Sobre privacidade e vida pública

O que mais me agrada no momento que o país passa é o fato de que estamos produzindo muito, estamos escrevendo textos ou comentários (como é próprio à época), temos pensado (uns mais, outros menos, como é de praxe, e como é da vida) sobre diversos tópicos políticos, estamos nos posicionando, estamos nos informando, informando uns aos outros, em suma, estamos aos poucos iluminando o campo político.

Dada toda a variedade de temas em jogo, queria apenas comentar sobre uma coisa bem específica, mas, que, é claro, remete à amplitude do domínio público.

O Anonymous entrou na discussão. Confesso ignorância: não conheço muita coisa a respeito do grupo. Para começo de conversa, ainda em um plano algo retórico, eu acho interessante que um grupo que usa máscaras e se esconde atrás de truques cibernéticos (os quais eu não domino) seja capaz de exigir algum tipo de transparência daqueles que participam da vida pública. Mas, tudo bem, não vou bater nesta tecla.

Meu comentário sai, um pouco, do plano retórico. (Digo um pouco porque no campo político a retórica não é o terror pintado por uma razão que “ilumina” tudo. O campo político é o lugar, por excelência, em que dependemos do acordo de muitos e no qual, portanto, dependemos de estratégias de convencimento.)

Pois bem. Não há qualquer relação entre a revelação da vida privada e a revelação do agente na vida pública. Quem revela os dados privados dos políticos, por incrível que pareça, não está iluminando o papel político deles, está antes revelando dados pessoais que determinam o papel que estas pessoas têm em sua vida privada. Confundem, como sempre, a transparência que deve ser própria àqueles que entram na vida pública com o pedido moralizante rasteiro de uma moral planificada que não é, nem nunca pode ser, aprovada pelo crivo de uma impessoalidade que não tem posição alguma e que não consegue aceitar qualquer posição autêntica.

Enquanto pensador político eu não me importo com o fato de que Kátia de Abreu possua um patrimônio gigantesco. O que importa é o fato de que ela não põe as cartas na mesa. Ela não se posiciona de maneira definitiva na cena pública e, para o grande público, suas posições são cínicas, dúbias, meio escondidas por detrás de uma aparente neutralidade, que a noção de “povo” faz confundir ainda mais (afinal, quando lutamos em favor do “povo” não lutamos em favor de ninguém em específico e abdicamos completamente de fazer o difícil equilíbrio entre nossas próprias concepções políticas e o interesse do campo público) . Claro, não é à toa que uso palavras como “cínico”, “dúbio”, “escondido”, “aparente”. O campo público exige que os personagens que nele adentram deixem bem claro quais são suas posições. Na democracia ateniense aqueles que não tomassem posição clara eram punidos. Não é preciso dizer que temos um contexto amplamente diferente e que o modelo de democracia que conhecemos hoje contribui para jogar sombras no processo político.

O que urge fazer é o desvelamento da vida pública. Não temos uma ágora, nem temos como ter, dadas as grandes diferenças espaciais e populacionais. Temos que construir, rapidamente, alternativas políticas que propiciem a revelação dos agentes na vida pública, que tornem o processo democrático mais amplo e que espraiem o poder.

Evidente que uma democracia que empodere verdadeiramente as comunidades é uma utopia (a promessa do novo, em sua capacidade reformadora), em função, talvez, do próprio papel concentrador do Estado. Mas, utopias estão aí para isto mesmo: nos guiar no eterno caminho da (re)construção política, no eterno jogo entre o novo e o velho (o qual, em nosso caso, já cai aos pedaços). Lembrem-se, rapaziada: o novo sempre vem. A questão é saber se queremos tomá-lo nas mãos ou não.

Autor: Rafael Padilha

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s