Vertigem do Sol II

julho 2, 2011 at 8:56 pm (As tríades - do tango à in.existência, Da ficção à desilusão, Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , , , , , )

Olhos deprimidos se escondem no efeito do sol,
Sem mesmo se dar conta, a sombra se culpa
Por ter de pertencer como sobra no rol
Da beleza que é a presença iluminada pela lupa.

Cunha-se na perfeição a postergação da jactância
Ansiada pelos homens de ação que se banham
Ao sol, aos brados do cientificismo semelhante à excrescência
Invertendo discursos e renovando assim a flâmula solar que se acanham.

Mesmo assim, a sombra ama o sol
E o sol, em sua altivez, só é sol porque a sombra o sustenta
Somente quem suporta a sombra, consegue suportar o sol.

E aqueles olhos deprimidos sabem que
A verdadeira dificuldade está em simplesmente ser
E ter de suportar a si mesmo como algo que poderia não ser.

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A vertigem do Sol I

junho 25, 2011 at 7:46 pm (As tríades - do tango à in.existência, Da ficção à desilusão, Do amor - do resíduo, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , )

O brilho ressoa na amplitude
Da negação silenciosa.
Em todo o brado de vicissitude,
Só ecoa a possibilidade vertiginosa.

A queda apenas revela a superfície
Como uma realidade perspectiva.
Não há mais como crer na estultice
De se ser um espelho em retrospectiva.

Não há mais como seguir o mundo
De Sujeitos e substantivos
De egos que substituem deuses por cérebros sem mundo.

Não se explica nem mesmo
A aderência da ausência
Em ignóbeis homens que se julgam ser sem precedência.

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Alegoria e aletoriedade

maio 7, 2011 at 9:30 pm (As tríades - do tango à in.existência, Da ficção à desilusão, Do amor - do resíduo, Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , )

Singelo estranhamento que nos prende o coração, cuja habitação converter-se-á
Em danação… O hábito é a única garantia de vinculação pessoal que parece não desabar
Diante do proferimento da justificação de si mesmo… No qual escamotear-se-á
A objetificação do movimento, próprio da possibilidade de ser como um desabar.

Se a falha é inerente ao discursar, a verdade não pode pertencer a essa estrutura.
Não mais é possível a agência num mundo de ‘pessoas’.
Não mais é possível a consternação sincera… nossa benção é uma pura sutura.
A negação da crença é a assunção da tradição, um limiar na relva de pessoas.

Não há nada em mim, preso por um vazio que eu mesmo construí…
Liberdade é que chamo de permanência nesse existir…
A exigência a outrem de um mínimo de sinceridade já me fez de mim partir.

Ser a própria teleologia inversa não garante a estabilidade a um futuro derivado.
Não sei mais viver… tornar-se uma alegoria para as próprias ações
Não é mais uma simples escolha… permaneci distante demais para voltar equilibrado.

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Ressentimento III – Nada de ressentimento.

outubro 5, 2010 at 8:37 pm (As tríades - do tango à in.existência, Do amor - do resíduo, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , , , , , )

Depuração e satisfação, pintadas na máscara cotidiana,
Configurando a sublimação existencial de quase morte,
Existencialmente mediana.
Face cortada, pinturas de guerra, ninguém escapa à sorte.

Cão fodido, dissociação fundida, preconceito ungido.
Verdade inexpressável, sujeira abominável, existência insuportável;
À alteridade; solidão é a benção dos que vivem a espreita do próprio latido.
Lados servem apenas para serem quebrados, destruídos por qualquer gesto amável.

Elevar-se sobre a própria condição destemida, enterrado no próprio corpo,
Claustrofobia emergente em uma existência que aparece só como retração em cadência,
À alteridade; confiança necessita de boa-fé, exasperada aparência.

Angustiado pela própria hipocrisia, procurando a benção no próprio despeito;
Eles dizem para continuar, eles dizem sobre a importância de se ter importância.
Vomito em cada substantivo adjetivado nessa minha condição de advérbio sem leito.

