Na sentença do muro – a culpa: III – Obsessão em retorno
E é um não… sempre um não a determinar, às vezes por mim determinado.
Não suportar mais, mesmo se sabendo sempre que se suporta, é quase hábito.
Nunca quis nexo algum, este vil nexo ávido por mornas possibilidades, por um comum determinado.
E quiçá quis voar, como agora. Só voar, mas vôo só, só por hábito.
Só, é o que me retém; tendo a mim sou condenado, a mim; confuso por me anular.
Mas me anulo de nexo prático, de tudo o que é pra todos. Num brado irado, decepciono-me por saber que tudo continua o mesmo.
E pra sentir onde estou ainda me jogo no muro. No muro anelar.
Mas alguma sensatez ainda me é pertinente, mesmo num espasmo a esmo.
E se tudo necessário fosse, poderia eu me culpar?…mas, por ser necessário é que me torno contingente.
Indigente sapiente de sua condição, sinto somente essa força que enfraquece.
Solidão é tautologia que não se separa por vírgula, pois tudo volta ao “sujeito”.
Talvez minha única compaixão seja uma ínfima culpa, que me permite um sentimento com referência.
E nessa sentença, que se confere como árduo ditame, por mim é feita.
Feita como ilusão, numa árida existência não plastificada, mortificada em inocência.
André Luiz Ramalho da Silveira
Na sentença do muro – a culpa: II – Na sentença do muro
Bebendo do muro eu só vejo meras possibilidades.
Meras… mas nada há mais que isso… nem mesmo minha escolha pelo infinito como modo de viver.
Como modo de viver… mas modo de viver não é simples escolha, nem intangíveis realidades.
Mas, se intangíveis são…como se escolhe?.. elas nos escolhem…numa angústia por sobreviver.
Nenhuma teoria engloba toda a força de uma crença, que a sobrepuja, limitando o próprio infinito.
Como se isso possível fosse…mas são apenas possibilidades…e, crenças, possibilidades são?
Como se escolhe sem crer?…o hábito nos faz crer…cremos nos hábitos… eles crêem em nós, tornando-nos apenas um muro escrito.
Escrito pelos que nos antecederam, pelo muro que nos embriaga, que nos torna situação.
E uma decisão libertadora nos revela que pensamento é escolha, mesmo que não seja nossa.
Minha temeridade frente ao muro só é fraqueza, fraqueza pelo medo de ser forte.
Forte só é relação com fraco, mais uma crença…mais uma moral…mais uma sorte.
Fortuna é o que me determina…ao meio dia. Força é o que me liberta, de mim.
Mas de mim só sou, quando me escolho contemplando o muro, quando ele me culpa.
Me culpa só por ser, me culpa pela força, me tornando fraco. Me culpa pela meia noite, por de mim ser escravo, por ser culpa de mim.
André Luiz Ramalho da Silveira
Na sentença do muro – a culpa : I – Testemunho a mim mesmo
Testemunho a mim mesmo. Nessa vergonha que sinto pelo mundo, por sua debilidade.
Num recuo a mim, onde proclamo uma existência, situo-me numa pura instabilidade.
Num querer que se culpa, de tanta força e que parece exceder a mim mesmo, acho-me.
Não sei se me perdi, mas onde encontro-me vejo quase o não ter que escapa-me.
O não ter que me faz, já me situa no mundo, de forma particular.
Construídos por uma parede de vidro, onde a angústia é crime, preserva-se o anelar.
No querer escapar, vou direto onde não queria, culpando-me mais uma vez por estar.
Mas quando afirmo, só o que muda é minha disposição, nada mais… Só o ar.
Nessa disposição que nos faz ser, às vezes nega-se e só resta o tempo, também negado.
Negado de forma tal, que o próprio não ter mistura-se o com o que se é.
E meu dispor já não se dispõe tanto assim, num acesso enclausurado.
Nunca sou levado, mesmo quando sou atingido por uma paranóia.
Talvez seja maldição, mas o querer nos torna reféns do próprio instante.
E nesse reflexo deturpado, de um espelho quebrado, sou a própria sombra de uma paranóia.
André Luiz Ramalho da Silveira