A volúpia dos vultos
A volúpia dos vultos.
Criando servos no voluptuoso crepúsculo,
Tangenciando o último brilho celeste, no limiar da insanidade,
Ao suor dos corpos numa ação sem sujeitos, como envoltos num novelo.
Nos hirtos pêlos ávidos pela insalubridade,
Ressoa a leve brisa de um arfar extasiado,
Deixando lúgubre todo o resto não pertinente ao ocaso,
Onde o a priori do conceito puro derrete-se pelo ardor das curvas de um todo rosado,
No a posteriori do vigor escarlate, deixando um nada enrestado, num mútuo escuso.
Integrando-se num deleite quase cósmico,
Nas sombras quase divinas,
O tempo não ousa abandonar sua própria dinâmica nem por algum motivo alquímico.
E o movimento só cai quando cessa-se o noturno celeste, que tanto ilumina esses corpos,
Com a mais pura volúpia, nesses opostos gêneros que não são mais do que vultos,
Que não são feitos para a lei, que não servem para servir, que são apenas o pressentir-se dos vindouros mortos.
À tarde, no limbo.
E hoje, a tarde se exprime em reflexos estagnados, urdidos como lembranças adormecidas;
Esgueirando-se entre um esquecimento e outro, prontos a lançar-se,
No ar congelado e nivelado, em uma totalidade de asfixias retorcidas,
Revelando que nada há além dessa solidão a esvarar-se.
E nesse tédio, pondo-nos em nós mesmos o que propriamente somos,
Um arfar num vazio, medido apenas pela sensatez de raros,
Angustiamo-nos por crer que miramos em algo além da própria finitude que não criamos.
E a esperança passa a ser apenas o dividir instantes com raros.
E as disposições de humor mudam como reflexos arcados em arcanas sinestesias.
Chorei como se ri, com sarcasmo brindei com a ironia.
Quero tudo o que já esqueci, porque o que lembro já não quero… vazia ironia.
E nesse nivelado novelo de vivências explode a beleza, no amor procurado,
Explode aos que podem ver… mas emprestei meus olhos à dona do belo fado…
Sou apenas merecedor do respeito, um espírito amargo rindo do próprio enfado.
O lírio e a inquisição
E a rainha de meus passos, saboreando minhas sombras…
Escondida entre qualidades consumidas em discurso,
No silêncio dos ossos dessas ruínas, de obras em sobras.
Construindo um castelo de ar, excedendo-me em discurso na sobra de meu curso.
E quem ousará perder novamente? Quem ousará deixar-se assim, solenemente?
Se largar ao abismo… na cisma de ser um si próprio largado…
Quem ousará assumir-se como sendo esse separar-se? Tão… avidamente?
E a rainha de meus passos, consumindo minha altivez em pleno prado…
Mas essa tão conhecida tempestade, que apenas serve para aplacar o tédio,
Já não julga tão bem quanto nos velhos tempos da inquisição do velho império.
Pois a construção desse castelo só é mero subterfúgio para guardar aquele minério.
E a minha rainha já guarda um reino a parte, donde colossos de plástico jazem na guarda.
E hoje os temores são tais que nem mesmo Lear cantaria em clave um novo suicídio.
E nesse deserto até a dor é estrangeira, roubando no lírio um motivo pro suicídio.
Da manhã de toda a vida…
Da manhã de toda a vida
Na manha de cada dia, donde o doce é suavizado,
O esquecimento permite o direcionamento, cristalizado;
Assim como na vida, a existência no nada enredada,
A manhã absorve o ser no fel com o qual sorve o mel nessa iludida estada.
E assim deixa-se ser o apenas neutro em dissociação;
Resignando o próprio ter, abraçando apenas o conceber.
Quiçá incapacidade, mas o socializar já é disfunção.
Ò doce mártir penitente, sangria seca de todo obedecer.
Já se é outro, quando se é essa relação; mas ainda se é apenas um.
E no advento desse outro, só o esconder-se a chamar pelo nome.
Fugir de tudo, mas fugir para o tudo, na medida em que esse tudo é nada, ou um.
Não se é para entender, pois não faz a menor diferença…
Nada mudará; o pão continuará sendo o pão amassado independente do discurso que o aprisione.
Na manhã de toda a vida, donde o doce é suavizado, não faz a menor diferença…
Alteridade do mesmo, abismo do outro
É só um esconder-se… o ver-se como póstumo jaz na alteridade.
