A era da impotência: soneto da distância

A era da impotência: soneto da distância

A palavra dita, morta é no ato do dizer.
O abismo nunca se esconde, esgueira-se
Pela razão que aniquila o ser.
Isolamento… do grito não deriva-se,

O pedido por sanidade.
Não alcanço mais as paredes. Os limites
Da realidade
Explodiram todas as sortes.

O véu é feito de sangue,
As estrelas, computadorizadas
Pelo controle incontornável das covardias generalizadas.

A tragédia que cada um quer para si,
Como o único bem possível de se ter na era da impotência,
Tornam-nos cada vez mais identidades da distância.

André Luiz Ramalho da Silveira

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Da filosofia

Da filosofia

Na boca, o repouso silencioso do gosto de ferrugem,
Daquela falta de álcool, daquele excesso de clareza.
O que seria a liberdade, senão a resposta aos gritos que urgem
De um mundo adoecido pela certeza?

Banida, a filosofia se encontra.
Morar na filosofia é morar no abismo,
Morar na filosofia é perecer no que se mostra,
Morar na filosofia é não morar em si mesmo.

A cada passo, calmo e sereno, o escalador une-se em carne, ato e montanha.
Mas, não, sou de baixo, não subo senão em espírito.
Sou da devastação, do abismo da existência, no máximo cavo, ávido, aflito e estrito.

Não por convicção, mas por constatação.
O campo do ser é o mesmo do nada.
Na boca, ainda o gosto de ferrugem de uma existência em permanente execução.

André Luiz Ramalho da Silveira

Micro-enciclopédia de um soneto só

Micro-enciclopédia de um soneto só

Verborragia: a sangria do verbo.
Pensar decomposto, fissura do agir.
Palavra dita é significado traído,
Contraído do pensar fechado que não sabe rir.

Eloquência pedante, sangria em alheios ouvidos.
Beleza: o esquecimento da razão.
Solidão: comunhão de si mesmo como possibilidade de ser a si mesmo.
Finitude: ser uma permanente possibilidade no abismo da falta de fundamento.

Agoras e alegorias, ágoras e alegrias:
Balbúrdias e mundo, vida, verso e fundo.
Não, não há um fora, apenas razão imunda, profunda.

Memória: percepção interpretada de si mesmo.
Sonho: elucubração do esquecimento na sobrevivência cotidiana do existir.
Morte: ver a si mesmo na frente do abismo e decidir: ou-ou.

André Luiz Ramalho da Silveira

Hegel, Kierkegaard e Marx, por Karl Löwith

Kierkegaard e Marx como antítese à Hegel, trecho de Karl Löwith

O absoluto veste pijamas.

Hegel em: O absoluto veste pijamas.

Esse cristianismo eclesiástico-estatal ou também eclesiástico-popular, tal como representado na Dinamarca por Grundtvig, é contrário àquilo que o Novo Testamento anuncia como verdadeiro. Na moderna cristandade, o cristianismo foi abolido por sua divulgação. A conciliação hegeliana de Igreja e Estado transforma-se na revolta religiosa de Kierkegaard e na revolta social de Marx.

Marx caracterizou a época da revolução burguesa, no 18 Brumário de Luis Bonaparte, como tendo paixões sem verdade e verdade sem paixão; seu mundo tornado completamente prosaico se sustenta por plágios, seu desenvolvimento é uma constante repetição das mesmas tensões e relaxamentos, suas oposições se impelem ao cume somente para embotar-se e sucumbir, sua história é sem acontecimentos, seus heróis desprovidos de heroísmo. Sua “lei suprema” é a “falta de decisão”.

 

Com quase as mesmas palavras Kierkegaard, na sua Crítica do Presente, concebeu este mundo sem paixão e decisão

Soren, o jovem Kierkegaard.

