Sempre quase, lá.

Carros cinza encobrem a vista, num paladar cético nauseante.
Inspecionando a culpa à passagem, erigida de um doentio buraco negro.
Fossa nominal, num resquício atido na emergência de uma argüição responsiva.
Gostaria de dormir nesse espaço flutuante, no sibilar epitáfio de minha conjugação.

Não sei mais dispor de mim; deveras nunca soube.
Cavando o próprio sepulcro a cada noite, a cada entrelinha de uma palavra dita.
A cada cavar de um inefável detalhe, que nunca digo por nunca fazer diferença.
Não deveria isso elevar em aspiração o seu orgulho, na ascendência dessa reticência.

Decadência é muito mais do que não saber, muito mais do que não superar a preguiça.
E essas sombras formadas por metáforas, tão metafísicas quanto qualquer texto,
Sobejam-me de orgulho, pois Dionísio e Narciso são apenas estados.

Superados a cada instante, pois o que resta é sempre o orgulho ante esse nada.
E se eu fosse algo ao qual pudesse ser objeto de atração, certamente estaria em um museu.
E esses carros já vão indo novamente, levando-me enquanto aqui sobrevivo, flutuando numa negação.

André Luiz Ramalho da Silveira

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