Nada além, ou quase

abril 2, 2012 at 7:48 pm (Da ficção à desilusão, Do amor - do resíduo, Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , , , )

De olhos cerrados, a violência frui do solipsismo da nova era de liberdade.
Morte ao lado, vida a cima, um sonho de salvação já sem Deus.
Mais do que escolhas, na ação subjaz a vinculação fugaz, que nos dá identidade.
E o alheamento já bane o instituído deus.

No final, nada nos sobra… a sombra de uma pretensa pureza se dissipa
A cada novo amargo despertar… e os olhos continuam cerrados, oprimidos pelo ar,
A pobreza e vontade de aprisionamento cristalizaram-se já na autonomia da culpa,
Já não me importo mais… continuarei chamando meus muros de lar.

Não há como sustentar-se na liberdade.
Na nostalgia recrio os paralogismos da insanidade.
E para quem goza de felicidade, digo que também eles sofrem do mal da mortalidade.

Apenas problemas têm soluções, essa condição nossa é para além disso.
Se for possível viver livremente como uma concepção, que se viva.
Se já não mudei, é porque não mudarei. A permanência no tempo é só mais uma forma de esquiva.

André Luiz Ramalho da Silveira

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Escopo da abjeção

outubro 25, 2011 at 3:05 pm (Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , , )

E o mundo me cala. Não, eu calo o mundo.
Ora, mas faço eu o mundo me calar, como o mais autêntico fracasso que embala
A solidão que nunca é atingida, porque nela apenas se é, um fundo sem fundo.
E as lágrimas apenas saem pela necessidade que é perseguir a contingência que nos entala.

Harmonia é o imaginário eu que melhor advém à liberdade prospectiva…
Chamada sobrevivência. Mas do mundo já me distancio, alheio á tudo que me guia.
Liberdade não vai além da autonomia visceral de se saber como uma farsa paliativa,
Na construção teórica com o único objetivo de lidar com a morte como um negócio que expia.

Já não mais poesia há nessa farsa de ser, nessa lealdade ao jazer em modos.
Secam-se os lagos a cada inspiração desnecessária que à vida fazem.
E não importa o que se faça, nada irá destruir esse muro, tijolos de felicidade, sopros de engodos.

A consciência é essa doença que nos torna humanos,
Excludentes de um Deus, mas condenados a lembrar da ficção de um tempo
Sem liberdade. Não há escolha que sobreviva a angústia dos sem-anos.

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Contracultura de hipocrisia

setembro 25, 2011 at 9:33 pm (Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , )

E a busca por um lugar que suprima a vontade de decadência
Não depende da correspondência da realização de apenas mais um arfar.
Sempre se corre para esquecer-se da cisão que assola esse lugar da existência.
E mesmo assumindo a pretensa finitude, far-se-ia da terra, ar.

Os dias permanecem o mesmo espelho retorcido que nos absorve
E não se pode suspender o ser do estar, para além do solo dos sonhos.
De onde a ausência assume a poesia e, a morte, como possibilidade se dissolve
Pelas imagens que o discurso não cunha; mas, aquém disso, somos apenas moinhos.

E os olhares congelam como um julgamento fulminante pela multiplicidade idônea
Das pessoas de caráter, pela busca incessante de salvação, numa ação sempre
Bem dirigida, como uma hipocrisia tão bem cristalizada que jaz como a insígnia

Dos homens de ação, com a certeza impenetrável de felicidades ridiculamente egoístas,
Com discursos sobre justiça que soam esmagadoramente suaves, crenças disfarçadas.
O discurso ativo da contracultura parte do mesmo ponto da impessoalidade, fracas risadas.

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A autenticidade do erro

agosto 8, 2011 at 4:41 am (Do amor - do resíduo, Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , , )

Além das idéias manufaturadas, cujo processo é um berro estridente de um abscesso
O qual veda qualquer singularização e transparência de cisão,
Aquém do sentido que paira sobre os que usam concepções como progresso ou retrocesso,
Jaz o campo vazio que circunda a existência, o insurgir da cisão.