Soren, o jovem Kierkegaard.

sob o signo do “nivelamento”, e ao aplanamento de suas diferenças distintivas opunha a acentuação das mesmas. Como modos concretos de nivelamento, ele analisa o aplanamento da disjunção apaixonada entre o falar e o calar, reduzida a palavreado irresponsável, entre o privado e o público, reduzida a publicidade privado-pública, entre forma e conteúdo, reduzida a uma carência de forma sem conteúdo, entre a reserva e a notoriedade, reduzida à representação, entre o amor profundo e a devassidão, reduzida a flerte sem paixão, entre saber objetivo e convicção subjetiva, reduzida a raciocínio sem compromisso. À bancarrota desse “mundo envelhecido”, Marx contrapôs o proletariado e Kierkegaard a existência individualizada perante Deus. As desordens econômicas lhe pareciam apenas ter significado sintomático: “Elas indicam que a constituição europeia […] se modificou totalmente. Nós teremos no futuro desordens interiores – secessio in montem sacrum.[‘levantamento do monte sagrado’, em alusão 494aC quando a plebe abandonou em massa  Roma em consequência das péssimas condições de vida]”.

marx

Marx, o Carlos

Mais decisiva que a bancarrota econômica, social e política que vai de encontro à Europa é a sua decadência espiritual, “sua confusão de línguas”, produzida pelo trabalho acelerado da imprensa. Melhor seria poder silenciar o carrilhão do tempo por uma hora, e visto que isso presumivelmente não daria bom resultado, ele gritaria com os financistas aos contemporâneos: “Economizar, enérgicas e profundas medidas de economia!”, quer dizer, redução às questões elementares da existência humana, à pura e simples questão da existência como tal, que para Kierkegaard constituía a contraparte interior do que Marx denominava como “a questão terrena em tamanho natural”. E assim, baseado na mesma cisão com o subsistente, à crítica mundana de Marx ao mundo burguês-capitalista, corresponde igualmente a crítica radical de Kierkegaard ao mundo burguês-cristão, que é tão alheio ao cristianismo originário quando o Estado burguês à polis. Que Marx coloque as relações exteriores de existência das massas diante de uma decisão, e Kierkegaard coloque a relação interna da existência do indivíduo em relação a si mesmo, que Marx filosofe sem Deus e Kierkegaard diante de Deus, estas evidentes oposições têm em comum sua separação de Deus e do mundo. A assim chamada existência não é mais para ambos aquilo que era para Hegel: o simples “ex-istere”, como surgimento e saída da essência interior que à existência que lhe é adequada. Em Kierkgaard, ela é um regresso à existência do indivíduo que se decide no âmbito da consciência moral, e em Marx uma partida em direção à decisão política concernente a circunstâncias de massas. Com base na mesma desavença com o mundo racional de Hegel, eles novamente separam o que aquele unira. Marx decide-se por um mundo humanitário e “humano”, e Kierkegaard por um cristianismo sem mundo, que, “considerado do ponto de vista humano”, é desumano.

Uma vez que se tenha compreendido a evolução espiritual entre Hegel e Nietzsche em sua lógica sistemática e histórica, então torna-se evidente que a análise econômica de Marx e a psicologia experimental de Kierkegaard coincidem conceitual e historicamente, constituindo uma antítese a Hegel. Eles concebem “o que é” como um mundo determinado por mercadorias e dinheiro, uma existência que está atravessada pela ironia e pelo “cultivo alternado” do tédio. Em um mundo do trabalho e do desespero, o “reino do espírito” da filosofia hegeleniana torna-se um fantasma. Em Marx, a “ideia” de Hegel, que é em si e para si, converte-se em “ideologia alemã” e, para Kierkegaard, a “autossatisfação” do espírito absoluto em “enfermidade moral”. A consumação hegeliana da história torna-se para ambos um encerramento da pré-história, anterior a uma revolução extensiva e a uma reforma intensiva.

LÖWITH, Karl. III, A dissolução das mediações de Hegel pelas decisões de Marx e Kierkegaard. In: De Hegel a Nietzsche: a ruptura revolucionária no pensamento do século XIX: Marx e Kierkegaard. Trad. Flamarion Ramos, Luiz Martin. 1 ed., São Paulo: Editora da Unesp, 2014, p.198-200.

