Testemunho ontológico do reflexo de Narciso
Dezembro 22, 2009 at 4:31 am (Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (Alteridade, Espelho, Metafísica, Narciso, Ontologia, Senilidade, Si-mesmo, Temporalidade)
E a crença no acontecer mostra-se como o fundamento da natureza,
Na qual funda-se a normatividade cotidiana, uma imputação pela destreza,
Ou pela falta dessa, mas ainda assim o julgamento exprimi-se como vileza,
Como um resíduo não transparente aos absortos no cotidiano da medíocre realeza.
O desacontecer é a manifestação originária da temporalidade,
Cuja compreensão ontológica revela-se como constatação de si próprio,
Pela qual o desfazer iminente torna visível a falta de necessidade,
A qual é a pressuposição para se crer no acontecer como natureza do brio.
E o espelho nunca é carregado, pelo temor de Narciso,
Mas a constatação do reflexo em sua solidão não torna possível
O afogamento nas próprias lágrimas, nesse determinar de tudo o que é impreciso.
A sanidade é apenas um defeito da senilidade,
E o amor… apenas o envolver-se no acontecer impróprio no esquecimento da maldição.
Mas não temo a verdade, não temo a ilusão, são apenas perspectivas de uma debilidade.
Dos ventos expatriados
Dezembro 15, 2009 at 7:29 pm (Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (Alteridade, Ausência, Moral, Poesia, Solidão, Ventos, Vida)
Dos ventos expatriados.
Nunca esquecerei aqueles dias, aqueles que nos faziam das ondas apenas o sal sentir.
Onde a moral era uma idéia que nos forçava a determinar alguma parte de nós mesmos.
Não esquecerei aquele sorriso que fora engarrafado, a ser lembrado num porvir.
Não esquecerei nada disso, mas talvez a lembrança mostre-se como espasmos.
Ainda assim, caminharei até quando não houver ventos,
Até onde a morte se mostrar como vida e, essa, como morte.
Caminharei na aurora embriagada, até o fim dos encantos.
E quando não agüentar mais, apenas irei rir da moral rogada à sorte.
E por aqueles dias me seguro, fazendo meu lar à construção da nostalgia.
E meu erro apenas será um voluntário levante contra o destino.
Por meu erro, tomo-me como um fruto expatriado daquele futuro que se coagia.
E a vida que engarrafei sempre volta em um novo barco,
Por mais escura a água que seja, as ondas ainda revolvem-se sem ventos,
E quando me rebater por um sonho, lembrar-me-ei que sempre sou eu meu próprio foco.
A desistência da saudosa esperança
Dezembro 11, 2009 at 4:30 pm (Da ficção à desilusão, Do amor - do resíduo, Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (Alteridade, Altivez, Amor, Desistência, Narrativa, Poesia, Projeto, Solidão)
A desistência da saudosa esperança
A desistência é o princípio de tudo, tornando visível o nada.
Ele olhava a singela flor, despedaçada por um mal entendido.
Mas que apenas o levava à mesma condição sempre glorificada.
Já não se tem motivos para crer, apenas se deixar ir nesse reflexo urdido.
À face do ninguém, que a sua volta resplandecia, tornava inútil o hábil verbo.
A sua existência começava em uma narrativa invertida,
Pois morrera em um projeto existencial futuro, onde apenas recitava de modo soberbo,
Àquela falta que não se pode falar, privado de qualquer experiência não refletida.
Existia como um advérbio, professando a solidão já previamente constatada,
Ulteriormente morto, apenas se agarrava a alguma emoção do passado,
Porque o presente se faz simplesmente de uma derrota amalgamada.
De nada o servia sua altivez, pois sabia que a moralidade havia danificado os corpos,
Corpos daqueles que crêem que o sofrimento deve ser eliminado para se ter paz,
Daqueles todos que se agarram ao tudo como se não houvesse nada além do imediatismo pragmático que subjaz a cada reles paz.
A oração dos dias brancos
Dezembro 7, 2009 at 10:34 pm (Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (Alteridade, Poesia, Salvação, Ressentimento, Esperança, Memória)
Nesses dias brancos em que as paredes arrastam-se em nós,
Parece que alcançaremos a salvação pela definitiva desistência,
Nesses dias brandos em que a indiferença deixa insignificante todos os nós,
Não faz sentido nem rogar maldição pela impotência.
