A volúpia dos vultos
A volúpia dos vultos.
Criando servos no voluptuoso crepúsculo,
Tangenciando o último brilho celeste, no limiar da insanidade,
Ao suor dos corpos numa ação sem sujeitos, como envoltos num novelo.
Nos hirtos pêlos ávidos pela insalubridade,
Ressoa a leve brisa de um arfar extasiado,
Deixando lúgubre todo o resto não pertinente ao ocaso,
Onde o a priori do conceito puro derrete-se pelo ardor das curvas de um todo rosado,
No a posteriori do vigor escarlate, deixando um nada enrestado, num mútuo escuso.
Integrando-se num deleite quase cósmico,
Nas sombras quase divinas,
O tempo não ousa abandonar sua própria dinâmica nem por algum motivo alquímico.
E o movimento só cai quando cessa-se o noturno celeste, que tanto ilumina esses corpos,
Com a mais pura volúpia, nesses opostos gêneros que não são mais do que vultos,
Que não são feitos para a lei, que não servem para servir, que são apenas o pressentir-se dos vindouros mortos.
Na sentença do muro – a culpa: III – Obsessão em retorno
E é um não… sempre um não a determinar, às vezes por mim determinado.
Não suportar mais, mesmo se sabendo sempre que se suporta, é quase hábito.
Nunca quis nexo algum, este vil nexo ávido por mornas possibilidades, por um comum determinado.
E quiçá quis voar, como agora. Só voar, mas vôo só, só por hábito.
Só, é o que me retém; tendo a mim sou condenado, a mim; confuso por me anular.
Mas me anulo de nexo prático, de tudo o que é pra todos. Num brado irado, decepciono-me por saber que tudo continua o mesmo.
E pra sentir onde estou ainda me jogo no muro. No muro anelar.
Mas alguma sensatez ainda me é pertinente, mesmo num espasmo a esmo.
E se tudo necessário fosse, poderia eu me culpar?…mas, por ser necessário é que me torno contingente.
Indigente sapiente de sua condição, sinto somente essa força que enfraquece.
Solidão é tautologia que não se separa por vírgula, pois tudo volta ao “sujeito”.
Talvez minha única compaixão seja uma ínfima culpa, que me permite um sentimento com referência.
E nessa sentença, que se confere como árduo ditame, por mim é feita.
Feita como ilusão, numa árida existência não plastificada, mortificada em inocência.
André Luiz Ramalho da Silveira
Na sentença do muro – a culpa: II – Na sentença do muro
Bebendo do muro eu só vejo meras possibilidades.
Meras… mas nada há mais que isso… nem mesmo minha escolha pelo infinito como modo de viver.
Como modo de viver… mas modo de viver não é simples escolha, nem intangíveis realidades.
Mas, se intangíveis são…como se escolhe?.. elas nos escolhem…numa angústia por sobreviver.
Nenhuma teoria engloba toda a força de uma crença, que a sobrepuja, limitando o próprio infinito.
Como se isso possível fosse…mas são apenas possibilidades…e, crenças, possibilidades são?
Como se escolhe sem crer?…o hábito nos faz crer…cremos nos hábitos… eles crêem em nós, tornando-nos apenas um muro escrito.
Escrito pelos que nos antecederam, pelo muro que nos embriaga, que nos torna situação.
E uma decisão libertadora nos revela que pensamento é escolha, mesmo que não seja nossa.
Minha temeridade frente ao muro só é fraqueza, fraqueza pelo medo de ser forte.
Forte só é relação com fraco, mais uma crença…mais uma moral…mais uma sorte.
Fortuna é o que me determina…ao meio dia. Força é o que me liberta, de mim.
Mas de mim só sou, quando me escolho contemplando o muro, quando ele me culpa.
Me culpa só por ser, me culpa pela força, me tornando fraco. Me culpa pela meia noite, por de mim ser escravo, por ser culpa de mim.
André Luiz Ramalho da Silveira
Na sentença do muro – a culpa : I – Testemunho a mim mesmo
Testemunho a mim mesmo. Nessa vergonha que sinto pelo mundo, por sua debilidade.
Num recuo a mim, onde proclamo uma existência, situo-me numa pura instabilidade.
Num querer que se culpa, de tanta força e que parece exceder a mim mesmo, acho-me.
Não sei se me perdi, mas onde encontro-me vejo quase o não ter que escapa-me.
O não ter que me faz, já me situa no mundo, de forma particular.
Construídos por uma parede de vidro, onde a angústia é crime, preserva-se o anelar.
No querer escapar, vou direto onde não queria, culpando-me mais uma vez por estar.
Mas quando afirmo, só o que muda é minha disposição, nada mais… Só o ar.
Nessa disposição que nos faz ser, às vezes nega-se e só resta o tempo, também negado.
Negado de forma tal, que o próprio não ter mistura-se o com o que se é.
E meu dispor já não se dispõe tanto assim, num acesso enclausurado.
Nunca sou levado, mesmo quando sou atingido por uma paranóia.
Talvez seja maldição, mas o querer nos torna reféns do próprio instante.
E nesse reflexo deturpado, de um espelho quebrado, sou a própria sombra de uma paranóia.
André Luiz Ramalho da Silveira
A Tentação do não-ser III
A tentação do não-ser III
Talvez me fosse apropriado um deserto, frio, que num tolher de possibilidades, identificar-me-ia com a realidade.
Não por vertigem, mas, certamente, por tornar meu mundo avesso em uma simples realidade.
E me sufoco nesse sentir desmesurado, teorizando um lembrar tangenciando uma impossibilidade.
Não há cura para algo que não é doença, nem jogo quando se pensa em totalidade.