Compreensão, esquecimento e ethos político

Considerações sobre o dia 17 de abril e o 31 de agosto de 2016
Pretendo fazer alguns apontamentos sobre como compreendemos as noções de esquecimento e compreensão, de modo a tentar explicitar como que, a partir de um esquecimento “ativo”, passamos da não compreensão à violência, e tudo isso tendo como ponto de partida nosso mundo comum brasileiro, sobretudo nesse complicado ano de 2016. Deste modo, penso que esquecimento histórico não diz respeito, de imediato, apenas à falta de memória. O esquecimento histórico tampouco se refere também ao vício linguístico de se tomar aquilo que não é explícito como fruto daquilo que foge ao racional. Neste sentido, da mesma forma que a memória não é uma massa amorfa e passiva, o esquecimento também precisa ser visto como um fenômeno que tem suas razões e um discurso que o legitima. O mundo público possui regras e normas que vão além de uma mera “projeção” subjetiva dos agentes ou sujeitos, assim como torna toda pretensa objetividade em algo opaco. O mundo público possui uma estrutura impessoal, uma publicidade impessoal que torna qualquer esquecimento em uma tarefa ativa para encobrir fenômenos originários. Não se trata de misticismo, de modo que para romper com esse esquecimento brutal que nos atinge nesse obscuro momento do século XXI, inclusive a nós brasileiros, não basta um exame individual sobre as próprias lembranças.  Apenas com uma crítica sobre comportamento e linguagem podemos conceituar essa massa cinzenta.

O discurso que articula nossos juízos sobre as coisas, sobre o mundo, sobre as pessoas, sobre os valores e sobre nós mesmos é determinado também pela compreensão não objetiva que temos disso tudo. Não se trata de uma visão subjetivista de nós mesmos, mas, que a compreensão de que existimos e compreendemos o mundo e a nós mesmos não é dada primeiramente por uma linguagem estruturada e delimitada teórica e objetivamente. As coisas já são compreendidas de um modo significativo para nós mesmos, e somente a partir daí é que conseguimos explicitar s sentidos e significados do nosso mundo, isto é, somente a partir disso é que tematizamos objetivamente o nosso mundo. É nessa orientação um pouco mais pragmática com o mundo que damos forma aos nossos projetos e possíveis realizações. É também nesse âmbito de comportamento que podemos ver como a partir de comportamentos significativos nossas opiniões sobre o mundo são formadas – sejam opiniões políticas, religiosas, morais ou filosóficas no sentido mais geral. Para exemplificar brevemente esse ponto, basta focarmos em um conceito muito importante da hermenêutica filosófica, que é o conceito de tradição. Este conceito diz, breve e grosseiramente falando, que nascemos em um mundo que não escolhemos, em uma época, família e em círculos sociais que a escolha não foi efetuada por nós, mas, que é a partir daí que vivemos e temos que assumir ou rejeitar determinadas possibilidades, sendo explicitamente responsáveis por essas situações, ou deixando de lado isso. Deste modo, muitas vezes passamos parte da vida apenas explicitando valores que antecederam a nossa geração e que, muitas vezes, determinaram as nossas vidas, sem que tenhamos isso explicitamente no nosso cotidiano. É nesse âmbito de comportamento que se dá o chamado ethos político, social e etc.

Contextualizando: a nossa situação hermenêutica

O colapso evidenciado no dia 17 de abril de 2016, cuja votação na Câmara dos Deputados deixou estarrecido qualquer ser humano minimamente sensato, por tamanha mediocridade e transgressões de normas que nossos políticos encarnam/encarnaram, tornou transparente todas as fissuras da representatividade do sistema político partidário brasileiro de um modo visceral. O esquecimento ativo, que se impõe brutalmente sobre as concepções de mundo – das mais gerais – implicaram no retorno de um pensamento político extremamente dogmático no imaginário de quem simpatiza com os atuais dirigentes. Uma série de questões se apresenta a partir dessa crise que vivemos. Penso que é preciso elaborar muito profundamente algumas questões centrais, pois do contrário estaríamos apenas repetindo erros que nos levaram até o momento. Das questões, enumero algumas: 1- de como pensar a superação dessa crise a partir de um “parricídio político”; 2- A grave falência do debate político e a quase ausência de um debate [inclusive de uma noção mais precisa de liberal/liberalismo] em escala nacional; 3- A violência como princípio de ação do esquecimento ativo e da burrice institucionalizada.

