O encontro de tartarugas esclerosadas

Outubro 13, 2009 at 5:26 pm (Da ficção à desilusão, Do amor - do resíduo) (, , , , , )

Encontre amores, encontre palavras para quem você quer endereçar amores,
Encontre paixões, não negue a conduta do prometer,
Encontre o esquecer que tanto lhe apraz, encontre os risíveis amores,
Encontre tudo o que puder nisso que apenas torna indiferente esse morrer.

Encontre mais valores morais para seguir, principalmente para ser livre e não ser moral,
E nem mortal, e viver na era de aquário num Éden artificial com incensos de tarja preta.
E assim novamente dizer que ama, porque te sentes envolto numa ausência carnal.
E achas que o ressentimento é apenas um detalhe dos que não mais tem qualquer meta.

E assim te preenchas com aquele sol de vidro em uma sexta-feira à noite,
Ruminando dinheiro por outrem mascado, achando-te autêntico ao não dar o bote,
E ficando feliz por ganhar novamente um novo motivo para seguir um ígneo amor.

Tão ígneo que se apaga com a menor constatação da própria reles insignificância,
Mas tão profundo que já se esquece disso, criando mais um motivo para seguir com ardor.
E assim te tornas livre, sem moral, sem conceitos, apenas seguindo sem memória o que foi dito e ordenado com magnificência.

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O roubo e o arroubo.

Outubro 7, 2009 at 1:46 am (Do amor - do resíduo, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , , )

E vamos roubar uns raios desse sol, vamos roubar um ao outro,
E vamos brincar de odiar deus, vamos odiar um ao outro,
E vamos ser o nosso erro, o erro que perpetua sempre como outro,
E vamos fugir juntos, para no final voltarmos a ser sem qualquer outro.

(E no lar, o ressentimento assume a força real da intransigência.)
Quero estar contigo nessa distância que nos separa,
Prefiro ter a possibilidade de lhe ver, assegurando minha ontologia,
Do que lhe ter como um fato, deliciando-me cada vez mais com a paz amiúde rara.

Se pudesse seria você, já que sou quase eu.
(Não, não sou mais que eu; isso me seria uma fraqueza muito grande.)
Sou apenas quase eu, por vezes ausente de eu, mas ainda quase eu.

E vamos roubar mais um sol, enquanto nesse nosso badalar transcendo à liberdade,
Enquanto no lar de meu fardo deixo-me apenas ser o que quer ser,
Enquanto torno-me o fatalista sempre disposto à piegas piedade.

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Do sangue ecumênico

Outubro 1, 2009 at 2:14 pm (Da ficção à desilusão, Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , )

Àquela solidão de mil anos não era mensurável nem mesmo em um calendário,
Histórico de contravenções hereditárias, onde a decadência sempre fora celebrada num relicário,
Mesmo essa solidão não poderia ser entregue ao mero arcabouço literário…
Mas o que se via ali era a eterna solidão, residindo naquele ser como um pequeno vestuário.

E a necessidade geral, de motivos e crenças, jazia como outra dimensão,
Sentia que o próprio sangue não lhe era tão próprio,
Mas ainda sabia que, antes das palavras, estava o vazio que orientava a compreensão,
Numa diáspora que o tornava estrangeiro a si próprio, num asco ao opróbrio.

E quando ainda procuravam salvação, num abrigo de província científica,
Sentia que o quase no qual impelia-o, agraciava-lhe com uma espécie de armadura estóica,
Mas que nem mesmo a indiferença ecumênica o despia da liberdade,

Como o puro transcender para si mesmo, tornando-se uma alteridade sem qualquer qüididade,
Onde se compreendia apenas pelo esboço que deixava em resíduos de linguagem;
Mas no sorriso que ainda mantinha, havia algo que não lhe fora roubado pela libertinagem.

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