Nada além, ou quase

abril 2, 2012 at 7:48 pm (Da ficção à desilusão, Do amor - do resíduo, Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , , , )

De olhos cerrados, a violência frui do solipsismo da nova era de liberdade.
Morte ao lado, vida a cima, um sonho de salvação já sem Deus.
Mais do que escolhas, na ação subjaz a vinculação fugaz, que nos dá identidade.
E o alheamento já bane o instituído deus.

No final, nada nos sobra… a sombra de uma pretensa pureza se dissipa
A cada novo amargo despertar… e os olhos continuam cerrados, oprimidos pelo ar,
A pobreza e vontade de aprisionamento cristalizaram-se já na autonomia da culpa,
Já não me importo mais… continuarei chamando meus muros de lar.

Não há como sustentar-se na liberdade.
Na nostalgia recrio os paralogismos da insanidade.
E para quem goza de felicidade, digo que também eles sofrem do mal da mortalidade.

Apenas problemas têm soluções, essa condição nossa é para além disso.
Se for possível viver livremente como uma concepção, que se viva.
Se já não mudei, é porque não mudarei. A permanência no tempo é só mais uma forma de esquiva.

André Luiz Ramalho da Silveira

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Canção de Amor

fevereiro 22, 2012 at 9:24 pm (Da ficção à desilusão, Do amor - do resíduo, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , , , )

Fácil por um momento… quando o todo esvai-se e sobra um fluxo contextual.
Mas a necessidade de culpar outrem urge vulcanicamente como vontade
De reparar um mal que nada mais é do que o acontecimento mais habitual,
De que sempre há um fim, e isso justamente outorga a responsabilidade, e não a culpa da realidade.

A estrutura da relação transforma-se em algo anímico, em que pode permanecer
Independente das pessoas, apenas confluindo nas adequações particulares.
E não saber disso e assumir a relação como a simbiose do esquecer
É o que se faz, é como se vive, nutrem-se motivos dos anímicos ares.

E a vida sempre se mostra como uma sinopse, em que os espectadores fingem
A surpresa da interação, abençoados pelo esquecimento de que tudo é vinculação.
E tudo se cristaliza como má-fé, e a relação torna-se um penhasco irresistível de ação.

E sim, deve-se continuar a dança, pelo mesmo motivo de quem organiza o show.
E o abismo instaura-se onde ninguém vê, porque não é algo a ser visto.
Difícil por um momento… quando o que sobra são migalhas estratificadas sem o menor significado e justificação para fazer parte do show.

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Para cada colapso, um mesmo tango II

fevereiro 13, 2012 at 11:15 pm (Da ficção à desilusão, Do amor - do resíduo, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , , , )

Colapsos que nada mudam a matéria estabelecida pelas crenças.
E nada importa, a ninguém… o egoísmo pregresso regressa
Como figuração de um altruísmo externo, mero subterfúgio das sobrevivências.
Erradicar o mal da vontade é já vontade de ser o bem, apenas uma sinceridade inconfessa.

E tudo nos torna mais vazios… e erguemos altares para nós mesmos, e esquecemos de
Visitar nossa própria tumba, uma falta de respeito com nossa própria morte.
E segregamos nossos conceitos, separando os escombros de
Que nos alimentamos, para manter a sanidade longe da sorte.

De que adianta mudar e morrer se isso não for compartilhado,
E de que adianta o contrário disso… colapsos que não desabam
A existência, não são colapsos… apenas a pura má vontade de ser escravizado.

Não depende de podermos ou não voar, pois isso é só questão de vontade.
Intenção e conseqüência, consciência e responsabilidade… vão além de qualquer tomada de posição.
E é preciso estar pronto para morrer, assim como para mudar… pois no fim, talvez tudo não passe de vilanidade.

André Luiz Ramalho da Silveira

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Vertigem do Sol II

julho 2, 2011 at 8:56 pm (As tríades - do tango à in.existência, Da ficção à desilusão, Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , , , , , )

Olhos deprimidos se escondem no efeito do sol,
Sem mesmo se dar conta, a sombra se culpa
Por ter de pertencer como sobra no rol
Da beleza que é a presença iluminada pela lupa.

Cunha-se na perfeição a postergação da jactância
Ansiada pelos homens de ação que se banham
Ao sol, aos brados do cientificismo semelhante à excrescência
Invertendo discursos e renovando assim a flâmula solar que se acanham.

Mesmo assim, a sombra ama o sol
E o sol, em sua altivez, só é sol porque a sombra o sustenta
Somente quem suporta a sombra, consegue suportar o sol.

E aqueles olhos deprimidos sabem que
A verdadeira dificuldade está em simplesmente ser
E ter de suportar a si mesmo como algo que poderia não ser.

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A vertigem do Sol I

junho 25, 2011 at 7:46 pm (As tríades - do tango à in.existência, Da ficção à desilusão, Do amor - do resíduo, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , )

O brilho ressoa na amplitude
Da negação silenciosa.
Em todo o brado de vicissitude,
Só ecoa a possibilidade vertiginosa.

A queda apenas revela a superfície
Como uma realidade perspectiva.
Não há mais como crer na estultice
De se ser um espelho em retrospectiva.

Não há mais como seguir o mundo
De Sujeitos e substantivos
De egos que substituem deuses por cérebros sem mundo.

Não se explica nem mesmo
A aderência da ausência
Em ignóbeis homens que se julgam ser sem precedência.

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Alegoria e aletoriedade

maio 7, 2011 at 9:30 pm (As tríades - do tango à in.existência, Da ficção à desilusão, Do amor - do resíduo, Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , )

Singelo estranhamento que nos prende o coração, cuja habitação converter-se-á
Em danação… O hábito é a única garantia de vinculação pessoal que parece não desabar
Diante do proferimento da justificação de si mesmo… No qual escamotear-se-á
A objetificação do movimento, próprio da possibilidade de ser como um desabar.

