Carta sobre a mudança

Após o incidente na ponte, em que Astolfo precisou de cuidados médicos sob risco de não continuar mais nesse plano, ele ficou resguardado do mundo e abraçou sua rotina. Algumas semanas após o incidente, já restabelecido, Astolfo recebeu uma carta – coisa rara, nos dias de hoje – de um amigo de longa data. Não nos é necessário reproduzir aqui a carta de Petror a Astolfo, de modo que reproduzo aqui, como impaciente observador, apenas resposta de Astolfo para Petror.

 

De algum canto do mundo
Novembro de 2013

Meu amigo Petror Calascos, há quanto tempo! Sei que também não enviei notícias nos últimos meses – ou anos, enfim -, mas estive mesmo ocupado, como deve imaginar. Na verdade, não ocupado, mas, você sabe, tanto quanto eu, o quanto a reflexão açoita-nos. Às vezes é difícil manter a sociabilidade. Não diria isso a qualquer pessoa, obviamente; mas, penso que para o senhor a situação é a mesma. Acabamos seguindo um caminho que trilha por si mesmo, e seguimos os rastros desse mesmo caminho, mendigando algum conforto, talvez mesmo algum sentido. Ademais, compreendo sua paixão pelo ego, caro Petror. Não partilho da mesma inclinação, mas o compreendo. Também sei perfeitamente como é difícil se desfazer de si mesmo, quando tudo o que temos não vai além de nós mesmos. Minha situação também não está a melhor possível, até estive de visitas ao hospital dias atrás. E o motivo vai de encontro às suas queixas. Antes de propriamente lhe responder, permita-me tropeçar num circunlóquio – lembre-se que não sei ser objetivo e sistemático para questões não objetivas e não sistemáticas –, para que eu possa melhor ser compreendido.
Em um famoso aforismo, Heráclito utiliza-se de um rio para apresentar uma metáfora (ou parábola) que, além de sintetizar boa parte de seu pensamento, teve grandes consequências ao longo da história. Esse aforismo, segundo o qual é dito ser impossível acompanhar ou percorrer duas vezes o mesmo rio, mediante sua mutabilidade em oposição à permanência imóvel do ser, além mostrar o movimento a que estamos submetidos, mostra também, tal como nas inúmeras interpretações circunscritas ao longo de toda a literatura filosófica, a impossibilidade de nos determinarmos simplesmente por arquétipos imutáveis. Ou melhor, é perfeitamente possível tanto nos compreendermos por arquétipos, quanto concebermos a nós mesmos como uma essência indissolúvel e singular, essência segundo a qual é derivada de um primeiro motor (força divina ou qualquer outra instância). O fato, é que essas concepções não nos permitem compreender a nossa própria existência a partir de um movimento próprio, com um tempo e história específica, de modo que teríamos de apelar para uma instância exterior para que pudéssemos dizer quem somos.
O movimento que normatiza a identidade, isto é, que determina caminhos regrados pelos quais não se pode seguir, mostra que a construção de nossa identidade além de se afixar a um lugar e, consequentemente, familiarizar-se com ele, pressupõe impreterivelmente uma disposição e identificação daquele que pretende morar no mundo. Só é possível cair em uma familiaridade com o mundo por sermos essencialmente estranhos a ele, dizia um filósofo alemão – um tal de Heidegger. Contradição! Não, espere… novamente: só é possível sentir-se familiar com o mundo porque, antes desse repouso nefasto na burocracia pragmática que é a existência cotidiana, sentimo-nos estranhos a tudo, num isolamento aparentemente impenetrável e sufocados por uma singularidade que preferíamos morrer… mas, antes a familiaridade do que a morte. Contudo, esqueci-me qual seria a ligação entre o ser, o movimento, a construção de uma identidade e o que eu estava querendo dizer.
O caso é – indo de encontro a sua pergunta – que eu já desisti de ter identidade, meu caro Petror. Que dramático. Não, não. Penso ser estoico, consigo viver sem afirmações. Restam-me apenas questões. Quando estas viram respostas, já tomo antipatia. O fracasso, como diz um amigo (sim, ainda tenho amigos, além de você), nada mais é do que um compromisso consigo mesmo. Talvez seja um páthos metafísico dessa época, uma mistura de niilismo com a crença no demiurgo do primeiro testamento. Pra que isso não fique um fluxo de consciência – sim, até isso é um fluxo… e não, não gosto de fluxos, pra mim, tudo poderia ser imutável, estável, como um grande domingo em que nada se espera, nem mesmo se morre aos domingos (muito menos se vive) –, é preciso dizer que eu já desisti de ter uma identidade. Já disse isso. Então, já desisti de ter uma identidade, por mais que isso se configure como uma identidade. Então, eu creio já ter dispensado de mim uma identidade.
Já tive algumas identidades, todas forjadas com o esmero ímpar de quem busca a excelência de si mesmo – independente do que seja esse si mesmo. Você sabe disso, por mais que sejamos levianos, temos a bênção da culpa para nos mortificar a cada pouco. Talvez minha nostalgia de uma familiaridade com o mundo advenha dessa ausência de substancialidade que penso ser. Se a mudança surge a cada pouco – ou melhor, o movimento prossegue sem mudar a si mesmo –, e parece ser impossível voltar pelo mesmo caminho a que chego, pois já não seria mais eu mesmo e já não seria o mesmo caminho a se percorrer, como será possível dizer o que somos sem uma projeção no futuro e sem uma nostalgia desse passado? Tudo isso num mesmo instante… e tudo flui, muda, destrói.
Mas, e se nada muda? Se mudar significa morrer, isto é, romper com um projeto de vida e uma concepção existencial, ou mesmo religiosa, morremos a cada pouco? Existimos morrendo? Bom… é uma pergunta complicada, mas a conclusão pode ser essa mesma, mas com outra premissa. Concebo a mudança, a fluidez, o ser e a temporalidade, mas ainda assim as pessoas não mudam. Ou melhor, as pessoas morrem. Talvez, podemos dizer que mudam. Eu fui proibido de mudar. Por isso antecipei a discussão e dei um passo atrás, não participo mais de identidades. Não é que não as compreendo, mas fico na generalidade da singularidade e não me vinculo tanto nessas vidas que se desfazem a cada pouco. Talvez isso não passe de autoproteção, mas temos de fazer algo por nós mesmos, não é? Das identidades que tive, parece-me que não passaram de eventuais desejos de realidade. Mas isso é conversa para outra hora… agora já me divorciei dessa mundanidade. Claro, por tempo indeterminado, pois ainda mergulho no rio fingindo ser ele o mesmo, e ignorando a pergunta sobre mim mesmo. Se toda experiência concreta for uma liturgia hipócrita, é também uma questão para outra hora. Mas, é sempre bom lembrar: as generalidades seduzem demais e explicam pouco. Quanto a mim, você pergunta se eu morri ou mudei? Acho que, de minha parte, nunca cheguei a ser.

Cordialmente,
Astolfo Cisma dos Santos

 

 

– André Luiz Ramalho da Silveira

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