Escolhemos modelos de concepções morais já cristalizados
Para não sufocarmos no próprio processo de constituição de que fazemos parte.
A vida é um erro, onde a possibilidade cunha-nos como não mais fossilizados.
E só é mais erro o querer não viver do que o erro que é o viver, porque o primeiro é deste uma parte.

Não uma parte que, somada, acrescentaria o sentido de totalidade à derradeira ação,
Mas sim porque só é possível querer o próprio fim, por mais absurdo que isso seja,
Pela razão de que existimos como possibilidade de ser, que em sua máxima realização

Será ainda a plenitude da possibilidade… o autêntico erro…
E somos tão escravos que, se liberdade é possibilidade, nossa máxima expressão
Será sempre algo não alcançável concretamente; mas se o sonho é maldição, não cairemos por um simples erro.

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Vertigem do Sol II

julho 2, 2011 at 8:56 pm (As tríades - do tango à in.existência, Da ficção à desilusão, Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , , , , , )

Olhos deprimidos se escondem no efeito do sol,
Sem mesmo se dar conta, a sombra se culpa
Por ter de pertencer como sobra no rol
Da beleza que é a presença iluminada pela lupa.

Cunha-se na perfeição a postergação da jactância
Ansiada pelos homens de ação que se banham
Ao sol, aos brados do cientificismo semelhante à excrescência
Invertendo discursos e renovando assim a flâmula solar que se acanham.

Mesmo assim, a sombra ama o sol
E o sol, em sua altivez, só é sol porque a sombra o sustenta
Somente quem suporta a sombra, consegue suportar o sol.

E aqueles olhos deprimidos sabem que
A verdadeira dificuldade está em simplesmente ser
E ter de suportar a si mesmo como algo que poderia não ser.

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Hematomismo hermético

junho 18, 2011 at 2:40 am (Do amor - do resíduo, Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , , )

Para julgar a sujeira é preciso estar limpo, mas a limpeza só é possível
Porque a miséria é o que sustenta toda a fragilidade do corruptível.
E, de modo geral, tudo se passa, para as pessoas… no modo em que vêem
As imagens do mundo… num egoísmo que delas sobrevêm.

Explodem sentimentos, delineados por uma racionalidade prática
Configurada em formas ignóbeis, num olvido que precede a proposição
Através de ideais fundados na impropriedade geral, uma dissolução
Da singularização… a posição no mundo implode essa miséria ética.

Mas volto a mim, mesmo sem ter saído, mas como expectador
De mim mesmo, numa memória que antecipa um ser já caído
Volto sempre na medida em que vou… brado essa dor com ardor.

Não há insistência para os corpos que negam a alma, para almas que rejeitam
O corpo… no hermetismo me camuflo, mas sem a metafísica da ciência.
Amor é não substantivo, ódio não é adjetivo… Se olhem e vejam a face que rejeitam.

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Alegoria e aletoriedade

maio 7, 2011 at 9:30 pm (As tríades - do tango à in.existência, Da ficção à desilusão, Do amor - do resíduo, Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , )

Singelo estranhamento que nos prende o coração, cuja habitação converter-se-á
Em danação… O hábito é a única garantia de vinculação pessoal que parece não desabar
Diante do proferimento da justificação de si mesmo… No qual escamotear-se-á
A objetificação do movimento, próprio da possibilidade de ser como um desabar.

Se a falha é inerente ao discursar, a verdade não pode pertencer a essa estrutura.
Não mais é possível a agência num mundo de ‘pessoas’.
Não mais é possível a consternação sincera… nossa benção é uma pura sutura.
A negação da crença é a assunção da tradição, um limiar na relva de pessoas.