E ainda levantas bandeira em nome desse sofrimento,
Porque ao acreditar que é justificada essa dor, poderás esperar salvação,
Mas esse abrigo que tanto procuras apenas é um lugar criado por seu lamento,
Onde tudo se encerra em ressentimento, num tormento que ainda não chega a ser implosão.
Nesses dias em que sua face me olha, por lembranças reflexas em cada canto,
Encontro-me com meu fim quase antes de minha reflexão…
Mesmo quando os dias andam em pares, onde a esperança repousa em um canto.
E ainda achas que ter esperança é esperar salvação… na construção de um bunker.
Talvez eu não compreenda seu estilo de vida, onde o amor é ganho num jogo de pôquer.
Só sei que a memória é a maior inimiga da esperança, onde a reflexão ora pelo ser.
Do sangue ecumênico
Outubro 1, 2009 at 2:14 pm (Da ficção à desilusão, Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (Alteridade, Crenças, Liberdade, Poesia, Sangue, Solidão)
Àquela solidão de mil anos não era mensurável nem mesmo em um calendário,
Histórico de contravenções hereditárias, onde a decadência sempre fora celebrada num relicário,
Mesmo essa solidão não poderia ser entregue ao mero arcabouço literário…
Mas o que se via ali era a eterna solidão, residindo naquele ser como um pequeno vestuário.
E a necessidade geral, de motivos e crenças, jazia como outra dimensão,
Sentia que o próprio sangue não lhe era tão próprio,
Mas ainda sabia que, antes das palavras, estava o vazio que orientava a compreensão,
Numa diáspora que o tornava estrangeiro a si próprio, num asco ao opróbrio.
E quando ainda procuravam salvação, num abrigo de província científica,
Sentia que o quase no qual impelia-o, agraciava-lhe com uma espécie de armadura estóica,
Mas que nem mesmo a indiferença ecumênica o despia da liberdade,
Como o puro transcender para si mesmo, tornando-se uma alteridade sem qualquer qüididade,
Onde se compreendia apenas pelo esboço que deixava em resíduos de linguagem;
Mas no sorriso que ainda mantinha, havia algo que não lhe fora roubado pela libertinagem.
Ébria contingência
Setembro 21, 2009 at 12:57 pm (Do amor - do resíduo, Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (Amor, Decadência, Existência, Poesia, Solidão, Sonho)
Esvaindo-se por sombras estrangeiras, que são acariciadas por púlpitos melindrosos,
Torno-me ébrio com meu pungente asco, num tango que brinda o peso,
De uma existência tão vazia quanto o espírito efuso,
Da leveza dessa transcendência ao peso da indecência, escuso como cães medrosos.
Terno sono que inteiro some, advinha o que somo numa brincadeira de sonhar.
E à maneira dos histéricos, que senhores do som pensam ser,
Levo a termo meu silêncio, apenas para confirmar mais um desarmar.
Mas se caso apenas for um sonhar, sei que ainda posso novamente me estarrecer.
E então novamente estamos exauridos, de nós mesmos excluídos.
Mas eu preciso que continues a precisar da minha necessidade de lhe ter,
Minha decadência não teria sabor sem seu favo, garota… é o canto dos lírios excetuados.
E ainda penso quem poderia assassinar a alteridade de nossas ausências,
Nas ternas sobras impessoais que governam o fulcro dessas cadências.
Como vultos que tornamo-nos, a apropriação de si é só mais uma ausência de ter.
No deserto da decadência
Setembro 15, 2009 at 5:35 pm (Do amor - do resíduo, Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (Poesia, Tédio, Sonho, Decadência, Alteridade quebrada, Angústia)
Toda fala, ecoada por risível silêncio, encerra-se em cripta rala;
Por fim se esconde aquela remissão ao social, garantia de qualquer valor moral…
E quando se é acalentado pelo desespero, que agora já se cala,
Tem-se como postura o afirmar do próprio ego, na falta da possibilidade de um solo real.
Mas o real solo social é um predicado além da nulidade do deserto individual.
E quando no aclamado hábito do diário fazer-se advém a perturbada lembrança,
Ou a tranqüila angústia, a doce decadência revela-se como condição mortal,
Cujo tédio é apenas o sentir-se sendo nessa indiferença.
