O coveiro do Jardim dos Sonhos

O coveiro do Jardim dos Sonhos

Em uma cidade nem muito pequena, nem muito grande, no interior de uma federação nem muito grande, nem muito pequena, na região sul do Brasil, vivia um senhor chamado Alessandro Sermani. Nasceu, permaneceu e, possivelmente, morreu. De certo modo, viveu uma vida como qualquer outra pessoa, de qualquer outra cidade. Então, por que contar uma história comum, sem qualquer importância? Não farei malabarismos teóricos para justificar a escolha, caros leitores. Atento apenas ao fato que uma vida por si só não possui qualquer sentido senão àquele projetado e interpretado nessa mesma vida. Por vezes, esse sentido só é compreendido na posteridade por outras pessoas. Há quem exista apenas para a posteridade, ainda que disso não tenha consciência.

Sandman

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Começarei a história pelo começo. Aos seis anos de idade, Alessandro teve seu primeiro contato com a morte. Ao menos, o primeiro que teve grande significado. Seu cachorro Osório morrera envenenado, prestes a completar a primeira década de vida. Na ocasião, seus pais queriam desfazer-se do corpo do cão em algum local deserto, ou algo nesse sentido. Contudo, Alessandro insistiu que Osório fosse enterrado no pátio de sua residência. Depois do cachorro, foram dois gatos e um pássaro, até os dezessete anos. Alessandro enterrava seus animais não apenas com a obsessão justificada pelo luto de manter junto a si alguém que morreu, mas, sobretudo, com o zelo de quem quer preservar uma história. Fazia isso de tal modo que, desde a morte do seu cachorro, adquiriu o hábito de criar convites de enterro de conhecidos e distribuir nos postes de luz de seu bairro. Com o passar dos anos, descobriu que as funerárias locais faziam o mesmo.

Certa feita, um dia estava a passar em frente a um velório. Nunca havia entrado em um velório de gente. Decidiu entrar. Ele completava recém seus quinze anos, e faziam uns 39°C. O local era frio como o morto, para alegria dos vivos. Já dentro do local, apercebeu-se que algo ali lhe agradava. Não era bem um interesse particularmente egoísta, mas uma curiosidade misturada com algum grau de responsabilidade por contar a história daquele que já não mais existia. A partir daí, compareceu a diversos velórios. Preferencialmente de desconhecidos. Nada parecia mais verdadeiro do que a morte e a subsequente história que se conta após isso. Não se sabe se esse estranho gosto deixava Alessandro sombrio, mas o fato é que quanto mais compreendia a existência, mais a solidão aumentava.

Alguns anos após comparecer ao primeiro velório terminou o ensino médio e foi procurar emprego. Nada lhe agradava, não via sentido algum em qualquer trabalho. Mas, precisava de dinheiro, pois sua família não era abastada. Conseguiu alguns trabalhos temporários, até mesmo entrou para o curso de arquitetura na universidade. Gostava das formas. Por falta de dinheiro e interesse em dedicar-se exclusivamente a algo, abandonou o curso e voltou para a casa de seus pais. Conseguiu um trabalho em uma empreiteira, de modo que, ao menos por um tempo, conseguiu manter-se financeiramente. Como era muito ansioso, chegava sempre cansado ao trabalho, pois tinha dificuldade para dormir no horário correto para um trabalhador. Estava prestes a desistir novamente do trabalho, quando aos vinte e cinco anos seu velho e doente pai morreu. Um ano após, sua mãe morreu. Ambos tinham em torno de setenta anos. Escreveu um pequeno livro sobre ambos, que fora sepultado às escondidas no mesmo cemitério.

Com algumas economias e sem qualquer perspectiva de vida, Alessandro só conseguia lamentar-se por não ter sido ele a morrer. Por conseguinte, por alguns meses e enquanto o dinheiro durou, apenas dormia. Era o mais perto da morte que parecia conseguir chegar. Fechava os olhos na esperança de não mais acordar. Mas, era inútil. Se conservar esperanças era sempre ruim, nesse caso lhe era pior ainda. De todo modo, lhe parecia ser a hora de conseguir um novo trabalho. Constatava haver ao menos alguma resiliência no resto de seu ser. Um dia, em meio a essa época de desolação, foi visitar os túmulos de seus pais. Os dois túmulos eram contíguos, separados por cerca de um metro de distância e um esboço de canteiro que insinuava uma ligação entre os túmulos.

