcock

Alfred Hitchcock

Será isso tudo minha fé escusa numa humanidade que cultivo em delírio? Não tenho paciência pra nada, ao bem da verdade. Toma-me muito tempo minhas dores físicas e psicológicas. E ainda tenho que lidar com a consciência dessas dores, com a consciência de que meu fim se aproxima e cuidar para não morrer açoitado pelas minhas memórias. Não sei se estou em desespero. Parece-me que sou nutrido, estranhamente, por esse sofrimento que me consome. A despeito de tudo, não consigo não me jogar frente a meus pares, para que eles vejam a vergonha que sou. Para que eles vejam que é desta carne que eles também são feitos, que partilhamos o mesmo conceito de humanidade, ainda que o veneno que inalamos seja distinto. Minha solidão precisa deles, pois eu sou reflexo da imbecilidade do mundo… Por fim, brilha-me agora essa verdade no canto da consciência, é isso… no fim, minha fé é nesse abismo.

André Luiz Ramalho da Silveira

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s