Não àquela pertinente a outro, mas à própria relutante ao nada intempestivo.
Na promessa de um amor à hipocrisia de uma contingência rogada em personalidade.
O escondido ego deve ser merecido pela persona serene do corrosivo.
Oh impérios de luz, saboreando-se de indignas iluminuras.
Oh impérios populares, feitos de pessoas… asco ímpio é elogio à elegia.
Nesse humanismo prometido onde nem mesmo à terra prometida era posta em tais molduras.
Clamo-me à altura de minha felicidade ao fosso onde achei que regia.
Criaturas ausentes de alteridade me chamam, preciso dormir.
Mas o sono não deixa-me aquiescer à memória na qual o sorrir é propriedade.
A essência é menos mística do que o que se diz ser… pobres de egoidade.
Facínoras desprezíveis em seu atordoamento mnemônico…
Esfolar-lhes-ia como o fazem os homens de ação… mas à esses o mesmo faria.
Harmônico tudo parece ser ao exilado de alteridade, estúpido si renegado em eco…
Sempre quase, lá.
Carros cinza encobrem a vista, num paladar cético nauseante.
Inspecionando a culpa à passagem, erigida de um doentio buraco negro.
Fossa nominal, num resquício atido na emergência de uma argüição responsiva.
Gostaria de dormir nesse espaço flutuante, no sibilar epitáfio de minha conjugação.
Não sei mais dispor de mim; deveras nunca soube.
Cavando o próprio sepulcro a cada noite, a cada entrelinha de uma palavra dita.
A cada cavar de um inefável detalhe, que nunca digo por nunca fazer diferença.
Não deveria isso elevar em aspiração o seu orgulho, na ascendência dessa reticência.
Decadência é muito mais do que não saber, muito mais do que não superar a preguiça.
E essas sombras formadas por metáforas, tão metafísicas quanto qualquer texto,
Sobejam-me de orgulho, pois Dionísio e Narciso são apenas estados.
Superados a cada instante, pois o que resta é sempre o orgulho ante esse nada.
E se eu fosse algo ao qual pudesse ser objeto de atração, certamente estaria em um museu.
E esses carros já vão indo novamente, levando-me enquanto aqui sobrevivo, flutuando numa negação.
André Luiz Ramalho da Silveira
Mais um…
…Enquanto isso.
Já vai mais um instante, mais uma novidade que sobrevive,
Na lateral de um entrave, na noite de uma costa em declive;
Sou mais aquele talvez que de solavanco como um solstício desponta,
E permaneço como sombra de auto sabotagem, cujo rastro a mim remonta.
Enquanto isso desisto do meu desespero, à orla de seu suplício.
No perdão que não peço a mim, sou o próprio enquanto vazio de uma solidão…
Como ilusão imputada à seu comício, cuja calamidade impele-me ao vício.
Sirvo-me de algoz à própria sorte, abandonado ao reflexo de uma retidão…
Sem um próprio motivo para entregar a morte à vida,
Sem um próprio motivo para entregar a vida à morte,
A cada instante constato na existência o esvaecer de uma alteridade doída.
Donde perco a disposição de perder-me nos detalhes erigidos de toda situação,
Donde se constrói o próprio amor, destruído à forja de esmolas por qualquer inação,
Donde se é banido do próprio acontecer, tornando-se espectador da própria consternação.
André Luiz Ramalho da Silveira
Pra lembrar que se existe.
O descarte especial ruma ao espelho e volta-se como negligência imperial;
Torno-me então especialista em mim, no mérito próprio do vazio.
Na amplitude do vazio com esmero, deleitando e adornando todo o sonho trivial.
Destarte na ontologia da derrota, à qualquer sorte extravio.
No primor do rir escondo em possibilidade a transparência.
Na especialidade de ser imbecil, jogo-me no vil intangível.
Acho um pouco de dignidade entre fumaças e resigno em minha existência.
E ainda em indiferença banal finjo desespero ao jogar-me em seu reflexo amável.
Ao meu estúpido tédio chamo-o de existência.
E ainda espero resposta de sua amável penitência,
No âmago de minha repugnância, incrustado na ânsia de minha resistência.
Quero a amplitude de meu esvaecer, fazendo-me vir a ser.
Desisto pela incontável vez de meu descarte, desprezando qualquer fazer;
Especialista em mim, de muito pouco serve-me essa ontologia do morrer.
André Luiz Ramalho da Silveira