Paixão pelo ego – sobre Petror Calascos

Setembro 27, 2009 at 1:22 am (Da ficção à desilusão, Do amor - do resíduo, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , , , , )

Ele a acariciava como ela lhe fosse apenas uma extensão de seu corpo,
Como se sua fina e limpa pele lhe fosse apenas um espelho de sua alma,
E nesse espelho compreendia-se como uma totalidade existencial, onde seu escopo
Fora e quiçá sempre será a nulidade, cuja possibilidade é condicionada apenas por um si na lama.

Mas nada lhe poderia ser pior do que a abrupta e repentina ausência
De sua amada, na qual a metafísica lhe era só um abrigo…
E na sua fome e sede, junto com aquele medo também metafísico, deixava um resíduo de reticência.
Que fez-lhe a fuga dos céus, para que a ausência fosse real, não apenas tema de artigo.

Agora que a ausência dela lhe era real, não sofria com a totalidade aterradora…
Sempre sufocante, já que ainda podia ter uma inútil esperança um tanto ameaçadora…
Mas ainda sim algo a esperar, e não sofrer com o medo da própria finitude.

Medo da própria finitude… e ainda pensava naquela fina pele e naqueles negros cabelos,
Que tanto o admirava… mas já que amava mais o reflexo do seu ego naqueles cristais ouriçados,
Continuou passando a mão nos próprios cabelos, admirando-se da decadência passiva dos desavisados.

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Ébria contingência

Setembro 21, 2009 at 12:57 pm (Do amor - do resíduo, Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , )

Esvaindo-se por sombras estrangeiras, que são acariciadas por púlpitos melindrosos,
Torno-me ébrio com meu pungente asco, num tango que brinda o peso,
De uma existência tão vazia quanto o espírito efuso,
Da leveza dessa transcendência ao peso da indecência, escuso como cães medrosos.

Terno sono que inteiro some, advinha o que somo numa brincadeira de sonhar.
E à maneira dos histéricos, que senhores do som pensam ser,
Levo a termo meu silêncio, apenas para confirmar mais um desarmar.
Mas se caso apenas for um sonhar, sei que ainda posso novamente me estarrecer.

E então novamente estamos exauridos, de nós mesmos excluídos.
Mas eu preciso que continues a precisar da minha necessidade de lhe ter,
Minha decadência não teria sabor sem seu favo, garota… é o canto dos lírios excetuados.

E ainda penso quem poderia assassinar a alteridade de nossas ausências,
Nas ternas sobras impessoais que governam o fulcro dessas cadências.
Como vultos que tornamo-nos, a apropriação de si é só mais uma ausência de ter.

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No deserto da decadência

Setembro 15, 2009 at 5:35 pm (Do amor - do resíduo, Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , )

Toda fala, ecoada por risível silêncio, encerra-se em cripta rala;
Por fim se esconde aquela remissão ao social, garantia de qualquer valor moral…
E quando se é acalentado pelo desespero, que agora já se cala,
Tem-se como postura o afirmar do próprio ego, na falta da possibilidade de um solo real.

Mas o real solo social é um predicado além da nulidade do deserto individual.
E quando no aclamado hábito do diário fazer-se advém a perturbada lembrança,
Ou a tranqüila angústia, a doce decadência revela-se como condição mortal,
Cujo tédio é apenas o sentir-se sendo nessa indiferença.

E a volúpia que na artéria pulsa, abnega-se perante a profunda ausência.
Ou ressente-se perante a imagem da carência.
Ou fataliza-se pelo próprio transparente ego em decadência.

E queimam-se promessas de plebeus que se querem reis…
Dos cansados e fracos na vileza com que juram amor…
E se fere a solidão, onde no escuso suicídio floresce-se com nova dor.

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O reflexo partido do sonho.

Setembro 7, 2009 at 5:53 pm (Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , , , )

Como senhor do próprio caminho, denominado sonho pelo próprio destino,
Criado pelo próprio senhor do espinho, onde cravou as mãos na rosa do desatino,
E descobrira que tudo o que sabia com o vinho, onde o próprio abismo lhe fora desvelado por seu próprio seu tino,
Apenas tornou indiferente a questão pela verdade em seu coração que não passa de um enferrujado sino.

E na absorção do próprio juízo, degustou o próprio deserto conceitual da desvitalização,
Intuindo o mundo em apenas um instante, ferindo-se com seu próprio espinho,
Como um errante de possibilidades, que num talhar descobre-se como a refração,
A própria, amarga e cinzenta refração de seu reflexo partido… espelho feito espinho.

E pensa como seria se fosse mais real que um sonho,
E ainda que a loucura seja tão aquém de si quanto além do próprio saber,
Compreendia o quão turvo era seu cenho,

Mas como somente a liberdade pode ser tão vazia, sentia que um sonho já não era.
Que aquilo que lhe fora num tolher divino tirado, não fora sua identidade, mas sim o próprio sonho.
Que não podia mais sonhar, não podia ver outro que não a si mesmo no espelho quebrado que lhe fora destinado pelo próprio senhor do sonho.

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Das palavras de salvação.

Setembro 4, 2009 at 1:19 am (Escritos metafísicos - ou quase isso, Na alteridade do espelho-quebrado) (, , , )

Do rastro daquelas palavras erguem-se pedestais, como uma morta nebulosa.
Tão frias e sinceras, provando que nada há de errado nesse opróbrio.
Que nunca houve nada de errado, que a corrupção é aquém a qualquer ilusão difusa.
E com o obedecer de qualquer oráculo, quando a salvação vier há de se estar ébrio.

Não quero salvação, ignomínia moralidade de nervos flácidos.
De culpa sinto apenas a minha, não a de um degenerado olimpo.
Assimilado pela bestialidade daqueles desertos floridos.
Mas ainda meu reles misticismo protege-me das religiões e das ciências, num brado ímpio.

Acreditando no que vem de dentro e absorvendo o que está fora,
Como se houvessem tais dimensões,
Somos obrigados a crer… é o que diz quem ora.

Mas não faz qualquer diferença a pergunta por existir ou não…
Quem está absorvido por si próprio não alcança o suicídio pelo desapego.
Materialista do espírito… assim é aquele que, quando existe, ganha já um ‘não’…

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