Aspectos a partir do dia 31 de agosto, votação e aprovação do impeachment:

1 – Não pretendo desenvolver uma análise sobre as diversas causas da perda de força da esquerda, sobretudo a esquerda ligada ao o Partido dos Trabalhadores, que um dia foi o maior partido de esquerda da América Latina e ainda é uma referência institucional para a esquerda, ainda que atualmente com extremas ressalvas. Meu ponto é apenas tentar visualizar algum caminho possível para o atual esgotamento no qual vivemos, que não é apenas político. Por político, penso aqui também aquela norma que nos permite regular, junto a outras pessoas, como ocorre e se estrutura desde aquele espaço que permite nossa individualidade até o âmbito mais geral ao qual somos submetidos, isto é, nossos vizinhos, nosso bairro, cidade, país, etc. Neste sentido, pensar a política como sistema de representação deveria implicar que ao menos alguns de nossos valores e desejos estariam sendo defendidos por aqueles a quem atribuímos nosso voto. O que ocorre, penso, é uma crise geral nesse sistema de representação – se é que algum dia em nosso país houve algo parecido com uma democracia -, de modo que o momento atual protagonizado pelo PT precisa nos fazer retomar e repensar o que queremos enquanto política, isto é, o que queremos pra nós mesmos e para o nosso país. Falo em relação ao PT porque, a meu ver e, sem entrar na questão de como isso foi realizado, é um partido que mudou nosso país, tendo em vista tanto a grande quantidade de programas sociais e culturais, quanto um projeto de soberania nacional – falo aqui de modo geral e sei de muitas das controvérsias em relação a isso, mas ainda assim creio que o fato principal permaneça. Após esse resumo esguio e sem qualquer detalhamento, gostaria apenas de entrar no ponto principal do que proponho, que é o de que não podemos nos estagnar no permanente luto em que se encontra a esquerda e, principalmente, não podemos apenas nos fixar no que um dia foi representado pelo PT. É inegável que houve um estelionato eleitoral em 2014, tanto quanto é inegável o golpe parlamentar que presenciamos há pouco tempo. A meu ver, isso só mostra a falência do nosso sistema representativo, ou, ao menos, de como as pessoas que deveriam nos representar não representam praticamente nada da sociedade brasileira. Todas essas descrições podem soar um tanto óbvia para quem acompanha a fragilidade política nos últimos anos. Deste modo, gostaria apenas de finalizar dizendo que é preciso pensar em uma política que diga respeito a nós mesmos, que possa minimamente nos representar. Essa condição, no momento atual, não parece ser possível de ser resolvida por nenhum partido político. No entanto, longe de pensar em um discurso apolítico, que negue a política, penso antes que é preciso desvelar e reconhecer os espaços políticos que são soterrados por discursos cristalizados, independente da posição política que seja, caso estejamos de acordo que a base da política seja essa formação de um espaço comum.