Não há nada em mim, preso por um vazio que eu mesmo construí…
Liberdade é que chamo de permanência nesse existir…
A exigência a outrem de um mínimo de sinceridade já me fez de mim partir.

Ser a própria teleologia inversa não garante a estabilidade a um futuro derivado.
Não sei mais viver… tornar-se uma alegoria para as próprias ações
Não é mais uma simples escolha… permaneci distante demais para voltar equilibrado.

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Barítono e bajesto

abril 28, 2011 at 12:27 am (Da ficção à desilusão, Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , , )

Calei-me, envolvido no fluxo temporão de uma paranóia redentora.
Calei-me pela amplitude da possibilidade, que sou e que fui.
Calei-me por saber o que serei, calei-me como quem segrega um segredo que rui.
Gritei apenas para mim, num silêncio que me expira a aurora.

E a burrice forma um círculo inescrupuloso com a má vontade,
Perfazendo o aprisionamento da alteridade na realidade, mascarando com rimas
Os espinhos que hoje são julgados como o mal que veda a liberdade.
E toda consideração a outrem é apenas veste de sujas lágrimas.

A noite já não faz aquela conformação de um velho coração com a percepção
Daquele mundo paranóico… apenas protege quem pode iluminar de feiúra as sombras
De si mesmos. Existo como uma erupção, na febre de uma cisão.

E o difícil é aceitar o fato de se ter um rumo, e fazer parte do próprio julgamento.
Existir como um improviso de si próprio já não me cala mais… mas, apenas não falo.
O que antes era medo, agora é um silencioso despeito pelo vazio de qualquer advento.

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Intoxicado com ar

novembro 15, 2010 at 3:32 pm (Da ficção à desilusão, Do amor - do resíduo, Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , , , )

Intoxicado por minha própria satisfação, de mim;
Já não me sinto como eu, meu pensamento se perde na aporia
De minha existência e de todos meus feitos, todos ausentes de mim;
Perder algo é o que me faz vivo, ou quase isso… seja por ironia ou por ataraxia.

Veja meus lábios, vermelhos de veneno que nesse sangue se pulsa,
Quando a vagava pelo corpo nosso, em busca de mim, em busca de uma fuga,
Uma fuga de mim, uma fuga de uma ausência, projetando-me como repulsa.
Veja meu reflexo, pois é só o que há de mim, uma bela osga.

Onde está a sobra de meus retalhos? Onde está aquele resíduo que cindi
De mim? Só consigo apreender a própria cisão, as partes no tempo obnubilaram-se.
E a harmonia nos encontrará assim como um deserto encontra o mar que o mendi.

E fomos separados por aquele iluminismo bastardo, novamente.
E o amor pede ao conhecer, novamente.
E a morte retorna como a epistemologia dos moralistas, novamente.

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Sem título

novembro 6, 2010 at 9:51 pm (Do amor - do resíduo, Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , , )

Se a minha realidade convergisse com a possibilidade que é a existência,
Eu não já não teria nem mesmo o discernimento pra me incluir,
No espaço da vida que me escapa a cada momento; mas ela me escapa em cadência,
Vejo-a indo aos poucos, sou apenas um eco da sangria que se põe num eterno restituir.

Se meus versos chegassem aos seus ouvidos, se essas letras me tirassem a inércia,
Se caso você pudesse aceitar as proposições de meus preconceitos, se, além disso, esse
Não fosse só mais um fim, como qualquer outro começo, se, além disso, esse
Começo não me representasse à neutralidade de qualquer incumbência…

Se meus gritos fossem ouvidos ao menos por mim,
Se ao menos eu não fosse clandestino, na existência que me tem como estrangeiro,
Se alguma mudança pudesse me tomar de modo a que eu fosse levado minimamente por mim…

Eu teria uma vida além da memória; minha memória projetiva; implosiva.
Onde um coração queima num futuro, amargura-se num passado, neutraliza-se num presente.
Já perdi o controle, agora posso ser apenas uma possibilidade evasiva.

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