Astolfo e a diligência

Astolfo e a diligência

“Diligência, meu amigo… diligência é o que precisamos. A sanidade é traiçoeira. Essa é a sabedoria que aprendemos com os velhos, com as crianças, com os bêbados e com os filósofos. Eu, quando são, sou no máximo um velho… mas quando bêbado, me aproximo dos filósofos… não, longe de mim querer ser filósofo… mas, só é possível transcender quando se mata a objetividade… a poesia, o dionisíaco… Aliás, a sabedoria que me refiro é a diligência, não a sanidade. Esta, só com alguma dose de covardia e… outra dose de coragem, pra querer que ela seja um remédio pra falta de sentido do mundo. No mais, diligência pro fígado não matar a memória! Um homem sem memória, meu amigo… um homem sem memória não passa de um elefante sem tromba… e sem memória!”

Dizia um velho bêbado e, talvez, filósofo, na entrada de um bar. Dizia sozinho e repetia essas frases, à espreita de alguém que lhe desse ouvidos. Astolfo, ansioso como sempre, debatia consigo mesmo questões que dizem respeito somente a si mesmo. Questões que talvez nem mesmo existissem. Talvez tenha sido essa a sincronia entre os dois, que simultaneamente miraram-se, como dois espelhos convexos que refletem apenas o exterior. Ensimesmados, viram-se um no outro. Enquanto pouco a pouco o fogo percorria o cigarro amassado, pausadamente o velho ia lhe dissertando, ainda que nesta altura já não houvesse mais cigarro e, talvez, nem mesmo ar para tragá-lo. Astolfo ficou levemente surpreso com as palavras do velho, por também estar com semelhantes pensamentos no momento. De todo modo, preferiu honrar seu espírito não aventureiro e agradeceu ao velho pelas palavras, deu-lhe um cigarro e seguiu o caminho para sua fortaleza. Não sabia se era a melhor escolha, mas há tempos que a racionalidade lhe superava a vontade.

Poderia arrepender-se depois, como sempre fazia, mas era melhor não correr o risco de decepcionar-se. Além disso, também não queria correr o risco de estar em algum lugar que o fizesse sentir-se coagido. No caso de Astolfo, sentir-se coagido era rotina, o que alternava era a intensidade com a qual essa sensação lhe acometia. Havia já algum tempo que lhe vinha à cabeça um pensamento anuviado, desses que rodeiam da nuca à testa, mas que raramente encontram-se na altura do olho. Como aqueles pensamentos em que diante de uma interrogação abrupta, porém passageira, se franze o cenho desapercebidamente. O tal pensamento era de se ele possuía algum tipo de fobia social, algo patológico mesmo. Claro, talvez a maioria das pessoas já tenha pensado algo assim. Mas saber tal de constatação não lhe desanuviava. Indo aos idos, isto é, aos fatos, antes que a nós nos venham eles, o embrutecido Astolfo andava se esgueirando pelas ruas, e sempre a pensar que qualquer outro ser humano pudesse lhe ser uma ameaça em potencial. Quem o encontra pelas ruas talvez não saiba do que aqui escrevo. Mas, é preciso querer olhar para além dos fatos, obviamente. De todo modo, o caso é que Astolfo permanentemente andava em clima de guerra consigo mesmo, não obstante conseguia disfarçar muito bem. Talvez se comportava assim como estratégia de combate, isto é, imaginem se alguém o compreendesse de verdade!? Acho que seria o fim do guerreiro transcendental.

Presumo que ele pensava algo parecido, mas, ainda assim, quem conseguiria manter a sanidade sem cair nas desgraças da relação interpessoal!? Depois da conversa com o velho, ou do monólogo refletido, Astolfo foi para onde estava indo. Foi para sua casa e depois a um encontro amoroso, ou ao menos essa era sua esperança. Conheceu Galiarda – uma judia francesa de sobrenome húngaro (por isso impronunciável aqui) -, após encontra-la algumas vezes num mesmo local (às vezes num bar, outras vezes num café). Galiarda é uma escritora amadora e libertária profissional. Na faixa dos trinta anos, mulher de olhos negros, cabelos castanhos escuros longos, com um aspecto renascentista em suas curvas generosas. Dotada de um corpo bem agraciado pela natureza, podemos dizer. Além disso, havia um ar de intelectual decadente do leste europeu em sua face caucasiana. Por isso mesmo, tinha um charme bem impressionante, ainda que peculiar. Isso já era o suficiente para nosso querido matreiro.

Não sei se ela percebeu esses detalhes no estranho rapaz, mas certamente ela se encantou com sua sutil peculiaridade – sutil, pois, por mais que não pareça, Astolfo sabia se portar como toda gente reprimida e civilizada. Conheceu-a num desses momentos introspectivos, em que ele olhava ao redor do seu copo de cerveja suado pelo calor e via ideias e não pessoas. Claro, isso é uma interpretação que fazia de si mesmo num exercício de lembrar o que pensava em determinado momento. Aliás, tentar rememorar ideias e não fatos era um exercício que fazia com frequência. Apesar da peculiaridade, Astolfo reprimia bem seu ímpeto antissocial. Até porque, ao ir a um bar – ou happy hour, como dizem as pessoas que dizem beber, mas que não bebem -, sabia que de algum modo esperava encontrar alguma companhia. Aliás, é presumível que todas as pessoas que saem esperam encontrar alguma companhia, ainda que isso ocorra em diferentes intensidades. Seguindo a narrativa, num desses dias em que Astolfo estava um pouco mais aéreo do que o comum, Galiarda estava no local e o observou atentamente. Nesse primeiro encontro, ela vestia uma longa saia preta e uma blusa azul marinho em que realçava seus fartos seios, com o cabelo levemente preso e uma franja propositadamente bagunçada. Obviamente, ele a achou deveras interessante, porém, pensava ele, se ele mal era capaz de honrar um encontro previamente combinado, quem dera fosse capaz do feito homérico que é a tal chamada conquista. Na maioria das vezes não tinha a menor disposição para existir, quanto mais para fazer algo. Das forças que Astolfo era devoto, certamente a inércia e a gravidade faziam parte. O fato é que depois de algumas cervejas, os dois foram um ao outro e conversaram. Ela logo estava de saída, então combinaram algo para a próxima semana.