E na minha ansiedade por me ver no tempo, vejo o limite do possível na minha sorte estéril.
E no embaraço de se estar imerso no nada, se absorve o mesmo.
E, nessa absorção, o juízo se torna uma clara reação a um desespero possível.
E a sutileza de um juízo, denotada como virilidade teórica, implica em não se estar a esmo.
E essa vertigem que me tenta a nada julgar…ou a julgar o nada, me absorve à sua atmosfera.
Tenta-me assim ao mais profundo sentimento da vida, seu próprio oposto.
Essa oposição do ser ao não-ser, que em pura suposição de existência pensa-se em ausência do sofrimento pressuposto.
E me caio em agonia por saber que tenho que me suportar, suportar meu querer, me suportar como tirano.
Suportar minha vontade de solidão… nessa hostilidade fria a e sarcástica…
Nesse meu viver como se não vivesse, caminhando por uma lembrança que vez por outra emana-se como ficção.
André Luiz Ramalho da Silveira
…/05/08
A tentação do não-ser II
Do exílio
Fabricados no ócio de um espaço vazio e subordinados ao eterno subordinar-se de um pérfido discurso,
Entregam-se ao mundo e as imanências como forma de liberdade, na orientação de um egoísmo de sociedade.
E assim formam o mundo, esses hábeis criadores; com uma lasciva amoralidade e liberdade.
Ordenam sua perdição numa desenfreada perigrinação a um bom deus social, na febre de um falascioso discurso.
Febre que é tão minha, que me enlouquece por tanta impotência e por tanta animalidade responsiva,
Febre que me sustenta e me perscruta, numa regra autônoma de uma espiral que me absorve,
Que me cristaliza como algo, que me transforma em discurso na mais autêntica orda exploxiva,
E assim me integro numa diferença que não é minha, mas que se faz, por uma acuidade com o cuidado que me envolve.
E nesse envolver me torno exílio; quero o silêncio, quero um poder silenciar…
Um silenciar que nos toma como uma possibilidade de escapar de uma total ansiedade tediosa, desse lamentar;
Lamentar por existir, sem poder desistir, por não querer desistir; nesse fantasioso mundo que fere qualquer beleza.
Beleza que é determinada por um discurso vil, na frenesi do consumo, do consumo da beleza.
Na hiper valoração do desprezível, numa refinada insensatez e antinatureza…num discurso de uma decadência imperial,
Que exila qualquer responsabilidade, tornado póstuma a autenticidade… num ódio a moral.
André Luiz Ramalho da Silveira………….11.04.08
A Tentação do não-ser I
Da memória
Eu me lembro… de paranóico ser um dia, como agora.
De nem mais saber como se colocar, ou mesmo porque desistir, como agora.
E o meu perder-se de mim é tão somente um afundar-se em mim, sempre.
E já não mais consigo me lembrar de como se desisti de desistir… sempre.
Lembro-me de como o lembrar determina nossas crenças, e de como a solidão é contemplada pelo lembrar.
E de como o lembrar se torna o chão do querer…agora nem me sinto.
Nem me mecho, mesmo que em movimento… como que preso no ar.
Como que livre, autônomo, vagando num sofrimento reconfortante, perdido no próprio recinto.
E meu mundo se torna excasso, por ser quase de natureza morta… e nas paredes do egocentrismo,
Vêm-me a angústia, com a enganadora forma da esperança… a de ser Deus.
Para combater, por pura fraqueza, toda essa finitude, que lembro-me de a ter sentido em algum abismo.
E quando, para ver se ainda vejo, olho para algum lugar, vejo o que já sabia.
Lembro-me de ser assim… ainda sinto minha ausência, minha carência de mundo.
Ou de realidade; ainda olho para o que sabia ser com o olhar fatalista de quem só quer o mundo.
o que – o novo e o velho
O novo e o velho
O novo, na nova maneira de velho ser, se inova e renova a partir do sentido velho.
O velho…a velha angústia em uma nova situação; sempre na velha repetição, numa cena nova.
O novo, que quando se sabe já é velho, é cada vez mais contingente…na necessidade, velha;
O velho… sim, nada da memória escapa; a velha náusea em mais uma possibilidade, nova;
O novo sentido, no novo sofrimento, que sempre na nova moda surge, é só o mais novo velho.
O velho…é o que se torna novo, por tanto já sentir o velho, por tanto singularizar-se no velho, por tanto ser o mais velho novo.
28/11/07
o que um dia – o velho
O Velho
O velho amor, já ressecado, deixa de presentificar-se ao que pode ser.
Aquela beleza despida, indo de par cm a natureza, já é um si-mesmo singularizado,
Tão belo e feminino quanto esquecido. O velho, que era amor, agora já é angústia de um si.
Jogado e rebatido contra si; volta-se ao nada,rebate-se contra si, contra a ausência que nunca deixou de ser.
Ausência essa que nunca deixa de ser sigular, deixando de ser ausente a evidência do destino malogrado.
Destino aliviado por breve hedonismo, enganado por breve puritanismo, atirado a um breve em-si.
28/11/07
o que era um dia – o novo
O Novo
O novo… é somente um reflexo do que ainda não se havia percebido.
Até mesmo aquela oculta dor em um secreto eu, de uma culta segmentação que se acaba numa crença morta.
Morta sedimentação… das sempre risíveis possibilidades. Mas a sengrenta marcha da reptição,
Desperta a fé nos que a si mesmos querem, com a razão de quem está vencido.
E a convicção de quem pode estar iludido. O amor encerra-se e se esconde e escapa-me da visão.
Quebrando as possibilidades e delas parte nem fazendo. O novo… é repetição de erudição.
…….26/11/07