E a volúpia que na artéria pulsa, abnega-se perante a profunda ausência.
Ou ressente-se perante a imagem da carência.
Ou fataliza-se pelo próprio transparente ego em decadência.
E queimam-se promessas de plebeus que se querem reis…
Dos cansados e fracos na vileza com que juram amor…
E se fere a solidão, onde no escuso suicídio floresce-se com nova dor.
O reflexo partido do sonho.
Setembro 7, 2009 at 5:53 pm (Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (Alteridade, Poesia, Abismo, Sonho, Desvitalização, Identidade)
Como senhor do próprio caminho, denominado sonho pelo próprio destino,
Criado pelo próprio senhor do espinho, onde cravou as mãos na rosa do desatino,
E descobrira que tudo o que sabia com o vinho, onde o próprio abismo lhe fora desvelado por seu próprio seu tino,
Apenas tornou indiferente a questão pela verdade em seu coração que não passa de um enferrujado sino.
E na absorção do próprio juízo, degustou o próprio deserto conceitual da desvitalização,
Intuindo o mundo em apenas um instante, ferindo-se com seu próprio espinho,
Como um errante de possibilidades, que num talhar descobre-se como a refração,
A própria, amarga e cinzenta refração de seu reflexo partido… espelho feito espinho.
E pensa como seria se fosse mais real que um sonho,
E ainda que a loucura seja tão aquém de si quanto além do próprio saber,
Compreendia o quão turvo era seu cenho,
Mas como somente a liberdade pode ser tão vazia, sentia que um sonho já não era.
Que aquilo que lhe fora num tolher divino tirado, não fora sua identidade, mas sim o próprio sonho.
Que não podia mais sonhar, não podia ver outro que não a si mesmo no espelho quebrado que lhe fora destinado pelo próprio senhor do sonho.
Das palavras de salvação.
Setembro 4, 2009 at 1:19 am (Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (Poesia, Salvação, Moral, Abnegação)
Do rastro daquelas palavras erguem-se pedestais, como uma morta nebulosa.
Tão frias e sinceras, provando que nada há de errado nesse opróbrio.
Que nunca houve nada de errado, que a corrupção é aquém a qualquer ilusão difusa.
E com o obedecer de qualquer oráculo, quando a salvação vier há de se estar ébrio.
Não quero salvação, ignomínia moralidade de nervos flácidos.
De culpa sinto apenas a minha, não a de um degenerado olimpo.
Assimilado pela bestialidade daqueles desertos floridos.
Mas ainda meu reles misticismo protege-me das religiões e das ciências, num brado ímpio.
Acreditando no que vem de dentro e absorvendo o que está fora,
Como se houvessem tais dimensões,
Somos obrigados a crer… é o que diz quem ora.
Mas não faz qualquer diferença a pergunta por existir ou não…
Quem está absorvido por si próprio não alcança o suicídio pelo desapego.
Materialista do espírito… assim é aquele que, quando existe, ganha já um ‘não’…
O gerúndio da contingência
Agosto 27, 2009 at 6:47 pm (Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (Alteridade, Poesia, Contingência, Reflexo, Tédio)
Quão bela é essa contingência, que me dizes estar eu embrulhado como rouxinol em seu cantar.
Belo também é a forma como são criados os problemas, uns à necessidade, outros à contingência.
Mas quando se vive à maneira de gramatical pessoa primeira, é fácil julgar.
E quando a simples existência já fica para trás, em terceira pessoa resume-se uma negligência.
Estagnando qualquer estupidez, qualquer vileza, qualquer resquício de cordialidade.
Mas não há de querer a simples vida aquele que se mostra como um gerúndio abnegado.
E ainda anda onde nunca andou a rosa constipada da magnanimidade.
E sua arte é apenas o fel escorrido da fraqueza dos nervos de um conceito assexuado.
E quando, no esforço para acompanhar a própria cordialidade, vê-se no espelho,
Quebrado por não mais agüentar o próprio reflexo, num mundo deveras literatelho,
Apenas sente como refração uma perdida alteridade, num futuro regado a malho.
Talvez seja muito bom o belo, para que tantas escórias brindem parvoíces.
Mas não há de se esquecer que o reflexo não pode ser ético, como querem marusses em glacês.
Mas não há de se lembrar aquele que é apenas abstrato, desprezando as próprias veneradas tolices.