2 – Também nesse segundo ponto não pretendo e nem tenho condições de me aprofundar. Essa segunda questão é quase uma consequência natural da primeira: do fato não haver qualquer representatividade de fato, seja por corrupção, seja por “desvio de interesses”, seja por não haver um debate político legítimo, lógico, coerente. Lógico não apenas no sentido mais superficial de que determinadas regras sejam seguidas, mas, também que simplesmente que não há um espaço lógico aberto para uma cultura mais sincera de debates, e diálogos, em todas as esferas. São dogmas encravados em diversos sentidos, que regulam o discurso social e público. Em decorrência de uma paralisia nos espaços de debates, sejam em bares ou lugares institucionalizados, temos comportamentos extremos e “governismos” estagnados, que aceitam discutir pautas apenas quando há interesse particular e econômico. Não parece haver protagonismo de qualquer tipo em debates mais intensos sobre as questões mais polêmicas que se apresentam, de modo que há apenas extremos que se opõe. Um debate político liberal, no sentido mais específico do termo, aparenta ser quase nulo em escala nacional. Todas as questões que se impõe nestes últimos anos trafegam de uma esquerda já calejada, tediosa, estagnada e sem qualquer criatividade para uma direita extremamente autoritária e ultra-conservadora. O debate sobre questões fundamentais simplesmente se esvazia em meio à ausência de um debate honesto em relação a essas questões. Não me refiro apenas ao debate claro de ideias, mas, sobretudo, ao questionamento mais amplo de que determinadas pautas, por assim dizer, possam ser discutidas sem serem criminalizadas, simbólicas ou judicialmente. Basta observarmos o crescimento exponencial da violência em diversos âmbitos motivados por um moralismo estúpido de ser ‘contra tudo’, seja contra drogas, seja a impregnação religiosa na política, seja na violência linguística cotidiana. Além disso, voltando um pouco ao ponto anterior, gostaria de lembrar que os governos mais de esquerda, inclusive o PT – municipal, estadual e federal -, também sempre foram violentos e opressivos, principalmente em relação aqueles que não querem participar desse sistema político – como anarquistas, etc… -, de modo a inclusive a cometer o político ao sancionar a tenebrosa lei antiterrorismo. Meu objetivo não é simplesmente fazer juízos acerca disso ou daquilo, embora alguns sejam obviamente imprescindíveis. É preciso apenas reforçar a ideia de que a força política, seja ela de esquerda ou de direita, é mobilizada e articulada a partir do nosso ethos, isto é, da nossa situação, local e tradição atual. Deste modo, não se trata de demonizar certos grupos por se reconhecerem em determinados ideias, mesmo conservadores, mas, sim compreender que a esfera política é justamente isso: enfrentamento com todos os tipos de diferenças, inclusive com nós mesmos, regulados por certas leis políticas e morais que nunca são completamente imunes ao erro.

3 – Ao tentar não pensar a política apenas a partir do espectro político-partidário, penso que não é mais possível para a esquerda ancorar-se na passividade fisiológica/partidária, sem inovar-se politicamente, e em uma vã esperança por determinados políticos e, sobretudo, por determinados partidos. Não falo na questão de eleições, mas sim que não é possível se deixar determinar apenas por quadros partidários, quando são esses que deveriam se pautar pelas exigências de grupos e pessoas para determinados fins. Isso tanto ocorre pela falta de qualquer tipo de debate e conversa entre pessoas, quanto ajuda a permanecer essa falta de debate mais plural. A contextualização que pretendi fazer nos pontos 1 e 2 tinham como objetivo principal situar o debate para este 3º ponto. Penso que nosso espaço comum é construído através de interações e significados, no entanto, isso não precisa ser pensado como uma construção objetiva e teórica apenas, como se nossa relação com outras pessoas, coisas e nós mesmos fosse determinada por uma norma ou regra exterior a nossa vida prática. Penso assim tanto em relação à linguagem, quanto em relação aos valores éticos e sentidos políticos que guiam nossas vidas. Deste modo, o interesse na presente consideração visa tentar mostrar e descrever como ocorrem determinados discursos a partir dessa base ontológica. Ao pensar a noção de discurso como tendo um pressuposto hermenêutico, não temático – isto é, ainda não explicitado teoricamente –, é possível compreender que os debates e discussões sempre partem de uma base comum a se explicitar. Essa questão obviamente é muito sutil, mas agostaria apenas de sugerir – me apoiando em Heidegger, paradoxalmente – que os discursos acabam por legitimar determinadas normas e comportamentos sociais, eventualmente obscurecendo o contexto ou situação de onde partiram. Paradoxalmente, porque para Heidegger essas normas que regulam nossos comportamentos não são dadas meramente através de uma teorização sobre a realidade, mas são entendidas como aquilo que, ontologicamente, possibilitam nossa lida e nosso comportamento com significações. Neste sentido, o discurso expresso obedece de algum modo essa variação normativa, que ainda não é nem moral, nem política. Bem, o que esbocei anteriormente como sendo um esquecimento ativo, em parte é isso que tenho em vista, isto é, um discurso tão desenraizado do solo ou contexto de onde partiu que acaba se esvaziando. Em larga escala, legitima e se institucionaliza impessoalmente. De acordo com Heidegger, as normas impessoais pelas quais nos guiamos não são exatamente um mal a ser combatido, mas sim uma situação incontornável que precisamos lidar. Contudo, a normalização constante de um discurso público tende a nivelar nossas possibilidades. Penso que é possível dizer, a partir disso, que o discurso que não permite distinção é uma das fontes que elaboram dogmas, a partir dos quais acabam, eventualmente, se fixando como padrões e normas de comportamento e opiniões. A questão aqui é muito complexa e não pretendo discutir os pontos sociológicos e linguísticos envolvidos, mas sim mostrar que a partir desse nivelamento na compreensão ocorre uma violência simbólica e linguística, na medida em que torna fixa e rígida toda abertura à diferença. A partir dessa perspectiva, penso que a compreensão restrita e autoritária do mundo que passamos a ter apenas legitima a violência em relação ao outro, ainda que implicitamente. Não penso aqui apenas em termos morais ou políticos, de modo que, mesmo que não estejamos pensando em fins políticos específicos ou não estejamos explicitamente nos orientando por noções de bem e mal, ainda encobriremos toda e qualquer “realidade” diferente que se nos impõe.

