Canção de Amor
Fácil por um momento… quando o todo esvai-se e sobra um fluxo contextual.
Mas a necessidade de culpar outrem urge vulcanicamente como vontade
De reparar um mal que nada mais é do que o acontecimento mais habitual,
De que sempre há um fim, e isso justamente outorga a responsabilidade, e não a culpa da realidade.
A estrutura da relação transforma-se em algo anímico, em que pode permanecer
Independente das pessoas, apenas confluindo nas adequações particulares.
E não saber disso e assumir a relação como a simbiose do esquecer
É o que se faz, é como se vive, nutrem-se motivos dos anímicos ares.
E a vida sempre se mostra como uma sinopse, em que os espectadores fingem
A surpresa da interação, abençoados pelo esquecimento de que tudo é vinculação.
E tudo se cristaliza como má-fé, e a relação torna-se um penhasco irresistível de ação.
E sim, deve-se continuar a dança, pelo mesmo motivo de quem organiza o show.
E o abismo instaura-se onde ninguém vê, porque não é algo a ser visto.
Difícil por um momento… quando o que sobra são migalhas estratificadas sem o menor significado e justificação para fazer parte do show.
Para cada colapso, um mesmo tango II
Colapsos que nada mudam a matéria estabelecida pelas crenças.
E nada importa, a ninguém… o egoísmo pregresso regressa
Como figuração de um altruísmo externo, mero subterfúgio das sobrevivências.
Erradicar o mal da vontade é já vontade de ser o bem, apenas uma sinceridade inconfessa.
E tudo nos torna mais vazios… e erguemos altares para nós mesmos, e esquecemos de
Visitar nossa própria tumba, uma falta de respeito com nossa própria morte.
E segregamos nossos conceitos, separando os escombros de
Que nos alimentamos, para manter a sanidade longe da sorte.
De que adianta mudar e morrer se isso não for compartilhado,
E de que adianta o contrário disso… colapsos que não desabam
A existência, não são colapsos… apenas a pura má vontade de ser escravizado.
Não depende de podermos ou não voar, pois isso é só questão de vontade.
Intenção e conseqüência, consciência e responsabilidade… vão além de qualquer tomada de posição.
E é preciso estar pronto para morrer, assim como para mudar… pois no fim, talvez tudo não passe de vilanidade.
André Luiz Ramalho da Silveira
A vertigem do Sol I
O brilho ressoa na amplitude
Da negação silenciosa.
Em todo o brado de vicissitude,
Só ecoa a possibilidade vertiginosa.
A queda apenas revela a superfície
Como uma realidade perspectiva.
Não há mais como crer na estultice
De se ser um espelho em retrospectiva.
Não há mais como seguir o mundo
De Sujeitos e substantivos
De egos que substituem deuses por cérebros sem mundo.
Não se explica nem mesmo
A aderência da ausência
Em ignóbeis homens que se julgam ser sem precedência.
A sombra dos dias
Se os dias fossem sós, como assim muitos os representam em suas concepções
A quietude estóica seria um fim alcançado por simples sabedoria.
E a mudança não seria ilusão transcendental, mas erupções
Na inércia a que se prostram os infelizes glutões da aporia.
O movimento da mudança obedece a um princípio peculiar,
Pois ele apenas revela o contexto não manifesto de algo para esse algo mesmo,
De modo que o resíduo entre um dia e outro nos eleva à comoção de morar
Em nossos espaços vazios como sendo esses o único traço de constância de nosso esmo.
Se os dias fossem sós eles já seriam como eu, o que me tranqüilizaria
Na medida em que não haveria angústia temporal e o abismo seria teórico.
Mas os dias são juntos e grandes… o que os permite ser eternos em sua letargia.
E as pessoas pensam que mudam para assim satisfazer seus desejos lascivos
Numa ideação puritana. E ainda pensam que mudança é o mesmo que causalidade.
Ninguém muda e a desonestidade consigo mesmo é o trunfo dos esquivos.
Suicídio
E o sonho de si ensandece a si entorpecendo a si.
Suicídio de si como uma regra do ego.
Depois do si morto há o desfragmentado ser, como um rasgo.
O amor abençoa o si dos que morrem a si.
A si morrer é como um livre nascer;
Mas só se é livre quando se renuncia a morte do si.
Nascer no suicídio existencial é como morrer cindido do permanecer.
E morrer cindido do permanecer é existir cindido do si.
E toda vida será uma ressaca de algo que poderia ter sido.
E toda possibilidade será a não concretização de todo efetivo.
E toda depressão será uma celebração do egocentrismo fervido.
E todo egocentrismo será a depressão da era do pós-humano.
Mas nada se acabará; o resíduo que nos constitui não se extingue.
Apenas se perfaz no nosso dissolver diário de tudo isso que é insano.
Mais uma resignação
Como a água que posso ser, vejo-me pelo reflexo da possibilidade que fui.
E agora essa sua luz a quase apagar, por apegar a mim como um foco
A assombrar. Ilumine uma ausência e você terá a determinação de tudo que rui.
Como ser agora? O que há além da possibilidade que nos projeta como resíduo oco?
E agora me desintegro em sua frente. Venha comigo e se transforme num vegetal!
Eu irei até o poente, confraternizar com a métrica da neblina que nos oprime.
E nos determina como ocultos déspotas de nossa própria sanidade decimal.
E sempre estaremos aqui, como lugares perfeitos para tudo que nos redime.
E sempre seremos o que nos redime, como meros desertos de nossa própria superfície.
E sempre morreremos juntos, pela mesma lei que levou Abraão a ser o maior patriarca.
E sempre decairemos, pela mesma lei que levou Caim a ser o rei dos excomungados da superfície.
E como somos o contexto do que é manifesto, o subsolo resguarda ainda a salvação
Dos que são carentes de alteridade. Mas quem é estrangeiro não se determina como não,
Mas como um quase, sempre à espreita na escolha de cada resignação.