E isso não é nada além do que uma fuga,
Sou sua comunhão consigo mesma, numa híbrida sinceridade,
Da mais vulgar à plena sensatez que lhe refuga,
Que tanto me faz bem, mesmo sendo uma perdida brisa de alteridade.
Não lhe sou mais que um motivo para crer,
Que nem tudo é sofrer, que às vezes vale à pena tecer,
Só o que nunca lhe disse é que o fracassar é inerente ao tentar,
E esse, como imanência que transcende o próprio realizar.
Não, não lhe sou nada além do que um motivo…
Algo a que você possa estar segura de que um dia alguém lhe dará um ouvido.
E que jamais cairá no olvido, pois o miserável ego ainda é altivo.
E sua comunhão depende de minha autorização,
Você precisa de mim como ausência, não suportaria qualquer realização,
Você me dedica todo o respeito do mundo… mas cordialidades não pulsam o coração.
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Quão bela é essa contingência, que me dizes estar eu embrulhado como rouxinol em seu cantar.
Belo também é a forma como são criados os problemas, uns à necessidade, outros à contingência.
Mas quando se vive à maneira de gramatical pessoa primeira, é fácil julgar.
E quando a simples existência já fica para trás, em terceira pessoa resume-se uma negligência.
Estagnando qualquer estupidez, qualquer vileza, qualquer resquício de cordialidade.
Mas não há de querer a simples vida aquele que se mostra como um gerúndio abnegado.
E ainda anda onde nunca andou a rosa constipada da magnanimidade.
E sua arte é apenas o fel escorrido da fraqueza dos nervos de um conceito assexuado.
E quando, no esforço para acompanhar a própria cordialidade, vê-se no espelho,
Quebrado por não mais agüentar o próprio reflexo, num mundo deveras literatelho,
Apenas sente como refração uma perdida alteridade, num futuro regado a malho.
Talvez seja muito bom o belo, para que tantas escórias brindem parvoíces.
Mas não há de se esquecer que o reflexo não pode ser ético, como querem marusses em glacês.
Mas não há de se lembrar aquele que é apenas abstrato, desprezando as próprias veneradas tolices.
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No eufemismo dessa existência, gritam superficialidades em sonora cadência.
Como se essa segurança que se diz ter fosse para outrem dar.
Mas esse coração ardendo é só mais uma máscara, áspera inapta a um par.
Mas essa máscara é só a armadura para o apresentar-se com decência.
É só mais um jogo, é só mais um estar sob o jugo, é só mais isso o que sempre é.
Sem novidades e sem novas qualidades, nem mesmo velhas…
É só essa falta de substância, que nos faz rir… e onde tanto se quer que uma mão nos seja estendida.
Só porque no fundo do próprio abismo só se quer aquele sopro de vida, pra voltar ao que é.
Porque na ausência que se é no próprio abismo, só se sai sozinho, quando se sai.
E só a si mesmo se vê a máscara que se é, no apresentar-se do que sempre cai.
Quanto ao resto, só segue como sempre se segue, seduzido pela vertigem que se sobressai.
E nesse eufemismo, a autenticidade está em quebrar promessas, rir da leveza.
Prometer como um esporte… é a ignomínia fraterna condição da realeza.
Mas segurança isso dá a quem esquecer-se precisa da própria pobreza.
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A volúpia dos vultos.
Criando servos no voluptuoso crepúsculo,
Tangenciando o último brilho celeste, no limiar da insanidade,
Ao suor dos corpos numa ação sem sujeitos, como envoltos num novelo.
Nos hirtos pêlos ávidos pela insalubridade,
Ressoa a leve brisa de um arfar extasiado,
Deixando lúgubre todo o resto não pertinente ao ocaso,
Onde o a priori do conceito puro derrete-se pelo ardor das curvas de um todo rosado,
No a posteriori do vigor escarlate, deixando um nada enrestado, num mútuo escuso.
Integrando-se num deleite quase cósmico,
Nas sombras quase divinas,
O tempo não ousa abandonar sua própria dinâmica nem por algum motivo alquímico.
E o movimento só cai quando cessa-se o noturno celeste, que tanto ilumina esses corpos,
Com a mais pura volúpia, nesses opostos gêneros que não são mais do que vultos,
Que não são feitos para a lei, que não servem para servir, que são apenas o pressentir-se dos vindouros mortos.
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Elegia 1938
Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.
Carlos Drummond de Andrade
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E hoje, a tarde se exprime em reflexos estagnados, urdidos como lembranças adormecidas;
Esgueirando-se entre um esquecimento e outro, prontos a lançar-se,
No ar congelado e nivelado, em uma totalidade de asfixias retorcidas,
Revelando que nada há além dessa solidão a esvarar-se.
E nesse tédio, pondo-nos em nós mesmos o que propriamente somos,
Um arfar num vazio, medido apenas pela sensatez de raros,
Angustiamo-nos por crer que miramos em algo além da própria finitude que não criamos.
E a esperança passa a ser apenas o dividir instantes com raros.
E as disposições de humor mudam como reflexos arcados em arcanas sinestesias.
Chorei como se ri, com sarcasmo brindei com a ironia.
Quero tudo o que já esqueci, porque o que lembro já não quero… vazia ironia.
E nesse nivelado novelo de vivências explode a beleza, no amor procurado,
Explode aos que podem ver… mas emprestei meus olhos à dona do belo fado…
Sou apenas merecedor do respeito, um espírito amargo rindo do próprio enfado.
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