Em conclusão, gostaria de falar apenas mais uma observação em relação a isso: essa não é exatamente a posição de Heidegger; de modo algum penso que é possível pensar, agir e existir a partir de uma situação em que a condição de encobrimento e de impessoalidade não esteja envolvida, isto é, a hermenêutica nos ensina que há sempre pressupostos de linguagem, históricos, etc., que nos antecedem, de modo que nos é cabido explicitar o mundo de onde partimos e para onde vamos. Neste sentido, quando falo em violência, tento sugerir que uma violência física, quando sistêmica e, no caso brasileiro – parto do caso brasileiro por este ser a nossa situação hermenêutica, nosso contexto, o nosso morar, mas não se trata apenas do Brasil –, epidêmica, é precedida por uma violência simbólica, linguística, social, etc.

André Luiz Ramalho da Silveira
Doutorando em Filosofia – UFSC

Qual redenção, qual vida.

Chorei a vida, quando perguntei a natureza se
Poderia ela redimir a história
Em nós que se
Impõe verticalmente em nossa memória.

Na morte nossa de cada dia, voltaremos ao solo indecifrável
Da Natureza? Se a natureza essa nos escapa em plenitude,
E a História essa irrompe em nós como uma irrefreável
Ruptura histórica, agora na quase imperceptível platitude

Do cinismo político globalizado.
Não, é preciso crer no amanhã.
Com sorte, a ruptura ocorre, e amanhã

Não haverá mais nós, quiçá memória,
Tísica norma moral criadora da absurdamente impermeável indiferença.
Com sorte, nada haverá: nem história, nem memória.

Diários de uma guerra normal

Ventos, ponteiros, Astolfo e Galiarda

Ventos, ponteiros, Astolfo e Galiarda

O mundo assemelha-se a um jogo de tabuleiro em que as peças movimentam-se com relativa autonomia e sem relação com o todo.

A-Jacek-Yerka-surrealist-fantasy-painting-of-the-guardian-of-time-and-his-henchmen-clocksDentre incontáveis invernos, aquele que ocupa a posição atual sempre parece o mais cruel. Astolfo sabia disso, mas não conseguia despir-se dessa sensação. O desespero era insistente, mas não o suficiente para acatar todo o seu clamor. A solidão impera, agora mais forte, agora já ultrapassando o silêncio. Como romper com o impessoal, com as práticas que se faz porque se precisa fazer para se suportar na vida? Isso tudo parece artimanha de uma solidão imperiosa, pois nos acostumamos a todas às situações e, a pra cada uma delas, conseguimos fazer um discurso que a justifique para que ela seja do jeito que é, tal como fazemos com nossas próprias vidas.