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Ressentimento II – O trunfo da miséria

outubro 2, 2010 at 12:29 am (As tríades - do tango à in.existência, Do amor - do resíduo, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , , , , )

Não irei precisar… não irei cuidar e nem querer…
Simplesmente quero ir pra casa e cuidar de mim.
Não me deixe perecer tão belamente sob seu intumescer.
Serei essa calhorda dissociação tão costumeiramente adequada ao meu fim.

Eu preciso dessa vergonha, de saber que você sente que sou miserável;
Eu preciso da minha miséria, porque já desisto do amor próprio,
Quando se funda esse em algo de mim além. Quase morrer é como estar estável,
No caos desse maniqueísmo que gera a ordem desse opróbrio.

Preciso de seu amor, preciso de minha infelicidade, preciso que todos morram.
Preciso do meu desprezo a tudo, pra mostrar que tudo é mentira
E que eu sou a maior desonra para mim e para os que ainda findam.

Não espero ir a lugar algum, não espero que você acredite na relevância da minha dor,
Tão virtual quanto sazonal; espero esperar algo, mas me rebaixo a mim antes disso.
No fim de tudo voltamos a mais um começo, onde nada mudou e tudo não passou de um hipócrita ardor.

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Ressentimento I – Sorriso Cismado

setembro 28, 2010 at 9:10 pm (As tríades - do tango à in.existência, Do amor - do resíduo, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , , )

E o amargo instancia-se no papel amassado,
Imbricado nas memórias que rompem sem licitação.
Não se pode esperar consolo para algo já esquecido,
A não ser que o esquecimento seja ausência de rememoração.

Amor e razão são intimidades frias de algo que não conseguimos tocar,
Mas, a esta, dizemos usar para, aquele, expressar.
E assim aquela ruptura existencial permanece encoberta pelo próprio ar,
Num suicídio que, só quem é tomado por ele, pode confessar.

E o amargo vira questão de orgulho a quem brinda
A si mesmo pela crença de si mesmo, como um pretexto para ferir algum outro;
E assim ilumina-se de sentido aquele ato falho que em si mesmo finda.

E quieta segue a noite, naquela pueril falta de foco que se resume a
Certeza da própria solidão, confundindo-se com aquela risada doída
Dos que se desarmam para conseguir olhar a própria alma cismada.

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O resíduo de Rembrandt – II

setembro 19, 2010 at 5:07 pm (As tríades - do tango à in.existência, Da ficção à desilusão, Do amor - do resíduo, Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , , )

Naquele ensimesmar-se que despe o poeta da própria poesia,
Configurando-se o resíduo de um si mesmo no sentimento de apostasia,
Não mais disseminado por pronomes e substantivos de qualquer alérgica alegoria,
Resta apenas o mudo sentimento de mundo, que acolhe o estrangeiro em sua afasia.

Quando se é estrangeiro a si mesmo, na cisão de um projeto abissal,
O outro aparece como a salvação nunca alcançável em meio a esse torpe nevoeiro.
Mas a fuga é somente a região espaço temporal em que é realizada a busca para o irreal,
Quando se alcança a fuga em sentido pleno, já se está novamente à mercê de algum coveiro.

A identidade sofre o mesmo processo da fuga de si mesmo, pois nada mais é do que isso.
E o reconhecimento é a elevação de si até a imagem fugaz de alguma idéia de realidade,
Não posso esperar ser reconhecido para além do processo limitado da fuga de identidade.

Desisto de tudo só para poder escolher-me uma vez mais; meu apreço ao outro
Resulta como o mais profundo egoísmo; nessa alteridade do espelho quebrado
Meu reflexo mostra-se como isso e apenas isso; uma inaptidão a qualquer brado.

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Além da distância

junho 23, 2010 at 12:52 am (As tríades - do tango à in.existência, Do amor - do resíduo, Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , , , , , , , )

Ou considerações poético-teóricas sobre o ser

I – A metafísica
Para além da distância da qual ressoam os ecos de predicados distintos,
Cuja distinção e diferença tornam-se passíveis de constatação,
Tão aquém de si mesmo quanto além do próprio distanciar,
Uma individualidade cuja plena ausência torna possível
A cindibilidade do próprio eu em seu terreno cognoscível,
Cuja alteridade só é possível a partir de um si, cujo fixar
É a renúncia de um próprio posfácio, cuja própria libertação
É a história escrita através do eu cindido, além da distância dos ventos.

