Astolfo e o espelho

Astolfo e o espelho

Caminho pelas ruas como se não caminhasse. Imagino roteiros não feitos, mas instantes depois lembro ter feito todos os caminhos possíveis. Reflito minha vida e faço narrativas para aplacar o tédio. Em certos momentos, penso minha própria existência como se eu não mais existisse, na ilusão de abarcar a totalidade do meu tempo de vida e dar um sentido não niilista pra isso. Contradição, sim. Mas, quem se importa. Fato é que diversas vezes me pego pensando na posteridade, uma espécie de fé no futuro, num futuro em que eu já não estaria, mas que simbolicamente deixaria algo para a nobre humanidade. Isso tudo é tão instantâneo que, em outras tantas vezes, esse lapso de imaginação se interrompe pelo café que quase derrubo.
Existo como vírgulas nesse ato descontínuo de sobreviver. Assim mesmo, em verbo, não acredito muito nos substantivos.
É insuportável a existência. Mas, quando eu me vejo escrevendo essa frase, dou risada. Nem pessimista, nem niilista, nem qualquer ‘ista’ consigo ser com êxito. Aliás, se “ser” dependesse de algum esforço, já não seria nada. Mas também “ser nada” depende de esforços. Já me é demais justificar toda e qualquer ação. Não que eu faça ações, mas essa resistência a qualquer substância que chamam de realidade. É tanto valor dado a essa esquizofrenia mimética, que por vezes até eu mesmo caio no esquecimento de que fatos não são nada.
Mas, para não desviar do assunto – muito interessante, como podemos notar – dizia eu que o existir é um fado. É preciso muito amor para não se matar. Mas isso são apenas palavras sem significado expressivo. Parece engraçado, e é engraçado, e patético. A condição humana é isso. Uma tragédia, que só quem a compreende em seu sentido mais originário, necessite rir. Porque quem a compreende em seu sentido originário e não consegue rir, é porque não existe mais. Não é compreender a existência como um substantivo, categorizar e elaborar conclusões fechadas sobre o mistério da vida. Mas, é existir como incógnita sem fundamento e, muitas vezes, sem sentido. Sem essa percepção trágica da existência, da miséria existencial que todos somos, é mesmo impossível de se reconhecer o próximo como alguém.
E há quem fale de amor livre. Há quem fale das mazelas da vida e, por necessidade de justificar a própria hipocrisia, não consegue sobreviver sem gorfar salvacionismos. É um grande excesso de carência se deixar levar pelo autoengano. Mas é ignóbil não admitir isso pra si mesmo. Eu mesmo vivo admitindo minhas hipocrisias pra todo mundo. Até elas perderem o sentido. Afinal, não quero ninguém me condenando por ser o único autêntico entre as mulheres. Mas também não tenho tanta paciência assim, comigo. Sou é covarde, mas isso já é outra coisa. Pelo menos o amargo dessas décadas me vacinou contra idiotas. É o que digo na frente do espelho.

André Luiz Ramalho da Silveira

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