Aquela velha sensação de não estar vinculado e e estar desconexo com as situações em que se vive, a não ser por eventuais ou seguidas bebedeiras, parecia mais velada, mais forte. Parecia que pra cada criatura com quem travava alguma relação era preciso justificar bem a razão de isso ser assim. Mesmo quando era absurda e sem qualquer propósito. Afinal, não era a relação com alguém que estava pensando em justificar, mas sim o que de fato é uma relação. Isso não parece ser um problema para o pensamento mediano e mais imediato. Astolfo, além de não ser assim, ainda era uma pessoa demasiadamente complicada. Como todas as outras, mas tirava daí sua força criativa. Deste modo, o sentimento de estranheza no mundo era uma constante. Toda relação humana, penso eu que ele pensava assim, era dependente de uma relação consigo mesmo e, principalmente, dependente apenas de nossa relação com o tempo. Assim, se tratava mais de estar ou não vinculado a algo, inclusive mesmo à própria vida. Isso não era exatamente algo simples, como se apenas por uma opção trivial e por algum capricho se pudesse vincular-se ou desvincular-se de algo. Penso eu que a situação diz respeito mais ao fato de que as coisas humanas dependem mais daquilo que fazemos delas e não que haja algo por si só independente de nós. Para Astolfo, a desvinculação como uma evidência da finitude humana já ganhara inclusive força filosófica. Penso eu que ele pensava assim, mesmo que não formulasse tão eloquentemente quanto eu penso estar fazendo neste momento.
O que seria de um mundo sem os seus criadores ansiosos… o mundo, esse que fazemos parte e que formamos, que esbarra no tédio perante a impotência ontológica. Gostaria de visitar aquele antigo silêncio, em que a resignação aparentemente autêntica perante o mundo impedia-me de viver.

Astolfo procurava antigas cartas escritas e nunca enviadas, pois tencionava a encontrar algum resquício de sentimento que o permitisse identificar-se novamente como sendo alguém e não apenas parte figurativa de possibilidades irrealizadas. Buscava impressões de mundo, daquelas que quando se está na juventude costuma-se compreendê-las como o estar surpreso perante o desvelamento do mundo. Quando se envelhece, porém, tudo é consumido no tédio. Ou na angústia. Felizes os que não sabem da liberdade.

Fios pretos quase cinzas balançavam, uns se emparedavam, outros se separavam, outros, mais introvertidos, apenas se resignavam e juntavam-se a outros no movimento do vento, em que fingiam, na cabeça, serem cabelos. Um sol fotográfico, manifestado apenas como indício nas nuvens avermelhadas que lentamente se dissipavam com o vento quase frio, coroava aquele fim tarde. Momentos de rara beleza natural.

Ao lado, um negro que vestia uma calça cor de tabaco envelhecido, camisa clara e a cara arruinada pelas agruras, olhava fixamente para uma garrafa plástica pela metade, que tinha dentro o que parecia ser uma cachaça aquecida do sol. Na sua frente, um cachorro com aparência de ter nascido meio solto no mundo e de porte médio, que o olhava sem entender muito, mas, parecia faceiro. Ao lado, um homem em seus trinta anos, corpulento com cara de pensionista, cara meio rosada meio marrom, uma boca cheia de dentes que vociferava intempéries odiosas, escorado em seu carro, que olhava o cusco, a garrafa e o negro. Enquanto tomava sua cerveja quase quente. Queria jogar no negro. Ou no cachorro. Pra não errar, fingiu errar uma lixeira, e jogou entre os dois. A garrafa ricocheteou e, de revesgueio, quicou e acertou Astolfo triscando sua perna, que estava mais atrás da cena. O homem branco corpulento ousou de longe uns gestos estranhos, como se pedisse desculpa, mas sem querer pedir desculpas. Antes de terminar as mímicas, Astolfo já havia quebrado um vidro do carro com uma garrafada. Astolfo correu quadras. O homem tropeçou e não prosseguiu. Aprendeu uma lição: praticar melhor o tiro ao alvo.
Parado como quase estava, num movimento preguiçoso de negação de movimento, Astolfo inclinou-se para o lado ao reconhecer Galiarda, sua antiga paixão. O deslocamento existencial dessa judia francesa, que se expandia libidinosamente a criar formas, confortava de imediato a sensação permanente e, por vezes, brutal, do estranhamento de Astolfo perante o mundo. Viram-se numa bela praça. Galiarda queria encontrar-se, mas não encontrava, Astolfo não queria encontrar, mas encontrava. O que é isso? Pensava no jeito sagaz e nos fartos seios de Galiarda e nos seus gemidos, que pensava no jeito profético e sem talento burocrático de Astolfo. Pensava brutalidade do mundo, que não deixa como permanente nada que possa ser bom. O que é isso? Como pode a impotência atingir tamanha profundidade? Pensava nos quadris de Galiarda, que pensava nas mãos sábias de Astolfo, que depois se entediava e ficava apático porque depois do prazer tudo se acaba. Para onde vai à verdade indômita de um mundo que é absurdo? Pensaram isso por mais ou menos os dez passos que os separavam, até que se encontraram e se cumprimentaram.
Galiarda vestia as cores do fim da tarde, com uma elegância que sequestrava a atenção dos céticos. Astolfo, mais niilista e menos cético, desconfiava das cores. Mas, como um autêntico guerreiro contra o desorgulho – como ele de vez em quando zombava de si mesmo – atirava-se de corpo todo nesse sequestro.