II – O resíduo
O dissintônico da distância apenas ressalta o amor como resíduo,
Cuja dissipabilidade não é possível nem mesmo no adejar do sabor
Incognoscível do gozar, cujo fenômeno prescinde ao prático.
Não na elevação ao teórico, mas sim ao repouso no aquém do existir.
Esse resíduo que prescreve a posição prévia de um prostrar-se assíduo.
Cuja proveniência é a proscrição da sanidade de qualquer labor.
E esse é o projeto vazio de uma existência num irromper sísmico.
Cujo abalo é o próprio banimento entediado de qualquer prosseguir.

III – O coração
Não há espelhos para uma beleza que é capaz de se olhar.
Não há refúgio digno para um vulto cansado de sozinho o próprio fado arrastar.
Não há insanidade que pode abater a memória que não ousa sonhar.
Não há solicitude que dê conta do a priori si dos que se põem a morrer.
Não há começo para quem não crê no findar.
Não há crença para quem consegue viver na dimensão do vazio arfar.
Não há tempo mais originário do que o tempo que a cada vez se ousa cunhar.
Não há falta de amor num coração que sangra por não conseguir se por a esquecer.

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Desabafo à Rembrandt – I

maio 20, 2010 at 7:12 pm (As tríades - do tango à in.existência, Da ficção à desilusão, Do amor - do resíduo, Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , )

Quem sabe eu pare, extático perante esse meu reflexo estúpido.
Ainda com uma relutante estupidez em continuar,
A tentar justificar-me como qualquer algo nobre e ríspido,
Se ainda tremo em qualquer golfar, ao desdobrar-me em meio ao ar.

Calo-me, mas logo desisto… fastio modo de vida em que a recusa é expressão de amor.
Engano-me, mas logo desisto… é apenas uma aversão dessas que logo voltam.
Entedio-me, só me assisto… escondo-me de mim mesmo em qualquer alteridade distorcida, como quem resigna-se em estupor.
Amo-me, talvez um ressentir… embrulho-me em um orgulho como àqueles que de uma guerra voltam.

Se ainda continuo a voar, é por não permitir que alguém me veja cair.
Se ainda continuo a sorrir, talvez seja por não esperar nada além do chorar de outrem.
Se ainda continuo simplesmente a continuar, talvez seja por não trocar para um desistir por desistir.

Uma alteridade que é parte de um si próprio, tão partida quanto esquecida.
Os dias se aquecem com o sabor irrefutável das ocupações, mornas emoções…
E na aquiescência de uma nobre existência, um moderno torna-se um mísero suicida.

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Sonho III: A solitude de Sonhar

janeiro 19, 2010 at 1:31 am (As tríades - do tango à in.existência, Da ficção à desilusão, Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , , , , )

A solitude de sonhar

Como seria apenas uma estada essa solidão?
As crianças da noite de hoje já não bebem o sangue,
Apenas acham que sabem da realidade como podridão.
Essa solidão não é simplesmente essa, ainda que com o profundo senso exangue.

As realidades misturam-se em sonhar, mas sempre o obedecem ao mesmo nível de ser.
Nunca deixam de serem pessoas, decadentes e infames crias do acontecer.
Dedicam-se aos hormônios e cultivam crenças que se esquecem de reler.
Mas jamais percebem a contingência do sonho e o sonhar como necessidade de ser.

Não percebem simplesmente que o desacontecer é o que permite o fazer,
Onde o amar é simplesmente uma palavra posta a nível existencial,
Em uma nuvem que chove quando se permite a sua natureza torrencial.

Orgulham-se da autenticidade solitária, sendo tão dependentes quanto um caranguejo.
De sua casca, ainda que na crença da proteção pela realidade do alheio despejo.
A solitude de sonhar é incompreensível aos que limitam-se ao execrado fazer.

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