E a crença no acontecer mostra-se como o fundamento da natureza,
Na qual funda-se a normatividade cotidiana, uma imputação pela destreza,
Ou pela falta dessa, mas ainda assim o julgamento exprimi-se como vileza,
Como um resíduo não transparente aos absortos no cotidiano da medíocre realeza.
O desacontecer é a manifestação originária da temporalidade,
Cuja compreensão ontológica revela-se como constatação de si próprio,
Pela qual o desfazer iminente torna visível a falta de necessidade,
A qual é a pressuposição para se crer no acontecer como natureza do brio.
E o espelho nunca é carregado, pelo temor de Narciso,
Mas a constatação do reflexo em sua solidão não torna possível
O afogamento nas próprias lágrimas, nesse determinar de tudo o que é impreciso.
A sanidade é apenas um defeito da senilidade,
E o amor… apenas o envolver-se no acontecer impróprio no esquecimento da maldição.
Mas não temo a verdade, não temo a ilusão, são apenas perspectivas de uma debilidade.
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Um anjo caído
Silêncio gêmeo como o resíduo dos que tiveram as asas queimadas,
Gêmeo do grito de desespero que fora dissimulado em um sorriso normativo.
Ainda ouvem a voz que clama pelo derradeiro silêncio das alvoradas,
Esses que nem excêntricos conseguem ser, pois desprezam o vôo do coletivo.
O abismo figura-se como morada do ser, numa nostalgia sempre suspensa,
Atraindo para baixo àqueles que voam com asas espirituais;
Em uma imaginação que adorna o quase-viver, o limbo torna-se o que dele se pensa.
E voa-se com a leveza de um seixo, nesses estanques virtuais.
Ela quis explodir, seu corpo queimando como pétalas se congelando,
Mas ela queimou… as asas do seu amado, para se livrar da ficção,
Pois se acha na ímpar autenticidade dos que julgam espanando.
E o amor se derreteu com as asas do anjo, depois que este se congelou.
Agora a história é apenas o ideal do amor contada sob as vestes da tragédia,
Mas apenas história, apenas para acalentar esse que nunca amou.
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Dos ventos expatriados.
Nunca esquecerei aqueles dias, aqueles que nos faziam das ondas apenas o sal sentir.
Onde a moral era uma idéia que nos forçava a determinar alguma parte de nós mesmos.
Não esquecerei aquele sorriso que fora engarrafado, a ser lembrado num porvir.
Não esquecerei nada disso, mas talvez a lembrança mostre-se como espasmos.
Ainda assim, caminharei até quando não houver ventos,
Até onde a morte se mostrar como vida e, essa, como morte.
Caminharei na aurora embriagada, até o fim dos encantos.
E quando não agüentar mais, apenas irei rir da moral rogada à sorte.
E por aqueles dias me seguro, fazendo meu lar à construção da nostalgia.
E meu erro apenas será um voluntário levante contra o destino.
Por meu erro, tomo-me como um fruto expatriado daquele futuro que se coagia.
E a vida que engarrafei sempre volta em um novo barco,
Por mais escura a água que seja, as ondas ainda revolvem-se sem ventos,
E quando me rebater por um sonho, lembrar-me-ei que sempre sou eu meu próprio foco.
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A desistência da saudosa esperança
A desistência é o princípio de tudo, tornando visível o nada.
Ele olhava a singela flor, despedaçada por um mal entendido.
Mas que apenas o levava à mesma condição sempre glorificada.
Já não se tem motivos para crer, apenas se deixar ir nesse reflexo urdido.
À face do ninguém, que a sua volta resplandecia, tornava inútil o hábil verbo.
A sua existência começava em uma narrativa invertida,
Pois morrera em um projeto existencial futuro, onde apenas recitava de modo soberbo,
Àquela falta que não se pode falar, privado de qualquer experiência não refletida.
Existia como um advérbio, professando a solidão já previamente constatada,
Ulteriormente morto, apenas se agarrava a alguma emoção do passado,
Porque o presente se faz simplesmente de uma derrota amalgamada.
De nada o servia sua altivez, pois sabia que a moralidade havia danificado os corpos,
Corpos daqueles que crêem que o sofrimento deve ser eliminado para se ter paz,
Daqueles todos que se agarram ao tudo como se não houvesse nada além do imediatismo pragmático que subjaz a cada reles paz.
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Nesses dias brancos em que as paredes arrastam-se em nós,
Parece que alcançaremos a salvação pela definitiva desistência,
Nesses dias brandos em que a indiferença deixa insignificante todos os nós,
Não faz sentido nem rogar maldição pela impotência.
E ainda levantas bandeira em nome desse sofrimento,
Porque ao acreditar que é justificada essa dor, poderás esperar salvação,
Mas esse abrigo que tanto procuras apenas é um lugar criado por seu lamento,
Onde tudo se encerra em ressentimento, num tormento que ainda não chega a ser implosão.
Nesses dias em que sua face me olha, por lembranças reflexas em cada canto,
Encontro-me com meu fim quase antes de minha reflexão…
Mesmo quando os dias andam em pares, onde a esperança repousa em um canto.
E ainda achas que ter esperança é esperar salvação… na construção de um bunker.
Talvez eu não compreenda seu estilo de vida, onde o amor é ganho num jogo de pôquer.
Só sei que a memória é a maior inimiga da esperança, onde a reflexão ora pelo ser.