O dia em questão é esse em que ele falou com o velho e seguia ao tal encontro. Após sobreviver a si mesmo – e às suas ideias, advindas de um universo kafkaniano -, Astolfo, o inabalável, chegou ao tal lugar e lá estava Galiarda a lhe esperar. Depois de certo tempo de conversas aleatórias, entraram em alguma conversa muito chata sobre questões teóricas que, possivelmente, nenhum dos dois estava de pleno acordo sobre a veracidade do que diziam. Mas, talvez por força de uma lógica interna à própria conversação, nenhum dos dois poderia recuar. Ainda que a vontade de Astolfo fosse a de abocanhar os seios de Galiarda ali mesmo e, por isso mesmo, mal conseguia pensar. E ainda que a vontade de Galiarda fosse a mesma dele e, por isso mesmo, também mal conseguia pensar, era preciso continuar a disputa. Aliás, uma disputa em que tanto o vencedor quanto o perdedor seriam agraciados do mesmo modo, isto é, com o sexo – e talvez, meus caros leitores, essa seja a máxima expressão que a justiça distributiva pode angariar.

385px-Bouguereau,_William_-_Femme_au_Coquillage_-1885 (A mulher com a concha)

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Ele nunca conseguia prever o que poderia acontecer, como fazem os homens de ação. Então, na hipótese de nada fazer, escolhia sempre se animar pela embriaguez. Ela também fazia o mesmo, ainda que talvez não pelo mesmo motivo. Por conseguinte, não foi necessário muito empenho para não se auto-sabotar, pois Galiarda, com muita galhardia, também não quis perder muito tempo e, antes de qualquer sabotagem de ambos os lados, disse que poderiam estar trepando ao invés de falar sobre as falhas de caráter do ser humano. Bom, foi o que fizeram e tornaram a fazer algumas vezes mais no último mês. Talvez só cessassem de se ver quando o tesão acabasse. A partir disso poderiam se tornar amigos. Astolfo era bom nisso, pois era muito diligente. Mas tão diligente, que se perdia na diligência. Era um cristão. Pobre Astolfo.

Como seres livres, ao longo de um certo tempo ambos se afastaram livremente um do outro, ainda que mantivessem algum contato, na situação de conhecidos. Ele voltou para o universal. Na verdade apenas saía de lá de vez em quando. Galiarda tinha uma manha mais dinâmica com o mundo, conseguia conciliar sua vida de escritora amadora com sua gana libertária. Para Astolfo, o difícil da separação – se é que podemos nos referir a isso nesses termos – foi ver Galiarda com um novo parceiro. Não pelo fato de ela estar com outra pessoa, isso nem lhe incomodaria tanto, mas sim o fato de o novo companheiro de Galiarda ser um músico errante e morador de rua. Talvez ela tenha feito isso para romper com valores burgueses pré-estabelecidos, ou tenha mesmo gostado dele. No fim, parece que se gostaram mesmo. Ela era libertária, isso não lhe era um problema. O que era um problema para Astolfo era não saber exatamente porque esse novo amante peculiar de Galiarda tinha que vir logo após o quase romance com Astolfo.

Após ruminar algumas vezes sobre o assunto, Astolfo, por certa generosidade, conseguiu compreender que Galiarda realmente estava amando seu novo companheiro. E, com essa constatação, o que mais lhe doía era o fato de saber como o amor lhe era incompreensível. Não apenas incompreensível, mas ele realmente achava que, por ser irracional, não poderia não apenas ser algo razoavelmente bom, como não deveria nem mesmo ser possível. Astolfo, como um poço de ressentimento e egoísmo, apesar de não aceitar que o mundo fosse assim, conseguia ao menos compreender que o amor move as pessoas. E Galiarda, longe de ser insensata, não via o menor problema em seus atos. Aliás, se ela soubesse o que Astolfo pensava, talvez não tivesse se relacionado com ele. Mas isso é outra história.

Passados uns três meses desde que vira pela última vez o velho bêbado e o casal em questão, Astolfo pensou que era hora de dar uma resposta à altura. Rascunhou diversas vezes num pedaço de papel qualquer – na maioria das vezes um extrato de banco quase apagado – uma resposta para aquilo que tanto lhe indagava. Até que, finalmente, depois de alguma boa procura pela cidade, encontrou o tal velho e leu-lhe a resposta que sentiu ficar devendo naquela vez. A tal resposta foi mais ou menos assim:

“Às vezes, desconfio do acaso. Pergunto-me, sinceramente, qual o estatuto ontológico do acontecer. Pode parecer pedantismo, mas é muito incrível como algumas situações nos marcam tão fortemente em determinado contexto, que se elas ocorrem em outros momentos de nossa existência talvez mesmo fossem despercebidas. O acaso seria assim tão acaso, que simplesmente surge como um evento da natureza rompendo nossos projetos cotidianos? Ou, seria mais uma sombra sempre presente nesses nossos projetos, de tal modo que surjam justamente quando os compreendemos? Enfim… o que lhe faz envelhecer e saudar a memória, se se consegue compreender o quanto a razão é má para o peito, para o espírito? Se a diligência está para além disso, não deveria estar também para além do dionisíaco, velhote?”

André Luiz Ramalho da Silveira

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