Se a falha é inerente ao discursar, a verdade não pode pertencer a essa estrutura.
Não mais é possível a agência num mundo de ‘pessoas’.
Não mais é possível a consternação sincera… nossa benção é uma pura sutura.
A negação da crença é a assunção da tradição, um limiar na relva de pessoas.

Não há nada em mim, preso por um vazio que eu mesmo construí…
Liberdade é que chamo de permanência nesse existir…
A exigência a outrem de um mínimo de sinceridade já me fez de mim partir.

Ser a própria teleologia inversa não garante a estabilidade a um futuro derivado.
Não sei mais viver… tornar-se uma alegoria para as próprias ações
Não é mais uma simples escolha… permaneci distante demais para voltar equilibrado.

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Barítono e bajesto

abril 28, 2011 at 12:27 am (Da ficção à desilusão, Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , , )

Calei-me, envolvido no fluxo temporão de uma paranóia redentora.
Calei-me pela amplitude da possibilidade, que sou e que fui.
Calei-me por saber o que serei, calei-me como quem segrega um segredo que rui.
Gritei apenas para mim, num silêncio que me expira a aurora.

E a burrice forma um círculo inescrupuloso com a má vontade,
Perfazendo o aprisionamento da alteridade na realidade, mascarando com rimas
Os espinhos que hoje são julgados como o mal que veda a liberdade.
E toda consideração a outrem é apenas veste de sujas lágrimas.

A noite já não faz aquela conformação de um velho coração com a percepção
Daquele mundo paranóico… apenas protege quem pode iluminar de feiúra as sombras
De si mesmos. Existo como uma erupção, na febre de uma cisão.

E o difícil é aceitar o fato de se ter um rumo, e fazer parte do próprio julgamento.
Existir como um improviso de si próprio já não me cala mais… mas, apenas não falo.
O que antes era medo, agora é um silencioso despeito pelo vazio de qualquer advento.

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A sombra dos dias

abril 7, 2011 at 12:33 am (Da ficção à desilusão, Do amor - do resíduo, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , , , , )

Se os dias fossem sós, como assim muitos os representam em suas concepções
A quietude estóica seria um fim alcançado por simples sabedoria.
E a mudança não seria ilusão transcendental, mas erupções
Na inércia a que se prostram os infelizes glutões da aporia.

O movimento da mudança obedece a um princípio peculiar,
Pois ele apenas revela o contexto não manifesto de algo para esse algo mesmo,
De modo que o resíduo entre um dia e outro nos eleva à comoção de morar
Em nossos espaços vazios como sendo esses o único traço de constância de nosso esmo.

Se os dias fossem sós eles já seriam como eu, o que me tranqüilizaria
Na medida em que não haveria angústia temporal e o abismo seria teórico.
Mas os dias são juntos e grandes… o que os permite ser eternos em sua letargia.

E as pessoas pensam que mudam para assim satisfazer seus desejos lascivos
Numa ideação puritana. E ainda pensam que mudança é o mesmo que causalidade.
Ninguém muda e a desonestidade consigo mesmo é o trunfo dos esquivos.

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Intoxicado com ar

novembro 15, 2010 at 3:32 pm (Da ficção à desilusão, Do amor - do resíduo, Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , , , )

Intoxicado por minha própria satisfação, de mim;
Já não me sinto como eu, meu pensamento se perde na aporia
De minha existência e de todos meus feitos, todos ausentes de mim;
Perder algo é o que me faz vivo, ou quase isso… seja por ironia ou por ataraxia.

Veja meus lábios, vermelhos de veneno que nesse sangue se pulsa,
Quando a vagava pelo corpo nosso, em busca de mim, em busca de uma fuga,
Uma fuga de mim, uma fuga de uma ausência, projetando-me como repulsa.
Veja meu reflexo, pois é só o que há de mim, uma bela osga.

Onde está a sobra de meus retalhos? Onde está aquele resíduo que cindi
De mim? Só consigo apreender a própria cisão, as partes no tempo obnubilaram-se.
E a harmonia nos encontrará assim como um deserto encontra o mar que o mendi.

E fomos separados por aquele iluminismo bastardo, novamente.
E o amor pede ao conhecer, novamente.
E a morte retorna como a epistemologia dos moralistas, novamente.

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O resíduo de Rembrandt – II

setembro 19, 2010 at 5:07 pm (As tríades - do tango à in.existência, Da ficção à desilusão, Do amor - do resíduo, Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , , )

Naquele ensimesmar-se que despe o poeta da própria poesia,
Configurando-se o resíduo de um si mesmo no sentimento de apostasia,
Não mais disseminado por pronomes e substantivos de qualquer alérgica alegoria,
Resta apenas o mudo sentimento de mundo, que acolhe o estrangeiro em sua afasia.

Quando se é estrangeiro a si mesmo, na cisão de um projeto abissal,
O outro aparece como a salvação nunca alcançável em meio a esse torpe nevoeiro.
Mas a fuga é somente a região espaço temporal em que é realizada a busca para o irreal,
Quando se alcança a fuga em sentido pleno, já se está novamente à mercê de algum coveiro.

A identidade sofre o mesmo processo da fuga de si mesmo, pois nada mais é do que isso.
E o reconhecimento é a elevação de si até a imagem fugaz de alguma idéia de realidade,
Não posso esperar ser reconhecido para além do processo limitado da fuga de identidade.

Desisto de tudo só para poder escolher-me uma vez mais; meu apreço ao outro
Resulta como o mais profundo egoísmo; nessa alteridade do espelho quebrado
Meu reflexo mostra-se como isso e apenas isso; uma inaptidão a qualquer brado.

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