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E vamos roubar uns raios desse sol, vamos roubar um ao outro,
E vamos brincar de odiar deus, vamos odiar um ao outro,
E vamos ser o nosso erro, o erro que perpetua sempre como outro,
E vamos fugir juntos, para no final voltarmos a ser sem qualquer outro.
(E no lar, o ressentimento assume a força real da intransigência.)
Quero estar contigo nessa distância que nos separa,
Prefiro ter a possibilidade de lhe ver, assegurando minha ontologia,
Do que lhe ter como um fato, deliciando-me cada vez mais com a paz amiúde rara.
Se pudesse seria você, já que sou quase eu.
(Não, não sou mais que eu; isso me seria uma fraqueza muito grande.)
Sou apenas quase eu, por vezes ausente de eu, mas ainda quase eu.
E vamos roubar mais um sol, enquanto nesse nosso badalar transcendo à liberdade,
Enquanto no lar de meu fardo deixo-me apenas ser o que quer ser,
Enquanto torno-me o fatalista sempre disposto à piegas piedade.
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Àquela solidão de mil anos não era mensurável nem mesmo em um calendário,
Histórico de contravenções hereditárias, onde a decadência sempre fora celebrada num relicário,
Mesmo essa solidão não poderia ser entregue ao mero arcabouço literário…
Mas o que se via ali era a eterna solidão, residindo naquele ser como um pequeno vestuário.
E a necessidade geral, de motivos e crenças, jazia como outra dimensão,
Sentia que o próprio sangue não lhe era tão próprio,
Mas ainda sabia que, antes das palavras, estava o vazio que orientava a compreensão,
Numa diáspora que o tornava estrangeiro a si próprio, num asco ao opróbrio.
E quando ainda procuravam salvação, num abrigo de província científica,
Sentia que o quase no qual impelia-o, agraciava-lhe com uma espécie de armadura estóica,
Mas que nem mesmo a indiferença ecumênica o despia da liberdade,
Como o puro transcender para si mesmo, tornando-se uma alteridade sem qualquer qüididade,
Onde se compreendia apenas pelo esboço que deixava em resíduos de linguagem;
Mas no sorriso que ainda mantinha, havia algo que não lhe fora roubado pela libertinagem.
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Ele a acariciava como ela lhe fosse apenas uma extensão de seu corpo,
Como se sua fina e limpa pele lhe fosse apenas um espelho de sua alma,
E nesse espelho compreendia-se como uma totalidade existencial, onde seu escopo
Fora e quiçá sempre será a nulidade, cuja possibilidade é condicionada apenas por um si na lama.
Mas nada lhe poderia ser pior do que a abrupta e repentina ausência
De sua amada, na qual a metafísica lhe era só um abrigo…
E na sua fome e sede, junto com aquele medo também metafísico, deixava um resíduo de reticência.
Que fez-lhe a fuga dos céus, para que a ausência fosse real, não apenas tema de artigo.
Agora que a ausência dela lhe era real, não sofria com a totalidade aterradora…
Sempre sufocante, já que ainda podia ter uma inútil esperança um tanto ameaçadora…
Mas ainda sim algo a esperar, e não sofrer com o medo da própria finitude.
Medo da própria finitude… e ainda pensava naquela fina pele e naqueles negros cabelos,
Que tanto o admirava… mas já que amava mais o reflexo do seu ego naqueles cristais ouriçados,
Continuou passando a mão nos próprios cabelos, admirando-se da decadência passiva dos desavisados.
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Esvaindo-se por sombras estrangeiras, que são acariciadas por púlpitos melindrosos,
Torno-me ébrio com meu pungente asco, num tango que brinda o peso,
De uma existência tão vazia quanto o espírito efuso,
Da leveza dessa transcendência ao peso da indecência, escuso como cães medrosos.
Terno sono que inteiro some, advinha o que somo numa brincadeira de sonhar.
E à maneira dos histéricos, que senhores do som pensam ser,
Levo a termo meu silêncio, apenas para confirmar mais um desarmar.
Mas se caso apenas for um sonhar, sei que ainda posso novamente me estarrecer.
E então novamente estamos exauridos, de nós mesmos excluídos.
Mas eu preciso que continues a precisar da minha necessidade de lhe ter,
Minha decadência não teria sabor sem seu favo, garota… é o canto dos lírios excetuados.
E ainda penso quem poderia assassinar a alteridade de nossas ausências,
Nas ternas sobras impessoais que governam o fulcro dessas cadências.
Como vultos que tornamo-nos, a apropriação de si é só mais uma ausência de ter.
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Toda fala, ecoada por risível silêncio, encerra-se em cripta rala;
Por fim se esconde aquela remissão ao social, garantia de qualquer valor moral…
E quando se é acalentado pelo desespero, que agora já se cala,
Tem-se como postura o afirmar do próprio ego, na falta da possibilidade de um solo real.
Mas o real solo social é um predicado além da nulidade do deserto individual.
E quando no aclamado hábito do diário fazer-se advém a perturbada lembrança,
Ou a tranqüila angústia, a doce decadência revela-se como condição mortal,
Cujo tédio é apenas o sentir-se sendo nessa indiferença.
E a volúpia que na artéria pulsa, abnega-se perante a profunda ausência.
Ou ressente-se perante a imagem da carência.
Ou fataliza-se pelo próprio transparente ego em decadência.
E queimam-se promessas de plebeus que se querem reis…
Dos cansados e fracos na vileza com que juram amor…
E se fere a solidão, onde no escuso suicídio floresce-se com nova dor.
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