Ao chegar ao local, aflorou-se uma impressão que, conjugado a um pensamento que nos últimos dias já vinha se desenvolvendo, trouxe um pouco de calma. Essa impressão permitiu a Alessandro perceber como naquele local tudo existia de um modo intenso. Não em um sentido que apraz aos sentidos. O que aconteceu era que nesse lugar a verdade saltava aos olhos, e fazia qualquer um encontrar-se a si mesmo. As velhas lápides esburacadas pelo vento, as gramíneas que insistiam em nascer naquele local deserto, a necessidade que a humanidade possui de manter lugares para o não ser. Os insetos criando colônias nos cadáveres centenários, os mitos que precediam qualquer história sobre qualquer um dos que ali jaziam. Assim é a existência, penava a pensar Alessandro. O que para a maioria das pessoas era terrível, para Alessandro era tanto uma maneira de conseguir um trabalho quanto de compreender melhor sua vida. Por conseguinte, percebeu que, ao menos provisoriamente, poderia trabalhar naquele local.

Algumas semanas após essa visita, Alessandro começou a trabalhar como coveiro no principal cemitério da cidade. Era necessária uma dedicação quase que integral para o novo trabalho. Contudo, tinha uma liberdade muito grande com relação aos horários. Após alguns meses como coveiro iniciante, passou a residir no cemitério, em cujo interior havia, além dos túmulos, uma pequena construção para quem viesse a ser o coveiro. O atual coveiro estava por se aposentar, de modo que, em menos de um ano, Alessandro já era o coveiro oficial do cemitério Jardim dos Sonhos.

Dave Mckean - King staffs

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Alessandro tinha o hábito de ler e escrever, nas horas em que não estava ocupado diretamente com a morte. Gostava também de saber quem eram as pessoas que lhe eram destinadas. Assim fazia diariamente. Ao longo dos anos foi moldando a arquitetura do cemitério de acordo com a história e os sonhos das pessoas que ali residiam. Preferia pensar que as pessoas entravam ali para sonhar, para fazer justiça ao nome do local. Como sempre se sentiu incapaz de sonhar, instigava-se pelas histórias e projetos de vida das outras pessoas. Isso o tornou um bom contador de histórias, com uma memória muito viva. Dessa forma, sentia-se responsável por proteger o bem maior dessas pessoas, suas histórias, mantê-las vivas de algum modo.

Quando começou a envelhecer, passou a encarar a morte de um modo mais pragmático. Como não possuía muitos amigos e, tampouco, amores, flertava sempre consigo mesmo na terna solidão daquele jardim. Na falta de alguém para cuidar da sua própria história, iniciou os preparativos para um dia ser lembrado, caso alguém o descobrisse.

Nas horas vagas, além de fazer suas anotações fazia também escavações. Para proteger a história de todos e a de si mesmo enquanto o protetor do Jardim dos Sonhos, aos poucos fazia uma cova imensa. Para que coubesse além de si mesmo e de sua própria história, elaborava no seu imaginário uma cova que conservasse todas as histórias e os sonhos daqueles que ali estavam. De fato, todos os dias moldava a terra que, aos tropeços, ganhava forma.

A cova – que mais parecia um santuário esculpido no subterrâneo de sua casa no interior do Jardim dos Sonhos –, ganhou uma forma bruta quando Alessandro estava prestes a completar cinquenta e quatro anos. A partir daí, apenas lapidava os detalhes de sua criação. Juntou todos seus livros e anotações sobre as pessoas que ali moravam e organizou-os dentro da cova. Ela era circular, de modo que no centro havia algo que parecia um quarto, com uma pequena dispensa à esquerda, e nas paredes que faziam o entorno circular estavam depositados as memórias e livros. Após mobiliar o recinto, junto com o vazio proveniente de um projeto pessoal realizado, sentiu, por outro lado, uma paz razoavelmente significativa. Num dos lugares da construção ele havia instalado no improviso algo que se assemelhava a uma claraboia. Por ela, olhou a noite estrelada e clara, acendeu um charuto e repousou naquela noite, como poucas vezes fizera em sua vida.

É difícil saber, caros leitores, se Alessandro ainda vive. Ainda assim, há muitas histórias sobre o paradeiro de sua pessoa. Há quem diga que ele nunca morreu, ou que ele não seja nada além de uma lenda. De todo modo – e talvez mesmo inspirado pelo coveiro Alessandro -, estou apenas contando uma versão de sua história. Dizem que esse é o melhor cemitério da região. O jardim dos Sonhos.

André Luiz Ramalho da Silveira

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1 comentário

  1. Republicou isso em Litoste comentado:
    Um blog vizinho e irmão, que coexiste com o meu desde seus primeiros dias e, agora, decidiu mergulhar de cabeça no universo da prosa. Obrigatório!

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