 

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Bouguereau – The Nymphaeum – 1878

– Como está, meu caro?
– De passada… O dia está bonito, pensei em respirar algo que não seja os cômodos de casa… Esse meu relógio pesa, pelas horas desordenadas. E você, minha bela Galiarda, que a vida nos diz nesse momento?
– Eu estou bem sim. Aproveitei essas pequenas férias fora de época para não encontrar ninguém desinteressante na minha rota de fuga do mundo maquinal… e aproveitar para escrever sobre as cores e os desencontros. E você, quais os afazeres que tem lhe tirado o sono?
– Estou bem também. Já não sei bem tanto dessas coisas.. Tenho estado mais tranquilo, o que não sei se é bom. E essa resignação sua, também é a minha. Mas, vamos deixar pras narrativas darem conta desse abismo que parece imperar sobre nós… vamos dar uma volta?
– Claro! Mas, depois. Preciso encontrar uma pessoa estável, antes de flertarmos com nossas sombras… brincadeira. No entanto, acho que eu gostaria de querer isso.. isso de querer ter uma pessoa estável. Afinal, acho que é o nosso desejo, não? Não sei… Penso que pessoas estáveis servem como âncoras que ajudam pessoas como nós a nos guiarmos..
– É! Pessoas são balizas para que possamos sobreviver.. às vezes, é preciso se orientar pelo mundo… talvez o mundo não seja apenas um abismo… ou melhor, esse abismo às vezes nos olha de volta e, se não tivermos com a gente um bom lugar pra se segurar, ou ao menos se não soubermos do que são feitos os ponteiros do relógio, apenas seríamos consumidos por aquilo que pensamos rejeitar..
– Pode ser, mas não precisamos rejeitar o mundo, meu caro… a felicidade não é tão nefasta assim. A profundidade nem sempre é correta… às vezes, ela só é mais suja.
– É… não tenho comigo muitas convicções, Galiarda… e hoje menos que ontem, e etc. Mas, é fato que eu desconfie cada vez mais da minha profundidade, e da profundidade do abismo. O superficial, esse paraíso de sensações que ajuda a esconder a lembrança de ser alguém, não parece tão nefasto assim…
– Não apenas isso, Astolfo… o superficial não é superficial. Ou diria que toda a parte da sua vida que não esteve dominada pela reflexão seria trivial e descartável? É nisso que está a vida, Astolfo! Nas fendas do plastificado que reina a liberdade! Não apenas nisso, não me entenda mal… mas o mundo é bem mais do que o nosso julgamento faz dele.
– Não sei, mas, concordo… Mas, não sei. O superficial apenas me dá alguma força para seguir, pois não consigo nunca encontrar alguma razão universal que justifique qualquer coisa… nem nunca acharei. Acho que não estou fazendo a pergunta correta… Meus vícios já não me ajudam. Tentarei prestar mais atenção no vento, que se manifesta nas folhas, e alivia esse calor infernal.
A busca pela felicidade começa pela escolha de uma música, passando pelo encontro da cor de um bom vento e, por fim, com o exaurir de alguma parte de si que já não é mais parte.

Minotauromachy - Picasso

Minotauromachy – Picasso

André Luiz Ramalho da Silveira